8º dia: VARGEM GRANDE DO SUL a ÁGUAS DA PRATA - 43 quilômetros


8º dia: VARGEM GRANDE DO SUL a ÁGUAS DA PRATA - 43 quilômetros


"Mãe querida, ajuda-nos a fazer, com grande entusiasmo, tudo o que Jesus pede a seus discípulos. Com a tua intercessão, apressa a “hora da graça”, da fraternidade total, para que o novo milênio prossiga sem exclusões e todas as pessoas possam viver com dignidade e paz.


Por conta de prolemas urgentes a resolver, eu encerraria a primeira parte de minha peregrinação naquele dia.

Assim, tinha a intenção de chegar ao meu destino o mais cedo possível, a tempo de tomar um ônibus para retornar ao meu lar.

Enfrentaria novamente uma etapa de peso pela frente, pois além da intensa variação altimétrica eu precisaria sobrelevar a distância a ser vencida, que era de grande extensão.

Por sorte, o clima persistia ameno, e a temperatura não ultrapassaria os 18 graus nesse dia.

Animado, levantei às 4 h, e às 4 h 45 min eu deixava o local de pernoite, seguindo por ruas frias e silenciosas, mas sob intensa iluminação urbana, em direção à saída da cidade.

Quando, finalmente eu acessei o asfalto, a escuridão me envolveu, contudo eu portava minha lanterna de mão e não tive problemas em encontrar meu rumo.

O céu se encontrava integralmente cravejado de estrelas e o dia ainda demoraria bastante para clarear.

Logo à frente eu ultrapassei um trevo e, já do outro lado, adentrei em larga estrada de terra, em franca ascensão, que me levou em seu topo a fletir à esquerda.

As fortes chuvas que haviam caído na semana anterior deixaram o piso firme, de sorte que prossegui sempre em bom ritmo, apesar do caminho seguir sempre em ascensão.

Depois de uma hora, seis quilômetros percorridos, passei diante do Castelo de Santo Ângelo, um local de rara beleza e envolto por exuberante vegetação que, infelizmente, não pude apreciar, por conta da negridão reinante.

A partir desse marco, o caminho passou a ser pedregulhado, com terra socada, o que me propiciou um avanço tranquilo e agradável.


Nasce mais um dia!

Lentamente, as sombras foram desaparecendo ao meu redor e, à minha frente, sobre as montanhas, pude ver o nascimento de um novo dia, através de uma faixa branca, iluminada pelo sol.

Na sequência passei a caminhar por um belíssimo vale, ladeado, primeiramente, por uma imensa plantação de café, que mais adiante se transformou em imensas pastagens, onde rebanhos apascentavam suas crias.


Adentrando ao bairro Perová.

Pouco adiante, num cruzamento, obedecendo à sinalização, eu adentrei à esquerda e depois de caminhar mais um quilômetro, cheguei defronte à capela de Santana, já no bairro Perová, que também pertence a Vargem Grande do Sul.


Igreja do bairro Perová, ainda em reformas.

Conforme eu já soubera, ela se encontra em reformas e me pareceu que ocorreu uma razoável ampliação em sua estrutura.

Fiz ali uma pausa para orar e aproveitei para fotografar a singela ermida.

Depois, segui adiante.


Em forte ascenso, próximo da Pousada de Dona Cidinha.

Na sequência, eu adentrei à esquerda, transpus um pequeno riacho e logo se iniciou um terrível ascenso.

Ao acessar o cume do morro, já se descortinava uma paisagem espetacular ao meu redor.


Entrada da Pousada de Dona Cidinha.

Porém, eu derivei à direita e logo à esquerda, e prossegui subindo, mais acima encontrei um mata-burro e logo uma porteira, até que cheguei diante da Pousada de Dona Cidinha.

Até aquele local eu já havia percorrido 10.100 metros.

Ali, havia um sino estrategicamente colocado, e uma placa com os seguintes dizeres: "Peregrino(a), Por favor toque o sino para ser atendido!"

Ainda era muito cedo e não ouvi barulhos provindos daquela direção.

Entendi que seria grosseria de minha parte acordar os moradores, perturbar o seu sossego em hora tão matinal, de forma que resolvi seguir adiante, sem carimbar minha credencial.

Foi uma pena, pois tinha grande desejo de conhecer Dona Cidinha, uma pessoa sempre elogiada em sua simpatia e hospitalidade, por todos os peregrinos que ali visitam ou pernoitam.

Porém, igual ao Padre Agnaldo de Casa Branca, ficará para uma outra ocasião.


O gado dá o tom nesse local.

Depois de ultrapassar um riacho, iniciou-se um grande e perene aclive, tendo uma grande plantação de bananas pelo meu lado esquerdo.


Em forte ascenso novamente.

O ascenso prosseguiu sem tréguas, mas o clima fresco ajudou bastante e segui sem maiores problemas.


Flores vermelhas...

Ao longe e no topo de um morro, observei uma frondosa mata composta por araucárias, uma árvore que se dá bem em locais com mais de 1.000 m de altitude, como era o caso.


Descenso forte, em direção a canaviais.

Depois, principiei a descer e no final de uma grande reta eu acabei por sair no asfalto, exatamente no local em que se dá a união com o ramal Norte do Caminho da Fé, procedente de São Sebastião da Grama.


No horizonte, a fabulosa Serra da Fartura.

Então, eu girei à direita e segui pelo acostamento da rodovia por aproximadamente 1.500 metros, quando uma seta amarela, estrategicamente pintada numa grande árvore, me remeteu à direita, onde acessei uma larga estrada de terra, por onde prossegui em forte aclive.


Adentrando em terra novamente.

Nesse local, uma placa ali fincada me avisava que eu estava a 342 quilômetros de Aparecida.

Era a quinta vez que me defrontaria com a serra da Fartura, pois já transitara por esse local em 2005, 2006, 2012 e 2013, sempre pelo Caminho da Fé.


Enfrentando a Serra da Fartura pela 5ª vez!

Mais dois quilômetros em dura aclividade, numa bifurcação, junto a uma capelinha, eu dobrei à esquerda e prossegui ainda em forte ascenso.


Ainda em ascenso..

Esse trecho inicial foi bastante solitário, pois não avistei vivalma durante minha passagem pelas faldas da montanha, embora ouvisse, ao longe, o som de um trator que, com certeza, indicava alguém trabalhando num dos sítios existentes na região.

Mais acima, um senhor a cavalo me alcançou, refreou sua montaria, e prosseguimos conversando, a passos vagarosos.

Contou-me um pouco de sua lida diária, visto que residia num sítio próximo daquele local, do frio que costuma grassar ali no inverno, de sua paixão pela vida no campo.


O ascenso prossegue...

Disse-me que ia até um sítio vizinho buscar uma vaca recentemente adquirida.

Foi uma conversa proveitosa e alegre, porém, mais acima, ele adentrou numa estrada à direita e eu prossegui sozinho novamente.

Quase no final do morro, parei numa casa situada do lado esquerdo do Caminho, onde existe oferta de água potável, um gesto louvável que me chegou em boa hora.


Local onde existe oferta de água potável.

Fiz naquele local abençoado uma pausa para descanso, hidratação e, aproveitei a ocasião, para encher a garrafa plástica que eu portava.


Em direção ao derradeiro trecho em ascenso.

Mais um esforço final e, eu aportava ao cume da serra, num local situado a 1.403 metros de altitude, exatamente, onde me reencontrei com asfalto.


Superada a serra, no asfalto, e logo em descenso.

Naquele local também situa a divisa entre os municípios de Vargem Grande do Sul e de Águas da Prata, para onde eu estava seguindo.

Então, iniciou-se uma agradável declividade que fui vencendo em meio a muito verde até aportar em São Roque da Fartura, um distrito de Águas da Prata.


Igreja matriz de São Roque da Fartura.

Até aquele local eu já havia caminhado 25 quilômetros e me sentia bem fisicamente, em perfeitas condições de seguir em frente, conforme planejado.

Ali fiz uma pausa num bar para comprar água e um isotônico.

Também adquiri barras de chocolate e, aproveitando a ocasião, renovei meu protetor solar, pois o sol brilhava forte num céu sem nuvens.

Ainda me restavam, aproximadamente, 17 quilômetros até a Prata, de forma que para agilizar meu caminho, ao invés de transitar pela Pousada Cachoeira, estabelecimento credenciado pelo Caminho da Fé, eu optei por seguir diretamente pelo acostamento da rodovia que liga São Roque a Poços de Caldas.

Dois quilômetros acima, e obedecendo à sinalização, eu adentrei à direita e prossegui por uma larga estrada de terra, integralmente vazia naquele horário.


Trecho aberto e belíssimo!

Superando as distâncias, passei, sucessivamente, pelo bairro das Areias e o Pesk Trutas. 


Ainda sem sombras...

Visualizei, nesse trecho, grandes plantações de hortaliças e girassóis.


Trecho retilíneo e sem sombras.

Logo à frente, a partir do Mirante da Lajinha, o Caminho entra em rápido e contínuo descenso.

Assim, prossegui em frente, e observei enormes plantações de pés de café, sem dúvida alguma, a de maior cultivo naquela zona, possivelmente, pela sua fácil adaptação ao clima ali reinante.


Belas visões do entorno. O caminho passa lá embaixo, junto aquelas casas.

Mais à frente, conversei com alguns trabalhadores rurais que roçavam à beira da estrada.

Já em franco descenso, passei pelo sítio Maravilhoso, onde havia uma frondosa paineira.

Em uma outra ocasião, pude fotografá-la integralmente florida.

Assim, quedei-me pensativo e decepcionado ao constatar que ela havia fenecido, restando apenas seu imponente tronco seco.

Foi uma pena, possivelmente a copada árvore fora atingida por um raio em alguma tempestade, porém como não encontrei ninguém no local, não pude confirmar a razão de ter sucumbido.


Descendendo entre eucaliptos.

Mais abaixo, eu atravessei uma porteira e passei a caminhar em meio a um pasto, tendo um frondoso bosque de eucaliptos a me ladear pela direita.

Enquanto isso, do lado oposto, eu podia visualizar no horizonte os primeiros contrafortes da maviosa serra da Mantiqueira, com a qual teria contato na próxima jornada, quando seguisse em direção à cidade de Andradas.

Já no plano, eu parei diante de um grandioso Jequitibá Rosa, aproveitei para admirá-lo e fotografá-lo.


Próximo do imponente jequitibá!

A árvore, de porte magnificente, faz parte de uma mata nativa a qual se atravessa após trilhar ao lado de duas grandes estufas, utilizadas para cultivo de flores ornamentais, especialmente as orquídeas, onde há oferta de água potável.

Em face do calor reinante e pela sombra ali ofertada, fiz uma providencial pausa para ingestão de uma barra de chocolate e me hidratar.

Depois prossegui adiante, e na sequência ladeei uma enorme fazenda de criação de gado.

No final de uma trilha que seguiu em meio a um pasto, eu atravessei outra porteira e, já em franca descensão, caminhei bastante tempo dentro de um vasto cafezal.

Para resumir o percurso até esse ponto, diria que desfrutei de belas paisagens, observei fazendas de café e de criação de gado de leite bem cuidadas, bosques, nascentes, riachos, cachoeiras e ótimos locais para descanso.

Quase chegando ao término de um grande carreadouro, após um pequeno bosque, avistei ao longe a cidade de Águas da Prata, fincada num bonito vale cercado de montanhas.


A cidade de Águas da Prata aparece no horizonte, final da jornada! Por enquanto...

A cidade surgiu a partir de um povoado, mais ou menos em 1876, quando Rufino da Costa Gavião, descobriu a primeira fonte de água mineral de Águas da Prata, hoje denominada “Fonte Antiga”.

Por influência de forasteiros, vindo à região, em busca de cura e descanso, resultou o desenvolvimento e o progresso dessa terra.

Conta ela atualmente com 7.250 habitantes, e tornou-se oficialmente Estância Hidromineral em dezembro de 1926.

Nela nasceu o Caminho da Fé, cuja inauguração oficial deu-se em 11/02/2003.


A Tina, nosso Anjo da Guarda na Pousada dos Peregrinos, em Águas da Prata.

Mais 30 minutos de íngremes e escorregadias ladeiras, e pude, finalmente, adentrar à Pousada do Peregrino, quando meu relógio marcava exatamente 13 horas.

A Tina, funcionária da Associação há longo tempo, velha amiga, foi quem me atendeu à porta.

Prontamente ela me disponibilizou uma toalha para que eu pudesse tomar banho, para depois trocar de roupas.

Ainda fiquei ali conversando um bom tempo, matando as saudades, porém, no horário aprazado, tomei minha mochila e segui em direção à estação rodoviária.

Ali adentrei num ônibus e retornei ao meu lar, com a promessa de regressar dentro de alguns dias, assim que resolvesse meus problemas, para prosseguir minha jornada.

Poderia dizer, para encerrar essas notas, que encontrei o Caminho muito bem sinalizado e, praticamente, não tive dúvidas quanto ao rumo a tomar em todo o trajeto que percorri.

Ainda assim, tomo a liberdade de sugerir ao peregrino portar o “Guia do Caminho da Fé”, como eu fiz.

Recomendo esse opúsculo editado pelo ciclo culturista Antônio Olinto (www.antonioolinto.com.br), pois ele traz informações valiosíssimas sobre todo o percurso abrangido pelo Caminho, além de conter dados extremamente confiáveis sobre quilometragem, altimetria, informações turísticas, etc... 


IMPRESSÃO PESSOAL – Uma das etapas mais difíceis de todo o percurso, demandando grande desgaste físico e muita pertinácia, sendo superada em grau de dificuldade, em minha opinião, somente pelo trajeto entre Borda da Mata a Estiva, que já percorri em 4 oportunidades. Todavia, como era meu 8ª dia de caminhada, já estava bem-adaptado à dorida rotina peregrina. Demais, o trajeto foi feito, salvo raras exceções, em meio a muito verde, com destaque para a belíssima serra da Fartura. O trecho sequente, até Águas da Prata, mostrou-se fácil e agradável, quase sempre em descenso, oferecendo belas paisagens, um colírio para os olhos, conjugado com muito verde em praticamente toda a sua extensão.





BOM CAMINHO A TODOS!

Julho/2016

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