MINHA EXPERIÊNCIA COM OS CÃES NOS CAMINHOS BRASILEIROS


PARTE II - MINHA EXPERIÊNCIA COM OS CÃES NOS CAMINHOS BRASILEIROS

"Você quer um cachorro de pura raça? Então adote um vira-latas!"




Depois de mais de 16 anos caminhando em roteiros localizados no Brasil, cada vez que avisto um cão, me sobrevém à memória, situações tensas e agradáveis as quais eles me proporcionaram nos trajetos percorridos em terras tupiniquins.

Por sinal, globalizando-os, diria que neles ocorreram preocupações diuturnas: me perdi algumas vezes, tomei chuva, caminhei sob sol intenso, enfrentei longas jornadas, fiz inúmeras amizades, conheci pessoalmente vários amigos virtuais, e também sobrevivi, sem sequelas, a situações inusitadas e, muitas vezes, extremamente estressantes.

Dessa forma, fui atacado por vários animais, algumas vezes, no Caminho da Fé e demais roteiros.

Como, por exemplo, em entreveros com cobras, touros, marimbondos e outros que, um dia narrarei; mas, isto fica para uma postagem futura.

No entanto, obviamente, os incidentes que mais me marcaram envolvem os cães, mormente os “vira-latas” porque eles habitam em todas as cidades e também na zona rural, quase sempre, soltos e em grande quantidade.

Sobre os nossos amigos “peludos e de quatro patas”, relativamente aos Caminhos que percorri no Brasil, passei por bons e maus “bocados”, todos minuciosamente anotados, alguns dos quais relatarei na sequência:


Caminho do Sol – 2002



Minha primeira experiência com os cães, digna de registro, enquanto caminhante no Brasil, foi, exatamente, no Caminho do Sol, roteiro no qual debutei nas terras nacionais, em 2002.

Ela ocorreu no terceiro dia de caminhada, quando fazíamos o percurso de 26 quilômetros compreendido entre a cidade de Cabreúva e a Fazenda Cana Verde (Itu).

Naquela data, nós partimos cedo, por um caminho extremamente íngreme e arborizado, que saía por trás do Camping Colina, e que, depois de 3 quilômetros caminhando dentro de matas e pastagens, nos levou até a via asfaltada que liga Cabreúva a Jundiaí.

Seguimos então pelo acostamento da estrada por 5 quilômetros até a Rodovia Marechal Rondon, fletindo então em direção a Itu por 200 metros, adentrando à direita numa estrada poeirenta. 

No Armazém da Fazenda Limoeiro, com o amigo Ricardo (km 050).

O Caminho a partir daí é trilhado na terra e após uma hora de caminhada fizemos uma parada no Armazém da Fazenda Limoeiro de propriedade do Sr. Clemente Nunes, KM 50 do Caminho, que nos recepcionou festivo, e fez questão, ele próprio, de apor o carimbo em nossas credenciais.

Ao reiniciarmos a caminhada, Ricardo, Maria e eu, um cão de tamanho avantajado e porte majestoso começou a nos acompanhar.

Imaginei que ele em breve desistiria de seguir-nos, ledo engano, pois marchou ao nosso lado até o término daquela etapa, e de todas as seguintes.

E ao final de mais 12 quilômetros de caminhada sob um sol escaldante, nos alojamos na Fazenda Cana Verde que está localizada no Município de Itu, e pertence ao Sr. Laerte Meirelles.

Ainda sobre os cães, o que observei no Caminho do Sol, à época, eu relatei conforme abaixo:

Como no Caminho de Santiago, na Espanha, os cães encontram-se soltos e estão por todo o percurso, alguns amarrados, por correntes, quer seja na área rural ou urbana.

Uns alegres e festivos, outros, nada amistosos.

Um bom conselho é utilizar-se de um cajado, que além de ajudar na caminhada, por certo impõe respeito aos animais que possam oferecer algum perigo ao longo da trilha.

Uma recomendação útil é não incentivá-los a nos seguir, sob pena de grave arrependimento, como ocorreu no meu grupo.

Como já contei acima, no KM 50 do Caminho, um cão enorme, após receber um agrado, começou a nos seguir a partir do Armazém da Fazenda Limoeiro.

Contrariando todos os prognósticos, ele acompanhou o pessoal até Águas de São Pedro, caminhando praticamente 200 quilômetros, sempre com alegria e companheirismo. 


No Caminho, entre o Armazém do Limoeiro e a Fazenda Cana Verde (Itu/SP), com o cão Santiago.

Não por acaso foi batizado (depois se soube que se chamava Fred) com o nome de Santiago.

Por um golpe de sorte, o grupo após a chegada em Águas conseguiu localizar seu proprietário que reside numa fazenda em Itu, e ele foi devolvido ao seu antigo lar.

Contudo, pelo que fiquei sabendo, posteriormente, ele assumiu sua condição de cão peregrino e acompanhou diversos outros grupos, novamente, até Águas de São Pedro, ponto final do Caminho do Sol.

Outra experiência digna de comentário foi quando ultrapassei o Arraial de São Bento no 9º dia de caminhada.

Ali fiz alguns agrados em um vira-lata que inopinadamente começou a me acompanhar.

Debalde foram meus esforços para dissuadi-lo do seu intento e acabei então me conformando.

Coloquei-lhe o nome de Santiago II, e ele me seguiu o resto da etapa, inclusive trotando ao meu lado nos 8 quilômetros que percorri, por engano, depois de Monte Branco.

Ali, em face do meu retorno ao lar, deixei-o com os proprietários do bar que existe naquele local, Sr. José e Dona Vera, e quando do meu retorno para reinício do Caminho, pude afagar-lhe o pelo, agora já engajado e de casa nova.


2005 – Caminho da Fé - I




Na primeira vez que percorri o Caminho da Fé, em 2005, quando fui de Tambaú a Aparecida a pé, também passei por algumas experiências marcantes com cães.

Uma delas ocorreu logo no segundo dia, quando eu percorria o trecho compreendido entre as cidades de Casa Branca e Vargem Grande do Sul, numa extensão de 31 quilômetros

Lembro-me que naquele dia o clima continuava calorento e seco, dessa forma, para fugir do sol que certamente adviria candente, levantei às 4 h 30 min, e parti às 5 h.

Com a manhã ainda escura, desci pela Avenida Coronel Júlio e, próximo à Igreja Matriz da cidade, reencontrei as “indefectíveis” flechas amarelas.

Após uma leve subida, adentrei ao Horto Florestal e ali caminhei por dentro de um imenso e agradável bosque, fazendo uso de minha lanterna de bolso nas bifurcações, quando necessitava confirmar em qual direção seguir.

Com o dia já claro deixei a mata e fui em direção ao trevo rodoviário que dá acesso à cidade.

Segui, a partir dali, por uma estrada larga, em terra batida, até que as flechas remeteram-me, desabridamente, à direita.

Logo à frente, cruzei a rodovia que liga Casa Branca a São José do Rio Pardo e continuei a caminhar em meio a um pasto até alcançar a margem da rodovia que liga Casa Branca à Vargem Grande do Sul.

Prossegui, então, durante um bom tempo na trilha de uma fazenda, à beira de uma cerca, tendo o asfalto do meu lado direito, a uns 40 metros de distância.

Por volta das 7 h, na Fazenda Quatro Mil Réis, as flechas me encaminharam para o acostamento da rodovia, seguindo então, no sentido contrário ao fluxo de veículos por aproximadamente uma hora.

O espaço destinado à caminhada, ainda que se apresentasse barulhento e perigoso pelo intenso tráfego de veículos, era bastante regular, plano, amplo e bem cuidado.

Exatamente cinco quilômetros depois, ultrapassei a Fazenda Santa Silvéria, e pude novamente voltar a respirar a tranquilidade do campo, quando adentrei pelo portão da Fazenda Progresso.


No Caminho, muito próximo da Chácara Santa Amália.

Segui cortando um imenso milharal, e às 9 h transpus a porteira da Chácara Santa Amália.

Numa casa simples, à beira do Caminho, tive meus passos obstados por alguns cães, um dos quais chamava-se Pantera.

Eles me cercaram, latindo raivosamente e tentando me morder, demonstrando claramente que eu estava invadindo o território deles.

Mas animais que age dessa forma com estranhos, não podem ficar soltos e livres para acossar pedestres ou ciclistas desavisados, que estão apenas curtindo a natureza.

No entanto, esse fato não me surpreendeu, pois tive notícias pela Internet que alguns dias atrás eles haviam atacado um grupo de peregrinos que por ali transitava.

Enquanto tentava me desvencilhar da matilha, utilizando meu cajado como escudo, surgiu Dona Antônia, personagem que já se tornou conhecida de todos que por ali passam.

Muito simpática e solícita, ralhou com os cachorros, recolhendo-os ao quintal e, depois, gentilmente, serviu-me água e café. Aproveitamos o momento para trocar algumas palavras, bati algumas fotos e pude seguir refortalecido e em paz.


Anteriormente, o Caminho da Fé passava por esse local.

Nota do Autor: Já faz algum tempo que o traçado do Caminho da Fé mudou nesse trecho, pois agora ele segue, primeiramente, em direção à cidade de Itobi/SP.


2005 – Caminho da Fé - II




Outra experiência nada agradável ocorreu na etapa sequente, no percurso inserto entre as cidades de Vargem Grande do Sul e São Roque da Fartura.

Como de costume, levantei-me às 4 h 30 min, e às 5 h deixei o hotel em direção ao meu objetivo maior.

Sabia pelos relatos lidos, anteriormente, que seria um dia extremamente difícil, além do que o clima persistia quente e a umidade do ar era baixa.

A distância a ser percorrida, ainda, era motivo de controvérsia, pois os guias do Caminho indicavam no roteiro, que o percurso possuía 23 quilômetros, enquanto que os moradores locais asseguravam, peremptoriamente, não ser menos de 28.

Por conta do recente credenciamento do Príncipe Hotel, em detrimento do Luar, houvera modificação na rota, e a sinalização dentro da cidade se encontrava bastante deficiente.

Mesmo centrado, com robustez, em meu objetivo, acabei me perdendo duas vezes, tendo que recomeçar o trajeto em ambas as ocasiões.

Por conta desses obstáculos, caminhei uns 3 quilômetros de “graça” pelas ruas escuras e acidentadas de Vargem.

Finalmente, às 6 h, após algumas informações divergentes, consegui encontrar o rumo certo, seguindo por uma rodovia asfaltada, que me levou, depois de 2 quilômetros, até o trevo de acesso à cidade, no entroncamento da rodovia que liga São José do Rio Pardo/SP a São João da Boa Vista/SP.


Ao fundo e ao longe, ainda se pode avistar a cidade de Vargem Grande do Sul.

Ali, após vencer pequena colina, nasce uma larga estrada de terra batida, que me levou a caminhar em meio a pastos verdejantes, sempre em leve, mas, perene ascensão.

Quatro quilômetros à frente, ainda subindo, passei defronte ao Castelo de Santo Ângelo, um bonito Hotel Fazenda.

Logo depois fui alcançado por um trator, o homem que o dirigia diminui a velocidade da máquina, apresentou-se com “seu” Sílvio, e fomos papeando amistosamente por um bom tempo.

Ao saber do meu objetivo, contou-me que já fora em romaria até Aparecida várias vezes. Declinou-me detalhes das viagens, discorreu sobre as dificuldades vivenciadas e relembrou gratificantes acontecimentos.

Foi uma conversa bastante animada, mas ele deslocava-se para o trabalho, por isso nos despedimos, antes, no entanto, solicitou-me que seu nome fosse lembrado aos pés da Santa. Em seguida, acelerou seu veículo, desaparecendo numa curva da estrada.

Não muito depois, no alto de um morro, pude contemplar a cidade de Vargem, numa depressão, a uns 8 quilômetros de distância. A partir dali, o caminho segue por um vale belíssimo, em meio a imensos cafezais.

Mais à frente, fleti à esquerda, passei ao lado de grande silo, e às 9 h alcancei uma linda igrejinha, que como outras anteriormente encontradas, também se encontrava fechada. 


Adentrando ao bairro Perová, distrito de Vargem Grande do Sul/SP.

Estava eu no Bairro Perová, distrito de Vargem, localizado a 12 quilômetros de sua Sede.

Quinhentos metros à frente, 2 grandes cães peludos saíram de uma casa erigida, estrategicamente, na base da serra, e no semblante mostravam ser ferozes, dentes à mostra, partiram freneticamente em minha direção, deixando-me acuado contra um barranco.

Meu fiel cajado já ia entrar em ação, quando o dono, atento à iminente batalha, acudiu apressado, recolhendo os animais.

Ato contínuo, após pedir mil desculpas, ofertou-me água e café.

Que aceitei, com prazer.


2005 – Caminho da Fé - III



Merece também ser relatado um fato curioso e até divertido que ocorreu após eu vencer o trecho entre Sapucaí-Mirim (MG) a Estação Piracuama (Pindamonhangaba/SP), um percurso de 30 quilômetros, que cumpri na 11ª jornada.

Como a etapa desse dia afigurava-se relativamente curta, levantei às 5 h, e após um singelo café matinal, parti às 6 h, sob um céu enfarruscado e sombrio.

Sempre pelo acostamento de uma movimentada rodovia, em contínuo descenso, caminhei por uma hora e, seis quilômetros à frente, às 7 h, no bairro Ponte Nova, entrei à esquerda numa estradinha vicinal de terra que se apresentava completamente tomada por poças de água, obrigando-me a verdadeiros malabarismos para não molhar os pés. Além disso, alguns trechos se apresentavam perigosamente escorregadios.

O caminho é muito bonito e bucólico nesse trecho, margeando o trajeto todo um riacho murmurante que corre pelo lado esquerdo da trilha. Mais à frente, após ascender forte elevação, no bairro Cassununga, ultrapassei o marco que divide o município de Sapucaí-Mirim de Santo Antônio do Pinhal. E, naquele local, retornei definitivamente ao Estado de São Paulo.


Despedindo-me de MG para adentrar em terras situadas no Estado de São Paulo.

Logo em seguida, depois de uma ponte, adentrei a rodovia que liga São José dos Campos a Campos do Jordão e caminhei 1 quilômetro por asfalto.

Após deixar o Bar da Cachoeira à esquerda, sempre seguindo as flechas indicativas, acessei uma estradinha de chão batido à direita, e caminhei, primeiramente, em meio a olarias e fábricas de bloquetes de cimento, situadas num local densamente povoado.

Depois, por um bosque frondoso, úmido, deserto e silencioso, andei por quase uma hora, tendo passado ao lado de várias casas abandonadas e em ruínas, num ambiente úmido, silencioso, deserto e, também, um tanto sinistro e agourento.

Finalmente, depois de ultrapassar a Pousada Villa da Mantiqueira, retornei definitivamente ao asfalto e, subindo sempre, segui por uns 4 quilômetros, em meio a matas e corredeiras d’água, até aportar em Santo Antônio do Pinhal, exatamente às 10 h da manhã.

Parei para carimbar minha credencial na Pousada Santo Pinhal que se localiza no centro da cidade, e ali fui mimoseado pela Rita, a responsável pelo estabelecimento, que depois de me servir água e café, questionou-me sobre minha peregrinação, qual seja, o que me movia a fazê-la e o combustível necessário para empreendê-la.

Respondi-lhe que, primeiramente, me dava a certeza gostar de caminhar, isto é vital ou essencial. As motivações podem ser de cunho religioso, cultural, esportivo, etc.

No meu caso específico, a fé inabalável de chegar em Aparecida, pelas minhas próprias pernas, um sonho acalentado há muitos anos. Conjugado, naturalmente, com o desejo de fazer novas amizades, açambarcar novos hábitos, e conhecer lugares diferentes.

Ela, aparentemente simpatizou com minha explicação e, por iniciativa própria, disse-me que faria um teste para ver se tomava gosto pela “coisa”. Pediu-me conselhos.

Sugeri-lhe, então, que tentasse fazer o percurso desde Sapucaí-Mirim até sua propriedade, como forma de testar sua condição física e se adequar ao mister desejo. Espero, sinceramente, que minha sugestão, traduzida através de encorajadoras palavras de apoio, possa ter contaminado seu espírito aventureiro.

Em seguida, ainda pelo asfalto, caminhei mais 4 quilômetros até a Estação de trem Eugênio Lefreve onde fiz uma parada rápida para café e apreciar o famoso “bolinho de bacalhau”, vendido a “preço de ouro”. Uma placa indicativa, próxima ao local, informava que Campos do Jordão distava, apenas, 12 quilômetros dali.


Vista do Vale do Paraíba, desde o mirante instalado junto à 
Estação de trem Eugênio Lefreve.

Logo à frente, no alto do morro, num mirante, parei para fotos diante da estátua de N. Sra. Auxiliadora. Desse local, descortina-se uma vista maravilhosa e completa do Vale do Paraíba, podendo-se, em dias claros, distinguir várias cidades próximas, inclusive São José dos Campos e Pindamonhangaba.

As flechas, então, me conduziram a caminhar sobre os dormentes da linha férrea em acentuado descenso. Um quilômetro depois, as indicações me direcionaram à esquerda, para uma trilha estreita e perigosa, em brusco declive, por onde, literalmente, desci a “Serra da Mantiqueira” em definitivo.

O terreno extremamente inclinado exige desmedido cuidado, pois é atravessado em sua extensão, por várias nascentes de água, com trechos de muita lama, além de conter em seu piso inúmeras pedras soltas, que podem se deslocar e ocasionar acidentes indesejáveis.

A ríspida decadência deixou-me um tanto tenso e preocupado, pelo acentuado risco envolvido, embora o trajeto tenha transcorrido sob clima ameno, entre árvores frondosas e o chilrear ininterrupto de pássaros da região. Ali, a mata nativa cobre todo o morro, numa uniformidade verde e densa.

Mais embaixo, após passar defronte uma solitária residência, inicia-se uma estrada pedregosa e larga, todavia, ainda em ininterrupta declivência.

E assim continuei mais cinco quilômetros abaixo, quando encontrei, finalmente, às 13 h, a Estação de trem Piracuama, que se situa a 11 quilômetros de Santo Antônio do Pinhal, e 19 de Pindamonhangaba.


Derradeiro dia de minha peregrinação. Quase chegando!

Hospedei-me próximo dali, na Pousada Champetrê, uma extensa construção térrea, edificada com extremo bom gosto, num espaço privilegiado e aconchegante, longe da civilização e do barulho urbano.

O alojamento se dá em quartos conjugados, amplos e confortáveis, em local de deslumbrante e rara beleza, cercado de muito verde, sob as fraldas da cadeia de montanhas que rodeia Campos do Jordão.

Dali avista-se, dentre outros, o célebre Pico Itapeva e o Morro da Maminha. As refeições são servidas no restaurante da própria Pousada. A hospitalidade da direção e dos demais funcionários é algo para nunca mais ser esquecida.

Após o jantar fiquei um tempo conversando com o proprietário, Sr. Paulo, pessoa experiente e viajada, que me contou histórias pungentes e gratificantes de outros peregrinos que me antecederam naquele local.

Uma delas, bastante interessante, foi protagonizada por um grupo de romeiros do Paraná que ali se hospedou. Junto, trouxeram uma cadela magra e doente encontrada nas proximidades, que lhes confrangera o coração.

Como avaliavam que a mesma não suportaria caminhar até Aparecida, deixaram-na sob seus cuidados, com a promessa de vir resgatá-la, posteriormente, assim que encerrassem a peregrinação. 


Finalmente, na Basílica de Aparecida - (29/04/2005).

No entanto, isso jamais ocorreu. E a Neneca, uma vira-lata robusta, ativa e simpática, vive lá até hoje.


2006 – Caminho da Luz



Um dos encontros mais aterradores que tive com cães, aconteceu em 2006 quando eu percorria a derradeira jornada do Caminho da Luz, um trecho de 34 quilômetros, compreendido entre Espera Feliz e Alto Caparaó


Era um sábado, lembro-me bem, quando levantei às 4 h 30 min, após um sono contínuo e repousante.

Ingeri um gostoso café preparado com grãos colhidos na própria região, e parti às 5 h 30 min, sob um vento frio e cortante.


Igreja matriz da cidade de Espera Feliz (MG).

Ao deixar a zona urbana, acessei uma estrada de terra, larga e arborizada, a mesma que serve de ligação entre as duas cidades acima.

Em razão disso, é intenso o tráfego de veículos, inclusive, com ônibus intermunicipais, de hora em hora, que fazem a integração entre as duas urbes.

O trajeto é belo e o mais fácil de todos, pois, por incrível que possa parecer, assemelha-se a uma grande “mesa de bilhar”, ou seja, o percurso é todo plano, sem que haja uma única ladeira, ou qualquer acidente geográfico importante.

Parece até que estamos caminhando sobre um enorme tabuleiro. 


Transitando pelo bairro Água Empoçada, cuja sede é Caparaó/MG.

O caminho seguiu bastante arborizado e, praticamente, no percurso todo, anda-se entre grandes fazendas e com extensas plantações de café.

Não fosse pela expressiva quantidade de veículos que se movimentavam pela estrada, diria que foi o trajeto mais “light” e agradável que enfrentei em todo o Caminho da Luz.

Assim, às 10 h já estava em Caparaó, mais precisamente no Restaurante do Daniel, onde carimbei minha credencial.

O sol se apresentava quase no ápice e o calor era intenso.

Sabendo que ainda teria mais 14 quilômetros pela frente, tentei negociar com um taxista a remessa de minha mochila até a cidade de Alto Caparaó.

Todavia, a exorbitância do preço solicitado pela “corrida” (R$35,00), à época, me fez desistir da ideia.

Dessa maneira, às 10 h 15 min, com minha inseparável “companheira” nas costas, parti em direção ao meu objetivo final.

O caminho segue, ainda, sobreposto ao leito da estrada municipal que liga Caparaó a Alto Caparaó.

Talvez por ser um sábado, o percurso transcorreu concomitante ao intenso trânsito de veículos que ao passarem, deixavam-me envolto numa sufocante e desanimadora nuvem de poeira.

Depois de adentrar a zona rural e vencer pequena elevação, iniciei grande descida que se encerrou quando transpus o córrego Galileia.

O percurso seguiu nesse trecho praticamente sem nenhuma sombra, tendo como “pano de fundo”, do lado direito, o imenso maciço do Caparaó, com seus inúmeros pináculos.

Minha expectativa era visualizar o Pico da Bandeira, porém, um morador local explicou-me que ele se acha situado por trás da cadeia de montanhas, sendo impossível avistá-lo daquele lugar em que nos encontrávamos.

Em alguns trechos do caminho existem algumas sombras, no entanto, em sua parte final, face ao adiantado da hora, o sol me castigou com intensidade, deixando-me no limite da exaustão.

O calor apresentava-se abrasador e, por conta disso, eu transpirava abundantemente.

Eu caminhava por uma planície, ladeado por pastagens, quando uns 100 m à frente, dois avantajados cães da raça Rottweiler escapuliram pela porteira de uma chácara e saíram passear na estrada, enquanto eu refreava meus passos e, face ao iminente perigo, sem saber o que fazer.

Contudo, os animais logo me avistaram e, imediatamente, rosnando e latindo, partiram a toda velocidade em minha direção.

Eu estava em campo aberto e não avistei árvores, cercas ou construções onde eu pudesse subir ou me abrigar.

Foram momentos de intenso terror que, graças ao bom Deus, se dissiparam quando o proprietário dos animais saiu apressado na estrada e os chamou de volta, gritando vivamente.

Ato contínuo, os recolheu a sua propriedade e trancou o portão.

Posso dizer que nesse dia eu nasci de novo, tamanho o susto que levei.

Por conta disso, fiquei um bom tempo estático no local, aguardando o regresso de meu alento, pois sentia as pernas bambas e o coração batendo descompassadamente.

Recuperado emocionalmente, segui adiante e minhas forças, novamente, se encontravam no extremo, quando, finalmente, às 13 h 30 min, quilômetro 32, adentrei em zona urbana, caminhando, a partir dali, sobre piso asfáltico. 


Igreja matriz da cidade de Alto Caparaó/MG.

Alto Caparaó mais parece uma grande vareta, cidade de uma rua só, por onde prossegui, sempre em perene ascenso.

Digno de ser lembrado foi um cãozinho que me seguiu durante uns quatro quarteirões, rosnando baixinho e tentando abocanhar meu calcanhar.

O cansaço já debilitava minha coordenação motora quando, às 14 h, adentrei à Pousada Serra Azul, localizada na praça principal da cidade, a 1.000 metros de altitude.

Ali, fui magnificamente recebido pelo tranquilo Waldir e por sua esposa Alani, ambos de simpatia e simplicidade cativantes.


Com os amigos Waldir e Alani, proprietários da Pousada Serra Azul, em Alto Caparó/MG.

Depois de ingerir um copo de chá de erva-cidreira caprichosamente preparado pelo meu anfitrião, no intuito de recompor meu ânimo e humor, hospedei-me em acolhedor chalé.

Contudo, à noite, ao me deitar para dormir, fui assaltado por pesadelos, que tinham como pano de fundo, os agressivos cães que encontrei na trilha desse dia.

No dia seguinte, um domingo, eu escalei o Pico da Bandeira que, com seus 2.892 m de altura, é o 3º ponto culminante do Brasil.

E à noite, tomei um ônibus e regressei ao meu lar, graças ao bom Deus, sem maiores sequelas físicas.


2009 – 
Caminho dos Diamantes



Em 2009 eu fui percorrer o Caminho dos Diamantes e na 6ª etapa localizada entre as cidades de Conceição do Mato Dentro e Morro de Pilar, numa extensão de 28 quilômetros, passei outro grande susto.

Como de praxe, naquele dia levantei-me no horário costumeiro, tomei o café que a hospedeira deixara preparado e, exatamente, às 5 h 30 min, saí da Pousada e caminhei para o centro da cidade.

Ali, passei ao lado do Chafariz da Praça Dom Joaquim e entrei, à esquerda, numa rua empedrada. Quatrocentos metros percorridos e encontrei o primeiro marco da ER, coincidindo com o início da rodovia MG-010 que, nesse trecho, liga Conceição do Mato Dentro a Belo Horizonte.

O clima se apresentava frígido e, como de praxe, uma espessa névoa úmida cobria todo o ambiente. Segui por asfalto, em aclive, utilizando-me tranquilamente do lado contrário ao fluxo de veículos, pois, não havia tráfego naquele horário.

Em sequência, passei pela estação rodoviária da cidade e avistei um senhor caminhando à minha frente. Logo o alcancei e seguimos juntos conversando sobre nossas atividades para aquele dia.

O Sr. José Luiz era trabalhador rural e se dirigia a uma fazenda de criação de gado leiteiro, onde faria a ordenha diária. Falou-me da dura labuta diária, filhos, política, planos, enfim, foi uma conversa muito interessante, ainda no escuro, pois o dia permanecia opaco e nebuloso.

Dois quilômetros depois, encontrei uma placa à esquerda, juntamente com outro marco da ER. Então, me despedi do amigo e adentrei em uma larga e muito bem conservada estrada de terra batida, ainda em acentuado aclive.

Assim que atingi o topo, principiei rapidamente a descer e, logo à frente, avistei um enorme caminhão encalhado, atravessado na estrada, obstruindo o trânsito de veículos. Porém, a pé, foi possível ultrapassá-lo, ainda que com muito cuidado.

Sozinho, em plena escuridão, tive um sobressalto, que me fez estacar emocionado. De longe, lá para a outra banda da estrada, vinha a música maravilhosa, saudosa, deliciosa, um som familiar, que me comoveu! Era o cantar de um galo solitário e madrugador, que saudava a aurora iminente.

Em surdina, recitei os versos do Catulo:

“Coisa mais linda

neste mundo não existe, 

do que ouvir-se um galo triste,

no sertão se faz luar...”

Naquela solidão, minhas palavras soavam falso, como se outrem as pronunciasse, pois, embevecido, pensava não haver coisa mais singela do que o canto daquela ave, anunciando-me a existência, próximo dali, de algum lar acolhedor.


Trânsito por locais ermos e extremamente arborizados.

Foram momentos efêmeros, pois, a descida prosseguiu intermitente e o dia foi, lentamente, clareando, mostrando que eu caminhava por um roteiro intensamente arborizado, sendo, em alguns locais, de mata fechada.

Uma neblina muito leve velava a paisagem, adelgaçando-se aqui e ali, deixando ver os capões de mato ou as árvores maiores, contudo, adensando-se nas baixadas, impedindo a vista além de poucos metros.

Mais à frente, defronte uma fazenda, uma vaca extraviada no caminho me colocou de sobreaviso, então, cuidadosamente, consegui ultrapassá-la, ainda que com bastante receio, face a descomunal dimensão de seus chifres.

Bandos de maritacas, araçaris, periquitos e tuins, passavam em algazarra e pousavam em arvoredos próximos, enchendo de gritos e chiados agudos a mata circundante.

O dia tinha amanhecido de pouco, o orvalho gotejava das folhas, o ar era fino e a beatitude reinava em meu coração. O caudaloso rio Santo Antônio me acompanhava pelo lado direito e, após grande declividade, consegui ultrapassá-lo, utilizando-me de moderna ponte de concreto.


Ultrapassando o caudaloso rio Santo Antônio.

A partir dali, iniciou-se severa ladeira, que lentamente fui vencendo, passo a passo e, finalmente, depois de cinco laboriosos quilômetros, principiei a descer.

Em um ponto da estrada, pude admirar a grandiosidade do Cânion Bandeirinhas, situado no interior do Parque Estadual da Serra do Cipó.

Em consonância com tal magnitude, a todo momento me surpreendia com as belezas naturais dessa região. Por diversas vezes, fiquei emocionado e emudecido diante da natureza exuberante do lugar.

A vegetação que margeava o caminho continuava soberba, com passagens onde o mato era tão denso, que não me permitia ver nem ao menos o horizonte. Sem dúvida, um dos trajetos mais agradáveis de todo o meu roteiro.

De quando em vez, avistava alguma fazenda, porém, apesar das áreas destinadas à pastagem, ainda havia grandes capões de mata preservada, que davam o tom à paisagem reinante.

A topografia da região que em nenhum momento deixa de ser admirável e surpreendente, foi me levando, ora para cima ora para baixo, numa exposição sem fim de cenários maravilhosos.

Em determinado local, no topo de uma elevação, rodeado por ampla mata nativa, avistei a uns 100 metros, defronte à entrada de uma fazenda, uma grande fera sentada.

O clima nublado não me permitia reconhecer o animal, se uma onça-pintada ou um portentoso cão.

Como forma de tentar desvendar o mistério, dei um zoom na máquina fotográfica, mas não consegui sucesso em meu intento.

Receoso, fiz uma pausa para hidratação e ingestão de uma barra de cereais e, dez minutos depois, quando voltei a observar o local, o misterioso animal havia desaparecido.


À esquerda, entrada para a Fazenda Mata Cavalo, onde levei um grande susto.

Receoso, prossegui em frente e, no quilômetro 20, duzentos metros abaixo, bem diante da entrada para a fazenda Mata Cavalo, um enorme cão surgiu do nada e partiu agressivamente em minha direção.

Vivi momentos de terror, enquanto tentava me desvencilhar de seu ataque, mas, logo observei, que ele estava protegendo o seu território e, quando mais eu me afastava, mais tranquilo ele se sentia.

Em nenhum momento, contudo, dei as costas ao imenso animal e, novamente, por obra divina, consegui escapar ileso de mais esse terrível assédio.


Com Dona Didica, proprietária da Pousada das Pedras, em Morro do Pilar/MG, onde me hospedei nesse dia.

Embora traumático, foi ele o único ataque canino que sofri durante as 12 jornadas que utilizei para vencer esse percurso de 400 quilômetros, localizado entre Diamantina/MG e Ouro Preto/MG.


2010 – Caminho do Ouro



Em 2010, eu prossegui minha jornada pela Estrada Real e, no segundo dia, no trecho localizado entre Cachoeira do Campo e Miguel Burnier, com 33 quilômetros de extensão, passei outro grande sufoco, como abaixo relato:

Naquele dia, mais uma vez, teria uma longa jornada a cumprir. Então, levantei-me às 4 h, e metodicamente me preparei para a rotina diária. Mais tarde, ingeri um copo de café que me fora preparado na portaria do estabelecimento, e às 5 h deixei o Hotel Bandeirantes.

O dia se apresentava frio e neblinoso, assim, obedecendo às orientações da planilha que carregava, segui pela BR – 356 em direção ao Posto Pedrosa, localizado a uns 500 m de distância do local em que pernoitara. Quando ali cheguei, pude visualizar o primeiro marco da Estrada Real, fincado numa calçada em frente.

Então, fleti à direita, seguindo em forte ascenso, por uma avenida calçada de paralelepípedos, em direção à MG – 440. Poucas pessoas caminhavam pelas ruas àquela hora, contudo inúmeros veículos já trafegavam em direção ao centro da urbe. Afinal, era uma segunda-feira e, com ela, iniciava-se mais uma semana de labor intenso.

Depois de uns 2 quilômetros, findou-se a iluminação urbana, obrigando-me a utilizar a lanterna de bolso. Prossegui, então, pelo acostamento da rodovia, no sentido contrário ao fluxo de veículos. O clima estava fresco, propício para a caminhada matinal, de maneira que pude caminhar num ritmo constante e sem sobressaltos. Apesar de intensa névoa presente na atmosfera e ao meu redor, muito longe, distinguia uma estreita faixa do céu e o cintilar de raras e frias estrelas.

Mais adiante, numa descida, encontrei 2 pessoas que vinham no sentido inverso, empurrando suas bicicletas. Trocamos algumas palavras, confirmei meu rumo e prosseguimos, cada um em direção aos seus objetivos.

Depois de 6 quilômetros percorridos, obedecendo aos marcos da ER, deixei o asfalto, seguindo à direita por uma rua de calçamento, rumo a afamada Pousada Capricho Asturiano, cujas placas de propaganda eu avistara ao longo do caminho.

Na sequência, trafeguei por ruas calmas, situadas em bairros de periferia, plenas de habitações simples, onde muitas crianças já paramentadas, aguardavam os coletivos que as levariam às escolas. Numa pequena elevação e já com o dia amanhecendo, pude avistar ao longe minha primeira meta do dia: a igreja de Santo Antônio, situada na praça principal deste progressivo distrito, local onde aportei às 6 h 30 min, depois de caminhar 8 quilômetros.

Santo Antônio do Leite é um distrito da cidade de Ouro Preto, distante 25 quilômetros de sua sede. A tranquilidade, a salubridade do clima e da água são possíveis explicações para a longevidade alcançada por muitos habitantes desse simpático lugarejo, que hoje somam 2.000 pessoas.

Numa padaria localizada defronte ao singelo templo comprei água e barra de cereais. Aproveitei ainda para ingerir aromático e fumegante copo de café. Em seguida, prossegui em frente, pois o sol já apontava na nascente, sinalizando calor intenso para aquele dia.


Após a passagem pela cidade de Santo Antônio do Leite, finalmente, adentrando em terra.

A saída se faz por uma rua ascendente, em terra batida. Logo adiante, acessei uma estrada vicinal plana e larga, pavimentada em cascalho, que naquela hora ainda estava úmida, fruto da intensa neblina noturna. A paisagem bucólica descortinava mostrando muitas fazendas de criação de gado, por ambos os lados.

Em vários trechos, a mata fechada ladeava a estrada, proporcionando sombra e frescor. Com o passo cadenciado, às 7 h 30 m, depois de percorrer 13 quilômetros, passei defronte à propriedade onde é fabricado o famoso aguardente “Gota de Minas”.

O silêncio reinante somente era quebrado, de tempos em tempos, pela passagem de algum caminhão, posto que o tráfego de veículos era praticamente nulo nesse horário. Um rio de razoáveis proporções me acompanhou por um bom tempo do meu lado direito, rumorejando entre pedras e matas.

Alguns quilômetros à frente, passei junto a um trevo, com acesso à cidade de Itabirito, pelo lado direito.

E, às 8 h, depois de percorrer 17 quilômetros, cheguei ao distrito de Engenheiro Correia.

Localizado a 35 quilômetros de sua sede, Ouro Preto, e contando com uma população estimada em 400 pessoas, o povoado desenvolveu-se com a chegada da ferrovia, no fim do Império.

Suas casas e estabelecimentos comerciais caracterizam-se por construções térreas, implantadas ao longo da via urbana e sem afastamento frontal. Já as mais antigas, assumem características da arquitetura colonial e eclética, sem muitos ornamentos, demonstrando a simplicidade de seus proprietários. 


Igrejinha existente no distrito de Engenheiro Correia/MG.

Era um dia comum de trabalho e, apesar do horário matutino, muitas pessoas estavam reunidas em animada conversa defronte um bar. Entrei no estabelecimento para comprar água e fui efusivamente cumprimentado pelos animados fregueses que me perguntaram o motivo de minha solitária caminhada, pois confessaram não ser muito comum o trânsito de pessoas a pé por aquela localidade.

Sucintamente, expliquei-lhes minha procedência, de onde saíra naquele dia e objetivos que levava em mente. Para finalizar, contei-lhes que estava percorrendo a Estrada Real como forma de me desligar da estafante rotina diária, aproveitando as férias para manter um contato mais íntimo com a natureza.

Depois de cordiais despedidas, prossegui em frente, e logo adiante passei defronte à igrejinha de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do povoado, erguida na década de 60, a qual possui em sua edificação traços contemporâneos simples. Em sequência, caminhei mais uns 100 m e deixei a simpática vila para trás, adentrando, imediatamente, em larga estrada de terra.

Logo depois, numa baixada, encontrei um senhor que passeava com seu cão. Afavelmente me cumprimentou e paramos para conversar um pouco. O Sr. José Teodoro era aposentado e contou-me que nascera e sempre vivera naquele distrito, em sua opinião, era o melhor lugar do mundo.

Quando questionei-lhe a ausência de plantações de cereais, fato que observara desde que deixara o distrito de Santo Antônio do Leite, ele comentou que as terras daquela região não eram férteis, de forma que, efetivamente, nada vingava ali. Alguns proprietários criavam gado para a venda do leite, mas a maioria das fazendas servia apenas para diversão em finais de semana, pois, quase sem exceção, estavam tomadas por bosques preservados, além da região ser bastante montanhosa e imprópria para o cultivo.

O caminho prosseguiu quase sempre plano, muito arborizado e com ínfimo trânsito de veículos. E, às 8 h 15 min, finalmente, o sol apareceu num céu azul e sem nuvens.


Caminho plano, hidratado e arborizado. Uma delícia!

Às 9 h, depois de ter caminhado 22 quilômetros, o táxi que levava a minha mochila me alcançou. O motorista, Sr. Geraldo, parou o veículo e conversamos um pouco. A meu pedido, bateu algumas fotos, entregou-me um lanche, ofertou carona e ante minha recusa, seguiu em frente.

Depois de mais alguns quilômetros, a mata desapareceu e passei a caminhar entre grandes fazendas de criação de gado.

Num local ermo, encontrei Dona Maria que caminhava acompanhada de 8 cães. 


Dona Maria e parte de sua fervorosa matilha de cães.

Como alguns rosnaram alto e partiram agressivos em minha direção, apavorado, coloquei-me em defensiva, até que ela acalmou os ânimos e pudemos conversar um tanto.

Enquanto dialogávamos, amistosamente, alguns “peludos” me cheiraram, insistentemente, como a buscar algo oculto, o que me deixou preocupado, visto que um ataque poderia se perpetrar, iminente.

Contou-me ela, que residia num sítio próximo e havia levado as vacas para pastarem em outro terreno, situado do outro lado da estrada.

Foi com grande alívio que me despedi daquela sisuda senhora, que partiu levando sua obtusa malta, sempre disposta a proteger, fielmente, sua “madona”.

Nesse dia me hospedei no pequeno povoado de Miguel Burnier, onde residem apenas 340 pessoas.

Ali, não existe pousada ou pensão.

Porém, eu descobrira pela internet um blog de um filho ilustre desse lugar, o Marco Antônio (www.projetoestacao.blogspot.com).

E ele, através de seu sogro, o Sr. Geraldo Maguino Vasconcelos, mais conhecido por “Tuia”, providenciou um local para meu pernoite.

Na verdade, fiquei alojado no Centro Comunitário do distrito, que funciona num prédio recentemente restaurado, onde uma de suas salas serviu-me como dormitório. O local, após ficar abandonado por muitos anos, foi reformado pelos próprios moradores que, depois, com doações de livros, armários, camas, mesas e outras utilidades, propiciaram sua operacionalidade. 


Nesse dia pernoitei na simpática comunidade de Miguel Burnier.

E, sob as bençãos divinas, em mais esse tramo que percorri, localizado entre as cidades de Ouro Preto e São João del Rei, numa extensão de 261 quilômetros, não registrei nada mais ostensivo relativo ao assédio de cães.


2013 – Caminho de Aparecida



Em junho de 2013 fui percorrer o Caminho de Aparecida na companhia da peregrina Célia, de Recife.

No final da terceira etapa pernoitamos na cidade de Cordislândia, na Pousada Santa Catarina, da qual não guardo boas lembranças.


Igreja matriz de Cordislândia/MG.

No dia seguinte envidamos nova etapa que, bem me lembro, seria fácil e de curta extensão, assim pretendíamos sair mais tarde que o horário de costume.

No entanto, devido à precariedade e o cheiro de mofo no quarto onde dormi, levantei às 3 horas e fiquei aguardando o dia amanhecer, sentado num sofá localizado no “hall” da Pousada.

Posto que, devido ao recrudescimento de minha rinite alérgica, tinha urgência em deixar o local o mais rapidamente possível.

Para completar, não tomamos o café da manhã, pois ninguém nos informou o horário em que seria servido, e também não notei movimentação nas dependências do imóvel até as 6 horas.

No dia anterior, não conseguira contato com a Patrícia, que se recolheu à sua residência sem falar conosco, de forma que precisamos deixar o montante monetário na cozinha do estabelecimento, juntamente com um bilhete explicando a situação.

Isto posto, deixamos o local de pernoite às 6 h 15 min, seguindo por ruas desertas silenciosas e com escasso movimento de veículos.

Depois de mil metros percorridos, pela ponte histórica, ultrapassamos o rio Sapucaí e seguimos adiante.

Logo chegamos novamente à bifurcação encontrada no dia anterior: se seguíssemos adiante, retornaríamos ao distrito de Douradinhos.

Porém, observando à sinalização, fletimos à esquerda, e acessamos uma larga estrada de terra, bastante molhada e lisa, em face das chuvas ocorridas no dia anterior.

O trecho inicial do percurso caracterizou-se por extensas pastagens, onde o forte é a criação de gado.


Caminho maravilhoso, pleno de muito verde e sob clima nublado.

Com efeito, depois de uns 4 quilômetros caminhados, passei diante da belíssima e verdejante Fazenda Santa Cruz, exatamente quando um funcionário já deixava o belo cenário, dirigindo um enorme trator.

O roteiro prosseguiu em lenta ascensão e, já quase no cimo, fiquei a observar o trabalho de um vaqueiro, que montado em um cavalo, tangia uma manada de gado leiteiro pela estrada, em direção a um pasto situado numa propriedade vizinha, onde logo adentrou.

No topo do morro, num local privilegiado, fui aquinhoado com ampla vista, para todos os lados, podendo avistar à esquerda, em meio a um imenso vale, o belíssimo rio Sapucaí serpenteando entre a mata nativa.

Prosseguindo, no final de extensa reta, e depois de fazer uma grande curva à esquerda, principiei a descender em meio a um grande cafezal.

O céu azul daquela manhã sem nuvens, e um calor gostoso, tornavam a caminhada ainda mais agradável.

Daquele ponto, eu já avistava no horizonte, a uns 3 quilômetros de distância, a cidade de Turvolândia, de forma que fiz uma breve pausa, enquanto aguardava a chegada da Célia, que ficara mais atrás, para telefonar à sua família.

Prosseguindo, já no plano, transitamos em meio a pastagens, depois, defronte a algumas chácaras, ultrapassamos um riacho por uma ponte, e logo adentramos em zona urbana.

Ainda era muito cedo, 10 h 15 min, mas já havia um grande número de pessoas se movimentando pela cidade.

Mais acima, nós aportamos à praça central do município, e eu busquei informações sobre o local de pernoite onde havíamos feito reserva com uma transeunte, que estava acompanhada de sua filhinha.

Ela me indicou o rumo a seguir e, gentilmente, nos acompanhou até um trecho do percurso.


Com a simpática Angélica, proprietária da maravilhosa Pousada da Lua.

Na verdade, a Pousada da Lua, local onde ficamos alojados, está localizada a uns 800 metros do centro da urbe, próximo ao local onde tem início a rodovia, que segue em direção à cidade de Silvianópolis/MG.

E valeu a pena ficar ali hospedado, vez que o desvelo da Angélica, a proprietária do estabelecimento, bem como o de sua filha Yara e da funcionária Dayane, fizeram toda a diferença.

A Pousada é extremamente acolhedora, e gratificou-nos admirar o capricho e a delicadeza com que foi idealizada a decoração das dependências do estabelecimento.

Com certeza, este foi o local em que melhor fiquei instalado em toda a minha peregrinação, assim, recomendo-o aos futuros peregrinos, com louvor.

Para almoçar, no horário aprazado, seguimos em direção ao Restaurante Lua, anexo à Pousada, vez que é da mesma proprietária.

Na porta do estabelecimento encontramos a Célia e eu, uma cachorrinha deitada, de olhos tristes, que nos encarou suplicando algo, mas, sem latir ou abanar o rabo.

Notamos, contudo, que ela se encontrava com os úberes dilatados, sinal de que fora mamãe recentemente.

Aquilo me entristeceu e ao nos sentarmos à mesa para a refeição, a Célia, coração de ouro, disse-me que não conseguiria ingerir nada, se antes não matássemos a fome da pobre cadelinha.

Isto posto, negociamos com Maria Angélica e, pago à parte, pedimos para ela assar dois grandes bifes de carne de vaca, que servimos ao pobre animal.

Para nossa surpresa, ela apanhou a comida e não ingeriu, ao revés, partiu correndo em direção a sua toca/moradia, para dividir a comida com sua família, algos que muito nos condoeu.

Após essa partilha, ingerimos uma refeição supimpa, regada a uma garrafa de cerveja estupidamente gelada, de melhores recordações.


Igreja matriz de Turvolândia/MG.

Com o coração desconfrangido, foi esta, mais uma das gratas lembranças que partilhei ao longo desse maravilhoso Caminho de Aparecida.


2014 – Caminho dos Anjos




Outro encontro nada agradável com cães ocorreu no Caminho dos Anjos, quando eu percorria sua 7ª etapa, no trecho compreendido entre as cidades de Caxambu/MG e São Lourenço/MG

Diga-se de passagem que na ocasião, eu também estava acompanhado da peregrina Célia, de Recife, amiga de longa data.

O trajeto era de média extensão e sua altimetria, em princípio, não inspirava grandes preocupações.

No entanto, o dia seria novamente ensolarado e, às 13 horas, aconteceria o jogo Brasil x Chile pela Copa do Mundo de Futebol.

E como o café da manhã no hotel seria servido somente às 7 horas, então, preferi ingerir frutas e chocolate adquiridos no dia anterior e, pontualmente, às 6 h, deixamos o local de pernoite, seguindo por ruas vazias, onde somente os garis já trabalhavam na limpeza da cidade.

Mais adiante, passamos por trás da rodoviária municipal, e logo acessamos uma larga estrada de terra, bastante arborizada.

Quase em seguida, passamos diante de um totem da Estrada Real, bem como de um marco do C.R.E.R, que nesse trecho segue pelo mesmo roteiro do Caminho dos Anjos.

O sol ainda não havia nascido, mas o céu já estava clareando.

Nessa hora um sentimento de felicidade me invadiu o peito.

Uma sensação de poder decidir meu próprio rumo.

Provei de um indescritível bem-estar, um gosto de liberdade jamais experimentado.

O caminho seguiu fresco e sem tráfego, apresentando densa cerração nas baixadas, sinal evidente de que teríamos outro dia quente e ensolarado.

O dia finalmente amanheceu, e pudemos ver que caminhávamos em meio a exuberante paisagem.

A estrada, praticamente toda plana, seguiu sempre em meio a extensas fazendas de criação de gado leiteiro, característica comum em quase todo o percurso.

O sol tentava furar a forte neblina existente nesse trecho, mas enquanto isto não acontecia, a caminhada prosseguia em bom ritmo, sob clima fresco e agradável.


Transitando diante da espetacular Fazenda Primavera, em São Lourenço/MG.

Cinco quilômetros vencidos, passamos diante da Fazenda Primavera, que se destina à criação e venda de equinos.

Defronte ao seu portão principal, e situada do lado direito da estrada, existe uma nova e bem cuidada capelinha, erigida em memória de Nhá Chica, onde pudemos fotografar e externar orações.

Depois de percorrer 8 quilômetros, numa bifurcação, atento às setas verdes e amarelas, adentrei à esquerda, pois a Célia ficara uns 500 metros à retaguarda, e o caminho se tornou ainda mais deserto e silencioso.


Trecho belíssimo, pleno de muita mata nativa.

No cimo de pequeno morro, sob gostosa sombra, fiz uma pausa para hidratação e ingerir uma banana.

O roteiro prosseguiu levemente ondulante, ainda entre grandes pastagens, onde rebanhos de vacas leiteiras, se movimentavam em busca de alimento.

Nas principais bifurcações do caminho sempre havia um marco do C.R.E.R ou um totem da Estrada Real a me avisar qual o rumo tomar.

Além disso, também havia setas amarelas e verdes do Caminho dos Anjos, numa profusão de sinais, que torna impossível o caminhante se perder nesse trecho.


O traçado do caminho se contorce à minha frente...

Depois de percorrer aproximadamente 10 quilômetros, eu atravessava o bairro de Mato Dentro que, segundo eu soube, abrigou uma comunidade alternativa de pessoas, alguns anos atrás.

Pelo que depreendi, parece que ali essa iniciativa não deu muito certo, existindo poucas e esparsas moradias, além de uma igreja com área de convivência, ambas trancadas quando passei.

Havia também uma escola e um posto de saúde.

Próximo de uma construção, observei 2 senhoras conversando do lado direito da estrada, além de algumas crianças, rodeadas por uns 4 cães vira-latas.

Quando cumprimentei o pessoal, inadvertidamente, um cachorro preto, de grande porte, partiu com tudo em minha direção, abocanhando minha canela com força.

Eu levei um susto enorme e, fruto de minha reação intempestiva, acabei atingindo a cabeça do animal com meu cajado, o que prontamente refreou seu ânimo.

Enquanto ele gania de dor, um menino de uns 12 anos apareceu correndo, gritou com ele e o levou preso em direção a uma moradia situada próximo do local.

Creio que tal violência foi motivada por algum tipo de paranoia, pois sua ação foi inesperada e sua gratuita agressividade não detinha explicações.

Claro, me arrependi amargamente de ter agredido o inocente animal, mas, na realidade, eu estava apenas me defendendo, e tudo foi fruto do meu reflexo e instinto de preservação.

Por sorte, naquele dia, eu vestira meias grossas, estava de botas e calça comprida, assim, os dentes do animal esbarraram nesses obstáculos e não me atingiram diretamente.


Bairro do Mato Dentro, onde um cão me mordeu.

O ataque, aparentemente, nada de mal me causara, assim, aguardei pela chegada da Célia e prosseguimos em frente, como se nada tivesse acontecido.

Porém, quando me alberguei no hotel em São Lourenço, ao retirar a roupa para tomar banho, notei que minha meia estava furada em dois locais, por onde os caninos do animal haviam penetrado.

Para piorar, notei dois pequenos buracos insertos em minha canela, por onde vazara razoável quantidade de sangue, sem que eu percebesse.

Confesso, fiquei apavorado, pois, não sabia se o cão que me mordera fora vacinado, mas o que fazer naquele momento, distante do local em que ocorrera a agressão?

Praticamente, nada; ainda assim, como forma de me prevenir, fiz demorada assepsia no local, pedi bençãos a Nossa Senhora Aparecida e dei o caso por encerrado.


Diante do espetacular Parque das Águas de São Lourenço/MG, cidade onde pernoitei nesse dia.

Por obra divina, nada de mal me resultou desse ataque, e pude seguir até o final da jornada sem maiores empecilhos.


2016 – Caminho da Fé



Outro fato que me lembro, inerente ao tema, ocorreu em 2016, quando fui a pé de Sertãozinho a Aparecida, utilizando o roteiro do Caminho da Fé.

Na sexta etapa, quando percorri os 30 quilômetros que separam Tambaú de Casa Branca, fui vítima de um ataque canino, como abaixo se verá.

Ao acordar naquele dia e me preparar para a jornada, constatei que o percurso seria de média extensão, e eu já conhecia de sobejo.

Assim, mais tranquilo, levantei às 5 h e, após as abluções matinais, ingeri frutas e uma barra de chocolate.

Às 6 horas, antes de partir, pude ingerir um copo de café espesso e cheiroso que o Marcos “Tarzan”, o proprietário do estabelecimento havia preparado.

Então, após fraternais despedidas, pois, creio que é a 6º vez que me hospedo no hotel, deixei o local de pernoite, seguindo em direção ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida.

A previsão meteorológica para aquela data persistia imutável, com céu claro, sol e frio de manhã.

Mais acima, eu ultrapassei a rodovia que segue em direção ao túmulo do Padre Donizetti, e, observando às setas amarelas pintadas nos postes, logo passei a caminhar em terra, por um local deserto, onde existe um novo loteamento de terrenos.

Ali acabou a iluminação urbana, mas o dia já estava amanhecendo, de foma que pude prosseguir sem problemas.

Seguindo as flechas, mais abaixo, eu passei próximo de um grande açude, onde, acredito, é feita a captação de água para a cidade.

Senti não ter às mãos um gravador, pois um bando de seriemas junto ao lago brindava com seu estridente canto o bucólico lugar.

Mais acima, numa bifurcação, as flechas me remeteram à esquerda, então, principiou-se um trajeto campestre e extremamente interessante, que mesclou trilhas com caminhos em terra, bem definidos.


Mais um dia raiando...

A aurora já tingia o céu com as suas cores madreperoláceas, quando passei a caminhar em meio a exuberante vegetação, na maioria das vezes, constituída por extensos bosques de eucaliptos.

Porém, uma hora depois, 6 quilômetros percorridos, a sinalização me encaminhou para a estrada vicinal que liga Tambaú a Casa Branca.

Então, todo o encanto da jornada se desfez, porque encontrei um intenso tráfego de veículos, principalmente de treminhões, enormes carretas que transportam cana-de-açúcar, já que estávamos em plena safra dessa gramínea.

Apesar das chuvas recentes, o trânsito quase ininterrupto de veículos acabou por esfarelar a terra, deixando-a solta no piso.

Assim, como os veículos trafegavam quase sempre em alta velocidade, levantavam enormes nuvens vermelhas de pó.

Lembrava-me bem que ingerira e aspirara muita poeira nesse trecho, quando nele transitei em 2012, provindo da cidade de São Carlos.


Trecho com muita poeira, onde utilizei uma masca cirúrgica como proteção.

Por isso estava preparado, vez que trouxe na mochila, máscaras cirúrgicas para salvaguardar minha saúde.

Nesse dia, prudentemente, colocara uma no bolso da jaqueta, mas com esperança de não precisar utilizá-la.

Contudo, quando vi o estado da rodovia, coloquei a proteção sobre o nariz e a boca, me senti mais tranquilo, seguindo em frente.

O sol, finalmente raiou, deixando tudo mais belo e brilhante.

Eu seguia tranquilo e aproveitei os momentos de silêncio, quando era possível, para externar minhas orações.

Em determinados tramos, por haver pedras no leito da estrada, a poeira era incipiente.


Trecho espetacular, e com pouco pó no piso.

Infelizmente, nesse trecho, também encontrei muito entulho e sujeira à beira da estrada, quase sempre fruto do descarte desordenado e irresponsável dos apedeutas que se aproveitam do local ermo, onde não há fiscalização municipal.

Mas, por obra divina, não há mal que sempre dure.

Assim, uma hora depois, mais 6 quilômetros vencidos debaixo de muito sofrimento e desolação, a estrada passou a ser em asfalto, o que meus pulmões festejaram.

Na verdade, todo esse “inferno” que passei, não existia no traçado anterior, pois se tratava de um trajeto que cortava propriedades privadas, num percurso integralmente silencioso em meio à exuberante natureza.

Porém, segundo fiquei sabendo, os proprietários acabaram por fechar o roteiro, revoltados contra os falsos e inescrupulosos peregrinos, que se aproveitavam para desbastar os pés de árvores frutíferas existentes ao longo desse percurso.

Assim, a Prefeitura Municipal de Tambaú precisou “improvisar”, ou melhor, sinalizar um novo trajeto, infelizmente, este pelo qual eu seguia.

Por sinal, extremamente perigoso e desagradável.

Bem, mais adiante, depois que atravessei uma ponte sobre as vias férreas, as flechas me direcionaram para a esquerda, quando acessei outra larga estrada de terra.

Até aquele local eu já havia percorrido 9.500 metros e prosseguia com ótimo ânimo.

Então, gratificado, passei a caminhar em meio a imensas fazendas de criação de gado, alternando com áreas recentemente lavradas, que estavam apenas aguardando a benfazeja chuva primaveril para ser novamente semeadas.

Um quilômetro à frente, junto a uma grande árvore, onde existe uma casa amarela, 3 cães vira-latas saíram em disparada na minha direção, dentes à mostra, tentando me morder.


A casa amarela, onde fui atacado por 3 cães ferozes.

Pego de surpresa, me defendi como pude, utilizando o cajado que empunhava.

Na verdade, tais ataques não são a tônica nos caminhos que percorro, ocorrem muito esporadicamente.

Tenho o maior respeito por esses nobres animais e não gosto de agredi-los, mas precisava me proteger, de forma que num lance de sorte, pespeguei uma certeira cacetada no dorso do cão malhado, o mais agressivo dentre os três.

Ele saiu ganindo e, por conta disso, os outros arrefeceram seus ânimos, me dando tempo de apanhar algumas pedras e atirar em meus algozes, espantando-os em definitivo.

O mais interessante de tudo é que os cães estavam soltos na estrada, havia pessoas na casa amarela, pois vi o varal cheio de roupas recém-lavadas, ouvia-se barulho de música radiofônica e, do outro lado da estrada, numa cocheira, havia pessoas ordenhando as vacas.

E, apesar do alarido infernal que os brutamontes fizeram ao me acuar, além de gritos de defesa que dei para espantá-los, ninguém apareceu para ralhar com os animais, muito menos para me proteger.

Assim, deixo um alerta para os futuros peregrinos, no sentido de seguirem com cuidado e atenção nesse trecho, talvez, se o caso, armarem-se de pedras antecipadamente.


Igrejinha localizada ao lado do local onde os cães me acossaram.

Nota do Autor: Dias atrás, recebi e-mail de um peregrino que recentemente percorreu esse mesmo trecho e, apesar de atento, não encontrou os cães no local em que acima descrevi.

Possivelmente, eles estavam acorrentados ou os moradores da casa amarela se transmutaram para novo endereço.



2016 – Estrada Real – Trecho Final


No mês de setembro de 2016 fui percorrer o trecho derradeiro da Estrada Real, situado entre as cidades de São Lourenço/MG e Paraty/RJ.

Na 5ª etapa, quando caminhava no trajeto localizado entre Guaratinguetá e o Hotel São Francisco (Cunha/SP), numa extensão de 27 quilômetros, passei por maus bocados, quase no final da jornada desse dia, como abaixo relatarei.

Guaratinguetá dista de Cunha, por rodovia, 45 quilômetros.

No entanto, o trajeto proposto pelo roteiro da Estrada Real mede 51 quilômetros.

Em princípio, poderia percorrer tal distância em uma jornada apenas.

Mas não era o caso, pois eu pretendia vaguear por esse trecho final com calma e espírito contemplativo.

Afinal, em termos de “Caminho Velho” ou “Caminho do Ouro”, o percurso entre Guaratinguetá/SP e Paraty/RJ é um dos mais marcantes, sempre pontuado por lendas e dramas nos relatos históricos.

Dessa forma, combinei com um taxista para ele ir me buscar no Hotel São Francisco, situado no município de Cunha, quando lá aportasse.

A noite fora tumultuosa, visto que, a partir das 3 horas da madrugada, principiou a chegar hóspedes falantes e barulhentos, todos provenientes de um casamento e, por azar, estavam todos alojados no mesmo andar que eu.

Acabei acordando e, por conta do tumulto, não consegui mais conciliar o sono.

Assim, parti às 6 horas, levando apenas a mochilinha de ataque, contendo frutas, água e isotônico.


Encontro com o primeiro totem do dia, situado defronte ao bar do Mané, em Guaratinguetá/SP.

O trajeto urbano é bastante simples e logo encontrei, diante do bar do Mané, o primeiro totem do dia.

Na sequência, por uma avenida, passei sob a via Dutra e, mais acima, acessei a rodovia SP-171, cognominada de “Paulo Virgínio”, que segue em direção a Cunha.

Transitando pelo acostamento, no sentido contrário ao tráfego de veículos, segui tranquilo e orante, enquanto lentamente o dia amanhecia.

Por sinal, conforme conta a história: “Em 1650, aproveitando a trilha indígena dos Guaianás, o guaratinguetaense Domingos Velho Cabral abre um novo caminho que liga Guaratinguetá à Freguesia do Facão, atual cidade de Cunha, reduzindo a distância do percurso.”

Pois, incrivelmente, era sobre esse memorável trajeto que eu caminhava nesse glorioso dia.

Três quilômetros percorridos em bom ritmo, próximo ao Cemitério da Saudade, adentrei à esquerda e logo acessei um caminho de terra.


Transitando pela Estrada do Morro Frio, que corta o bairro homônimo.

A partir desse marco, passei a transitar pela Estrada do Morro Frio, que segue entre grandes fazendas de criação de gado e chácaras de alto padrão, localizadas a pouca distância do centro urbano.

Próximo dali ficava o antigo Rancho da Pedreira de onde partiam os tropeiros, não sem antes pedir a proteção de São Bento, da seguinte forma: “São Bento, água benta! Jesus Cristo no altar! As cobras desse caminho Afastem que eu vou passar! São Bento! Livrai-nos dos males E de bichos peçonhentos!”

Galos saudavam a manhã nascente, vacas mugiam num pasto próximo, pássaros trinavam em árvores adjacentes: era tudo o que eu queria ouvir e sentir, para levantar ainda mais o meu astral.

O roteiro ascendeu levemente, depois, descendeu com vigor.

E depois de 2.500 metros caminhados junto à exuberante natureza, desaguei novamente na rodovia, junto ao totem da ER de número 1291.

Sem alternativa, prosseguindo em piso asfáltico, logo passei diante do Posto da Polícia Rodoviária e, na sequência, pelo bairro do Fogueteiro de Baixo.

Ciclistas já circulavam pelo acostamento do lado oposto, demandando à cidade de Cunha.

O tráfego de veículos também estava crescendo, visto estarmos vivenciando um domingo ensolarado e, com a recente liberação da rodovia Cunha/Paraty, muitos certamente seguiam na direção do mar.

Potentes motos troavam no ar, automóveis transitavam em alta velocidade, alguns com o escapamento aberto, perfazendo grande alarido.

Minha concentração estava em desassossego quando, finalmente, percorridos 10 quilômetros desde a minha partida, adentrei à direita e passei a caminhar novamente em trilha de terra.

E, imediatamente, os sentidos e meus pés agradeceram em uníssono!


Passagem pelo antiquíssimo bairro Paiol.

Eu estava adentrando ao bairro Paiol, um dos mais antigos dentre todos que margeiam essa estrada.

Ele, inclusive, já centralizou importantes fazendas produtoras de café e gado, além de contar com uma centenária capela, onde ocorrem animadas festas juninas.

A estrada plana e deserta me levou a transitar novamente entre grandes propriedades rurais, cuja principal atividade é a pecuária leiteira.

Caminhei mais de 30 minutos sem cruzar ou ser ultrapassado por nenhum veículo automotor.

Nesse trajeto, cruzei apenas com uma moçoila que, após me cumprimentar respeitosamente, contou que iria trabalhar numa chácara próxima, onde se realizaria uma festa de aniversário.

O clima persistia fresco, apesar do sol já ter aparecido, e eu seguia sem pressa, admirando a belíssima paisagem circundante.

Por sinal, no horizonte, já podia divisar grandes morros pertencentes a serra do Mar, locais por onde eu transitaria em breve, nas minhas jornadas sequentes.

O caminho nesse trecho é bastante ermo e belo.

E eu aproveitava cada instante, pleno de cenários mágicos.

Por sinal, existem muitas chácaras à beira da estrada e, fato interessante, encontrei mais de 6 delas com a placa de “vende-se”.

Seria efeito da crise atual?


Vista da belíssima Fazenda São João (Guaratinguetá/SP)

Após um pequeno descenso, eu ultrapassei um córrego por uma ponte, depois transitei diante da belíssima Fazenda São João.

Do meu lado direito, pertencente a essa herdade, havia uma grande mata virgem e preservada, ocupando toda a encosta lindeira.

Então, principiei a ascender e logo passei diante da entrada para o povoado de Goiabal, distante uns 500 metros do roteiro.

Poderia visitá-lo se estivesse necessitando de água ou mantimento, o que não era o caso.

Seguindo adiante, o ascenso seguiu sem descanso até o portal da Fazenda São Francisco.

Ali, inserto no totem de número 1308 obtive a seguinte informação:

“Índios, ouro, bandeirantes, comerciantes de materiais de progressos, africanos, religiosos, cientistas, estrangeiros, café, açúcar, autoridades, tropas e tropeiros, nestes caminhos passaram e essas maravilhas avistaram.”

E no totem sequente:

“Esse caminho aberto por apresentar duríssimas serras, era muito penoso para as tropas, que optavam seguir o caminho Paraty – São Luís do Paraitinga – Taubaté – Guaratinguetá, bem mais longo, mas com menos acidentes geográficos.”

O ascenso prosseguiu eterno e quase sem pausas, embora não fosse tão abrupto.

Na verdade, eu estava transitando pela Serra da Quebra-Cangalha, que é uma vertente da serra do Mar, com aproximadamente 1000 metros de altitude.

Já Guaratinguetá está a 527 metros, ao nível da estrada de ferro.


Próximo desse belíssimo local, uma matilha de, aproximadamente, 10 cães, me cercou no caminho.

Num patamar superior, passei diante de uma humilde casa em cuja frente havia uma florida primavera.

E foi impossível não fotografar tão bela imagem que reascendeu meu ânimo, tamanha sua beleza, obra da natureza.

O que eu não sabia é que ali habitava uma matilha, com aproximadamente 10 cães soltos, que descenderam pelo barranco fronteiriço e me cercaram à frente, latindo estrondosamente.

Pego de surpresa, vi que eu estava em maus lençóis, por ser minoria ante o bando assanhado.

Mas me lembrei que todo grupo canino obedece a um líder e tentei identificá-lo: era um grande cão branco, dentes arreganhados, o mais agressivo dentre todos.

Eu retornei sobre meus passos, me armei com uma dúzia de pedras, depois voltei correndo e arremessei uma saraivada sobre a canzoada, mirando, principalmente, o chefe.

Enquanto eu gritava para espantá-los, brandindo meu cajado, eles correram nas mais diversas direções e pude ultrapassar mais esse obstáculo.

Da casinha humilde de onde eles haviam saído, não ouvi nenhum som e nem avistei ninguém.


Depois de percorrer 1.100 quilômetros a pé, chegada ao derradeiro totem da Estrada Real, em Paraty/RJ.

Por sorte, nada mais me ocorreu de mal até o final de minha caminhada, quando cheguei a Paraty/RJ, no festivo dia 7 de setembro de 2016, e dei por encerrado um périplo de 1.100 quilômetros, que um dia iniciei em Diamantina/MG.


2017 – Caminho das Três Marias



No mês de outubro passado fui percorrer um trecho situado entre Bueno Brandão/MG e Bom Repouso/MG, onde passei por um grande susto, quase no final da jornada, como abaixo relato.

O dia estava clareando ao redor das 5 h 30 min e havia chovido muito na região na semana anterior.

Quando deixei o local de pernoite, às 4 h 45 min, encontrei um clima fresco e ventoso, afinal eu estava a mais de 1200 m de altitude.

Descendi por ruas vazias e depois de percorrer 1.000 m, acessei a estrada da Guabiroba, por onde segui com a lanterna ligada.

O forte nesse trecho é a criação de gado leiteiro e passei por inúmeras fazendas onde a ordenha matutina estava em pleno vapor.


Um caminho fantástico, pleno de belíssimas vistas.

Por uma hora eu caminhei sobre uma estrada plana, cujo piso estava sedimentado pelas chuvas recentes, sob uma temperatura ao redor de 14 graus; agradabilíssima, por sinal.

Mas logo teve início um grande ascenso e quando atingi o cume da elevação, eu estava a 1423 m de altitude.

O trajeto, então, tornou-se ermo e silencioso, com pouquíssimas residências no entorno, a maioria localizada a grande distância do caminho.


Trecho ermo e silencioso, onde não há residências à beira da estrada.

Nas primeiras duas horas de caminhada, apenas 3 motociclistas me ultrapassaram, enquanto eu transitava escoteiro pelo topo da serra.

O sol que dera as caras logo cedo, acabou por submergir sob um espesso manto de nuvens e o dia permaneceu fresco e nublado.

Depois de vencer um grande descenso e após superar outro grande aclive, numa bifurcação, observando ao traçado gravado no programa Wikiloc que estava inserto em meu aparelho celular, eu adentrei à esquerda.

Então, o caminho foi se estreitando e logo virou apenas uma estreita vereda, por onde só passam pedestres e ciclistas, pois há um grande charco a ser vencido, onde não existem pontes, portanto, veículos não trafegam nesse atalho.

Foi outro trecho totalmente ermo, onde também não avistei vivalma, apenas o barulho ininterrupto da passarada me acompanhou durante todo o trajeto.

Depois de vencer outra forte elevação, passei a descender com violência e após 16 quilômetros de caminhada, passei pelo povoado de Boa Vereda, que pertence à cidade de Bom Repouso.

O povoado se encontra todo cercado por enormes plantações de morango, o forte nessa região.

Segundo li num site sobre essa localidade:

“...trata-se de um lugar tranquilo de gente trabalhadora e simples. Lugar que aquieta o coração de quem vive ou de quem já passou por aqui. Lugar de céu lindo de dia e de noite, com natureza exuberante e de simplicidade e acolhimento perfeito...”


Ao fundo, a capela de Nossa Senhora Aparecida, localizada no povoado de Boa Vereda.

Numa pracinha localizada diante da capela de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do local, fiz uma pausa para hidratação, descanso e ingestão de uma banana.

Uma senhora me abordou, depois, indagou o meu destino.

Ficamos uns 10 minutos conversando animadamente, depois nos despedimos e, calorosamente, ela me desejou boa viagem!

Naquele local eu estava a 1176 m de altitude.

Refeito novamente em termos físicos, prossegui minha jornada e os ascensos se prologaram, ininterruptamente.

Eu estava me aproximando, inexoravelmente, do meu destino, de modo que nesse tramo final o trânsito de veículos recrudesceu.

Afinal, estávamos em plena época da safra do morango e notei muitas pessoas se movimentando nas plantações da fruta, fazendo a colheita diária da saborosa iguaria.

Também, as chuvas recentes haviam precipitado a semeadura e observei tratores na aração e pessoas ativas no preparo final da terra, visando ao breve plantio.

Caminhando em frente, pude também visualizar no entorno extensas culturas de cebola e, além de morangos, inúmeras plantações de batatas.


Trecho belíssimo e deserto.

Segui sempre em ascenso e depois de caminhar 23 quilômetros, atingi a marca 1520 m de altura, o local de maior altimetria dessa etapa.

A partir desse marco passei a descender, sem pausas, e logo avistava Bom Repouso, minha meta para esse dia.

Sem pressa, prossegui adiante aspirando o ar puro emanado de fresca brisa que batia em meu rosto e logo estava em zona urbana, mas ainda caminhando sobre terra, num local onde há uma bifurcação de itinerários e há um bairro periférico.

Inesperadamente, saindo de uma casa, onde o quintal não continha cercas, apareceram dois imensos cães negros, que vieram em minha direção, exibindo potentes caninos.

Eles se mostraram extremamente agressivos e até chegaram a mordiscar a ponta do cajado que eu empunhava, tamanha a ferocidade com que me enfrentaram.

Apavorado, retrocedi, lentamente, sem os perder de vista, até encontrar um local onde havia pedras, dos mais variados tamanhos.

Armado de tais artefatos, parti para o ataque, exibindo meu bastão e arremessando bólidos na direção da dupla que, prudentemente, retrocedeu e adentrou num bosque fronteiriço.


No Santuário de Nossa Senhora das Graças, em Bom Repouso/MG.

Foi um grande susto, contudo, sob as bençãos divinas, mais acima, no final daquela etapa, adentrei ao Santuário de Nossa Senhora das Graças, ileso e sem maiores intercorrências, a não ser, inevitavelmente, nesses casos, as de origens emocionais.

Inesquecíveis, por sinal.


FINALIZANDO....

Para mim, uma casa ou um apartamento só é uma casa quando você adiciona um conjunto de quatro patas, um rabo feliz, e que é a medida do amor indescritível, que chamamos de um cão.” (Roger Caras)





MENSAGEM DE MADRE TERESA DE CALCUTÁ: POR QUE AMAR OS ANIMAIS?

Porque dão tudo sem pedir nada. 

Porque frente ao poder do homem que conta com armas, eles são indefensos.

Porque são eternas crianças, não sabem nem de ódios nem de guerras. 

Porque não conhecem o dinheiro e se conformam só com um teto onde se refugiar do frio. 

Porque se fazem entender sem palavras, porque seu olhar é puro como sua alma.

Porque não sabem nem de invejas nem rancores, porque o perdão é algo natural neles. 

Porque sabem amar com lealdade e fidelidade. 

Porque dão a vida sem ter que ir a uma luxuosa clínica. 

Porque não compram amor, simplesmente o esperam e porque são nossos companheiros, eternos amigos que nunca traem. Porque estão vivos.

Por isso e mil coisas mais, eles merecem o nosso amor. Se aprendermos a amá-los como eles merecem, estaremos mais perto de Deus.”

Como diz a mãe Teresa da Calcutá, os animais são amigos incondicionais que dão tudo sem esperar nada em troca, mas sobretudo, temos que ter consciência de que são seres vivos que precisam de cuidados, carinho e, principalmente, de respeito.

Nós, que temos animais de estimação em casa, sabemos o papel importante que eles têm em nossos lares, já que são um membro a mais na família.

Sempre existiu uma relação muito estreita entre o ser humano e os animais, sobretudo com os cães e os gatos.

Na história da humanidade sempre houve um personagem famoso que esteve acompanhado por um cão, gato ou outro animal.

Também há estudos que demonstram que os animais podem beneficiar nossa saúde e inclusive curar doenças.

É por isso que devemos sempre respeitar os animais e, em caso algum, maltratá-los ou abandoná-los a sua sorte.

Um animal não é um brinquedo, e sim um ser vivo com sentimentos e emoções, um amigo fiel que nunca nos falha, então por que nós vamos baldar com eles?

Fonte: meusanimais.com.br


EPÍLOGO

O único amigo desinteressado que um homem pode ter neste mundo egoísta, aquele que nunca o abandona, o único que nunca mostra ingratidão ou traição, é o seu cachorro.” (George Graham Vest)


Cães vira-latas, os melhores amigos....

Falar sobre cães, para mim, é sempre gratificante, afinal, possuo quatro exemplares em minha residência, todos vira-latas, adotados nas ruas periféricas de meu bairro.

Por isso, condói meu coração precisar, eventualmente, agredi-los; no entanto, quando isto ocorreu, foi, apenas, para salvaguardar minha integridade física.

No global, passei por sobressaltos e tribulações em todos os caminhos que percorri no Brasil, pois neles, infelizmente, há muitos cães abandonados que, eventualmente, se tornam agressivos, ante a presença de peregrinos.

Mas, sempre procurei manter um clima de respeito mútuo com esses infelizes ser viventes, abandonados à própria sorte, que muitas vezes me perseguiram, apenas, no intuito de defender seu território ou conseguir comida.

Houve, contudo, animais ousados que tentaram me trincar e contra esses me defendi.

2002 - Caminho do Sol/SP.

Porém, no global, eles persistem sendo meus amigos e motivos de imensa admiração e alegria pelos trajetos que conheci em terras tupiniquins.

Por derradeiro, uma história admirável, de grande enternescência, de autoria da escritora Lygia Fagundes Telles, que gostaria de partilhar com os amigos:

Foi na França, durante a Segunda Grande Guerra. Um jovem tinha um cachorro que todos os dias, pontualmente, ia esperá-lo voltar do trabalho. Postava-se na esquina, um pouco antes das seis da tarde. Assim que via o dono, ia correndo ao seu encontro e, na maior alegria, acompanhava-o com seu passinho saltitante de volta a casa.

A vila inteira já conhecia o cachorro e as pessoas que passavam faziam-lhe festinhas e ele correspondia, chegava a correr todo animado atrás dos mais íntimos para logo voltar atento ao seu posto e ali ficar sentado até o momento em que seu dono apontava lá longe.

Mas eu avisei que o tempo era de guerra, o jovem foi convocado. Pensa que o cachorro deixou de esperá-lo? Continuou a ir diariamente até a esquina, fixo o olhar ansioso naquele único ponto, a orelha em pé, atenta ao menor ruído que pudesse indicar a presença do dono bem-amado. Assim que anoitecia, ele voltava para casa e levava sua vida normal de cachorro até chegar o dia seguinte. Então, disciplinadamente, como se tivesse um relógio preso à pata, voltava ao seu posto de espera.

O jovem morreu num bombardeio, mas no pequeno coração do cachorro não morreu a esperança. Quiseram prendê-lo, distraí-lo. Tudo em vão. Quando ia chegando àquela hora ele disparava para o compromisso assumido, todos os dias. Todos os dias.

Com o passar dos anos (a memória dos homens!) as pessoas foram se esquecendo do jovem soldado que não voltou. Casou-se a noiva com um primo. Os familiares voltaram-se para outros familiares. Os amigos, para outros amigos. Só o cachorro já velhíssimo (era jovem quando o jovem partiu) continuou a esperá-lo na sua esquina, com o focinho sempre voltado para aquela direção.

Fonte: https://www.pensador.com

Bom Caminho a todos!

Dezembro/2017