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3º dia: SERRO a ITAPANHOACANGA: 35 quilômetros


SERRO a ITAPANHOACANGA: 35 quilômetros  

 
Acordei, como de praxe, às 4 h 30 min e o aroma capitoso do café no ar sendo coado na cozinha, pôs-me rapidamente para fora da cama. 

Exatamente, às 5 h me dirigi ao refeitório e, ali, ingerindo seu desjejum, encontrei uma hóspede, a Sra. Selma, que era professora de uma Universidade em Belo Horizonte.

Como forma de entabular conversa, perguntei ao funcionário da noite, o Sr. Júlio César, sobre o trajeto que deveria percorrer naquele dia e, sem maiores delongas, o Claudio, motorista que acompanhava a catedrática mineira, entrou na conversa e instalou-se novamente a polêmica.




Ambos eram concordes de que eu deveria seguir em direção à Conceição do Mato Dentro, contudo, divergiam radicalmente na quilometragem desse trecho. 

O primeiro dizia que o montante a ser percorrido montava 25 quilômetros, enquanto que o outro mensurava tal percurso em quase o dobro dessa distância.

Assim, agradeci os dois pelos conselhos, e parti, exatamente, às 5 h 15 m, disposto a cumprir o que eu havia estabelecido na noite anterior.

Uma neblina espessa cobria toda a cidade, fazia bastante frio, e pelas ruas circulavam inúmeras pessoas, certamente trabalhadores rurais. 

O pessoal da limpeza urbana, já a postos, varria vigorosamente o chão empedrado.

Desci uma ladeira calçada por paralelepípedos e, num cruzamento, observei atentamente as placas indicativas. 

Confiante, rumei, à esquerda, tomei a direção do município de Alvorada de Minas, e prossegui em frente, com passadas decididas.
 
Quinhentos metros adiante, findou-se o asfalto e, junto com ele, a iluminação urbana. 

Por azar, minha lanterna de bolso resolveu fazer greve. 

Assim, lentamente, fui caminhando pela escuridão, tentando vislumbrar o que havia pela frente.

Numa baixada, avistei duas grandes sombras assentadas sobre o piso da estrada. 

Bem poderia ser uma pedra, pensei, mas, também, algum animal extraviado. Indeciso e temeroso, estaquei e resolvi aguardar a luz matinal.

Por sorte, um senhor me alcançou, desmontou da bicicleta e contou-me que ia trabalhar numa fazenda próxima, como fazia todos os dias, onde era ordenhador.

Prontamente identificou as manchas como dois bovinos desgarrados, mas que, segundo ele, não ofereciam perigo. 

Cuidadosamente, ladeamos as reses e prosseguimos adiante, por uma empinada ladeira.

Já no topo, numa bifurcação, ele montou na “magrela”, despediu-se, e seguiu à direita. 




Eu, tomei à esquerda e, logo à frente, encontrei o primeiro marco do Caminho quando era, exatamente, 5 h 43 min.

Acessei, então, uma larga estrada enlameada, fruto de recente movimentação de terras em seu leito, pois, a mesma se encontra em obras visando seu asfaltamento. 

Também, muito trânsito de máquinas, caminhões pesados e carretas, todos pertencentes à Companhia responsável pelo assentamento do piso asfáltico.

O percurso prosseguiu plano e agradável, pois, o clima mantinha-se úmido e frio. 




Alguns quilômetros à frente, encontrei com algumas crianças que aguardavam o ônibus escolar que as levaria até a cidade de Serro.

Mostraram-se simpáticas, assim, conversamos um pouco e batemos algumas fotos. 




Apenas, uma cadela que as acompanhava, de nome Susy, não quis amizade e permaneceu o tempo todo rosnando, com seus olhos ameaçadores.


 
 
Pós 9 quilômetros percorridos, infelizmente, iniciou-se o asfalto, e eu prossegui caminhando por diminuto acostamento, em sentido contrário ao fluxo de veículos, num percurso duro e sem maiores atrativos.




Finalmente, às 8 h 30 m, 19 quilômetros percorridos, adentrei na parte urbana da pequeníssima Alvorada de Minas, município com uma população estimada de 3.500 habitantes.



   
Numa pequena praça, onde está localizado o prédio dos Correios, encontrei muitas pessoas conversando, alguns sentados em bancos improvisados, outros na porta de bares. 

Estávamos numa segunda-feira e, embora a maioria fosse de jovens, não pareciam preocupadas ou que se dirigiam ao labor diário.




Seriam, por acaso, integrantes do polêmico programa governamental “Bolsa-Família”, criado no governo do presidente Lula, conjecturei? 




Por outro lado, inferi, talvez estivessem aguardando para participar de alguma reunião pública.
 
 
 


Mais acima, passei defronte às singelas igrejas de São José e de outra, dedicada a Nosso Senhor dos Passos, ambas em estilo barroco e vestidas de pintura nova.




A saída para Itapanhoacanga se faz por uma larga estrada de terra, em grande ascensão. 

Depois, o trajeto continua por uma senda bem demarcada, entre extensas fazendas, que se dedicam à criação de gado.

Após longo e acentuado declive, quando caminhava por um espaço agradável e integralmente arborizado, fui alcançado pelo mototaxista Didi, que transportava minha mochila. 

Cumprimentou-me com efusão, embora se mostrasse um tanto afoito, pois, ainda faria outro carreto mais tarde, desta vez em direção à Diamantina.



 
     
Mesmo assim, tivemos tempo para conversar e ele registrou uma foto minha “descendo a ladeira”, literalmente. 

Depois, seguiu em frente acelerado.

Continuei caminhando, rodeado por densas florestas. 

Em volta a magia do universo foi se revelando de várias formas. 

Árvores maravilhosas, pássaros gorgeando, formigas passeando apressadas. 




No fundo de um vale, avistei singela casinha verde ao lado de um canavial, numa perfeita sintonia com o ambiente.

Mais abaixo, iniciou-se forte e longa subida, com uma extensão de aproximadamente três quilômetros. 

Já no topo, ainda bastante extenuado, pude visualizar à minha direita, ao longe, os povoados de Mato Grosso e Capelinha.

 
 


A partir dali enfrentei longa descida que se prolongou por um bom espaço de tempo, num trajeto agradável, fresco e extremamente arborizado. 

Todo o trecho é marcado pelo aparecimento da fascinante Mata Atlântica, que está circunscrita e integralmente preservada, no espaço demarcado por centenárias fazendas, em estilo colonial.
 
Mais à frente, encontrei uma bifurcação e, indeciso, em face das placas conflitantes existentes no local, acabei me confundindo quanto à sequência, o que me induziu a grave equívoco em meu rumo. 





Porque, naquele local, duas estradas se unem e o marco da Estrada Real se encontra fincado, estrategicamente, sob um barranco, exatamente, no centro da referida fusão.

No meu sentir, o tótem da ER mostrava a direção, num ângulo de 180º em relação ao caminho por onde eu trilhava. 

Bastante estranho, raciocinei. 

Contudo, se naquele momento tivesse consultado a planilha que portava, encontraria justificativa para tal ocorrência, pois, na verdade, eu trafegava pela rodovia MG 10, que segue para Conceição do Mato Dentro.

No entanto, avistei duas pessoas conversando mais abaixo e para ali me dirigi, indagando-lhes sobre o caminho para Itapanhoacanga. 

Prontamente, me disseram que eu deveria prosseguir em frente. 

Inclusive, um deles, disse que morava logo adiante e me faria companhia.

Confiante, seguimos proseando por uma estrada plana e espessamente arborizada, num excelente ritmo, pois, o tempo continuava nublado e o sol ainda não havia aparecido, apesar do adiantado da hora.
 
O meu interlocutor, conforme me contou, residia num local próximo e estava construindo um mangueiro em sua propriedade. 

Naquele dia também vinha a pé desde Alvorada de Minas, pois ainda não possuía condução própria e perdera o coletivo matutino.


 

Contou-me que nas matas circunvizinhas, avistadas dali, existia muito bicho de pêlo e pena, embora fosse a caça terminantemente proibida. 

Ele, no entanto, amiúde, fazia incursões secretas por aquelas grotas e sempre retornava com alguma ave ou animal morto, como jacus, tatus ou capivaras, espécimes abundantes na região, fruto de suas armadilhas. 

E, que, incontinenti, eram caprichosamente preparados como alimento.
Depois de uns 4 quilômetros percorridos em agradável conversação, ao atravessarmos uma ponte sobre o rio das Pedras, dei-me conta de que há tempos não avistava um marco da Estrada Real. 

Comentei tal preocupação com meu amigo, porém, ele prontamente me tranquilizou, afirmando que estávamos no rumo certo.

Finalmente, chegamos à entrada para o seu sítio e, daquele local, ele me mostrou uma placa logo adiante, que indicava a entrada para o meu objetivo final naquele dia.



 
Despedimos-nos como velhos amigos e, logo à frente, obedecendo a sinalização, fleti à direita, seguindo por larga estrada de terra, em íngreme ascensão. 

Já no topo avistei o pequeno povoado para onde me dirigia. 

Mais alguns quilômetros percorridos celeremente e, às 11 h 30 min, eu adentrava à pequeníssima povoação de Itapanhoacanga. 




Ali, fiquei hospedado na Pousada Estrada Real, uma construção térrea, bastante simples e despojada. 

Todavia, por ser o único estabelecimento do gênero no local, necessita ser reservada com razoável antecedência.

Ocorre, que o estabelecimento fornece comida e habitação para trabalhadores de uma grande mineradora existente nas imediações, assim, está quase sempre com sua lotação completa. 

A Érica, gerente da Pousada, cuida sozinha da faxina, lavagem de roupas, consertos, reservas e toma todas as providências para o bom andamento do lugar. 




E, ainda cozinha divinamente bem, pois, foi ali que almocei, depois de longo e reconfortador banho.

À tarde, pós necessário descanso, saí para caminhar pela única rua desse simpático distrito, pertencente à Alvorada de Minas. 

Aliás, numa análise apenas visual, ele me pareceu maior que sua Sede.

Itapanhoacanga, que em tupi-guarani significa ‘‘pedra-cabeça-de-negro’’, segundo a história, foi um dos mais ricos garimpos de ouro do Serro Frio. 


 
 
João Simões, antigo negociante do lugar, figurou entre os homens mais abastados da Capitania, em 1746. 

O local foi um antigo pouso da Estrada Real, que ligava Serro Frio a Ouro Preto, passando por onde hoje se encontra a rua principal do distrito. 

Por lá transitaram governadores, tropas, garimpeiros e tropeiros, além de viajantes como John Mawe, em 1808, e Saint-Hilaire, em 1816, entre vários outros pesquisadores

Próximo do centro da vilazinha está localizada a igreja de São José, tombada pelo IPHAN. 




Trata-se de uma construção de 1.746, que se encontrava fechada. 

Então, me dirigi para o alto de uma colina, onde está fincada a igrejinha de Nossa Senhora do Rosário.


 

Após profícua visita, fotos e orações, retornei lentamente, matutando sobre um problema que estava a me atazanar. 

Pois, veterano caminhante, sentia falta de um cajado para me auxiliar nas jornadas.

Entretanto, apesar de atentas observações, não localizara, até ali, nada que pudesse me servir de escudeiro. 

Assim, em todos os locais por onde transitava, ia avaliando cercas, quintais, árvores, numa incessante busca por aquilo que eu tanto necessitava.

Mas, foi no jardim de uma casinha simples, de janelas azuis, que verifiquei existirem vários paus cortados, de razoáveis dimensões e peso, então, inferi, que talvez a solução de meu problema tivesse chegado ao fim.
 



Bati palmas e uma humilde senhora de nome Antônia, me atendeu à porta. 

Depois de explicar-lhe o motivo de minha vista, convidou-me a entrar e, no melhor estilo da hospitalidade mineira, serviu-me um café, acompanhado de bolo e pão de queijo.

Em seguida, quis saber sobre minha aventura, origem, família, etc.. 

Finalmente, mandou que escolhesse o varão que melhor me aprouvesse. 

E o fiz, analiticamente, optando por um bastão fino e nodoso, porém, leve e reto.

Feliz com a aquisição, agradeci-lhe vivamente o presente, despedi-me, e, no retorno, passei por uma mercearia para me prover de frutas e água para a jornada seguinte.




Depois, tomei informações com moradores locais e segui até a saída do povoado, início da demarcação da Estrada Real, já antevendo as dificuldades que enfrentaria na jornada subsequente.



 
À noite, constatei que no jantar, a Érica preparara, exatamente, aquilo que eu desejava ardentemente ingerir: “canjiquinha com carne de porco”. 




Estava, simplesmente, deliciosa a refeição. 

Algumas amigas da jovem vieram visitá-la e no final jantamos todos ao redor do enorme e fumegante fogão à lenha.

Apesar da precariedade da habitação, que necessita urgentemente de algumas reformas estruturais, foi um dos locais de pernoite em que melhor me senti, graças ao calor humano e a amizade reinante. 




Nesse contexto, Itapanhoacanga será sempre motivo de grata e perene lembrança, em meu imenso relicário de inesquecíveis recordações.

Mais tarde, pronto para dormir e revivendo as emoções do dia, fiz uma análise mais contundente sobre meu erro de direção, quando na bifurcação existente no oitavo quilômetro, a partir de Alvorada de Minas, durante a jornada daquele dia. 

Acredito que em relação ao roteiro demarcado, deixei de anotar acréscimos em termos métricos. 

Contudo, infiro que no caminho por onde onde trilhei, tenha me desgastado mais, face aos acidentes geográficos que precisei vencer.




AVALIAÇÃO PESSOAL – Uma etapa de média dificuldade, mormente pelos 12 quilômetros antecedentes ao município de Alvorada de Minas, trilhados em duríssimo asfalto. Depois, pelos acentuados aclives e declives que precisei sobrelevar no trecho seguinte, até atingir Itapanhoacanga. Sem contar, ainda, o esforço físico despendido, em face à razoável amplitude desse percurso.