2026 - CAMINHO DE SANTIAGO FRANCÊS – BURGOS a SANTIAGO DE COMPOSTELA: 504 QUILÔMETROS EM 20 JORNADAS
“Eu não fazia ideia, ao iniciar minha peregrinação solitária, de quantos amigos queridos eu faria.” (Helen Burns)
2026 - CAMINHO DE SANTIAGO FRANCÊS – BURGOS a SANTIAGO DE COMPOSTELA: 504 QUILÔMETROS EM 20 JORNADAS
“Eu não fazia ideia, ao iniciar minha peregrinação solitária, de quantos amigos queridos eu faria.” (Helen Burns)
Após um longo e necessário período de repouso, decorrente de uma delicada cirurgia na coluna cervical, realizada no início deste ano, decidi testar meus limites voltando ao Caminho de Santiago. Contudo, por questões de saúde, logística e disponibilidade de tempo, optei por iniciar a jornada em Burgos — cidade que dista, aproximadamente, cerca de 500 km da Catedral de Compostela.
Este segmento abrange os trechos central e final do Caminho Francês, marcando a transição das vastas planícies de Castilla e León para o relevo acidentado da Galícia. Ao deixar Burgos, a rota atravessa a aridez da meseta, uma região plana e seca onde o sol forte e a escassez de sombra são desafios constantes. Contudo, à medida que a jornada se aproxima do destino, o cenário se transforma: o horizonte ganha tons de verde, as montanhas se elevam e o ar torna-se mais fresco, trazendo consigo a maior probabilidade de chuva típica das terras galegas.
Os relatos dos peregrinos que percorreram esse excerto narram uma jornada de contrastes: se, por um lado, o corpo padece sob o rigor de dores agudas e o suplício das bolhas, por outro, a alma se revigora diante de paisagens arrebatadoras. É um percurso traçado entre o cansaço e a introspecção, onde a obstinação pessoal supera as fragilidades físicas. Tudo converge para o momento em que o esforço se dissolve na emoção da chegada a Santiago — um desfecho tão marcante que torna as agruras do caminho pequenas diante da grandeza da conquista.
Em Burgos, diante da Catedral, na véspera da partida.
REFLEXÕES SOBRE O CAMINHO
“Percorrer o Caminho de Santiago é uma metáfora para a própria vida.” (Shirley MacLaine, O Caminho de Santiago: Uma Peregrinação de Coragem)
O Caminho de Santiago é, acima de tudo, um exercício de desprendimento. Ali, sua mochila é sua única morada. É comum ver peregrinos começando a jornada com excessos, mas as costas logo sentem o peso do desnecessário. O que se vê a seguir é um processo de exaustiva depuração: as bagagens vão encolhendo conforme as pessoas entendem o que realmente importa. Muitas coisas são abandonadas, doadas ou despachadas para Santiago. E todos acabam por descobrir que o essencial cabe em pouco espaço e que a felicidade, a amizade e a superação não dependem de acúmulos.
Outra coisa importante a ressair, é que enquanto avançamos em direção a Santiago, a cronologia convencional simplesmente se esboroa. Ali, o tempo não se mede em minutos, mas em resistência: você anda até o corpo cansar, e repete o ciclo no dia seguinte. À noite, o sono chega avassalador, contudo, às 5h, o despertar soa natural. Nessa saudável rotina, o relógio torna-se um acessório inútil diante da sabedoria do corpo. No meu caso, foram 20 dias que, na intensidade de cada passo, valeram por uma existência. Em cada curva da estrada o cenário mudava e uma nova história se escrevia.
Essa liberdade de movimentos e horários, porém, não vem sem a superação. A dor é real — bolhas, inflamações e exaustão física. Mas o Caminho retira o peso do "sacrifício" e transforma o desconforto em pedagogia da paciência. Como aprendi com pessoas maduras, com mais de 60/70 anos: o segredo não é o preparo físico, mas o ritmo. Enquanto jovens atléticos sucumbiam por lesões, a serenidade e constância permitia que os "improváveis" chegassem. Como no meu caso, por exemplo.
Tudo isso deságua no encanto, na fé e na espiritualidade. Não é que o Caminho seja místico por si só; nós é que nos tornamos sensíveis. São quilômetros de meditação e introspecção onde a conversa com o Divino flui sem filtros. A "magia" — o pensar em alguém e a pessoa aparecer, o desejar algo e aquilo se manifestar — é o reflexo de um coração que se abriu. Saímos do Caminho com a certeza de que a dor pode ser prazerosa quando tem propósito, e que a maior jornada não foi a que fizemos com os pés, mas a que percorremos para dentro de nós mesmos.
Em plena "meseta", próximo de Carrión de los Condes.
O MEU CAMINHO!
“Todos os pensamentos verdadeiramente grandiosos são concebidos caminhando.” (Friedrich Nietzsche)
Belo! Desafiador! Inesquecível! Em tal tríade de atributos ouso sintetizar a jornada que empreendi, fundamentado em minha própria vivência peregrina.
Belíssimo, pois o itinerário é constelado por paisagens, monumentos e vilarejos cujos habitantes e cenários superam-se em beleza a cada passo. Para o entusiasta da natureza, talvez não exista locais de tamanha magnificência. Desde as vastidões de Castilla — que, embora imponham uma cadência monótona ao caminhante, desvelam o lirismo dos verdes trigais em suas planuras — até a imponência de cidades de cidades como Ponferrada e Astorga. Sem olvidar, decerto, a soberania de capitais como Burgos e León, cujas catedrais colossais parecem rivalizar em transcendência e magnitude. Aldeias de pedra, cujos balcões floridos emanam um encanto rústico, impõem ao peregrino um silêncio contemplativo.
A exuberância da Galícia, manifesta-se em um verde denso que por vezes assoma sobre a senda, parecendo conspirar para retardar o passo, como se a própria natureza quisesse prolongar nossa travessia por locais tão místicos. Rios de águas cristalinas fluem em um ritmo perene, enquanto mosteiros e edifícios seculares testemunham a pretérita relevância de vilarejos que o tempo reduziu à pequenez. O Caminho, em sua essência, não permite a indiferença; justamente quando o olhar julga ter exaurido toda a beleza possível, desponta um novo horizonte, capaz de renovar o assombro e a admiração.
Em León, diante de sua majestosa Catedral.
A empreitada naturalmente é desafiadora, pois o itinerário assim o exige. Percorrer a maior parte do trajeto por trilhas e caminhos vicinais impõe entraves: uma sucessão de aclives e declives, leitos pedregosos e o lodaçal que se forma sob a chuva. Há descensos vertiginosos que exigem tanto dos joelhos como dos pés, bem como subidas como a do Alto de Mostelares, com sua inclinação severa, seguida por abrupta e criminosa declivência. Recordo-me bem da temida ascensão ao O Cebreiro: oito quilômetros de esforço ininterrupto sob renitente garoa, ou do Alto de Foncebadón, a 1.500 m de altitude, onde o frio extremo anestesiava o rosto e as mãos, tornando os quilômetros sequentes até Molinaseca, uma prova de resistência física e mental. Contudo, as agruras do percurso são logo eclipsadas pela memória das vivências luminosas, que se gravam na alma com muito mais vigor. Por tudo isto, aos que pretendem trilhar este roteiro, recomendo um preparo prévio, ainda que mínimo, para que o imprevisto não interrompa o seu sonho de concluir a jornada.
Inesquecível, porque esta odisseia grava na memória impressões que o tempo jamais ousará desbotar. Como mencionei outrora, a magnitude das vivências solares reduz as dificuldades do percurso a meras notas de rodapé. A fraternidade que emerge entre os peregrinos — almas outrora desconhecidas, oriundas de horizontes culturais diversos — opera uma sutil metamorfose no caráter: torna-nos seres mais íntegros. Sob a égide do Caminho, a existência simplifica-se e as urgências do mundo moderno perdem sua gravidade. Ali, o desprendimento é a regra; oferece-se o auxílio sem a expectativa do retorno. Desperta-se, enfim, para a compreensão de que a plenitude dispensa o acúmulo e que o consumismo frenético ao qual somos condicionados revela-se, diante da estrada, um fardo perfeitamente prescindível.
Ultrapassando a Cruz de Ferro: momento sublime!
Em meu íntimo, o Caminho atuou como um catalisador, revelando que a consecução de qualquer objetivo está ao meu alcance, desde que a ele eu dedique uma vontade inabalável, apesar de minha idade. A jornada — em especial quando trilhada em solitude — torna-se uma escola de alteridade, ensinando a arte de cultivar laços e conectar-se com as mais diversas subjetividades. Estabelece-se uma autêntica comunhão, onde o ouvir e o ser ouvido se equivalem. Por fim, o Caminho consagra a lei da reciprocidade: compreende-se que o auxílio ao próximo é o alicerce para que, no momento da própria fragilidade, encontremos também uma mão estendida.
Em última análise, meu conselho àqueles que nutrem o desejo de trilhar esta senda é singular: prescindam da pressa. Permitam-se degustar cada instante e cada cenário com a devida reverência. Deixem-se cativar pelas gentes e pela riqueza de suas narrativas. É preciso, por vezes, abraçar o rigor do sofrimento físico para que possamos reconhecer a privilegiada existência que desfrutamos no cotidiano — mundo este que, embora seja alvo constante de nossas queixas, revela-se magnânimo após o sacrifício. Como eu sempre afirmo, trata-se de uma experiência que desafia a exatidão das palavras; uma vivência que, uma vez inscrita no coração, torna-se eterna.
Daqui, restam 100 km para Santiago. Quase lá!
Finalizando, diria que o ápice de toda a peregrinação se condensa nos 10 minutos que sucedem à chegada na Plaza del Obradoiro, selando o desfecho da jornada. Naquele instante, somos arrebatados por uma miríade de sensações que desafiam o léxico e se fixam na memória de forma implacável. Sobrevém, primeiramente, a consciência de se ter consumado algo extraordinário — um triunfo pessoal que, embora possa parecer trivial aos olhos alheios, carrega em si a densidade da superação. Quase ao mesmo tempo, irrompe-se um amálgama de euforia e melancolia: a exaltação pela conquista entrelaça-se à tristeza pelo encerramento do ciclo.
Nessas frações de tempo irrepetíveis, a memória evoca o rosto dos entes queridos e dos amigos cujo amparo foi o arrimo da caminhada; é o momento oportuno para elevar o pensamento em gratidão pela proteção divina que guiou cada passo. Somos tomados por um fluxo emocional tão intenso que nos reduz a um estado de quase anestesia contemplativa. Por fim, a realidade retoma o seu curso, mas a experiência já se transmutou em essência, gravada perpetuamente no cerne de nossa existência.
E, finalmente, em Santiago de Compostela!
Bom Caminho a todos!
Maio/2026
Minha 23ª Compostela, motivo de muito orgulho e alegria!