CAMINHO DA FÉ: UM SUSTO NA MADRUGADA!

CAMINHO DA FÉ: UM SUSTO NA MADRUGADA!



Caminhar sozinho tem suas vantagens, porém, em caso de acidente, ainda que doméstico e involuntário, como ocorreu comigo, recentemente, fica-se vulnerável e sem ninguém com quem dividir as preocupações decorrentes de tal ato desastroso.

Nesse sentido, dias atrás, eu estive percorrendo o novel Ramal São José e ao término da 4ª jornada pernoitei na simpática cidade de Urupês, mais especificamente, no Hotel Autoposto Bica, que oferece excelente instalações aos seus hóspedes, a preço justo.

No entanto, o quarto que me foi disponibilizado fica situado no 1º andar, defronte ao posto de serviços e embora eu me recolhesse cedo, somente após às 20 h 30 min, quando o expediente se encerrou, pude dispor de algum silêncio em meus aposentos, porém, como esse estabelecimento está localizado à margem de uma agitada rodovia vicinal, o movimento de veículos ali, mormente de caminhões, é intenso e perene.

E, sob o hotel funciona uma Loja de Conveniências, aberta 24 h, então, como se tratava de uma sexta-feira, logo a aglomeração de jovens no local se acentuou e não faltaram gritos, discussões, buzinaços, enfim, eu praticamente não consegui “pregar o olho” nessa longa noite; lá pelas 2 h da madrugada, um tanto desesperado e ainda insone, resolvi me levantar.

Eu dormira com o ventilador de teto ligado visando minorar o calor reinante e, por conta disso, acordei com os olhos ressecados, então, busquei em meus guardados o invólucro que continha um colírio estéril, a fim de amenizar tal desconforto.

Porém, após pingar a primeira gota, senti meu olho esquerdo queimar e imediatamente corri em direção ao banheiro e passei a banhá-lo em água corrente, como forma de aplacar a dor lancinante que sentia na retina.


Na trilha, nesse dia, ainda com o olho esquerdo congestionado...

No desespero do momento, clamei pelo auxílio de Nossa Senhora Aparecida e Santa Luzia, a protetora dos olhos.

Dez minutos mais tarde, ao me ver no espelho, constatei meu olho vermelho, inchado e com baixa visão periférica.

Aturdido e apavorado, verifiquei que, por engano e na semiescuridão do ambiente, eu havia instilado “Ciclopirox Olamina”, solução antifúngica e antimicótica, face à similaridade dos frascos.

Uma pesquisa rápida no site “Google” mostrou que, como resultado de meu ato impensado, eu teria imensas dificuldades para enxergar por algumas horas e o tratamento precoce indicado para tais casos, seria lavar o local por 20 minutos, depois, fazer compressas com água boricada ou soro fisiológico, produtos que eu não carregava em minha mochila.

Assim, após refletir um pouco, decidi cancelar a jornada daquele dia e buscar ajuda imediata.

Isto resolvido, desci até a Loja de Conveniências onde o gerente, muito educadamente, afirmou que na cidade não havia farmácia aberta à noite e que para casos emergenciais, eu deveria buscar auxílio no pronto-socorro, onde o atendimento era ininterrupto.

Apressado, às 3 h da manhã, caminhei um quilômetro por ruas vazias e ventosas, atravessei toda a cidade e, apesar do horário extemporâneo, fui muito bem atendido por um solícito enfermeiro no Hospital São Lourenço que, após preencher uma ficha, me encaminhou ao médico plantonista.

O Dr. Luís me recebeu com um sorriso no rosto e após saber do ocorrido, examinou e fez assepsia no local, depois, como lenitivo, asseverou que não haveria sequelas futuras decorrentes de minha infausta asneira.

E ao saber de minhas pretensões para aquela data, incentivou-me a seguir em frente, assegurando que minha visão voltaria ao normal, em breve.

Amainado e bem-disposto, retornei ao local de pernoite, vesti meu traje peregrino e às 4 h 30 min, dei início à etapa daquele dia.

E, sob as bênçãos divinas, 8 h mais tarde, percorridos quase 39 quilômetros sob um céu nublado e clima frio, transitando por locais ermos, silenciosos e belos, aportei ao São Paulo Hotel, em Novo Horizonte, onde pernoitei nesse dia.


A belíssima igreja matriz de Novo Horizonte/SP.

Após me registrar no estabelecimento, deixei minha mochila aos cuidados da atendente e rumei diretamente para a belíssima igreja matriz da cidade, cujo padroeiro é São José da Santíssima Trindade, onde pude gratular a Mãe Aparecida pelo sucesso de minha jornada recém-finda.

Depois, contrito e agradecido, diante da imagem de Santa Luzia, chorei aliviado pelo milagre de meus olhos perfeitos, novamente.

Bom Caminho a todos!

Junho/2021