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5º dia: BENEDITO NOVO à DOUTOR PEDRINHO – 27 quilômetros


5º dia: BENEDITO NOVO à DOUTOR PEDRINHO – 27 quilômetros



“Viaja, e tu compreenderás o significado das coisas.” (Provérbio Marroquino)

 

 

“O ar puro e as belas paisagens do percurso lhe deixará com os ânimos reabastecidos. Em estradas estreitas e de terra, cercadas de muita vegetação de mata nativa e renovável, é possível deparar-se com pequenas pontes, com a agricultura de subsistência, casas muito bem cuidadas e jardins floridos dos moradores do local. Os ribeirões estão por toda parte, compondo o cenário perfeito para fotografar, além de, ser um ótimo local para um piquenique. Dizer que neste trecho existem pontos turísticos seria covardia pois o trajeto todo acaba tornando-se um ponto turístico único. Lembrete importante: leve lanche e água pois neste trecho será difícil encontrar pontos de alimentação. Seja precavido!”

(Extraído do livro guia do roteiro, que é entregue ao caminhante quando da retirada da credencial, em Indaial/SC)

 

O trajeto do dia seria de razoável extensão, agravado pela incidência de sol forte, após as 10 horas.

Por sorte, sabia que transitaria um bom trecho por bosques de eucaliptos e pinus, o que, por certo, iria amenizar o calor e a incidência dos raios solares.

Dessa forma, me levantei às 4 h, ingeri calmamente meu desjejum, e deixei o local de pernoite às 5 h 15 min, seguindo em direção à ponte pênsil que transpõe o rio Benedito, a mesma por onde eu chegara no dia anterior.



Então, cuidadosamente, pois ainda estava bastante escuro, localizei a primeira flecha branca, depois dobrei à direita e retornei sobre meus passos em direção à uma colina, sendo que esse trecho, embora de terra, é urbano e a iluminação se fazia presente.

Um quilômetro depois, aportei à uma bifurcação, então, obedecendo à sinalização, girei à esquerda e principiei a ascender por um caminho silencioso, pleno de árvores, e eucaliptos.

Tal aclive perdurou por mais 3 quilômetros, e o tempo permanecia fresco, ventoso, ideal para caminhar, de forma que venci tal desnível com muita disposição e alegria.

Com o dia principiando a clarear, aportei no cimo do morro, numa altitude de 550 metros, então, passei a caminhar por um planalto arborizado, transitando entre belas e conservadas vivendas, plenas de floreiras e pequenas esculturas em seus jardins.



Outro item que me chamou a atenção nesse roteiro, foi que embora estivéssemos ainda a uma boa distância do Natal, pude ver em todas as residências alguma referência a essa data magna.

Isto materializado por papais noéis pendurados nos beirais das casas, luzes coloridas, presépios montados na varanda, enfim, até no mais humilde casebre, havia algum detalhe que chamava a atenção para o dia do nascimento de Cristo.

Prova de que a região abriga um povo extremamente religioso e, pelo capricho, trabalho e tranquilidade que observei na rota, também, cumpridor de seus deveres.

Bem, depois de cinco quilômetros vencidos, numa bifurcação, e atento às flechas brancas, segui à esquerda, atravessei um riacho por uma ponte e logo acessei uma larga estrada de piso empedrado, já bastante movimentada àquele horário.



A me ladear, imensos arrozais e muitas flores, algumas ainda desabrochando.

Encontrei também belas residências nesse trecho, porém já em estilo daquele apresentado na novela “Terra Nostra” da Rede Globo, sinal de que estava adentrando a locais onde o forte é a colonização italiana.

Depois de 8 quilômetros vencidos em bom ritmo, sob um céu nublado e fresco, aportei ao bairro de Santa Maria, e passei diante de sua igreja, dedicada à Nossa Senhora de Lourdes.



Ao redor do templo, pude visitar e fotografar inúmeras grutas edificadas, cada uma homenageando um santo diferente, sempre com o nome da família que generosamente financiou sua construção.

Logo depois da ermida, as flechas me remeteram à esquerda, por onde prossegui.

No entanto, conforme li em alguns relatos, se eu seguisse adiante, logo encontraria a rodovia, sendo que daquele marco até a cidade de Doutor Pedrinho, minha meta para aquele dia, restariam apenas 10 quilômetros.

Eu, porém, queria o contato com a natureza, de forma que preferia caminhar os 17 quilômetros restantes, pelo roteiro proposto pelo Circuito, afinal viera ali por esse motivo.



Na verdade, entendo que quando decidimos percorrer um Caminho, mesmo sabendo que não temos tanto tempo disponível, devemos nos desligar de tudo e seguir em frente, aproveitando cada minuto, preferentemente, pelo roteiro adredemente demarcado.

Vez que, o contato com a trilha deserta nos traz sensações distintas, que nos transformam em outras pessoas, mais fortes, dinâmicas, confiantes e independentes.

A linha indefinida do horizonte se movimenta lentamente, nossos limites se ampliam. Aprendemos que grandes desafios podem ser vencidos com um passo de cada vez.

O mundo dos caminhos é sutil, feito de liberdade e de energias, como o voo das borboletas.

Descobrimos, também, que aqueles ditames que nos foram impostos quando crianças, não são assim tão reais e, o melhor, os Caminhos nos fazem livres.

 


Dessa forma, seguindo em frente, por algum tempo transitei entre residências e, inclusive, passei diante de um Grupo Escolar.

Contudo, mais adiante, adentrei em outra larga estrada de terra e passei a caminhar entre imensos campos agriculturados, onde o forte eram os arrozais.

A natureza prosseguiu exuberante, com muitas árvores e milharais, até que, após 11 quilômetros percorridos, numa bifurcação, eu segui à esquerda em direção ao bairro de Ribeirão do Campo.

Logo encontrei um abrigo utilizado por quem aguarda ônibus, então aproveitei para fazer uma pausa, onde pude me alongar, hidratar e ingerir uma banana.

 


Enquanto descansava, pensei nos pioneiros que desbravaram essa região, que se embrenharam pela mata, e que só contavam com suas próprias pernas, pois não havia como passar com montarias pelas primitivas trilhas das antas.

Por isso mesmo, tinham que carregar a própria carga e, dessa forma, ao fazer desse modo minha viagem, sinto-me muito próximo daqueles paladinos.

Quando colocamos nossos pés nessas trilhas, não só absorvemos um pouco da energia secular daqueles que nos antecederam, como também somamos às deles as nossas pegadas.

Ao penetrar as florestas naquela época, corria-se grandes riscos, pois, quanto maior a interiorização, mais mosquitos, índios bravios, animais ferozes ou peçonhentos se encontrava, além da fome que seguia junto das expedições.



Nesse sentido, ainda hoje existem riscos, mas são menores e diferentes daqueles.

A trilha não é só o sulco por onde vamos pisando, é o mundo, que vemos passar debaixo dos nossos pés.

O Caminho é o chão, é o contato com a terra mãe, mas é principalmente a rota, a passagem.

Quem viaja a pé tem a chance de saber essas coisas, visto que caminhando pela trilha, passo a passo, temos a oportunidade de ver movimentar-se, lentamente, a linha do horizonte.

Podemos, então, medir o mundo, penetrar sua alma e saber do quanto somos capazes. Aí, não sei bem porque, nos sentimos donos de um certo poder.

 


Bem disposto, retomei meu périplo, e logo principiei levemente a ascender, tendo um regato barulhento pelo lado esquerdo que, por sinal, estava bastante encorpado, possivelmente por conta das recentes chuvas.

Mais acima, a paisagem novamente se abriu e voltaram os imensos arrozais a me ladear por ambos os lados, pois estava transitando por outro vale fértil e aquoso.

Ao fundo, eu podia divisar um imenso capão de mata virgem, por onde, possivelmente eu iria transitar na sequência.

Um lavrador vinha, em sentido contrário, com uma enxada nas costas, roupas de trabalhador rural, e paramos para conversar um pouco.

Ele, o Sr. Mário, sucintamente, contou-me que era descendente de alemães, já residira em São Paulo, fato que abominava, e que o sítio ali já fora de seu avô, depois passara para seu pai, e agora lhe pertencia por direito.

No entanto, lamentou por seus filhos, pois eles não tinham vocação para morar no campo, ao revés, ambos, embora solteiros, residiam e trabalhavam em Timbó, e só compareciam ali nos finais de semana.



Com isto, confessou-me, quando falecesse, possivelmente aquele local seria vendido, pois não haveria pessoas habilitadas a prosseguir seu labor.

Despedi-me dele pensando que no Estado de São Paulo, essa debandada dos sítios para a cidade, por pessoas desejosas do conforto e novas oportunidades, já ocorreu há décadas.

Mais adiante, passei diante de uma grande serraria, onde pessoas trabalhavam açodadamente, com certeza para atender as encomendas do final de ano, que já estava próximo.

Então, 500 metros à frente, eu principiei a ascender por uma estrada localizada dentro de um frondoso bosque.

Já quase aportando ao topo do morro, eu fiz pausa para descanso, hidratação e, naquele local privilegiado eu pude observar detalhadamente, pela derradeira vez, o vale por onde eu transitara.



Ao visualizar o caminho por onde eu viera caminhando, já sumindo no horizonte, se transformando em uma manchinha branca no meio das plantações, pude compreender melhor Fernando Pessoa, que disse:

“Do alto do meu outeiro vejo tudo o quanto se pode ver do universo. Por isso a minha aldeia é do mesmo tamanho de outra terra qualquer”.

Já refeito, segui mais alguns metros, e encontrei uma placa indicando a entrada para a gruta de Santo Antônio.



Rapidamente, eu desci até o lugar e pude comprovar que efetivamente trata-se de uma verdadeira obra de arte da natureza, pois ela contém aproximadamente 150 metros de abertura, e é cortada ao meio por uma cachoeira de águas cristalinas e refrescantes.

Em seu interior existe um pequeno oratório, onde está entronizada a imagem do santo que batiza o lugar.

Fiz uma breve oração, pedindo proteção em minha “viagem“, depois retornei ao caminho e segui em frente.

Seiscentos metros depois, as flechas me remeteram à esquerda e logo passei diante de uma belíssima chácara.

A partir daí, o caminho tornou-se ermo e bucólico, situado em meio a exuberante vegetação, por onde transitei enlevado, aspirando o ar puríssimo que emanava do entorno.



O dia, que estava fresco e nublado, se iluminou por alguns minutos, o sol se abriu brilhante, para em seguida se fechar mais ainda.

Enquanto prosseguia solitário, ia conversando com meus botões, e estes momentos são extremamente preciosos.



Porém, uma vaga lembrança da cidade grande era o suficiente para me trazer um pouco de estresse.

Assim, preferi me concentrar na estradinha de terra que seguia maravilhosa, serpeando por dentro de uma exuberante mata nativa.

 

Caminho espetacularmente verde, silencioso e ermo, próximo de Doutor Pedrinho: um colírio para os olhos!

O clima manteve-se inalterado, sempre nublado e fresco, excelente para caminhar, de forma que meus passos seguiam tranquilos e em ritmo uniforme.

Eu prossegui por um bom tempo ainda caminhando pelo topo do morro e na parte final, passei por um frondoso bosque de eucaliptos.

Depois, finalmente, principiei a descender, e o fiz de forma bastante brusca, mas ainda dentro da exuberante mata nativa.

A descida foi forte e o cenário era perturbador, uma coisa linda!

Ao descender, sentia forçar os joelhos em demasia, além dos músculos das coxas e os dedos maiores dos pés, pois utilizava-os para “frear” meu corpo.



Já no plano, segui adiante por outra estrada larga e logo adentrei em esparsada zona urbana, plena de casas simples e construções em andamento, até desaguar em outra larga estrada cascalhada.

Ali as flechas me remeteram à direita, mas confuso quanto ao rumo a seguir, pois ainda não avistava povoação alguma, parei num grande galpão para tomar informações, mas vi que tudo ali se achava deserto.

Então, notei um senhor que trabalhava num barracão, sito do outro lado da estrada, e notei que vinha rapidamente em minha direção.

Pensei até que eu seria admoestado, pois quase adentrara em sua propriedade na tentativa de verificar se havia alguém em seu interior, mas ele muito educadamente, indagou se eu necessitava de algo, como água ou banheiro, por exemplo.



Percebi, por sua aparência, que se tratava de pessoa nativa do local, pois tinha braços fortes e pele tisnada.

Agradeci-lhe a oferta, e perguntei por onde eu deveria ir e, ainda, por quanto tempo, vez que me encontrava estafado, em vista do sol abrasador que me recepcionara no planalto.

Educadamente, ele me indicou a prosseguir em frente, ainda por uns 800 metros, que já adentraria em zona urbana.

Efetivamente, esse derradeiro trecho é belíssimo, pois margeia infindáveis arrozais, já que se trata de uma planície fértil e com farta irrigação.

Mais à frente, eu passei diante da igreja matriz da cidade de Doutor Pedrinho, girei à esquerda, transpus o rio Benedito, e logo aportava ao Hotel Cristofolini, local em que fiquei hospedado.

Após o banho e a necessária lavagem das roupas, desci para almoçar, vez que o restaurante funciona no andar térreo do estabelecimento.

 


Entre os anos de 1910 a 1920, nas terras que fazem parte do vale do rio Benedito Novo, existia uma pequena fazenda pertencente a Fritz Donner, pioneiro da colônia Benedito-Timbó, localidade que ainda conserva seu nome: "Salto Donner".

Por essas terras passaram três jovens sertanistas, Germano Rigo, Natal Notari e Fausto Noriller, os quais, orientados pelo pioneiro Donner, subiram o rio Benedito Novo e seus afluentes, chegando à barra do rio Forcação.

Essa época marca o início da colonização por migrantes vindos de Rodeio, Nova Trento, Luiz Alves e outras localidades.

A exploração das principais terras coube à Companhia Longo & Bona.

Em 23 de dezembro de 1948, através da Lei Estadual nº 248, no governo de Aderbal Ramos da Silva, o então Presidente da Assembleia Legislativa do Estado, no exercício do cargo de Governador do Estado de Santa Catarina, José Boabaid, a região passa à categoria de distrito com o nome de Doutor Pedrinho, homenagem ao pai do Governador Aderbal.

Sua população atual, conta com apenas 3.700 pessoas, a menor de todas as cidades por onde transitei nesse roteiro.

 


Depois de merecido descanso, saí para dar uma volta pela cidadezinha, e pude conhecer o interior de sua igreja matriz, cuja padroeira é Nossa Senhora da Glória.

Mais tarde, me detive a resolver um problema logístico, pois na próxima etapa não haveria local para hospedagem, vez que a Pousada Zinco, que é o referencial para pernoite nesse percurso, somente atende grupos, e eu estava sozinho.

Dessa forma, contando com o auxílio da Dona Lúcia, a proprietária do hotel, contratei um taxista para me levar até o 25º quilômetro do roteiro, local de uma bifurcação de caminhos, onde, ao invés de prosseguir rumo à Benedito Zinco, eu seguiria à esquerda, em direção à cidade de Rodeio.



Assim, muito a contragosto, deixaria de conhecer a etapa Doutor Pedrinho à Benedito Zinco, mas estava consciente de que não me restava outra alternativa, senão, prudentemente, “pular” esse trecho.

Tudo decidido, fui até um supermercado fazer compras, depois ingeri um singelo lanche em meus aposentos.

E logo fui dormir, pois me encontrava bastante cansado em face da jornada vivenciada naquela ocasião.

 


IMPRESSÃO PESSOAL: Uma jornada de razoável extensão, e com dois aclives importantes a serem superados. Porém, plena de muito verde, representada pela mata nativa que orla uma grande parte do percurso. No geral, uma etapa onde há dificuldades a serem superadas, mas ela é quase integralmente campestre. Por isso mesmo, extremamente agradável.