CAMINHO DO EBRO PARA SANTIAGO: “A FALTA QUE UM BOM VINHO FAZ!”


CAMINHO DO EBRO PARA SANTIAGO: “A FALTA QUE UM BOM VINHO FAZ!”




“La Ruta del Ebro” ou “Caminho Jacobeu do Ebro”, é o Caminho de Santiago que tem como início o delta do rio Ebro e segue até a cidade Logroño, onde se conecta ao Caminho Francês, proveniente de Roncesvalles, num total de 480 quilômetros.

Sua origem histórica remonta ao século XII, depois que houve as reconquistas cristãs das principais cidade do vale do Ebro, quando devotos franceses, italianos e de muitas outras procedências chegavam de barco a Sant Carles de la Ràpita para empreender a peregrinação ao sepulcro do Santo Apóstolo.

O mesmo Santiago, segundo a tradição, que em seu trabalho apostólico, percorreu esse caminho desde Tarragona e, relativamente a esse tema, existem inúmeras lendas, e a mais conhecida fala da aparição da Virgem Maria sobre um pilar em Saragoza.

Seu ponto de partida oficial é a localidade de Deltebre, sendo que a coluna mestra desse caminho é naturalmente o vale do rio Ebro, o curso d'água mais caudaloso da Península Ibérica, o segundo em comprimento (910 quilômetros) depois do rio Tejo, e seu leito se estende por um sexto do território espanhol, além de Andorra e uma pequena parte do sudeste da França.

Em 2016 eu fui conhecer esse roteiro sozinho e na 12ª etapa aconteceu um fato interessante, no dia em que percorri o trajeto situado entre as cidades de Gallur e Tudela, onde caminhei 39 quilômetros.

Ao acordar naquela data, lembrei que seria uma jornada longa, acidentada e, para variar, eu tinha um problema adicional, pois não conseguira reservar o pernoite no único hostal existente em Tudela, que é uma cidade grande, a maior existente nesse caminho, depois de Zaragoza.


A igreja matriz de Gallur, cidade de onde eu parti nesse dia.

Dessa forma, na ocasião, como a primeira parte do trajeto seria bem tranquila, deixei o local de pernoite às 5 h 45 min, ascendendo em direção à igreja de São Pedro, local onde estivera no dia anterior, com isso não tive problemas para encontrar a saída da cidade.

Aproximadamente, 9 quilômetros percorridos em bom ritmo, logo cheguei no casco antigo da cidade de Mallén, depois, na sequência, mais abaixo, eu acessei um calçadão lateral, protegido por um alambrado, localizado junto à rodovia, e logo adentrei à Província da Navarra.

Um quilômetro depois, transitei por Cortes de Navarra, uma antiquíssima vila, de origem romana, reconquistada dos muçulmanos em 1119, pelo rei Alfonso I “El Batallador”, depois, seguinte em frente, eu transitei por uma grande praça arborizada e, então, acessei uma larga e plana estrada de terra, orlada por imensos barracões, onde a criação de porcos era a tônica.

Porém, outro grande entrave surgiu nesse trecho: um vento fortíssimo me fustigava de frente, zunindo alto nos meus ouvidos, quase impedindo meu deslocamento, um vendaval de arrancar até etiqueta que fica fora da roupa, como aconteceu com meu boné, que precisei retornar correndo para resgatá-lo.


Nesse trecho eu fui assolado por um vento fortíssimo que vinha de frente..

Inclinado para a frente, tentando ganhar aerodinâmica, eu dilatava as veias do pescoço para alcançar míseros 2 km/hora, ou menos, pois era como se duas mãos postas no meu peito dificultassem o avanço e como eu caminhava por uma imensa planície, nada havia à minha frente que pudesse amenizar esse flagelo.

Além disso, eu estava me desgastando fisicamente, sem conseguir antever uma solução para o problema, contudo, por sorte, o caminho foi derivando lentamente à esquerda e logo eu passei a caminhar à beira da ferrovia.

Como o leito da via-férrea estava edificado num plano superior, meu problema não cessou, mas, ao menos, decaiu pela metade.

Não fosse esse furacão avassalador, eu estaria muito bem, pois o caminho era largo e eu tinha extensos trigais e grandes plantações de hortaliças a me ladear pelo lado direito.

Intimorato, finalmente adentrei em zona urbana e seguindo as flechas, logo estava no centro de Ribaforada, uma cidade, praticamente similar, em termos populacionais, às povoações que eu ultrapassara nesse dia, ela fora fundada em 1157 por cavaleiros templários.

Seguindo as flechas amarelas, eu atravessei toda a localidade até encontrar uma ponte, por onde passei sobre o Canal Imperial, então, girei à esquerda, e segui adiante, por uma esplêndida estrada de terra, tendo o famoso canal de irrigação à minha esquerda, numa distância máxima de 100 metros.


Do meu lado esquerdo, uma imensa plantação de alcachofras.

Foram aproximadamente 5 quilômetros vencidos em bom ritmo, e nesse tramo não vi e nem encontrei ninguém até que, finalmente, ultrapassei um pequeno bosque de pinheiros e, na sequência, adentrei em El Bocal, onde se localiza o início do Canal Imperial, desde a represa que foi projetada pelo Imperador Carlos V e construída em 1.528, em cuja obra participaram centenas de trabalhadores.

Eu segui por uma avenida florida e arborizada até alcançar um mirador situado ao lado da represa, de onde tinha uma vista estupenda do embalse, e ali um senhor idoso, apontando para o negro horizonte à nossa frente, me alertou para um temporal em formação que, segundo ele, cairia em breve.

Prosseguindo adiante apressado, ultrapassei um canal por uma ponte e prossegui indefinidamente ao lado da ferrovia, novamente e, enquanto isso, o tempo estava se fechando, nuvens escuras correndo céleres pelo céu, parecia que um dilúvio iminente desabaria sobre a minha cabeça.

Resolvi estugar meus passos para fugir dessa terrível provação e, quatro quilômetros vencidos numa forçadíssima marcha, adentrei em zona urbana, então, mais tranquilo, prossegui pela Avenida Zaragoza, que me levou até a entrada do “casco viejo” da localidade.


Nuvens negras se formando à minha frente... haveria chuvas?

Tudela me impressionou favoravelmente por suas construções, limpeza e solidariedade de seus habitantes, tanto que tomei informações com um senhor de idade e ele fez questão de me levar até o Hostal Remígio, onde fiquei hospedado nesse dia.

Depois do banho e massagens nos pés, bastante doloridos, pós a longa jornada, saí para almoçar.

Fui à luta pela avenida central e algumas ruas laterais, mas, debalde tenha adentrado em mais de 6 restaurantes, encontrei todos lotados e não estava a fim de aguardar nas filas existentes, pois sentia muita fome.

Localizei numa avenida um pequeno restaurante limpo, atraente e, por incrível que pudesse parecer, integralmente vazio.

Seu proprietário me recebeu com sorrisos e salamaleques, depois me explicou que não trabalhava no sistema “menú del dia”, e sim, com pratos já elaborados, dos quais me sugeriu um que continha ervas, verduras e carnes de ave.

Para mim estava ótimo e já antegozava da saborosa refeição.

E para beber, indagou-me ele?

Sequioso, pedi uma garrafa de um bom vinho tinto.

Ele, então, se desculpou dizendo ser de nacionalidade paquistanesa, adepto do islamismo, cuja religião proibia o comércio de bebidas alcoólicas.

Aquilo soou como um “balde de água gelada” em meu entusiasmo, uma notícia chocante que transformou minha euforia num gigantesco desapontamento.

De fato, em época pretéritas, era costume despejar baldes de água fria nos doentes mentais ou nas pessoas perturbadas, porquanto, se a terapia não possuísse qualquer efeito curativo, tinha o condão de, pelo menos, acalmar os infelizes por algum tempo, quanto mais não fosse, pelo susto.

Por outro lado, raciocinava consternado, eu estava na província da Navarra onde são fabricados e consumidos um dos melhores vinhos espanhóis da atualidade, face ao rigoroso processo utilizado em sua elaboração.

Ademais, o povo espanhol está entre os primeiros no ranking do consumo de vinho per capita mundial.

E, em meio aos estupendos parreirais que me ladearam o tempo todo em boa parte do caminho, eu era premiado naquela localidade com a notícia de que ingerir vinho era pecado.

Estava explicado porque o local se encontrava deserto.

Bem, eu estava desconsertado mas não vencido, de forma que agradeci o bom homem pelo atendimento e voltei à luta, não sem antes perceber um ar de decepção em sua face engelhada.

Refiz todo o périplo pelos mesmos restaurantes em que havia percorrido anteriormente e, para minha surpresa, além das filas prosseguirem extensas, em alguns elas até haviam aumentado de tamanho.

Eu me sentia exasperado, entranhas em ebulição, pernas fraquejantes pela falta de alimento e, sem alternativa, me dei por derrotado.

E meu orgulho baixou a cabeça e desceu do pedestal para se deitar aos pés da humildade, que nunca tira os pés do chão.

Então, com o “rabo entre as pernas”, retornei ao mesmo restaurante paquistanês para almoçar.

Para acompanhar a refeição, eu que estava doido por sorver uma garrafa de fino vinho, tive que me conformar com uma insossa Coca-Cola.


Na Plaza Mayor da cidade de Tudela.

Não feliz, mas com as energias devidamente recompostas, voltei ao hostal para descansar e, mais tarde, após uma reconfortante soneca, fui conhecer o centro antigo da cidade e, na volta, passei pelo Mercado de Abastos, onde adquiri víveres e água para a jornada seguinte e numa das bancas ali existentes, feliz da vida, negociei a compra de uma garrafa de um estupendo vinho regional.

Para jantar, optei por um singelo lanche num bar das proximidades, regado a dois copos de vinho tinto, depois, já no quarto, enquanto degustava o “néctar dos deuses” que havia adquirido no mercado, reflexionava em como as tristezas, tanto quanto as alegrias, são efêmeras.

E que um fracasso, se formos bafejados pela sorte, poderá se transformar em gloriosa vitória.

Pensando nisso, fiz um reverencioso brinde ao Caminho de Santiago, “matei” a garrafa, depois fui dormir, pois estava deveras cansado, fruto da longa jornada do dia.

E, sob o efeito entorpecedor do vinho, fecharam as portas da realidade para me lançar no país dos sonhos, de onde veio me tirar, às 4 horas, uma grasnante cegonha madrugadora, a lembrar-me que eu teria 27 quilômetros para caminhar até Alfaro, final da 13ª etapa.

Acrescendo que a chuva tão prometida no dia anterior, acabou por desaguar em outras plagas, pois na cidade não caiu uma gota d'água sequer.

Bom Caminho a todos!