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4º dia: RIO DOS CEDROS à BENEDITO NOVO – 24 quilômetros


4º dia: RIO DOS CEDROS à BENEDITO NOVO – 24 quilômetros



“Mesmo que seja ir apenas até o final de uma rua, tenho uma aversão mortal a regressar sem saber mais do que quando parti.” (Laurence Sterne)


 

“Nesse dia você conhecerá e apreciará lindas paisagens bucólicas. No caminho é difícil encontrar bares e lanchonetes, portanto, prepare-se com lanches. Desfrute o dia interagindo com a natureza. Neste percurso, você encontrará o homem na lida do campo, sendo constante a presença de muitos pássaros, borboletas e outros pequenos animais nas árvores, flores e riachos. O verde será uma companhia frequente durante todo o dia. A estrada de chão, 90% da caminhada, deixará você perplexo com tantas paisagens, fauna e flora. A Região de São Bernardo e Rio Cunha são, em sua totalidade, de colonização italiana; percebe-se o legado desses imigrantes por toda a parte, seja pelo dialeto italiano ou pelo modo de viver. Quando chegar a Benedito Novo verá o quão pródiga é a natureza.” (Extraído do livro guia do roteiro, que é entregue ao caminhante quando da retirada da credencial, em Indaial/SC)


 

Como sempre, levantei-me bastante cedo, e resolvi sair às 5 h 30 min, ainda no escuro, como forma de amenizar o sol abrasador que se prenunciava para aquele dia.

Enquanto ingeria uma banana e uma barra de chocolate, tentava esquecer os sonhos que tivera durante a noite, pois estavam mais propriamente para pesadelos,

Na realidade, é comum eu sonhar com situações bastante confusas quando faço este tipo de “viagem”, talvez por dormir em vários lugares diferentes, cada um com sua energia e histórias de vidas passadas.

Não sei bem a razão e não sei, também, se isso ocorre com outras pessoas.

De qualquer forma, eu havia avisado ao proprietário do hotel, o Sr. Osmar, de minha intenção de madrugar naquele dia, e na hora aprazada, ele estava a postos para abrir a porta e me deixar partir, não sem antes me desejar uma ótima caminhada.

Eu me encontrava do lado oposto da cidade, relativamente ao início da etapa, de forma que caminhei aproximadamente 2.000 metros, por ruas vazias e silenciosas, até aportar defronte à Pousada Mi Casa, local onde teria me hospedado no dia anterior se ela não estive sua lotação completa.

Então, segui mais 100 metros, e logo as flechas me direcionaram para a direita, onde logo adentrei em terra, seguindo em direção ao bairro de São Bernardo.



O trajeto se tornou levemente ascendente e logo um riacho barulhento passou a correr pelo meu lado esquerdo, em meio a mata fechada.

Aliás, nesse local, aonde o precioso líquido turbilhona fresco e puro, é feita a captação da água que serve a população da cidade de Rio dos Cedros.

Eu seguia atento à sinalização, porque quando caminhamos por lugares ermos, a preocupação com a navegação é grande, pelo risco de se perder.

Mas é uma sensação única, essa de cruzar a pé longas distâncias.

Sair de uma cidade, ver terminar a área urbana, sair da periferia para área rural, encontrar a trilha de terra e começar a ver as montanhas, o horizonte, muito chão passando sob nossos pés.



Quilômetros e mais quilômetros, sobe, desce, atravessa aquela serra que a gente viu dois dias antes – e que pensávamos fosse intransponível – e aí chegar a nova área periférica, casinhas humildes, postes de luz, calçamento e outra zona urbana, já de outra cidade.

É mágico, a gente se sente grande... muito maior do que supúnhamos.

E o mais importante é saber que tudo isso vai acontecer de novo amanhã, até que toda aquela linha que observamos em nossos guias, dias ou semanas antes, seja toda percorrida.

Alguma coisa acaba por explodir dentro da gente e nos faz sentir que não temos mesmo limites, e que a liberdade é real, pois: “Longe é um lugar que não existe...!”

 


O percurso seguiu sempre em meio a muito verde e, uma hora depois, quatro quilômetros percorridos, passei diante da igreja de São Bernardo, localizada no centro do bairro homônimo.

A partir desse marco o trajeto encrespou, e enfrentei duro ascenso, até atingir o patamar de 450 metros de altitude, o ponto de maior altimetria dessa etapa.



Na parte final da elevação, encontrei muitas hortênsias plantadas nas laterais da estrada, o que me deu um estímulo extra, por conta da beleza ali estampada.

Depois, passei a caminhar pelo cimo de um morro, tendo um paredão rochoso pelo lado esquerdo, porém podia divisar ao longe e abaixo, pelo lado direito, um imenso e maravilhoso vale, pleno de arrozais.



Mais à frente, fiquei sabendo que se tratava do bairro de Alto Cedro, cuja população é predominantemente alemã.

Pude observar uma infinidade de pássaros nesse trecho, alguns multicoloridos e de mavioso canto.

Já descendendo, encontrei um trabalhador com uma enxada na mão, fazendo manutenção na estrada, o Sr. Aírton, e passamos um bom tempo conversando.



Contou-me que sua família, mais especificamente, seu bisavô, era procedente da região de Trento, na Itália, e que a região por onde eu transitaria, na sequência, também tinha a predominância de descendentes dos “Trentinos”.

Falou-me, ainda, de seus hábitos, religiosidade e como era o seu dia a dia naquele local bucólico, campestre, integrado à dura vida do campo.

Foi um diálogo pungente e emocionante, porém eu ainda tinha muito chão pela frente, assim após fraternais despedidas, segui adiante e, mais mil metros caminhados, passei diante da igreja do bairro de Rio Cunha.



A paisagem desse trecho é integralmente silvestre, com grandes capões de mata nativa pastagens verdejantes, coqueirais, enfim, um colírio para os olhos.

A me ladear no trajeto, pelo lado direito, o belíssimo rio Cunha, que nomima o bairro homônimo.

Nesse percurso agreste, foi possível imaginar que os primeiros desbravadores da região utilizaram o curso dos rios e ribeirões para adentrarem à densa mata existente naquela época, no início da colonização do vale do rio Itajaí-Açú.

Após a escolha de suas futuras propriedades, iniciaram a derrubada da floresta, implantação de meios de comunicação, plantações e criação de animais.



Geralmente, as estradas acompanham os cursos d’água, sendo que este roteiro também é conhecido como do Vale das Águas, por esta proximidade entre rios e caminhos.

Na sequência, passei por pequenas propriedades rurais com seus animais domésticos e criação de peixes em lagoas, pequenas plantações e algumas indústrias, igrejas e casas enxaimel.



O percurso prosseguiu sempre em perene e agradável descenso e, depois de 14 quilômetros vencidos, passei pelo bairro de Cruz e Souza, que pertence à cidade de Benedito Novo.

Trata-se de lugar onde existem inúmeras residências, bares e, inclusive, um grande supermercado.

Nesse trecho eu caminhei primeiramente, sobre calçadas, depois, mais abaixo, sobre paralelepípedos, até desaguar, numa rodovia.



Ali, contornei um posto de gasolina, depois prossegui à direita, pelo acostamento asfáltico, num trecho onde havia intenso tráfego de veículos.

Porém, mais 1.500 metros vencidos, as flechas me direcionaram para a direita, e passei novamente a caminhar em terra, num percurso levemente ascendente.

Este trecho final é de rara beleza, pois acompanhei por quase uma hora o curso do Rio Benedito, encachoeirado e com forte correnteza, que me ladeou o tempo todo pelo lado esquerdo.

E, por algum motivo especial, eu adoro ver rios, porquanto água é vida, correnteza, movimento.



Segundo Anaxágoras, filósofo grego, que viveu alguns séculos antes de Cristo, o mundo tem uma grande alma e nós estamos para a alma do mundo assim como cada gota de água está para o mar.....

O percurso prosseguiu bucólico e silencioso, mas nesse horário o sol já crestava com força, de forma que fiz uma breve pausa debaixo de uma sombra, para me hidratar e renovar meu protetor solar.

Retomando a caminhada, notei que a estrada seguia serpeando, se desviando de rochas, mas ainda em meio a muito verde, com o piso impregnado por terra preta, possivelmente, resíduos de massa asfáltica.

 


Finalmente, já no bairro Santa Maria, encontrei uma bifurcação e, obedecendo às flechas, dobrei à esquerda.

Logo surgiu uma ponte de concreto, por onde eu transpus um pequeno braço do rio Benedito, depois prossegui à direita, agora em íngreme ascenso.

Devido ao adiantado da hora e o calor reinante, foi bastante puxado esse trecho final, até que, já no alto do morro, onde existia outra bifurcação, eu prossegui à esquerda, agora já em área urbana.



Mais 1.000 metros percorridos, eu adentrei à uma ponte pênsil, por onde atravessei o caudaloso rio Benedito.

Já do lado oposto, tomei informações numa lanchonete, e logo adentrava ao Hotel e Restaurante Colher de Ouro, estabelecimento onde fiquei hospedado.

A Sheila, co-proprietária do local, foi quem me deu as boas vindas e que me destinou um quarto excelente e arejado, onde pude desfrutar de um revigorante banho, antes de lavar minhas roupas.

Almocei no mesmo estabelecimento, e pude comprovar que tanto a comida quanto o atendimento foram irrepreensíveis.

 


Segundo registros do Professor Julius Scheidemantel e do Pastor Nelson Weingäertner, constam referências sobre “O Rio Benedito ou Benedicto” - Benedicto em latim significa “o abençoado”.

Assim, devido a sua riqueza em peixes, esse seria o responsável pelo nome da cidade Benedito Novo.

No início da colonização, segundo documentos depositados na pedra fundamental da Igreja Evangélica Luterana de Benedito Indaial, as novas terras demarcadas receberam o nome “Benedito Linha Nova”.

Mas, já em fins de 1890, esta denominação foi alterada pela primeira e última vez em Benedito Novo.

Segundo a versão popular o nome do município de Benedito Novo originou-se da homenagem dos fundadores a um escravo foragido, de nome Benedito, uma pessoa muito generosa e prestativa.


Igreja matriz localizada em Alto Benedito, um distrito de Benedito Novo/SC.

Benedito, o novo, “filho” do velho Benedito, pode ter sido muito útil aos considerados, pioneiros da fundação do Município: Joseph Peyerl, Johan Maus e Anton Werling. Exímio canoeiro, auxiliou os imigrantes, que, em agradecimento a ele, nomearam o local com seu nome.

A região que hoje abrange o município de Benedito Novo fez parte da área de colonização de Frederico Donner.

Após demarcar Timbó, ele começou a explorar a região do Rio Benedito e estabeleceu alguns colonos nas confluências dos Ribeirões conhecidos por Dona Clara, Santa Rosa, Russos, Tigre e Antas.

Sua exploração se deu até a comunidade de Salto Donner, atual município de Doutor Pedrinho.

De acordo com os documentos já citados, de Scheidemantel e Weingäertner, os pioneiros da colonização de Benedito Novo foram alemães das Províncias da Saxônia, Mecklemburgo, Pomerânia, Brandemburgo e Baden.

Data-se o período dessa colonização entre 1876 a 1891.

Atualmente, a cidade de Benedito Novo conta com 11.000 habitantes.

 


Na verdade, o lugar onde eu estava hospedado se situa em Alto Benedito Novo, que é um bairro da cidade de Benedito Novo, e está distante 6 quilômetros de sua sede.

Ali praticamente nada há, além de uma igreja luterana, o hotel onde me hospedei, um posto de gasolina, alguns bares, e um sortido supermercado, onde pude me prover de víveres.

A dificuldade maior foi encontrar o local por onde eu deixaria a povoação no dia seguinte, pois a maioria das pessoas a quem pedi informação desconhecia a sequência do roteiro.

Inclusive, os atuais proprietários do Hotel e Restaurante Colher de Ouro, pois eles assumiram o encargo do estabelecimento há menos de um mês, e residiam anteriormente em Blumenau.

Porém, após muita pesquisa e checagem, encontrei a primeira flecha da etapa seguinte e fiquei bem mais tranquilo.

À noite, acabei por ingerir uma frugal refeição constituída por omelete e salada, preparada pela Sheila, uma pessoa simpática e que trata muito bem seus hóspedes.

E logo fui dormir, pois, em face do calor reinante naquele dia, eu me sentia bastante desgastado.

 


IMPRESSÃO PESSOAL: Uma jornada agradável, plena de muito verde, representada pela mata nativa que orla mais da metade do percurso, além da companhia de inúmeros rios e ribeirões que ladeiam boa parte do trajeto. A se lamentar, apenas, a força do sol, que me crestou sem piedade após as nove horas da manhã. Mas a acolhida que tive no local de pernoite compensou todo o desgaste físico que o percurso me impôs.