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8º dia - HOTEL FAZENDA UEMURA (CUNHA/SP) a PARATY/RJ - 24 quilômetros


8º dia - HOTEL FAZENDA UEMURA (CUNHA/SP) a PARATY/RJ - 24 quilômetros 


"Todos nós temos uma travessia a fazer, mas muitos se recusam a enfrentar a viagem e outros voltam ou param no meio do caminho; perdem tempo olhando para o passado. Há apenas uma maneira de fazer a travessia: aceitá-la e seguir em frente. Serve um ato de fé na vida. A recompensa será a Ilha do Tesouro: a descoberta de uma parte desconhecida de si mesmo." (Massimo Gramellini) 





Finalmente, eu chegava à etapa derradeira da Estrada Real e, por isso, pretendia curti-la intensamente, mormente a cidade de Paraty, ponto final de minha aventura.

Assim, combinei com o Vitinho de partirmos às 5 h 30 min e no horário fixado ele apareceu, eu embarquei em seu veículo e seguimos em frente pela rodovia Paulo Virgínio. 


Hotel Fazenda Uemura, local de onde parti nesse dia.

Meia hora depois, chegamos diante da Hotel e Pousada Uemura, local onde eu havia encerrado a minha jornada no dia anterior.

Prontamente eu saltei, fiz os acertos monetários competentes, depois afivelei minha mochila, enquanto o Vitinho seguia em frente, pois havia mais um passageiro no seu veículo, cujo destino era a rodoviária de Paraty.

Na sequência, fiz uma breve pausa para alongamentos e orações, enquanto lentamente o dia raiava.

Prosseguindo, enfrentei leve ascenso e, trezentos metros depois, eu cheguei a divisa dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro.

Imediatamente, o piso passou de asfalto para bloquetes de cimento.

Eu estava adentrando à Estrada Parque que fora recentemente liberada ao trânsito, após vários anos de trabalho para a sua pavimentação e disponibilização ao uso público.

Naquele local, o ponto de maior altimetria dessa etapa, eu estava a 1504 metros de altitude. 


Chegando à divisa dos estados de SP e RJ.

A atual via foi planejada para que, além do acesso, fosse também um corredor turístico, posto que a estrada cruza o Parque Nacional da Serra da Bocaina, reserva de Mata Atlântica, e contempla quem passa pelo local com a paisagem da fauna e flora nativa.

Por causa das restrições ambientais, a estrada é aberta ao trânsito apenas até as 17 horas e nela está proibido o tráfego de caminhões.

O projeto foi feito com base no antigo caminho construído pelos escravos entre os séculos 17 e 19, a partir de trilhas indígenas.

A rota fazia a ligação entre Minas Gerais e Rio de Janeiro e São Paulo durante o Ciclo do Ouro.

Por outro lado, por se tratar de uma estrada-parque, houve várias exigências por parte dos órgãos públicos, desde a elaboração dos projetos até a execução da obra.

Para elaborar o plano básico ambiental, o Estado contratou um grupo de 55 profissionais, entre professores, pesquisadores e auxiliares da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), responsável pela sua formulação, gestão ambiental da obra e implantação de programas com ações, desde o acompanhamento arqueológico das frentes de trabalho e o monitoramento da fauna e da flora, passando pela disseminação de atividades educativas com palestras nas escolas das duas cidades, e a sensibilização das comunidades para o uso consciente da rodovia.

Dos 46 quilômetros entre Paraty e Cunha, 10 quilômetros atravessam o Parque Nacional da Serra da Bocaina, e por isso não são asfaltados. 


Sitio Arqueológico preservado, situado à beira da rodovia.

Este trecho ganhou calçamento de paralelepípedos modernos (os bloquetes) e uma série de restrições de uso: a velocidade máxima é de 20 km/h, e o tráfego está liberado apenas entre 7 h e 17 h.

O projeto de engenharia também se adaptou às características exigidas para uma estrada-parque, mantendo, basicamente, o traçado original da via remanescente do Velho Caminho do Ouro, para evitar grandes movimentações de terra ou alterações na vegetação, que provocariam impacto na região.

Pequenos blocos de concreto que cobrem a pista – exigência do Ibama para diminuir a velocidade dos veículos e não poluir o ambiente – lembram a pavimentação do Velho Caminho do Ouro com pedras “pé de moleque”. 


A estradinha descende sempre.

Por sinal, o Parque Nacional da Serra da Bocaina foi considerado uma das áreas mais importantes para a conservação das aves do país, concentrando 57% das espécies endêmicas da Mata Atlântica.

Nos monitoramentos, os pesquisadores identificaram 288 espécies de aves, entre elas duas listadas como globalmente ameaçadas de extinção: a marialeque-do-sudeste (Onychorhynchus swainsoni) e a choquinha-pequena (Myrmotherula minor).

O levantamento revelou ainda uma das maiores densidades de rãs, sapos e pererecas florestais já vistas em estudos ecológicos em um bioma da Mata Atlântica. 


Uma das 3 bicas d'água que encontrei descendo a serra.

Entre os mamíferos, há 82 espécies, sendo 39 ameaçadas de extinção, com destaque para macaco bugio (Alouatta guariba), onça-parda (Puma concolor), sagui-da-serra-escuro (Callithrix aurita) e o roedor Blarinomys breviceps, considerado extinto no Estado do Rio.

Para proteger os animais, o projeto construiu cinco zoopassagens subterrâneas e quatro aéreas, em trechos escolhidos pelos especialistas da Uerj com base no estudo do comportamento e hábitos dos animais.


Telas nas laterais para evitar atropelamentos de animais.

Por sorte, existe uma passarela de cimento lateral construída ao lado da pista de rolamento e foi por ela que caminhei o tempo todo.

A mata que cerca a estrada é exuberante e o ar que eu respirava chegava a doer em meus pulmões, tamanho o grau de sua pureza. 



Curva fechada..

Caminhando solitário, praticamente não vi vivalma no tramo inicial, a não ser aves que cruzavam o espaço aéreo, até porque o tráfego de veículos somente se iniciaria após as 7 horas.

Mas esse trecho é de infinita beleza natural, cercado pela mata nativa, onde habitam inúmeras espécies de aves e mamíferos. 


Mata nativa exuberante.

A vegetação é esplendorosa: samambaias gigantes, orquídeas, bromélias, cipós.

Pássaros cantavam alto, alguns gritavam e eram muitos, mas um sabiá ocupava o centro dos sons.

E é só descida; quase vinte quilômetros ladeira abaixo. 


Caminhei nessa faixa branca o tempo todo.

Nos locais onde os animais poderiam, eventualmente, cruzar a pista e ser atropelados, foram edificadas proteções laterais com telas, de forma a inibir tal trânsito.

Apesar da proibição, pude flagrar 3 caminhões descendo em direção a Paraty e, com certeza, face ao seu peso, pois estavam carregados, danificando a via recém-inaugurada. 


Caminhão transitando pela estrada...

Efetivamente, tudo por falta de controle e monitoramento das autoridades competentes, ocorrem essas graves infrações.

Em determinado local, de um mirante natural, pude visualizar ao longe e abaixo, a baía e a cidade de Paraty, minha meta para aquele dia.

Foi difícil segurar a emoção ao ver a linha de chegada tão perto. 


Vista de Paraty, desde o mirante.

Daquele local, consegui visualizar a famosa Ilha da Bexiga, enfumaçada pela distância, assim nominada porque em 1855 houve uma forte epidemia de cólera na cidade, mal que afeta a bexiga.

Como a doença é altamente contagiosa, as pessoas eram isoladas ali, daí o nome da ilha. 


A pedra que ameaçava ruir, foi escorada nesse local.

Numa curva, pude observar uma enorme pedra que ameaçava ruir sobre a pista, colocando em risco vidas humanas, fora escorada por colunas de concreto.

Estávamos no dia 7 de setembro que, apesar de cair numa quarta-feira, era feriado nacional.

Por isso, com o passar das horas, o tráfego de veículos seguiu crescendo. 


Solitário na trilha, momentos indeléveis.

Ainda assim, numa descida, solitário no trecho, posicionei a máquina fotográfica e acionei o temporizador, então, pude eternizar mais aquele momento inolvidável.

Dez quilômetros percorridos em bom ritmo, assim que a pavimentação em bloquetes se findou, teve início o trecho final asfaltado, que se encontra em péssimo estado de conservação.

Por isso, em muitos locais, comporta a passagem de apenas um veículo de cada vez. 


O bar do Guedes.

Logo na primeira curva, encontrei o bar do Guedes, um senhor agradável e profundo conhecedor da região, pois nativo dali.

Aproveitei a ocasião para ingerir dois copos de café, que muito me animaram, pois fazia bastante frio naquele horário.

Depois, fiquei a observar pássaros selvagens se alimentando num poleiro próximo, onde diariamente são colocadas frutas pelo anfitrião, objetivando integrá-los com os turistas que ali fazem parada.

Prosseguindo, a estrada se mostrou perigosa, pois sem acostamento, aliada ao expressivo trânsito de veículos, em ambos os sentidos, alguns em alta velocidade.

Quinze quilômetros percorridos, pude fotografar a entrada para a Caminho do Ouro, que segundo li, está em excelente estado de conservação.


Entrada para o Caminho do Ouro.

A trilha tem nível de dificuldade alto e duração de, aproximadamente, 7 horas.

Na época das chuvas, a trilha torna-se um pouco mais difícil, já que se formam alguns pontos de alagamento.

É necessário o acompanhamento de guias especializados e equipe de apoio, que podem ser contratados em Cunha ou Paraty. 


Igrejinha da Penha.

Cem metros adiante, pude fotografar a Igreja da Penha, situada na comunidade da Penha, que foi edificada sobre uma enorme rocha, o que lhe dá um aspecto particularmente pitoresco.

Atrás da ermida fica a Cachoeira do Tobogã, muito frequentada pelos turistas nos finais de semana.

Logo acessei a estrada da Ponte Branca e, na sequência, transpus o rio Perequê-Açu por uma ponte, depois transitei por bairros periféricos onde estão instaladas inúmeras pousadas, alambiques, comércio, tudo mesclado com expressivo trânsito de veículos e pessoas. 


Caminhando já em zona urbana.

Esse trecho final foi sofrido e todo em piso duro, por locais onde não existem calçadas, colocando em risco a vida de pedestres e caminhantes.

Eu segui em direção ao centro da urbe e acabei por aportar no Centro de Informações Turísticas de Paraty, onde tomei informações sobre a cidade, bem como da localização do derradeiro totem da ER.

E foi junto a ele que fiz questão de ser fotografado. 


O derradeiro totem da ER. Momento de muita emoção!

Ali, sob forte emoção, dei por encerrada minha “viagem” pela Estrada Real, que um dia eu iniciei em Diamantina/MG.

Na sequência, me hospedei próximo da li na Pousada Talismã, que recomendo com efusão.

Nela, por R$100,00 pude dispor de um excelente quarto individual, dotado de todo o conforto e espaço que um viajante moderno necessita.

Para almoçar, utilizei os serviços do Restaurante Amarelinho: Excelente! – Preço: R$32,00 o quilo, no sistema Self-Service.


Paraty: cidade fantástica!

Bela cidade colonial, considerada Patrimônio Histórico Nacional desde 1966, preserva até hoje os seus inúmeros encantos naturais e arquitetônicos.

Passear pelo Centro Histórico de Paraty é entrar em outra época, onde o caminhar é vagaroso devido às pedras "pés-de-moleque" de suas ruas.

As construções de seus casarões e igrejas traduzem um estilo de época e os misteriosos símbolos maçônicos que marcam as suas paredes nos levam a imaginar como seria a vida no Brasil de antigamente.

A proibição do tráfego de automóveis no Centro contribui para esta viagem pelo "túnel do tempo".

A cidade foi fundada em 1667 em torno da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, sua padroeira.

Teve grande importância econômica devido aos engenhos de cana-de-açúcar (chegou a ter mais de 250), sendo considerada sinônimo de boa aguardente.

No século XVIII, destacou-se como importante porto por onde se escoava das Minas Gerais o ouro e as pedras preciosas que embarcavam para Portugal.

Porém, com a construção de um novo caminho da Estrada Real, desembocando diretamente no Rio de Janeiro, levou a cidade a um grande isolamento econômico. 


Paraty: cidade fantástica! Piso original com mais de 300 anos.

Algum tempo depois o porto de Paraty voltou ter bom movimento pois o café vindo do Vale do Paraíba era embarcado no município com destino a Portugal.

Sua maior crise ocorreu na época da abolição da escravatura, no ano de 1888, pois o município perdeu o movimento em seu porto e a população que era de aproximadamente 16.000 habitantes caiu para menos de mil.

Após a abertura da Estrada Paraty-Cunha e, principalmente, após a construção da Rodovia Rio-Santos na década de 70, Paraty tornou-se polo de turismo nacional e internacional, devido ao bom estado de preservação de seu patrimônio histórico e graças às suas belezas naturais. 


Paraty: cidade fantástica!

Em sua área encontram-se o Parque Nacional da Serra da Bocaina, a Área de Proteção Ambiental do Cairuçú, onde está a Vila da Trindade, a Reserva da Joatinga, e ainda, faz limite com o Parque Estadual da Serra do Mar.

Ou seja, é cercada pela Mata Atlântica por todo lado.

Com isso o turismo começou a aparecer tanto pelas belezas naturais do local quanto por sua arquitetura em estilo colonial preservado.

Hoje o município é visitado por turistas de todo o mundo.

Segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística para 2014, possuí 39.965 habitantes.


Igreja Nossa Senhora dos Remédios.

Mais tarde, após breve descanso, fui passear pelo centro velho da cidade.

Minha primeira visita foi à Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, onde tudo começou. 

Por ocasião da fundação do povoado, ergueu-se uma pequena capela dedicada a São Roque sobre o atual morro do Forte, onde então se encontravam construídas as primeiras moradias.

Porém, em 1646, Dona Maria Jácome de Melo doou a área situada entre os rios Perequê-Açu e Patitiba para a construção do novo povoado exigindo que nele se construísse uma capela dedicada a Nossa Senhora dos Remédios, santa de sua devoção, e que não se molestassem os índios que ali viviam.

Em 1787, por ser a igreja pequena para a população, cerca de 2.700 pessoas, iniciaram as obras de um novo templo em local perto da antiga igreja.

A sete de setembro de 1873 foi a igreja entregue ao culto público, precedendo à sua benção uma procissão em que se transladaram as imagens da Igreja da Santa Rita para a Matriz, costume que se conserva até hoje.

Um detalhe curioso são as torres inacabadas e o fundo da edificação por terminar.

Acredita-se que isso aconteceu não só pela falta de recursos e mão de obra escrava, mas também porque a igreja teria afundado, inclinando-se perigosamente para frente, devido à inconsistência do terreno onde foi construída.


Igreja de Nossa Senhora das Dores.

Depois, visitei a igreja Nossa Senhora das Dores, localizada na rua Fresca, construída no ano de 1800 por mulheres da aristocracia paratiense.

Em 1901 foi quase totalmente reformada.

A irmandade de Nossa Senhora das Dores foi criada no mesmo ano e só permitia a admissão de mulheres, porém todas as Irmandades de Paraty foram extintas na década de 1960.

Merecem especial atenção o rendilhado das sacadas internas e o cemitério, em estilo de columbário, que circunda o pátio interno.

A torre desta igreja, como a da Santa Rita, tem sobre a cúpula um galo marcador da direção dos ventos. 


Igreja de Nossa Senhora das Dores, de outro ângulo.

Posteriormente, e de forma serena, fui passear pelas ruas desse velho e histórico povoado. 


Paraty: cidade fantástica!

Como não podia deixar de ocorrer, no final do périplo, fiz uma visita ao Empório da Cachaça, onde degustei saborosos “aguardentes” da terra, antes de adquirir uma garrafa da decantada cachaça Paratyana, que recentemente ganhou medalha de Ouro no concurso Mundial de Bruxelas, e ficou em 3° lugar no ranking da revista VIP 2014. 


Visita a uma Cachaçaria. Imperdível!

No dia seguinte, embarquei novamente no veículo do Vitinho e retornei a Cunha. 


O simpático Vitinho que trabalha no transporte de passageiros entre Cunha e Paraty.

Ali tomei outra lotação que me levou a Guaratinguetá.

Então, embarquei num ônibus que me deixou em Aparecida, onde pude assistir à missa e agradecer a Nossa Senhora Aparecida pela proteção no trajeto percorrido nesse tramo derradeiro da Estrada Real.

E à tarde retornei ao meu lar doce lar. 


Mãe Aparecida, obrigado por mais essa "viagem" abençoada!

AVALIAÇÃO PESSOAL – Uma etapa arejada, agradável e integralmente cercada pela mata atlântica em seus primeiros 10 quilômetros, todos em forte descenso. Em sua sequência, devido à ausência de acostamento e péssima conservação do piso asfáltico, o caminho tornou-se um tanto tenso e perigoso para um caminhante. De se lembrar que todo o percurso foi cumprido sobre piso duro, um tormento para os pés peregrinos. Contudo, por se tratar de minha jornada derradeira na Estrada Real, carregada de muita expectativa e emoção, o aporte e o passeio por Paraty compensaram todo o esforço ou dissabor auferido nesse trajeto.

RESUMO DO DIA:

Tempo gasto, computado desde Hotel Fazenda Uemura, em Cunha/SP, até o derradeiro Totem da Estrada Real, em Paraty/RJ: 6 h 30 min;

Clima: Nublado no início, depois ensolarado até o final da jornada.

Pernoite na Pousada Talismã, em Paraty/RJ: Apartamento individual excelente – Preço: R$100,00, com café da manhã;

Almoço no Restaurante Amarelinho: Excelente! – Preço: R$32,00 o quilo, no sistema Self-Service.


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