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3º dia – MIGUEL BURNIER à CONGONHAS – 28 quilômetros


3º dia – MIGUEL BURNIER à CONGONHAS – 28 quilômetros


A jornada, quilometricamente falando, baseada nos dados disponibilizados na planilha de bolso, prometia ser bem menor que as anteriores, assim, levantei às 5 h, calmamente fiz minha higiene matinal e preparei encorpado café na cozinha do Centro Comunitário.

Bem disposto e animado, deixei o abrigo às 5 h 30 min, caminhando em direção à saída do pequeno povoado, integralmente silencioso naquele horário.

Mais abaixo passei defronte à pequena gruta erigida em homenagem à Nossa Senhora Auxiliadora e principiei a descer. 



Já, no plano, transpus um murmurejante regato sobre uma bonita ponte e logo à frente acessei a estrada principal, por onde viera caminhando no dia anterior.

Como de praxe, o dia mantinha-se escuro e neblinoso, propiciando mínima visualização dos locais por onde eu passava. 

Apenas para exemplificar, eu sabia que do meu direito me acompanharia, por quase todo trajeto, um grande lago construído pela Mineradora Gerdau. 

Entretanto não o avistei, posto que a densa cerração circundante impedia a visão dos arredores.



O tráfego de veículos que no início do percurso se mantinha ínfimo, ganhou notável incremento após às 6 h, com grandes caminhões e carretas basculantes cruzando a estrada em ambas as direções. 

Na verdade, uma parte do minério de ferro extraído da mina de Miguel Burnier segue para a unidade de pelotização, situada em Ouro Branco, pela malha ferroviária. Contudo, uma boa parcela é transportada por via rodoviária.

Às 7 h, depois de ter percorrido 9 quilômetros, ultrapassei a mineração Lagoa Seca e logo adentrei em asfalto. 

O trânsito de veículos pesados nesse horário mostrava-se infernal, catalizando toda minha atenção, porquanto nesse trecho inexiste acostamento na rodovia.

Finalmente, às 7 h 30 min, acessei um grande trevo e nele, obedecendo os marcos, segui em frente pela MG – 030. 

E, às 8 h, depois de percorrer 14 quilômetros, chegava em Lobo Leite, um pequeno distrito cuja sede é Congonhas.

Essa denominação surgiu em 1926, em homenagem ao engenheiro Francisco Lobo Leite Pereira, chefe do Prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil. 

O mesmo nome também foi usado para denominar a estação ferroviária do povoado. 



Nessa localidade, a linha de trem corta uma paisagem colonial, e o destaque é a Igreja de Nossa Senhora da Soledade, cuja construção é datada de 1.756. 

O templo foi tombado pelo Estado, em 28 de Março de 1978, e é visita obrigatória para quem deseja ver a arquitetura da primeira metade do século XVIII, visto que, curiosamente, o conjunto é enquadrado por dois pilares com pedestal e a sineira fica separada da igreja.

Como ainda era bastante cedo, entrei numa movimentada padaria para tomar café e pedir informações. 



Bem alimentado, depois de fotografar a bela igrejinha recentemente restaurada, prossegui à esquerda e logo acessava uma estradinha de terra.

Depois de atravessar um espraiado córrego por uma graciosa ponte, principiei a subir encrespada ladeira, orlada de grandes arbustos por ambos os lados. 

A cerração ainda era intensa, de maneira que o clima mantinha-se fresco e úmido, propício para a caminhada.

Mais acima, a paisagem abriu e passei a caminhar por uma estrada larga, bastante pedregosa, cercada por luxuriante vegetação. 

O dia tinha nascido a pouco, o orvalho gotejava das folhas das árvores e a alegria reinava em meu coração.

Encontrava-me muito bem, haurindo a pulmões cheios o ar vivificante da manhã, embalsamado pelo agreste perfume das matas adjacentes. 

Sentia-me renascer no meio da natureza que me cercara na infância, e ora me avivava a lembrança de um passado já longínquo.



Nesse idílico local, pleno de bons presságios, lembrei-me de fragmentos de um inspirado texto psicografado sob o título “Centelha da Eternidade”, pela “médium” americana Judy Z. Knight, que afirma ser o canal de comunicação de uma entidade espiritual denominada RAMTHA, cujo teor, transcrevo, para reflexão:

“Foi-Ihe ensinado que você nasceu apenas para viver em um momento do tempo, para envelhecer e então morrer. Por acreditar que era verdade, isso realmente se tornou a realidade de sua vida sobre este plano.

Mas é necessário que você perceba que na verdade você é uma essência contínua e imortal que tem vivido há bilhões de anos – desde que Deus, seu amado Pai, a totalidade do pensamento, contemplou a si mesmo no brilho da luz que você se tornou. Você é muito mais do que meramente humano.

Quem é você? Por que está aqui? Qual o seu propósito e seu destino? Você pensa que você é meramente fruto da coincidência, nascido para viver um punhado de tempo e depois não existir mais? Realmente?

Você foi tudo que existe em todas as suas compreensões históricas. Por quê? Para o propósito do sentimento, para o propósito da sabedoria, para o propósito de identificar o maior mistério de todos os tempos - VOCÊ !!! De onde você pensa que veio? Pensa que é simplesmente um amontoado de massa celular que evoluiu a partir de uma única célula?

Então quem é que escuta tão atentamente por detrás de seus olhos? Qual é a essência que lhe dá sua unicidade e personalidade, seu caráter e seu “tempero”, sua capacidade para amar, para abraçar, para ter esperança, para sonhar, e o poder de criar? E onde você acumula toda a inteligência, todo o conhecimento, toda a sabedoria que manifesta, desde quando era uma criancinha?

Você pensa que se tornou o que é foi meramente em uma vida, e que é apenas um sopro na eternidade? Tudo o que você é, você se tornou na vastidão do tempo ao viver vida após vida. E de cada uma dessas experiências de vida, você conquistou a sabedoria que ajudou a formular a unicidade e a beleza chamada você. 

Você não tem preço, é belo demais para ter sido criado por apenas em um momento delimitado na eternidade do tempo. Você pensa que seu corpo é você? Não é. Seu corpo é apenas um disfarce que representa a essência invisível que é sua verdadeira identidade: a série de sentimentos-atitudes, chamada seu ser-personalidade.

Pondere isso por um momento, Você é a essência do outro que você ama, o ser-personalidade invisível que está por detrás de seus olhos. O que você ama no outro é a essência invisível que faz seu corpo funcionar seus olhos cintilarem, suas mãos acariciarem, torna sua voz melodiosa e purifica sua alma.

Seu corpo é na verdade uma máquina maravilhosa e refinada, mas não é nada sem aquilo que o faz funcionar, que é você. Você é uma série de pensamentos ou sentimentos-atitudes, que se apresentam como um ser-único.

E você alguma vez já viu seus pensamentos? Você já viu sua personalidade? E quanto ao seu riso - você pode ouvi-lo sem seu corpo? Você não concebe quão grande você realmente é, porque o que você é realmente é tão invisível quanto o vento. Do mesmo modo que você o é para si mesmo - o maior de todos os enigmas.

Pois o que está por detrás de seus olhos, por baixo de sua fina roupa de linho, para além da ilusão de sua face, é a virtude invisível do pensamento superior que é Deus: o ser de Infinita Magnitude que faz você ser você. Você é uma energia de princípio de luz circular, chamejante e pura O que você verdadeiramente é, é aquilo que você habita; é o que você sente. Você é conhecido por suas emoções, não por seu corpo. Na pequenez de seu ser está coletado tudo que você já foi desde que nasceu de Deus, seu Pai amado.

Deus habita dentro de você e lhe concede a inteligência sublime que lhe dá crédito e poder de criar. É a maravilhosa força que mantém sua vida para sempre e sempre e sempre. Você é uma centelha de luz viajando pela Eternidade! ”



Depois de relembrar essa magnífica exortação à existência íntegra e sadia, prossegui em frente, retemperado de espírito e alma. 

E, mais adiante, precisei enfrentar empinada ladeira, todavia, de pequena extensão.

Numa grande baixada por onde caminhei em seguida, alcancei um senhor que carregava um feixe de madeira nas costas, acompanhado por três alentados cães. Contou-me que se chamava Alberto Carlos e residia sozinho num sítio próximo.

Disse que as terras ali não eram boas para o plantio de cereais em larga escala, de forma que cultivava apenas uma horta próxima de sua casa, além de plantar mandioca e bananas para consumo próprio. 

Também mantinha algumas vacas para o leite diário. 

Relatou-me, ainda, que mão de obra para trabalhar no campo estava difícil de encontrar, de maneira que vivia sozinho, mas feliz, embora sua família agora se resumisse aos seus fiéis escudeiros caninos.

Numa bifurcação à frente, ele seguiu à direita e eu para o lado oposto, não sem antes nos despedirmos como velhos amigos. 



Mais à frente, caminhei a beira de um grande ribeirão, tendo-o do meu lado esquerdo, em meio a uma vegetação baixa e cerrada de arbustos. 

Após atravessá-lo por uma ponte, principiei a subir e no topo de um morrote, avistei no horizonte a cidade de Congonhas, minha meta para aquele dia.

       


Às 9 h 30 min, depois de percorrer 22 quilômetros, já em zona urbana, encontrei o derradeiro totem da Estrada Real. 

E, num bar próximo, solicitei ao proprietário informações sobre a localização da Basílica na cidade.

Gentilmente, ele deixou o estabelecimento comercial e mostrou-me, ao longe, encarapitada num morro, o templo dedicado ao Bom Jesus de Matosinhos. 

Afirmou que a Basílica estava a 8 quilômetros de distância e que eu deveria tomar um táxi, vez que teria um trajeto complicado pela frente, face ao caos urbano, já meio adormecido em meu pensamento.

Agradeci-lhe a sugestão, contudo ainda era muito cedo, de forma que prossegui caminhando, agora sobre asfalto. 

Num cruzamento, um senhor que montava uma bicicleta se apresentou como Ricardo e passou a pedalar ao meu lado. 

Contou-me que era mecânico e prosseguimos juntos proseando.



Ao saber do meu destino, sugeriu que eu seguisse por uma avenida situada entre o linha férrea e a rodovia BR – 040, que corta toda a urbe, pois faria um trajeto bem mais tranquilo. 

Logo adiante, por uma larga ponte, transpusemos o rio Maranhão que banha toda a cidade e seguimos à direita, sempre em frente, no estrito rumo norte - sul.

Mais adiante, ele me apresentou a um outro senhor de nome Wilson, seu amigo, que fazia a caminhada matinal, e alegando estar atrasado para um compromisso, prosseguiu pedalando apressado. 

Eu segui conversando com o novo companheiro, agora em ritmo mais forte, posto que suas passadas eram largas e rápidas, de alguém bem disposto e que iniciara a pouco seus exercícios.

Numa movimentada avenida, ele dobrou à esquerda, mas me indicou o local por onde eu deveria prosseguir, de forma que às 10 h 30 min eu adentrava ao Hotel Colina, onde fiquei hospedado. 

O estabelecimento fica situado no alto de um morro, próximo à Basílica, e naquela direção segui, após um reconfortante banho.



A cidade, atualmente, com 45 mil habitantes, tem o nome derivado de uma planta abundante na região, de nome CONGÕI, que significa "o que sustenta".

Situada a 70 quilômetros de Belo Horizonte, Congonhas possui um expressivo conjunto de riqueza barroca do maior artista do gênero no Brasil: Antonio Francisco Lisboa, mais conhecido pelo apelido de Aleijadinho. 

No adro do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, ele esculpiu em pedra-sabão as famosas imagens dos 12 profetas em tamanho normal, que são visitadas anualmente por milhares de turistas brasileiros e de todo o mundo.

Além disto, as 6 capelas que compõem o Jardim dos Passos, em frente à Basílica, representam a Via Sacra, com belíssimas imagens esculpidas em cedro, também feitas por este grande artista barroco. 



Em 1.985, todo este conjunto foi tombado pela UNESCO e transformado em Patrimônio Cultural da Humanidade.

Dizem os congonhenses que do alto da montanha os profetas de Aleijadinho gesticulam solenes, numa grandiosidade teatral, apontando a cidade lá embaixo. 

Parece que conspiram ou tramam segredos.

No sopé do morro, o povo da terra permanece em seu labor diário, mas de vez em quando, uma espiada para o alto, mostra o olhar de fé atiçado em direção à montanha, cujo silêncio, quase cúmplice, revela, apenas, uma vocação maior. 



Religiosidade, arte e trabalho se mesclam, como uma colcha de retalhos, e se entrelaçam entre vales e montes, proporcionando o clima exato da espiritualidade que transpira em Congonhas. Realmente, há algo de mágico no alto da colina onde está o Santuário do Bom Jesus e a tocante sensação de paz que envolve o local parece resultar de um feitiço, de um suave encantamento.

Sempre foi assim. 

A história da criação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Congonhas, em 1734, se confunde com a própria origem do povoado e com a fundação da Igreja Matriz, num tempo em que os homens se espalhavam pelo interior da Minas Gerais à procura dos veios de ouro.

Para almoçar utilizei os serviços do restaurante Brasa Grill, de excelente qualidade. 

E, após uma bela “sesta”, fui conhecer o centro comercial da cidade, bem como passear por seu comércio. 

Aproveitei, ainda, para ir ao banco e acessar a Internet.



Ao retornar ao local de pernoite, fui surpreendido pela visita do radialista Hilton Ferreira, que me aguardava no hall do hotel. 

O simpático repórter, que apresenta um programa de variedades na rádio Congonhas AM, fora avisado de minha presença por um amigo, possivelmente, um daqueles com quem havia mantido contato de manhã.

Conversamos um pouco e depois, graças à minha aquiescência, ele gravou breve entrevista a ser levada ao ar no dia seguinte. 

Curioso, dentre outras perquirições, indagou minha procedência, objetivos, experiências e, principalmente, os motivos de minha caminhada solitária. 

Enfim, foi uma conversa descontraída, salutar e plena de momentos gratificantes.

Mais tarde, ao invés de jantar, optei por ingerir um lanche e logo depois me recolhi, pois fazia bastante frio naquele dia.


Com o radialista Hilton Ferreira


AVALIAÇÃO PESSOAL – Um percurso de razoável envergadura, sendo o trajeto entre Miguel Burnier e Lobo Leite extremamente obscuro e estressante, em face do intenso tráfego de caminhões. Em compensação, o trecho seguinte é integralmente trilhado em meio a intensa vegetação, por locais desertos, sossegados e silenciosos. A lembrar, ainda, o trajeto derradeiro, todo ele feito dentro da cidade, com seus entraves e peculiaridades, como calçadas estreitas, morros a escalar e trânsito caótico.