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LUMINOSA à PIRANGUÇU

2º dia - Luminosa a Piranguçu - 23 quilômetros



Choveu a noite toda, propiciando-me um sono tranquilo e reparador.

Assim, quando acordei às 5 h, apesar da água que caía sem cessar, sentia-me renovado e pronto para enfrentar outra dura jornada.

Depois das abluções matinais desci para o café e, conforme fora combinado no dia anterior, já encontrei Dona Ditinha cuidando dos últimos detalhes de meu desjejum.

Então, pude ingerir um café espesso e cheiroso, acompanhado de frutas e um pedaço de queijo, que repuseram minhas forças e me proveram de alento.

Alimentado e bem disposto, deixei a pensão às 6 h, curiosamente, no momento exato em que a intempérie cessara.

Ainda estava escuro e próximo da igrejinha daquele distrito, pude constatar do lado sul, inúmeras estrelas ainda a brilhar nos poucos espaços livres que as grossas nuvens deixavam no firmamento.

Porém, meu rumo era no sentido leste, de forma que obedecendo a sinalização, eu girei à direita e logo estava caminhando por larga estrada de terra, extremamente lisa e embarreada, onde encontrei imensas poças de água, fruto da borrasca que se abatera no dia anterior.


Local onde os caminhos se separam.

Mil metros caminhados, eu cheguei numa bifurcação: se seguisse à direita, obedeceria o sentido do Caminho da Fé e prosseguiria em direção à Campos de Jordão, tal qual eu havia feito em outubro passado.


Trilha embarreada, um risco.

No entanto, nessa ocasião eu estava seguindo as flechas azuis, desse modo, compenetrado e com muita atenção no piso lodoso, eu prossegui à esquerda por uma estrada plana, que seguiu serpenteando entre duas grandes elevações.

Um riozinho rumoroso, encorpado pelas recentes precipitações, me seguia pelo lado direito e nesse trecho eu caminhei entre grandes fazendas de gado leiteiro.

Um dado interessante que me surpreendeu é que o Caminho da Fé, depois de um quilômetro, principia a ascender continuamente, com pouquíssimos patamares para descanso.

Desse modo, eu que já havia percorrido esse roteiro, aguardava o mesmo para o de “Frei Galvão”, no entanto, a cada curva que eu fazia, surpreendentemente, nova reta se abria.


Igrejinha do bairro de Pilãozinho

Assim foi que, depois de 4 quilômetros caminhados, sempre em leve e imperceptível ascenso, eu passei pelo bairro de Pìlãozinho, onde encontrei, além de uma igrejinha vestida de branco, dedicada a Nossa Senhora, algumas casas esparsas pela redondeza.

O clima estava abafado e o céu encoberto por nuvens plúmbeas, denunciando mais “água” para breve, algo que me deixava opresso, pois sabia das dificuldades que iria encontrar em breve: uma íngreme e tortuosa ladeira a ser vencida.

Observando à minha retaguarda, via montanhas cobertas por uma mata verde-musgo, que se sobrepunham no horizonte, separadas por extensos vales.

Prossegui subindo paulatinamente e mais acima atravessei o riacho por uma ponte de madeira, depois passei debaixo de densas moitas de bambu e, na sequência, enfrentei o primeiro grande aclive, que, como esperado, se encontrava extremamente liso.

Na metade da ladeira, cruzei com o Sr. Carlos que vinha a cavalo carregando um latão cheio de leite.


O Sr. José Antônio segue seu caminho..

Foi uma conversa rápida, pois ele tinha horário para a entrega de seu produto.

Mais acima, encontrei o Sr. José Antônio que também estava a cavalo, porém tocava uma mula que carregava 2 latões com leite.

Ele parou para uma rápida prosa enquanto o muar seguia adiante, sem muita pressa, pois já certamente conhecia o rumo de cor e salteado, visto que passava no local todo santo dia.

Já quase vencendo a encosta, encontrei o Sr. Jacinto que, tal qual o sitiante anterior, também estava a cavalo, acompanhado de uma égua que portava 2 latões provenientes de sua ordenha diária.

Foi também uma conversa rápida e pude notar que ele portava um grande guarda-chuva, então, indaguei-lhe se teríamos precipitação para breve.


Muito verde no entorno.

Sem pestanejar, me afirmou que em razão do mormaço vivenciado naquele momento, ele apostava que a intempérie se abateria em menos de meia hora.

Observei ao redor e pude verificar que nuvens negras se movimentavam com rapidez em minha direção e, embora eu estivesse na torcida para que isso não ocorresse, tive a convicção de que meu interlocutor estava certo.

Nesse trecho específico, observei ao lado da trilha muitas árvores altas e frondosas, assim como bambuzais em alguns trechos.

Um riacho barulhento corria à minha esquerda, permeando um extenso vale, e a cada 500 metros eu podia visualizar casinhas, na verdade, residência de pessoas que vivem em meio àquela natureza exuberante.

Logo à frente, passei ao lado de uma edificação simples, onde havia um grande terreiro e, nele se movimentavam inúmeros animais, como gado vacum, patos, galináceos, cães e gatos, todos convivendo pacificamente.


Sinalização excelente nesse trecho.

O céu primaveril estava tão baixo e sombrio, que mal se podia dizer que aquilo fosse luz do dia, apesar de já ser 7 horas da manhã.

Interessante foi observar um galo cantando desesperadamente e, por conta do horário extemporâneo, inferi que ele deveria estar confuso com os ponteiros de seu relógio biológico, pois o dia ainda não havia clareado de todo.

Observei à minha frente, que a topografia nesse trecho é formada por uma sucessão de montanhas e vales cobertos por densa vegetação e o verde, quase escuro, abre espaço para pequenas plantações e algumas casas isoladas, que eu podia avistar ao longe.

O caminho prosseguiu sempre em lenta, porém, perene ascensão, entremeando pequenos patamares onde eu podia descansar e recuperar meu fôlego.


Ainda em aclive, em meio a bananais.

O cenário foi se abrindo na medida em que eu subia, mostrando-me do lado esquerdo uma grande montanha, integralmente coberta por grama, que servia de pasto para vacas leiteiras.

Na margem da estrada encontrei várias araucárias e pude observar do alto o fundo do vale de onde eu viera caminhando, que pequenas casas, quase todas caiadas de branco, tinham fumaça saindo pelas chaminés.

Parei por um instante para sentir a paz que me trazia aquela bela e fresca paisagem.

Mais acima, num trecho de maior altimetria, passei a encontrar imensos bananais, cultura que se dá muito bem nessa região.

E, depois de muito aguardar, a temida chuva chegou, no momento em que eu me encontrava num local aberto e isolado, e tentava ultrapassar algumas vacas soltas a vagar pela estrada.


              Momento de tensão, com uma vaca na estrada.

A intempérie veio mansa, mas paulatinamente foi aumentando de intensidade, em meio a relâmpagos e trovões.

Não havia local para me esconder e sabia que sob as árvores eu me arriscaria a receber algum raio na cabeça, assim, claudicando e evitando escorregar, prossegui subindo, embora meu ritmo decaísse bastante


Finalmente, no topo da serra.

Finalmente, às 8 h alcancei o topo da elevação, num lugar onde existe uma placa demarcando a divisa dos municípios.

Nesse local específico, eu deixei Brazópolis para adentrar no de Piranguçu.


Divisa de municípios.

Apesar da água não dar trégua, fiz uma breve pausa debaixo de uma árvore para hidratação e fotos, na certeza de que o pior havia sido superado, pois dali em diante eu encontraria uma forte declividade.

Nesse local eu estava a 1.430 m de altura, a maior altimetria que eu encontraria nessa jornada.

Chamou-me a atenção nesse local, a existência de uma singela cruz fincada no chão, do meu lado esquerdo, bem como de uma residência do lado oposto, já bastante danificada e com mato alto invadindo o terreiro.


Uma cruz solitária.

Na parede da casa observei inúmeros buracos e barrotes à mostra.

Não parecia viver ninguém ali, e tudo me pareceu quieto e triste, com sensação de abandono, sendo que na frente observei uma cancela baixa, esconsa e embarrigada.

A partir desse marco principiei a descer.

E, a bem da verdade, sofri muito mais que na ascensão, pois embora ela não se apresentasse tão cansativa, tornou-se bem mais perigosa, e quem sofreu foram meus joelhos e calcanhares, trabalhando ininterruptamente para amortecer os solavancos e derrapadas no piso úmido.

A chuva finalmente amainou, deixando no ar apenas uma névoa úmida.


Início do descenso.  

Assim, em meio aos trancos, tropeções e escorregões fui seguindo minha jornada.

Mais abaixo, passei defronte um belo cruzeiro, um local propício para descanso, uma vez que existem bancos alocados debaixo de uma bela sombra.

Contudo, misteriosamente, o local está envolvido por uma cerca de arame.

Depois, prossegui por ladeiras sinuosas, passando por propriedades que se estendiam por diversos alqueires, visualizando casinhas ao longe, de contornos indefinidos, semi-apagadas pela chuva e pelas árvores.

Ainda em descenso, passei diante do sítio Inveja da Serra, um local de paradisíaca beleza, com exuberante vegetação e casas novas, de pintura recente.

Chamou-me a atenção uma placa malcriada, colocada num dos esteios do portão de entrada, que dizia: “Cuide de teu rabo que eu cuido do meu.” 


Pausa para descanso.

Depois de uma curva, num local de piso firme, onde a neblina se fazia intensa, fiz uma pausa para hidratação e ingerir uma barra de chocolate, pois me sentia carente de energia e com bastante frio.

Prosseguindo, acessei um local extremamente liso e embarreado, onde fui tateando e descendo com extremo cuidado e, apesar de inúmeros escorregões e sustos, não cheguei a cair nenhuma vez.

No meio da ladeira encontrei o Marcos, um rapaz que estava montado num cavalo baio e que me contou que iria trabalhar num bananal mais acima.

Trocamos algumas palavras, ele me passou algumas informações, depois se dirigiu para o seu trabalho e eu segui minha vida peregrina.


O Marcos e seu cavalo baio.

A descida foi realmente um “parto”, porém, finalmente, acabei desaguando numa outra via e nela, observando a sinalização, segui à direita e acessei uma estrada larga e pedregulhada, que prosseguiu em meio a inúmeras e bem cuidadas chácaras.

O roteiro nesse trecho é pleno de verde, com inúmeros ribeirões cortando o roteiro.

Já no plano, passei a caminhar por uma estrada larga e com muitas poças de água, da qual fui me desviando, até que num bar, situado entre residências simples, eu soube que estava no bairro Piranga.


Finalmente, no plano.

Mais à frente, depois de transpor outro ribeirão, tive conhecimento de que já me encontrava no bairro Usina São Bernardo, cuja sede é Piranguçu.

A partir desse marco, próximo 6 quilômetros de minha meta, eu prossegui por um caminho plano e extremamente lamacento, ao qual eu fui vencendo lentamente, sempre tomando muito cuidado quando da passagem de veículos, em razão da lama arremessada.

Finalmente, às 10 h 30 min eu adentrei em perímetro urbano, contudo precisei caminhar mais 1.500 metros até meu local de pernoite, localizado do outro lado da urbe, já na saída para o município de Itajubá.

Na cidade eu fiquei hospedado na Pousada Verde Maratéa, onde fui aquinhoado com uma especial atenção pelo simpático Luizinho, o “braço direito” da dona Silvânia, a proprietária do estabelecimento, que de tudo fizeram para que eu me sentisse em casa.


Quase chegando...

Ali fiquei muito bem instalado, e embora as acomodações sejam simples, por módico preço eu pude desfrutar de 3 quartos, sendo 2 suítes, sala com tv, cozinha com fogão e geladeira, e ainda um grande quintal, onde pude lavar minhas roupas.

A urbe, cuja fundação remonta ao ano de 1.838, está localizada nos prolongamentos da serra da Mantiqueira, a 880 m de altitude, e faz divisas com as estâncias climáticas de Campos do Jordão e São Bento do Sapucaí.

É a cidade das cavalgadas, cachoeiras e trilhas, uma terra de belezas naturais que atraem praticantes de esportes de aventura: escaladores, pilotos de parapente e motociclistas “off-roads”.

E que cativa também os amantes da ecologia: contempladores e preservadores do meio ambiente e suas riquezas de fauna e flora, integrando a todos no Enduro ao Pé da Serra.

O simpático povoado possui um clima agradável o ano todo e sua denominação é de origem indígena, derivada da palavra piranga-uçu (vermelho grande), devido a uma pedra existente em seu entorno.

A fé e as tradições estão presentes em suas festas, manifestações religiosas, culturais e em sua arquitetura.

Quitutes e quitandas típicos do Sul de Minas enfeitam e enchem de sabores as mesas dos cafés da tarde.


Igreja matriz da cidade.

E o clima frio traz as geadas nos invernos mais rigorosos.

Entre as belezas do município, destaca-se a Represa da Vila Maria, entre os Estados de Minas e São Paulo, lugarejo cheio de charme, de lareiras, hortênsias, pinhão, azaleias, fogões à lenha, bosques, araucárias e córregos cristalinos.

Sua principal fonte de renda provém da agropecuária, posto que ela é grande produtora de arroz, banana, gado leiteiro e corte.

Possui, também, invejável potencial turístico, devido às belezas exuberantes de suas montanhas, cachoeiras e pedreiras.

Atualmente, com 5.500 habitantes, a urbe destaca-se pela qualidade de sua culinária, pois se torna nos fins de semana, ponto de encontro das famílias vizinhas. 


A pousada onde me hospedei nesse dia.

Para almoçar utilizei os serviços do restaurante Delicado.

Após uma reconfortante soneca, fui verificar o local por onde eu partiria no dia seguinte, bem como aproveitei para acessar à internet, numa “lan-house”.

Mais tarde, fui visitar a igreja matriz, uma vistosa construção datada do ano de 1.838, cujo padroeiro é Santo Antônio.

No retorno ao local de pernoite, debaixo de muito calor, alegremente pude constatar que o clima havia mudado e a chuva que tanto me perturbara nos dias anteriores, havia ido embora.

Em compensação, sabia que enfrentaria muito sol na jornada seguinte.


Com o Luizinho, gerente da Pousada

IMPRESSÃO PESSOAL Uma jornada relativamente curta, porém, como na anterior, necessitei sobrelevar um grande morro. Dificuldade agravada pela chuva, que deixou o trecho inicial bastante escorregadio e neblinoso. No geral, um trajeto pleno de muito verde, povo hospitaleiro e belas paisagens.


03 - PIRANGUÇU a WENCESLAU BRAZ