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11º dia: XINZO DE LÍMIA à OURENSE – 42.190 metros


11º dia: XINZO DE LÍMIA à OURENSE – 42.190 metros


“Era vontade de viajar, nada mais; mas, na verdade, irrompera como um acesso e se intensificara, atingindo o nível passional, sim, até beirar a alucinação”. (Thomas Mann)

A jornada seria longa, e como sua primeira parte seria toda pela rodovia, resolvi sair bem cedo.

Isto decidido, após os preparativos e providências matinais de praxe, deixei o local de pernoite às 5 h 30 min, seguindo à direita, em direção ao centro da cidade, por ruas ventosas e frígidas.


Dizendo adeus à Xinzo de Limia.

Mas eu me encontrava bem agasalhado, e logo acima, acessei a rodovia N-525, girei à esquerda e prossegui em frente bastante animado, utilizando um calçadão existente na lateral do asfalto.

Uns 500 metros depois, ao passar diante de uma farmácia, observei que o relógio inserto no frontispício do estabelecimento marcava a temperatura de 3 ºC.

Eu estava me sentindo aquecido, mas imediatamente meu estado psicológico foi alterado, pois fui tomado repentinamente por uma forte sensação de frio e comecei a tremer.

Então, levantei o capuz do casaco, coloquei o cajado debaixo do braço, inseri as duas mãos no bolso, segui caminhando, e logo o calor dissipou o frio e meu corpo voltou a ficar aquecido, à medida que eu progredia e, consequentemente, aumentava a circulação sanguínea.


Ourense a 38 quilômetros. Será? Pelos meus cálculos foram mais.

Eu portava minha lanterna de mão e pude seguir em segurança, pois o tráfego de veículos naquele horário era quase inexistente.


Adentrando na cidade de Piñeiro de Arcos.

Nesse passo, passei pelo povoado de Sandiás e, após percorrer aproximadamente 9 quilômetros em duas horas, cheguei à Piñeiro de Arcos, quando o dia estava amanhecendo, embora houvesse muita névoa no entorno.

Ao atingir o final da localidade, as flechas amarelas me encaminharam para a esquerda, em direção a Coedo.


As flechas me direcionam à esquerda, porém preferi seguir pela rodovia. E nunca mais as encontrei.

E foi a primeira e a última vez que as avistei nessa jornada, pois sabendo que enfrentaria trilhas lisas e molhadas, em face das chuvas recentes, optei por seguir por asfalto até Allariz, situado 10 quilômetros adiante, onde tinha a intenção me enlaçar definitivamente com o roteiro original.

O que se constituiu numa decisão equivocada, como mais à frente se verá.

Bem, fiz uma pausa para hidratação e ingestão de uma banana, depois, tranquilamente segui adiante.

O caminho prosseguiu agradável e fresco, sempre em descenso, me proporcionando belas vistas do entorno que, infelizmente, em alguns locais, se encontrava sob forte neblina.

Aportando em Allariz, fui diretamente ao centro da cidade, onde pude fotografar sua igreja matriz, depois me dirigi a Oficina de Turismo, onde carimbei minha credencial.


Igreja matriz de Allariz.

Mas, ali teve início meu calvário, pois a atendente me informou que as marcações do caminho se encontravam no “casco viejo”, próximo de uma capela.

Então, uma bondosa senhora disse desconhecer tal informação, acrescendo que o caminho passava bem mais acima, devendo eu atravessar a ponte sobre o rio Arnoia que encontraria a sinalização.



Fiz conforme ela me orientou, mas nada vi e nem localizei pessoa alguma para me dar informações.

Resolvi retornar ao centro da cidade e ali, conversando com um taxista, ele me informou que provavelmente o roteiro havia sido modificado, e que eu deveria retornar à rodovia Nacional, distante 2 quilômetros morro acima, que em algum lugar eu me reencontraria com as flechas amarelas.

Mas como não havia informação segura de que isto ocorreria, resolvi desistir de meu intento, pois já estava há quase uma hora circulando tal qual uma barata tonta pelo meio da cidade.


Rio Arnoia em Allariz.

Oras, pernoitar em Allariz estava fora de cogitações, eu ainda tinha 20 quilômetros para chegar à Ourense e resolvi tomar uma decisão extrema para conseguir esse objetivo.

Assim, mas abaixo, tomei novamente informações confiáveis, caminhei uns 3 quilômetros por um bairro nobre, pleno de casas novas e vistosas, e alcancei novamente o leito da N-2, já no topo de um morro, local onde uma placa inserta na lateral da estrada me avisava que restavam 16 quilômetros até Ourense.

Na verdade, eu estava decepcionado com o trajeto a ser cumprido, mas nada como uma experiência negativa para fixar o aprendizado e prevenir novos erros.

Bem, finalmente, resolvido o imbróglio, relaxei, e segui pelo acostamento sem pressa, fazendo paradas intermediárias a cada uma hora, para descanso e hidratação.


Seguindo pela N-525.

Foi uma jornada segura, pois o tráfego se mostrou insignificante e o entorno maravilhoso.

No entanto, quando restavam 5 quilômetros para o final dessa etapa, ocorreu o encruzo com várias outras rodovias e o tráfego de caminhões aumentou consideravelmente.


Seguindo pela N-525, com tráfego praticamente nulo.

Mesmo assim, sem maiores intercorrências, cheguei ao trevo de acesso à cidade, e logo aportava em seu centro histórico.

Ali me hospedei no hotel Irixo, de excelente qualidade, onde paguei 25 euros por um quarto individual.


Hotel Irixo, local de meu pernoite nesse dia.

Eu estava bastante cansado, mas após um reconfortante banho, fui almoçar no Mesón O Queixo, onde desembolsei 10 euros por um saboroso “menú del dia”.


Prédio da Prefeitura de Ourense.

Retemperado novamente, lavei roupas, depois troquei a soneca por um passeio no “casco viejo” dessa cidade, que é considerada a “Cidade das Burgas”.

Antes porém, utilizando uma pomada de arnica que levava, fiz uma forte massagem na sola dos pés, como forma de reenergizar o local, pois transitara o dia todo em piso duro.

A origem de Ourense data o século VI, quando os reis Teodoro e Mirón estabeleceram ali sua corte, e seu nome deriva de um topônimo, de origem germânica.

No caso, “Wrum sae”, significa “lago quente”.


Plaza Mayor da cidade de Ourense.

Em ourense existem inúmeras fontes de águas termais, que constituem um dos principais monumentos da cidade, e são encontradas em numerosos lugares acondicionados para banhos a céu aberto, tanto gratuitos como econômicos, situados à beira do Rio Minho.

Só as Burgas estão no centro da cidade.

Tomando-se como referência a Avenida de Zamora, chega-se à “As Burgas”, um manancial termal com um caudal de 300 litros por minuto, onde a água sai a 67º C.


Catedral de San Martín.

Mais tarde fui conhecer a grandiosa Catedral de San Martín, do século XII.

Uma surpresa agradável, pude assistir à missa e participar da comunhão, posto que havia iniciada a celebração em uma de suas inúmeras capelas internas.

Depois, me detive por largo tempo ante o Pórtico do Paraíso, construção policromática realizada por um discípulo, cuja entalhadura foi inspirada no Pórtico da Glória, excepcional obra do mestre Mateo, situada no átrio da Catedral Compostelana.

Em sequência, dei uma volta pela Plaza Mayor, onde está situada a “Casa do Concello”.

Ao longe, caminhando junto a um monumento, observei uma senhora em trajes típicos de peregrina, mas quando fiz menção de me aproximar, ela desapareceu num beco e não consegui mais encontrá-la.

Eu estava ávido por encontrar outros caminhantes e sabia que possivelmente eles estariam hospedados no convento de São Francisco, uma faustosa construção datada do ano de 1.305, onde existe um albergue particular.


Catedral de San Martín, sob outro ângulo.

Porém, esse emblemático edifício está localizado no topo de um morro, no ponto mais alto da cidade.

E depois do longo trajeto do dia, meus pés simplesmente se recusaram a dar mais um passo naquela direção.


Puente Romana, por onde eu seguiria no dia sequente.

Então, para relembrar o caminho, pois pernoitara nessa cidade em 2008, quando percorria a Via de la Plata, segui até a famosa “Puente Romana”, por onde eu atravessaria o rio Minho no dia seguinte.

Segundo a tradição, a ponte teria sido construída durante o reinado do imperador romano Trajano, mas, na realidade, foi no reinado de Augusto, no século I d.C.

Apenas a parte inferior dos pilares (algumas pedras das bases segundo algumas fontes) são originais.


Ponte romana, outro ângulo.

A ponte fazia parte de um ramal da estrada romana Via XVIII (também chamada Geira ou Via Nova), do itinerário de Antonino.

Foi restaurada em mais de uma ocasião ao longo da história, e o seu aspecto atual é em grande parte o resultado das obras do século XVII.

Essa magnífica construção foi declarada monumento histórico por decreto da Jefatura del Estado, de 6 de abril de 1961 e, atualmente, após ter sido fechada ao tráfego motorizado em 1989, é um dos três símbolos principais da cidade, juntamente com as Burgas e a Catedral de San Martín.


No centro histórico de Ourense, a sinalização está no solo.

À noite, fiz apenas um lanche no quarto do hotel e deitei cedo, já me preparando para a difícil e extensa jornada que enfrentaria no dia seguinte.

Em verdade, fazendo uma análise pessoal, notei um certo desleixo com a sinalização desde Verín até Ourense, mas, até entendo tal abandono.

Ocorre que os peregrinos que percorrem o Caminho Português Interior são raríssimos, e aqueles que provém da Via de La Plata, e que em A Gudiña optam pela variante de Verín, quase sempre caminham em direção à Laza no dia sequente.

Assim, são poucos, como eu, que demandam diretamente Ourense, o que acaba por explicar o pouco interesse em revitalizar a sinalização nesse trecho, onde muito penei, por conta da ostensiva ausência de setas sinalizadoras nos locais estratégicos.


O maravilhoso rio Minho, que banha a cidade de Ourense.

IMPRESSÃO PESSOAL: Uma etapa de grande extensão, agravada pela falta de sinalização confiável em alguns trechos do percurso. Acresça-se que todo o trajeto foi feito em piso asfáltico, o que acaba por exaurir os pés do caminhante. Sem dúvida, me senti frustrado por não conseguir percorrer o tramo entre Allariz e Ourense pelo caminho original. Contudo, como peregrino recorrente, sei que nem tudo saí como se imagina. Assim, me conformei, já prelibando o trecho sequente, que sabia estar muito bem sinalizado. E onde, certamente, teria a oportunidade de interagir com outros confrades.


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