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5º dia: CÓRREGOS a CONCEIÇÃO DO MATO DENTRO: 24 quilômetros


CÓRREGOS a CONCEIÇÃO DO MATO DENTRO: 24 quilômetros

 
Levantei-me no horário costumeiro e, após as abluções matinais, me dirigi ao refeitório onde encontrei o café pronto, coado por Dona Gleice, na véspera.

Antevendo dificuldades, comuniquei-lhe na noite anterior que sairia bem cedo. 

Assim, pedi-lhe que deixasse a chave em local visível, para que não precisasse acordar-lá para abrir a porta.

Qual não foi minha surpresa, quando ela me revelou sorridente, que isto seria desnecessário, posto que a começar pelas janelas, nada ali era chaveado, pois, não existia perigo algum. Inclusive, no verão, todos dormem com as venezianas abertas.

Quanta diferença da cidade onde habito, ponderava, enquanto degustava um pão de queijo e sorvia do saboroso líquido preto. 

Esse era um dos principais assuntos que me preocupara quando resolvera caminhar na Estrada Real: a segurança. 

No entanto, sob as bençãos divinas, até ali, não presenciara nenhuma violência, que pudesse me preocupar.




Exatamente, às 5 h 30 min, deixei a Pousada, caminhando lentamente pelo leito empedrado da rua, em direção ao cemitério local. 

Como sempre, o ar estava frígido e uma densa cerração cobria todo o ambiente.

No final do calçamento, quando ultrapassei o último poste de iluminação urbana e adentrei na escuridão, levei um grande susto: inúmeros búfalos vinham em minha direção, tocados por um senhor que, certamente, encaminhava-os para a ordenha diária. 

Ansiosamente, aguardei a passagem daqueles imensos, todavia, pacíficos quadrúpedes. 

Depois, aliviado e recomposto, girei por trás da escola municipal e prossegui caminhando por larga e plana estrada de terra.
 

Difícil descrever minhas sensações, quando aos primeiros albores da madrugada, seguia escoteiro, num roteiro milenar, por onde milhares de aventureiros, trabalhadores, escravos e animais, haviam-me antecedido.


Enquanto refletia sobre tal magnitude, ia respirando deliciado, o ar puro da madrugada, que ainda não permitia devassar todo o espaço contíguo. 

Porém, quanto mais próximo da linha do equador, a transição das trevas para a luz é tão rápida, que deixa pasmos os habitantes de altas ou baixas latitudes.

Estava ainda escuro. 




Mas, como num cenário de teatro, a aurora surgiu com rapidez. 

Os objetos mais próximos, ganharam nitidez, os mais distantes, se destacando, delineando-se, os contornos tomando relevo, surgindo diáfanas as cores.

E quando dei fé, já era dia. 

O sol espiava vermelho igual a boca de uma fornalha, permitindo-me, entretanto, encará-lo, velado que estava, pela imperceptível umidade existente na atmosfera.




A paisagem se transfigurou, tornando-se esplêndida, com o aparecimento de muitas fazendas de gado leiteiro, de ambos os lados do caminho. 

Também, ao longe, grandes serras, com escarpas verdes, compunham um panorama harmonioso e aprazível.

Mais à frente, transpus o rio Santo Antonio, por uma grande ponte metálica localizada no bairro do Gondó. 

Após uma curva, avistei um senhor caminhando calmamente à minha frente, com uma garrafa vazia na mão. 

Ao alcançá-lo, após as apresentações, contou-me que era morador da região e ia buscar leite num sítio próximo.

 


Logo adiante, numa bifurcação da estrada, ele entrou à esquerda, enquanto eu seguia pela via principal. 

Duzentos metros à frente, passei defronte a sede da fazenda, e ali estaquei bruscamente, ao ouvir uma melodiosa música, que tantas vezes me acalentou na época de infância, posto que nasci e fui criado em zona rural: o cantar dos galos, o cacarejar das galinhas, o mugir das vacas, o lamento dos bezerros esfomeados, o grunhir de porcos, o latir dos cachorros, o grito do camarada tocando os animais que entravam em tropel no mangueiro.. 

E, por sobre tudo isto, o ensurdecedor pipilar de inúmeros pássaros pretos, ainda pousados nos coqueiros e arvoredo vizinho, além do alarido das baitacas e tirivas madrugadoras. 

Ao fim de tais divagações, prossegui com o coração em festa. 




O trajeto seguiu plano, agradável, em uma estrada ladeada por densa vegetação. 

À minha frente, amiúde, cortavam o espaço em arabescos graciosos andorinhas e bem-te-vis à cata de insetos, partindo dos altos galhos das árvores, em curtos voos. 


Era a luta pela vida em busca do alimento de que se privaram durante a noite. 

Em consonância, a estrada apresentava pouquíssimo trânsito, onde inúmeros pássaros gorjeavam, num clima fresco, ar límpido. 

Enfim, eu estava, literalmente, num paraíso.


 

Porém, tudo se acabou quando, depois de 14 quilômetros percorridos, às 8 h, acessei a movimentada MG-010, que liga Serro à Conceição do Mato Dentro. 

Naquele trecho, especificamente, uma rodovia de terra, com intenso tráfego de ônibus, caminhões e veículos que, ao passarem por mim, em alta velocidade, deixavam uma densa camada de poeira suspensa no ar por um bom tempo.

 
Virou, literalmente, um inferno meu dia. 

Até, por alguns momentos, passou-me a ideia de esperar algum ônibus, a fim de seguir a Conceição, pois, em todos os pontos havia pessoas aguardando o coletivo.


Porém, apesar das adversidades vividas, ainda era muito cedo e, como alento, o caminho seguia integralmente plano e sombreado. 

Assim, malgrado as ensandecidas partículas de pó que invadiam o vestuário, cabelos e meus pulmões, deixando-me sufocado e afônico, resolvi prosseguir até o final.




Alguns instantes depois, fui alcançado pelo mototaxista que trazia minha mochila, contudo, determinado, recusei sua proposta de carona. 

Outros dois motoristas, em momentos distintos, gentilmente, diminuíram a velocidade de seus veículos para me oferecerem condução, as quais, obstinadamente, recusei.

Foi este, sem dúvida, o pior trecho que caminhei em toda a rota dos Diamantes. Contudo, não há nada que dure para sempre. 

Depois de mais oito quilômetros terríveis, em açodado passo, finalmente, adentrei em asfalto.




Lentamente, sob um sol inclemente e abrasador, transitei por ruas onde o trânsito de veículos revelou-se perigoso, caótico e barulhento, até aportar à área central de Conceição do Mato Dentro, exatamente às 9 h 45 min.

Conta a história desse povoado que em janeiro de 1.701, um grupo de bandeirantes, partindo de Sabará, sob a chefia do Coronel Antônio Soares Ferreira, atingiu, ao fim da jornada, a região conhecida como Ivituruí ou Serro Frio. 

Dentre esses sertanistas, Gaspar Soares, Manoel Corrêa de Paiva e Gabriel Ponce de Leon seguiram em frente, rumo ao sul.




Em 1702, o sertanista Gabriel Ponce de Leon, ao se deparar com a riqueza da região, ergueu uma pequena capela em homenagem a Nossa Senhora da Conceição, iniciando o processo de povoamento em função da descoberta de ouro nas margens do Ribeirão Santo Antônio e seus afluentes. 

Durante todo o século XVIII, o arraial teve sua economia voltada para a mineração. 

Após o término das lavras, o local passou a viver da agricultura de subsistência e da pecuária extensiva.

 John Pohl quando passou pelo local no século XIX, deixou o seguinte relato em seu livro Viagem pelo Interior do Brasil: “este arraial, que está entre as maiores povoações da Capitania, distingue-se dos demais pela sua situação bela e salubre... A outrora abundante produção de ouro deu lugar à fundação deste, cujos grandes edifícios dão testemunho suficiente da antiga abastança dos habitantes. Mas, observa-se, com clareza, a decadência de hoje... O número de edifícios pode elevar-se a 200. Muitos deles assobradados. As igrejas, em número de 4, são todas bem edificadas. Os habitantes que, antes, viviam da extração do ouro, vivem, hoje, geralmente, de suas plantações.” 




Conceição do Mato Dentro possui paisagens diversificadas que variam de serras a vales fluviais pouco ondulados. 

A Serra do Cipó domina o panorama natural a oeste. 

E, está situada numa região divisora das bacias do Rio São Francisco e do Rio Doce, apontada como área de extrema importância biológica.



 
Somando à beleza paisagística da região, estão várias quedas, piscinas e poços naturais de águas cristalinas, provenientes de inúmeras nascentes. 

O destaque fica para a Cachoeira do Tabuleiro, a mais alta do Estado e a segunda de maior altitude no Brasil, com 273 m de queda livre. 

 


Na culinária típica, destaca-se uma gostosa tradição da cidade, o pastel de angu, facilmente encontrado nos bares e restaurantes. 

Se, recheado de carne, é de lamber os beiços. 

Frito na hora e servido bem quente, custa R$ 1,20 e é encontrado no Bar da Lili. 

A proprietária Liliane Silva Pires, não conta o segredo do sucesso, mas diz que ‘‘quebrou a cabeça’’ para obter tal iguaria.




Na cidade fiquei muito bem hospedado, nas amplas e limpíssimas instalações da Pousadinha Adentro, de propriedade de Dona Marília, uma pessoa extremamente amável e atenciosa.

Para almoçar, utilizei os serviços do restaurante “Solar da Lili”, o qual recomendo, pela excelência da diversificação e qualidade de seus pratos, todos preparados em fogão à lenha.




À tarde, após breve descanso, aproveitei para ir ao banco e, também dar notícias pela internet. 

Depois, fui conhecer a famosa igrejinha de Sant’Anna, cuja construção data de 1.744.

Também, como não poderia deixar de acontecer, fui visitar o célebre Santuário do Bom Jesus de Matozinhos, cuja capela original foi inaugurada em 1.750. 




A romaria sempre foi comum nesse local e um dos eventos mais tradicionais do Santuário é a Festa do Jubileu, que ocorre, anualmente, entre os dias 14 e 24 de junho. 

Depois, como precaução, fui conhecer o início da rodovia MG-010, pois, seria por ela que eu prosseguiria no dia seguinte. 

À noite fiz singelo lanche e fui dormir cedo, vez que a jornada seguinte prometia muita emoção, posto que enfrentaria 29 quilômetros em meio à muita vegetação, sem distritos ou locais de apoio intermediários.




AVALIAÇÃO PESSOAL: Uma etapa curta e extremamente agradável até o décimo-quarto quilômetro. Porém, a partir da fusão com a MG-010, toda a beleza do trajeto é substituída, pela preocupação constante com o intenso tráfego de veículos. Talvez, a solução para amenizar a tensão desse opressivo tramo derradeiro, seja embarcar num ônibus que sai do distrito de Córregos, às 8 h, em direção à Conceição do Mato Dentro, como forma de se evitar os dissabores decorrentes da inexistência de piso asfáltico no trecho em que a rodovia se confunde com o traçado da Estrada Real.