CAMINHO DE MADRID: A DIFÍCIL TRANSPOSIÇÃO DO “PUERTO DE LA FUENFRÍA”, SITUADO A 1.796 M DE ALTITUDE E CONSIDERADO O “TETO” DE TODOS OS CAMINHOS JACOBEUS NA PENÍNSULA IBÉRICA.


CAMINHO DE MADRID: A DIFÍCIL TRANSPOSIÇÃO DO “PUERTO DE LA FUENFRÍA”, SITUADO A 1.796 M DE ALTITUDE E CONSIDERADO O “TETO” DE TODOS OS CAMINHOS JACOBEUS NA PENÍNSULA IBÉRICA.




O Caminho de Madri tem seu início na capital Madrilenha, mais especificamente, na Igreja de Santiago, e se estende por um percurso bastante interessante de, aproximadamente, 333 quilômetros até alcançar a cidade de Sahagún.

Tal roteiro não só é relevante pelos seus povoados, monumentalidade, gastronomia e cultura, mas, também, por cruzar a elevada “Sierra de Navacerrada”, com todo o atrativo orográfico e paisagístico que ela representa,

De fato, após descender desse maciço montanhoso, as onduladas planuras de uma extensa meseta animam e confortam o caminhante, até sua reunião com os peregrinos do Caminho Francês.

Historicamente falando, a cidade de Madri foi fundada em 854, pouco depois do descobrimento do sepulcro do Santo Apóstolo, em Compostela, quando estava sob o comando dos muçulmanos, porém, ela retornou às mãos dos cristãos em 1085 e no final do século XII, uma das dez paróquias existentes na cidade estava dedicada a Santiago, o Maior.

Em 2018, quando iniciei esse itinerário, sabia que na quarta etapa eu teria que escalar a famosa serra de Guadarrama e transpô-la através de um “passo” de montanha criado pelos antigos romanos para comunicar as duas vertentes da cordilheira, para a qual construíram uma “calzada”, consagradamente, uma passagem erma, árdua e preocupante para quem caminha só.

Assim, após pernoites intermediários nas cidades de Tres Cantos e Manzanares El Real, eu cheguei em Cercedilla, uma pequena vila onde residem 6.800 pessoas, fundada no século I como um lugar de passagem e hospedagem, na antiga estrada romana nominada de Via Antonina, e há registros de que o que o rei Carlos V passou por suas florestas para praticar caça, nos anos 1525, 1534, 1542 e 1549.

Em Cercedilla se respira um ambiente de montanha, tanto que ela é a cidade natal de Francisco Fernandez Ochoa (1950-2006), um piloto de esqui alpino, famoso por ser o primeiro e único espanhol a ganhar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Inverno e tal inusitado acontecimento ocorreu em 1972, no Japão.

Situada no sopé da serra dos Sete Picos, sua população triplica no verão, já que ela é a segunda residência de muitos madrilenhos, que ali possuem casa de campo.

Na tarde anterior eu observara atentamente a serra de Guadarrama, com seus alvos picos, que transporia naquela data, e as pessoas que consultei me tranquilizaram dizendo que dificilmente eu encontraria neve na travessia do mítico “Puerto de la Fuenfría”, pois estávamos em 22 de abril, um domingo, e a primavera já ia bastante avançada.

Assim, levantei muito cedo, pois sabia das imensas dificuldades a serem superadas nessa etapa, depois, confiante e muito bem agasalhado, deixei o local de pernoite às 6 h, seguindo por uma rodovia vicinal de escasso tráfego.

Fazia muito frio, temperatura na casa dos 4 °C, e o dia demoraria para raiar, o que me forçou a seguir com a lanterna acesa, assim, vencidos 5 quilômetros em bom ritmo, eu cheguei a uma grande barreira que impede a passagem de veículos automotores; a partir desse local, só seguem pedestres e ciclistas.

Quinhentos metros acima teve início a famosa “calzada romana” que, dizem, foi construída no século I, nos tempos do Imperador Vespasiano, para unir Titulcia, povoado situado ao sul de Madri, próximo de Aranjuez, com Segóvia e Valladolid, porém, infelizmente, as pedras que formam seu pavimento estão desprendidas em praticamente todo o trajeto, e dificultaram, sobremaneira, meu deslocamento.


"Calzada Romana", rumo ao topo...

Mais oitocentos metros caminhados e o roteiro se empinou, consideravelmente, seguindo agora ao lado do arroio La Fuenfría e duzentos metros depois, pela ponte medieval de Enmedio, eu ultrapassei esse curso d'água e logo passei a encontrar grandes blocos de neve, deixando a senda por onde eu caminhava tremendamente escorregadia.

Prosseguindo determinado, eu superei repetidos e íngremes “repechos”, até que, bem mais acima, eu fiz uma curva fechada para a esquerda e enfrentei na reta final uma escarpada vertente, que me levou diretamente ao Puerto de la Fuenfría, situado a 1.796 m de altura, depois de haver percorrido 9 quilômetros.

O ascético local se encontra flanqueado pelas montanhas “Montón de Trigo” (2.156 m) e a “Sierra de los Siete Picos” (2.138 m), e o vento gelado que me recebeu cortava como um bisturi.


No cume do morro, apavorado ante tanta neve...

Essa passagem foi utilizada durante séculos por legiões romanas, reis, dignitários, salteadores, comerciantes, pastores conduzindo rebanhos de gado, peregrinos e, até 60 anos atrás, pelos milhares de trabalhadores galegos, que vinham, anualmente, trabalhar na colheita do trigo em Castilla.

Eu me encontrava no ponto mais alto de todos os caminhos jacobeus existentes na Península Ibérica, numa altitude bem superior, por exemplo, ao Puerto de Somport, Ibañeta, a Cruz de Ferro e o Cebreiro.

Uma placa ali fixada recordava José Antônio Cimadevila, o grande responsável pela recuperação do Caminho de Madri, no final do século XX.


Uma placa estimuladora... faltam só 599 km...

Porém, para minha grande surpresa, para não dizer, desespero, encontrei o caminho, a partir daquele ponto, escondido debaixo de uma grossa camada de neve, que apresentava, em alguns locais, o início do degelo.

A temperatura ali era congelante e já sentia meus dedos anestesiados, assim, urgia prosseguir em frente porque, até onde eu sabia, somente eu estava no caminho naquele dia, qual seja, se algo me ocorresse, eu ficaria em maus lençóis, porque meu telefone celular emudecera.

Dessa forma, fiz algumas fotos apressadas, depois segui adiante, tomando o máximo cuidado ao colocar os pés sobre as sólidas placas de gelo, pois o excesso de confiança é o maior catalisador de erros e o principal propulsor de acidentes em esportes de aventura, assim, eu precisava aceitar a dificuldade inerente a cada passo e manter alto o nível de atenção.

Todo risco tinha que ser valorizado, por menor que fosse, e o ambiente das trilhas ensina e repete sempre a mesma lição: não existe fronteira definida entre autoconfiança e arrogância.

Por sorte, esse caminho é frequentado, assiduamente, por praticantes de trekking nos finais de semana e pude ver pelas marcas deixadas, que um grande grupo transitara por ali no dia anterior, um domingo.

Então, como as botas que eu calçava não eram apropriadas para palmilhar essa lisa e dura superfície, procurei fazer meus passos coincidirem com as pegadas deixadas pelos meus antecessores e me movi com extrema precaução, pois um tombo ou torção seria fatal, visto que ninguém sabia de minha presença na montanha.


Caminhando pelo topo do morro sobre gelo duro e liso.

Foi um descenso épico, pleno de escorregões e sustos, mas, sob as bênçãos divina, consegui superar os obstáculos que iam se sucedendo e, 3 quilômetros abaixo, fiz uma pausa para descanso e hidratação junto à “Fuente de la Reina”, também conhecida como “Fuente Matagallegos, famosa pelo frescor de suas águas, onde o silêncio só não era absoluto porque o vento assobiava nos meus ouvidos.

Depois, prossegui em frente, sempre em forte descenso, em meio a intermináveis bosques de pinheiros, em sequência, já quase no plano, finalmente, emergi da mata e, muito ao longe, já podia avistar Segóvia, minha meta; a parte final do trajeto mesclou trilhas irregulares com grandes retões, que me levaram depois de muito caminhar, a adentrar em zona urbana.

Infelizmente, o clima árido que encontrei na planície me deixou com a boca ressequida e o corpo desconfortável sob a quente roupa vestida no início da manhã, então, caminhando com certa dificuldade, sentindo cada vez mais o peso da bagagem, custei chegar à civilização.

Segui as flechas amarelas pelo interior da urbe e, algum tempo depois, cheguei ao hostal por mim reservado, situado, afortunadamente, próximo do fantástico Aqueduto de Segóvia, considerado a obra de engenharia civil romana mais importante da Espanha e um dos monumentos mais significativos e melhor conservados que os romanos deixaram na península ibérica, sendo declarado Patrimônio da Humanidade, pela Unesco, em 1985.

Sua impecável estrutura possui 818 m de extensão e é composta de 167 arcos, suportados por pilares, sendo que o maior deles mede 28 m de altura, e foi construído em princípios do século II para conduzir água do manancial de la Fuenfria, situando numa serra distante 17 quilômetros da cidade.


Em Segóvia, festejando junto ao Aqueduto romano.

Edificada, estrategicamente, na confluência dos rios Eresma e Clamores, atualmente com 58 mil habitantes, Segóvia foi fundada, oficialmente, em 1088 e dentre seus monumentos mais importantes se sobressai o Alcázar, construído no século XII, como fortificação, porém, posteriormente, serviu como palácio real, uma prisão estatal, um centro de artilharia e, finalmente, como uma academia militar, sendo que, atualmente ele é um museu e possui uma exibição de arquivos militares.

À tarde, eufórico pela bem-sucedida etapa do dia, visitei a Catedral da cidade e, mais à noite, já no quarto, após sorver uma generosa e merecida taça de um tinto vinho espanhol, rememorei minha intrincada aventura de 34 quilômetros, anotando meu diário de viagem, onde me expressei:

O trajeto foi belo, mas duríssimo, pois nele precisei atravessar a serra de Guadarrama, pelo “Puerto de La Fuenfría”, onde existe uma calçada romana. Com seus 1.796 m de altitude, ele não é somente o ponto mais alto do Caminho de Madri, mas também de todos os Caminhos de Santiago no interior da Península. Depois, uma extensa declividade me conduziu, finalmente, até a bela cidade de Segóvia, um desfrute para os sentidos. No global, uma etapa inesquecível pela beleza e dificuldades que encontrei para suplantá-la, um verdadeiro desafio físico e mental, não só pela altimetria, mas, também, pela longa extensão do percurso a ser vencido. Nela, eu superei um desnível positivo de 610 m para, em seguida, descender 800 m até Segóvia. Diria, com certeza, que foi uma das mais árduas e arriscadas jornadas que já enfrentei em todos os caminhos que percorri.

E como a vida do peregrino é um desafio diário, no dia seguinte eu caminhei mais 35 quilômetros até Santa Maria Real de Nieva, depois, segui meu cronograma de viagem, então, após 11 etapas vencidas e percorridos 340 quilômetros, num dia extremamente chuvoso eu aportei à cidade de Sahagún, onde desaguei no Caminho Francês, e por ele prossegui até Santiago.

Bom Caminho a todos!