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10º dia – TIRADENTES à SÃO JOÃO DEL REI – 15 quilômetros


10º dia – TIRADENTES à SÃO JOÃO DEL REI – 15 quilômetros
 



O trajeto seria o mais curto de todos dentre aqueles que trilhei, de maneira que levantei às 5 h, após uma noite calma, serena e plena de sono, bem de acordo com a atmosfera idílica da cidade.

Em seguida, ingeri um lauto café e deixei o local do pernoite às 6 h, pontualmente.

O percurso inicial é feito pela rua Frei Veloso e, depois de um quilômetro, encontrei o primeiro marco da ER. 

Todo o trajeto é feito sobre calçamento do tipo “pé-de-moleque”, que desgasta demais o caminhante, pela sua extrema irregularidade. Conhecedor dessa dificuldade, utilizei um par de tênis nesse último trecho, a fim de minimizar o impacto das pontiagudas pedras em meus pés.

O trânsito de automóveis era quase nulo, assim, pude seguir tranquilo e sem pressa pelo leito da via. Pouco a pouco o dia foi amanhecendo, porém o clima persistiu frio e nebuloso.



Depois de 5 quilômetros percorridos, parei para fotografar, do meu lado direito, o primeiro marco da ER, que foi inaugurado em 19/04/2003, quando do lançamento oficial do Programa Estrada Real. 

O belo e expressivo monumento se encontra fincado num local descampado, pertencente ao município de Santa Cruz de Minas, e está situado próximo da cachoeira Bom Despacho.

Ali fiz um longa pausa para fotos e hidratação. 

O local é energético, pois a partir dali tem início a trilha que dá acesso à belíssima serra de São José. 



Naquele momento, envolta em neblina, linda, por certo obra de Deus.

Uma paisagem magnífica emoldurava o cenário ao derredor, e senti naquele lugar uma sinergia diferente.

Depois desse revigorante descanso, prossegui adiante e logo à frente, numa bifurcação, encontrei o derradeiro marco da ER.

Seguindo as orientações, prossegui à esquerda e logo adentrava em zona urbana. 

O trânsito naquele horário se encontrava bastante intenso, de forma que fui caminhando por ruas barulhentas em direção ao centro da cidade.



Arraial Novo do Rio das Mortes, que deu origem à urbe, foi fundado entre 1.704 e 1.705. 

Porém, a região já era ocupada desde 1.701, quando Tomé Portes del-Rei se estabeleceu na região.

Entre 1.707 e 1.709, o local se tornou palco da Guerra dos Emboabas, um conflito armado que também alcançou vastas regiões de Minas Gerais, mas, principalmente, as do rio das Velhas (Sabará), rio das Mortes (São João de Rei) e Vila Rica (Ouro Preto).

Segundo os historiadores, nas proximidades de São João del Rei, durante essa guerra, pode ter ocorrido um episódio obscuro conhecido como Capão da Traição. 

Na verdade, um trágico e emblemático incidente representado pelo massacre de 300 paulistas, capturados pós feroz batalha, por determinação do chefe emboaba, Bento do Amaral Coutinho.

O ouro, a pecuária e a agricultura permitiram o desenvolvimento e progresso da vila, elevada à categoria de cidade em 8 de dezembro de 1.838. Sua população atual soma 86.000 almas.



Era meu último dia de caminhada e o tempo havia passado sem que percebesse. 

Diria que, guardadas as devidas proporções, me sentia, exatamente, como ocorrera no ano de 2.001, no Monte do Gozo, situado na parte final do Caminho de Santiago de Compostela, quando de minha primeira peregrinação em direção àquele Santuário.

A partir dali, o peregrino medieval que já havia caminhado mais de 800 quilômetros, sobrelevando incríveis dificuldades, movido pela fé e o desejo de visitar um lugar sagrado, avistava as duas torres da Catedral de Santiago. Só as torres.

O momento, ainda hoje, é realmente de êxtase. 

Naquele local ele parava, tomava banho, lavava sua roupa e se preparava para, no dia seguinte, bem cedo, encerrar sua aventura. 

Apenas 6 quilômetros o separavam do Pórtico da Glória, já dentro da Catedral Compostelana.

Para mim, o momento se resumia em menos de 2.000 metros. 


Hora certa para agradecer meus pés pela bondade de carregar meu corpo com tanto cuidado, sem doer, sem reclamar, durante toda a aventura.

Na verdade, sentia uma intensa emoção. Contudo a nostalgia pelo final da jornada maravilhosa, era ainda maior. 

Porquanto, os longos caminhos produzem essa estranha sensação. 

Depreendo que, a essa altura, já nos encontramos internamente, e isso é tão gratificante que passamos a desejar que o roteiro não termine nunca.

Numa grande avenida, tomei informações com um senhor de cabelos grisalhos, extremamente gentil, e prossegui em direção ao centro velho da urbe. 

Logo me dei conta que havia esquecido de perguntar como se chamava meu interlocutor.

Conformei-me com a falha, posto que não importava seu nome, alguém sempre cruzará nosso caminho, deixando-nos um pouco de si, através de uma mensagem, e levando também um pouco de nossa essência. 

       


Aliás, anjos não precisam ser nominados, vez que todos eles têm o mesmo rosto e nunca nos lembramos de perguntar-lhe o nome.

No entanto, algumas pessoas me marcaram profundamente durante esses dias de aventura, seja pela hospitalidade e deferência com que me trataram, ou, especificamente, por seus préstimos e consideração.

Pois, nessas viagens encontramos sempre almas boas, temperamentos afins e nascem sinceras amizades que perduram em nossa lembrança, mesmo que nunca mais nos encontremos.

Nesse prisma, lembrei-me, com mais efusão, da gente simpática e generosa que habita em Miguel Burnier, que fizeram tudo para me sentir em casa, da Eliane, proprietária da Hospedaria Quincas Pires, em São Brás de Suaçuí, de Dona Aidê, da Pousada das Vertentes, em Lagoa Dourada, e do especialíssimo casal, Sr. Renato e Dona Tereza, do Apart-Hotel Água Limpa, em Prados.



Num cruzamento, acessei a Avenida Tiradentes e, mais acima, encontrei minha meta para aquele dia, a Igreja de São Francisco de Assis, um dos principais marcos da arquitetura colonial mineira.

O templo, uma edificação do ano de 1.774, é um dos mais belos representantes do barroco mineiro. 

Na construção e acabamento trabalharam inúmeros e afamados mestres, inclusive, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, autor da portada principal.

Ali, defronte esse venerado Santuário, fiz um pausa para oração e agradecimento e, ao final desta, dei por encerrada minha aventura.

Na sequência, me dirigi à rodoviária local e comprei passagem de retorno para o meu lar. 

Com a promessa de voltar um dia, para prosseguir, a pé, até a cidade de Parati/RJ.

E, após longa e cansativa viagem, aportei em São Paulo, tiritando de frio, numa fria e úmida madrugada, já com saudades da bucólica e ensolarada paisagem mineira.



IMPRESSÃO PESSOAL – Um trajeto fácil e plano, porém todo percorrido em zona urbana, sobre pedras aguçadas e de assentamento assimétrico, que dificultam, sobremodo, o caminhar do peregrino. Uma boa opção para esse trecho, seria tomar o trem que faz o trajeto entre Tiradentes e São João, utilizando uma locomotiva americana, movida a vapor. O passeio inicia-se na antiga Estação Rodoviária, inaugurada em 1.881, por D. Pedro II, e percorre os 13 quilômetros que separam as duas cidades pela via férrea, por cerca de meia hora, margeando o rio das Mortes e descortinando a serra de São José. Contudo, é bom ficar atento, pois a “Maria-Fumaça” funciona somente nos finais de semana.