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2ª dia – ITANHAÉM à PRAIA GRANDE

2ª dia – ITANHAÉM à PRAIA GRANDE – 36 quilômetros

 

“Nenhum caminho de flores conduz à glória”. (La Fontaine – Fables)

 

Choveu a noite toda, e em alguns momentos eu ouvi trovões, sinal de que a tempestade prosseguia, sem tréguas.

Além disso, em vista da proximidade do meu quarto com o mar, tudo ganhava uma proporção mais intensa, por conta do ensurdecedor barulho das ondas, que pareciam rebentar junto à minha janela.

Ainda assim, me levantei às 5 horas, e enquanto fazia minhas abluções matinais, pensava se deveria prosseguir em minha aventura, mesmo debaixo de muita água.

Depois de uma avaliação conscienciosa, o espírito peregrino e aventureiro falou mais forte.

Afinal, eu estava ali para caminhar, portanto, de bom grado, deveria aceitar as condições que a natureza me impunha.

Isto resolvido, tomei café, vesti duas capas de chuva, e deixei a pousada exatamente às 6 horas, seguindo por ruas alagadas e vazias, em direção à ponte que transpõe o rio Itanhaém.

Se o tempo estivesse bom, eu teria transitado anteriormente pela praia dos Pescadores, local onde foi gravada na década de 70, a primeira versão da novela Mulheres de Areia, da extinta TV Tupi.

Hoje, a orla está voltada diretamente para o mar bravio, sendo o local preferido para a prática de surfe.

Eu já conhecia o lugar e sabia de sua beleza natural, principalmente, porque defronte a praia se localiza a ilha das Cabras, um dos recantos mais exóticos da cidade.

O acesso a esse paraíso somente é possível durante a maré baixa, o que não era o caso naquele dia.

Após transpor o rio, o roteiro me encaminhou em direção à praia da Saudade, porém, em face do clima reinante, segui diretamente para o centro da cidade.

Depois de passar ao lado da igreja matriz, girei à direita e prossegui caminhando pelo calçadão à beira mar, passando, na sequência, pelas praias do Praião, Satélite e Suarão.



O mar estava agitado e frenético, invadindo toda a faixa de areia, impedindo meu trânsito por esse piso tão especial.

Num determinado local, com o dia clareando, acabou a via que seguia paralela ao oceano, restando apenas um caminho matoso e irregular, repleto de barro e água, que precisei vencer laboriosamente e a muito custo.

Este foi, de longe, o pior trecho que caminhei em todo o roteiro, por conta do mau tempo reinante, que, em dias normais e sob o sol, teria sido extremamente aprazível.

Finalmente, quando adentrei em Mongaguá, para minha alegria e alívio, voltei a transitar sobre um piso cimentado, vez que a partir da divisa dos municípios, fui agradavelmente surpreendido por encontrar um grande calçadão, muito bem cuidado.



Mongaguá fez parte da Capitania de São Vicente, por consequência da 1ª Cidade do Brasil, fundada por Martin Afonso de Souza em 1532.

Assim, eram constantes as passagens de mensageiros do Imperador por seu território, com correspondências para Cananéia e Itanhaém.

Emissários de Martin Afonso de Souza, capitães de mato e jesuítas, encontravam em Mongaguá o local de descanso para as suas viagens.

O rio Mongaguá castigava os colonizadores com febres, e esses só podiam valer-se das folhas e raízes indicadas pelos nativos.

Neste período, as terras que hoje fazem parte de Mongaguá foram retalhadas em sítios, onde a principal atividade agrícola era o cultivo da banana. 

Em 1776, o sítio Mongaguá foi arrematado pelo Coronel Bonifácio José Ribeiro Andrada, pai de José Bonifácio, o "Patriarca da Independência".

No século XVI, os habitantes de Mongaguá eram os índios Guaranis, que tinham suas tendas armadas às margens dos rios Aguapheú e Mongaguá, onde a pescaria era farta.

O nome Mongaguá foi dado por eles e significa "Água Pegajosa", contudo já teve outros nomes, como Terra dos Santos Milagres e Terra dos Padres. 

No dia 31 de dezembro de 1958, o então governador do estado Jânio da Silva Quadros, assinou a Lei que elevou Mongaguá a categoria de Município.

No ano de 1977, ela foi elevada a categoria de "Estância Balneária", pela Lei nº 1482, publicada pelo Diário Oficial de 07 de dezembro de 1977, passando a denominar-se: ESTÂNCIA BALNEÁRIA DE MONGAGUÁ.

Atualmente, sua população é de 48 mil habitantes.

 

A orla marítima de Mongaguá tem 13 quilômetros de extensão e as praias são contínuas, com boa infraestrutura, sendo conhecidas pelo nome do bairro onde estão localizadas.

As principais são: Itapoã, Central, Vera Cruz, Santa Eugênia, Itaóca e Agenor de Campos, esta última a mais frequentada durante o verão.

São águas limpas e atraem tanto banhistas, bem como praticantes de esportes náuticos, surfe e bodyboarding. 

Prosseguindo em meu roteiro, logo passei em frente ao Parque Turístico Ecológico A Tribuna, que, com cerca de 5.000 m2 de área, abriga inúmeros viveiros com os mais variados tipos de pássaros.

Ela possui diversas espécies nativas da região, viveiros interativos, lagos artificiais, aquários, serpentário, recinto para exposições, e um mostruário de pedras de minerais e areias de todo o litoral sul.

Isto tudo eu sabia, porque tomara conhecimento pela internet, porém em face do horário extemporâneo, ele ainda se encontrava fechado, obstando uma visita ao local.



8/7/2012 07:48:28 - Portico: 8 - 4º Pórtico Eletrônico: Plataforma Marítima de Pesca Amadora (Mongaguá)

Assim, caminhei mais alguns metros e logo chegava à Plataforma de Pesca, onde está instalado o 4º pórtico do caminho.

Após registrar minha passagem e fotografar o entorno, parei para observar a enorme construção, que é a maior estrutura de concreto existente sobre o mar da América, pois avança 400 m adentro, depois, com dois braços de 100 m cada um, para os lados.

Localizada no bairro do Agenor de Campos, a 9 quilômetros do centro, atrai diariamente inúmeros usuários que vão a procura das mais variadas espécies marítimas, sendo que sua capacidade é de 1.000 pescadores, simultaneamente.

Ao lado desse complexo, existe uma Feira de Artesanato, o Monumento à Iemanjá e vários quiosques.

Como a chuva finalmente cessara, pude retirar minha capa protetora e, utilizando a excelente estrutura ali existente, fazer uma pausa para lanche e hidratação no local.


Bem disposto, reiniciei minha caminhada sem chuva, mas, sob um céu cor de chumbo e um horizonte enfarruscado.


Três quilômetros à frente, uma placa me convidava entrar à esquerda, a fim de conhecer as aldeias Aguapeú e Itaóca, localizadas na Reserva Ambiental da Mata Atlântica.

Ela abarca um complexo fluxo aquático, composto pelos rios Bichoró, Mineiro e Aguapeú, e o acesso ao local é feito por barco.

Ali é possível conhecer os índios tupi-guaranis que habitam o lugar.

Num dia de sol radioso, poderia ser um bom passeio, contudo, naquele clima inóspito e em face do horário matutino, eu duvidei que tivesse sucesso em minha visita, de forma que prossegui adiante.



Mais à frente, passei defronte ao Centro Cultural Raul Gomez, e depois pela Praça Dudu Samba, onde são realizadas as principais festividades do município como carnaval, shows musicais e outros eventos importantes.

Tudo ali estava silencioso e deserto, apenas alguns garis faziam a limpeza daquele espaço, enquanto inúmeros vira-latas vagavam a esmo pelo local, em busca de alimento.

Um pouco mais à frente, passei em frente à igreja da Padroeira da cidade, dedicada a Nossa Senhora da Aparecida, localizada ao lado do rio homônimo, que dá nome à cidade, o qual eu transpus através de uma moderna ponte.



Prosseguindo, diante de uma placa que marca 52 quilômetros percorridos, desde o ponto inicial, e obedecendo a sinalização do caminho, eu fleti à esquerda, transitei por algumas ruas, ultrapassei a rodovia Padre Manoel da Nóbrega por um túnel, e me dirigi ao Poço das Antas.

O acesso final é feito através de uma estrada de terra que, em face das recentes chuvas, se encontrava com bastante barro e escorregadia.

8/7/2012 09:01:36 - Portico: 10 - 5º Pórtico Eletrônico: Poço das Antas (Mongaguá)

O local, extremamente arborizado, serve como um “pulmão verde” para a cidade, e conta com piscinas naturais, trilhas e corredeiras, além de quiosques e churrasqueiras.

Tudo ali se encontra vazio e escuro, apenas conversei com o funcionário responsável pela entrada e saída de visitantes, enquanto registrava minha passagem pelo 5º pórtico do roteiro, alocado defronte à portaria desse complexo ecológico.

Já retornando, tornei a passar sob a rodovia, acessei a Avenida Getúlio Vargas e, mais abaixo, retornei à beira mar, caminhando novamente pela Avenida Governador Mário Covas Junior, no sentido norte.



Uma hora depois, eu ultrapassei a marca de 60 quilômetros percorridos, e logo encontrei um pescador local, carregando um filhote de pinguim, que acabara de resgatar no mar bravio.



A ave parecia em bom estado, e ele se dirigia a um orelhão para ligar ao Corpo de Bombeiros, para que o pobre animalzinho fosse resgatado, com o fito de se avaliar sua saúde e, posteriormente, ser devolvido ao seu habitat natural, a Antártida.

O céu voltou a fechar, o clima esfriou e, apesar de estarmos vivenciando um domingo de feriado prolongado, pouquíssimas pessoas, mesmo de carro, ousavam enfrentar o mau tempo.

Mais adiante, eu atravessei um pequeno rio por uma ponte, exatamente no local em que divisa os municípios, deixando, então, o de Mongaguá e adentrando no de Praia Grande.

Então, a nomenclatura da avenida que seguia paralela ao mar mudou de nome, passando de Governador Mário Covas Junior, para Presidente Castelo Branco.

Após ultrapassar o quilômetro 66 da rota oficial, inferi, pelos meus cálculos, que já estava à altura do hotel onde iria pernoitar.



Então, dobrei à esquerda, caminhei por mais 6 quarteirões, e saí na Avenida Presidente Kennedy, à altura de seu número 14.000.

Porém, para meu azar, o Gold Hotel, local que eu iria me hospedar, se localiza no número 16.574 daquela via.

Para piorar, desabou violento temporal, obrigando-me a recolocar a capa de chuva e retroceder 2.500 metros, o que acresceu em 5 quilômetros a minha jornada naquele domingo.

Depois de um quente e relaxante banho, utilizei o restaurante do próprio hotel para fazer minha refeição e não me arrependi, pois o “buffet” estava estupendo.

Como a chuva persistia em cair, deitei-me e dormi por mais de 2 horas.

Quando acordei, o mau tempo se fora e pude retornar à beira mar, onde tive tempo para passear calmamente pelo calçadão, tomar sorvete e, mais tarde, beber uma cerveja num dos inúmeros quiosques que estão instalados ao longo da praia.



Efetivamente a orla que percorrera naquele dia é de beleza incomum, porém toda sua exuberância foi obscurecida pelo mau tempo reinante, transformando meu passeio num incômodo exercício de persistência mental e desgaste físico.

Mais tarde, já no local de pernoite, em conversa com o pessoal de Santo André, fiquei sabendo que eles haviam desistido de caminhar naquela data.

Assim, após um tardio café da manhã em Itanhaém, haviam adentrado a perua Van, e seguido diretamente para o local de pernoite.

 

AVALIAÇÃO PESSOAL – Uma jornada que deveria ser leve e agradável, mas se tornou um tormento em face da chuva e das rajadas de vento, provenientes do mar. Que, enfurecido, se assenhoreou da praia inteira, obrigando-me caminhar o tempo todo por locais mais elevados, quase sempre pelo calçadão, num trajeto duro, escorregadio e frustrante, em razão do clima inóspito vivenciado em todo o percurso.


3ª dia – PRAIA GRANDE à SANTOS