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FINAL


FINAL


Quando eu era muito jovem e sentia o impulso intenso de estar em algum outro lugar, as pessoas mais velhas me garantiam que a maturidade haveria de curar tal anseio. Quando, com o passar dos anos, pude ser classificado como um homem amadurecido, o remédio prescrito foi a meia-idade. Então, depois dela, afirmaram que mais alguns anos abrandariam minha febre. Agora, aos 58 anos, talvez a senilidade possa dar um jeito. O fato é que nada funcionou. Os quatro apitos roucos da chaminé de um navio ainda deixam meus cabelos arrepiados. O ruído de um jato, um motor esquentando, o som do galope de um cavalo trazem de volta o antigo estremecimento. Em outras palavras: não melhorei nada. Uma vez vagabundo, sempre vagabundo. Receio que a doença seja incurável...” (John Steinbeck) 






CAMINHAR, UM SANTO REMEDIO PARA A LEVEZA DA ALMA 

(Por Jane Rodrigues)

Do livro “Passos de corpo e alma: No infindável e misterioso caminho da vida” (Texto adaptado) 


Uma força me move e me brinda a possibilidade de dar mais alguns passos no caminho da vida. Sei que devo partir de corpo e alma para vivenciar, descortinar novas trilhas e contar a minha própria história.

Todo o encantamento e desejo de partir para algum lugar caminhando é uma bagagem leve e alegre que carrego comigo.

O simples fato de imaginar a possibilidade de trilhar caminhos, de alguma forma, me coloca em sintonia com uma energia serena e inspiradora, que me incita a ir à busca dessa experiência singular vivenciada e contada por tantas pessoas ao redor do mundo. Por isso, quando me enveredo pelas estradas da vida, sigo com pisadas ternas e certeiras, acreditando que meu coração me conduzirá ao caminho da minha própria natureza.

Desgarrar e desapegar-se é um exercício constante. À medida que caminho, sinto uma alegria serena circulando por todo o meu corpo. Ao longe, avisto cadeias de montanhas ondulantes, a perder de vista, e a sensação, ao atravessá-las, é algo absolutamente memorável. A beleza contagiante do percurso me move colina acima, chamando para que siga em frente, apagando o cansaço. Ali, arrebatada, sinto a força que me impulsiona e firmeza nos pés ao tocar o chão. Meu corpo, encantado e nutrido por instantes de pura magia, liberta minha mente para viajar e devanear confortavelmente neste espaço celestial. 




Aos poucos, o calor e o resplendor do sol absorvem serenamente os respingos frios que restam da geada, e a umidade, que resvala no ar, alimenta e da vida às raízes entrelaçadas das vegetações que se revigoram e fortalecem, seguras da incumbência de reavivar o verde.

A natureza está sempre ensinando, e nunca estamos prontos. Para ser caminhante, não basta me prover das condições físicas e materiais necessárias ao deslocamento de um lugar a outro. Antes de tudo, é essencial me reconhecer neste universo e permitir a afloração de uma outra natureza, também própria de mim. Quer um exemplo? Às vezes quero acelerar as passadas para chegar logo ao destino final. Ao mesmo tempo, algo me diz que devo reduzir a marcha, apreciar aquele mar de natureza e navegar em águas tranquilas.

De fato, caminhar propicia uma experiência instigante que me leva a vivenciar situações com grande intensidade de significado, jamais cogitadas.

Ao caminhar, meu lado luz aviva e descobre a minha roupagem. Meu lado sombra deita os pés em solo desconhecido e testa minha vulnerabilidade. Por onde passo, estendo as passadas, deixando meus rastros, sem me importar se um dia eles se apagarão. 




Na vida é assim. Tudo se extrai e se compõe. E, quando, em sintonia com a própria essência, esse movimento cíclico e antagônico renova-se e ativa a consciência da transitoriedade da existência.

A sábia natureza nos convida a caminhar, mas nem sempre crescemos e subimos. Algumas vezes, paralisamos por receio da inconstância. Outras vezes, retrocedemos por não termos ânimo para o impacto da subida. E assim vamos seguindo pelas trilhas da vida, que nos reservam surpresas por onde quer que passemos.

Esse processo de construção e desmanche permeia a obra da vida que vai sendo esculpida.

A vida é sim um manancial inesgotável de aprendizagem e, para desfrutar de sua água límpida, é preciso afinar os sentidos da percepção e descobrir o que realmente é essencial para ser.



EPÍLOGO


"Eu não sei se a vida é que vai rápida demais ou se sou eu que estou mais lento. O que sei é que ando me atropelando nos próprios passos. Eu resolvi desacelerar. Eu vou no ritmo que posso. Não é fácil. É sabedoria que requer aprendizado! Eu quero aprender. O descompasso é a causa de todo cansaço. O corpo é rápido, mas o coração não. O corpo anda no compasso da agenda. O coração anda é no compasso do amor miúdo. O corpo sobrevive de andares largos. O coração sobrevive de pequenos passos e de demoras. Eu já fui e voltei a inúmeros lugares e o coração nem saiu do lugar. O mistério é saber reconciliar as partes. Conciliar um ritmo que seja bom para os dois. Eu quero aprender. Não quero o martírio antes da hora. Quero é o direito de saborear o tempo como se fosse um menino que perdeu a pressa. O show? Ah, deixa pra depois. A voz não morrerá. Acendemos as luzes noutra hora. Deixe que o padre viva a penumbra de algumas poucas velas... Um padre combina mais com uma vela acesa que com um canhão de luz. Há momentos em que a luz miúda nos revela muito mais que mil holofotes. Chega de vida complicada. Eu preciso é de simplicidade!" (Padre Fábio de Melo) 


Paraty: cidade fantástica! Comemorando, junto ao derradeiro totem da ER.

Quando buscamos a essência do universo, aprendemos que caminhos não são apenas sulcos gravados no chão. 

São os animais silvestres, na maioria das vezes, os responsáveis por iniciá-los. 

Porém, apesar de realizarem isso melhor que nós, não tem consciência do que fazem. 

Caminhos são manifestações sagradas e pode nos levar na direção dos homens. 

Se passam a existir é porque alguma inteligência superior orienta os animais. 

Caminhos são uma classe especial de seres, porque têm vida, e para constatar isso nem sempre é necessário pisar sobre eles. 

“Todo que caminha anda como Jesus, sobre o mar”, como disse o poeta espanhol Antônio Machado. 

Importante mesmo é a viagem que podemos fazer através deles. 

Ainda, é interessante observar que muitas das atuais estradas são apenas evolução de caminhos antigos. 

Se sobrepuseram a eles, aproveitando-lhes o que tinham de melhor, deixando abandonados alguns trechos sem interesse. 

Daí ser comum encontrarmos vestígios de velhos caminhos nas proximidades de atuais rodoviais. 

Inconscientemente me vejo comparando essa situação com a minha história pessoal. 

Fico pensando no quanto os caminhos têm em comum com as nossas vidas. 

Andar a pé por esses roteiros místicos, como a Estrada Real, é a maneira mais honesta que descobri para falar sobre os bandeirantes. 

Por isso, apreciei muito caminhar como eles, observando o mundo, que passou lentamente sob meus pés. 

Ao relatar esses detalhes, minha intenção é passar para o leitor as sensações de ir caminhando, passo a passo, todo o trajeto percorrido por aqueles aventureiros do passado, que sempre iam a pé, enfrentando toda sorte de dificuldades e imprevistos. 

A estrutura que se deve ter para realizar tais viagens inclui preparo físico, conhecimentos de navegação, história dos lugares por onde se vai passar, noções de sobrevivência e de preservação da natureza, além do gosto pelo que se está fazendo, muita paciência e perseverança. 


Passagem obrigatória em Aparecida para, em sua Basílica, agradecer a Mãe Maior!

Para finalizar, diria que, minha “viagem” pela ER, desde Diamantina/SP até Paraty/RJ, mostrou-se belíssima e aprazível, um dos melhores roteiros que já percorri, pela sua multiplicidade de paisagens e pessoas. 

Embora, como nos demais caminhos, envolva uma certa coação em termos físicos, mormente para quem caminhou solitário como eu. 

Contudo, isto pode ser atenuado se lembrarmos que o simples fato de estarmos vivos significa que estamos correndo riscos. 

Eles existem em qualquer tempo e lugar e fazem parte do nosso aprendizado. 

Não é justo, portanto, abandonar meus sonhos em função deles, já que são inevitáveis. 

O que pude fazer para minimizá-los nessa travessia foi redobrar minha atenção nas trilhas e meu respeito pelas florestas e pessoas que me acolheram ao longo da estrada. 


BOM CAMINHO A TODOS! 


Outubro/2016
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