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2º dia – CONGONHAS DO CAMPO à MIGUEL BURNIER – 33 quilômetros


2º dia – CONGONHAS DO CAMPO à MIGUEL BURNIER – 33 quilômetros


Mais uma vez, teria uma longa jornada a cumprir. 

Então, levantei-me às 4 h, e metodicamente me preparei para a rotina diária. 

Mais tarde, ingeri um copo de café que me fora preparado na portaria do estabelecimento, e às 5 h deixei o Hotel Bandeirantes.

O dia se apresentava frio e neblinoso, assim, obedecendo as orientações da planilha que carregava, segui pela BR – 356 em direção ao Posto Pedrosa, localizado a uns 500 m de distância do local em que pernoitara. 



Quando ali cheguei, pude visualizar o primeiro marco da Estrada Real, fincado numa calçada em frente.

Então, fleti à direita, seguindo em forte ascenso, por uma avenida calçada de paralelepípedos, em direção à MG – 440. 

Poucas pessoas caminhavam pelas ruas àquela hora, contudo inúmeros veículos já trafegavam em direção ao centro da urbe. 

Afinal, era uma segunda-feira e, com ela, iniciava-se mais uma semana de labor intenso.

Depois de uns 2 quilômetros, findou-se a iluminação urbana, obrigando-me a utilizar a lanterna de bolso. 

Prossegui, então, pelo acostamento da rodovia, no sentido contrário ao fluxo de veículos. 

O clima estava fresco, propício para a caminhada matinal, de maneira que pude caminhar num ritmo constante e sem sobressaltos. 

Apesar de intensa névoa presente na atmosfera e ao meu redor, muito longe, distinguia uma estreita faixa do céu e o cintilar de raras e frias estrelas.

Mais adiante, numa descida, encontrei 2 pessoas que vinham no sentido inverso, empurrando suas bicicletas. 

Trocamos algumas palavras, confirmei meu rumo e prosseguimos, cada um em direção aos seus objetivos.



Com o dia amanhecendo, já no bairro do Gouveia, conversei com uma senhora que fazia seu giro matinal de praxe, juntamente com um belíssimo cão labrador. 

Dentre outras informações que me prestou, disse também que aquele local já pertencia ao distrito de Santo Antônio do Leite.

Já no bairro Catete, troquei algumas palavras com o Sr. Edgar, que fazia sua caminhada costumeira pelas imediações, na companhia de um cão de pelagem negra. 

Gentilmente, contou-me algumas peculiaridades do lugar em que nos encontrávamos, e mostrou-se impressionado quando lhe confessei minha pretensão de caminhar por mais 25 quilômetros naquele dia.




Depois de 6 quilômetros percorridos, obedecendo os marcos da ER, deixei o asfalto, seguindo à direita por uma rua de calçamento, no rumo da afamada Pousada Capricho Asturiano, cujas placas de propaganda eu avistara ao longo do caminho.

Na sequência, trafeguei por ruas calmas, situadas em bairros de periferia, plenas de habitações simples, onde muitas crianças já paramentadas, aguardavam os coletivos que as levariam às escolas. 



Numa pequena elevação e já com o dia amanhecendo, pude avistar ao longe minha primeira meta do dia: a igreja de Santo Antônio, situada na praça principal deste progressivo distrito, local onde aportei às 6 h 30 min, depois de caminhar 8 quilômetros.


Santo Antônio do Leite é um distrito da cidade de Ouro Preto, distante 25 quilômetros de sua sede. 

A tranquilidade, a salubridade do clima e da água são possíveis explicações para a longevidade alcançada por muitos habitantes desse simpático lugarejo, que hoje somam 2.000 pessoas.

Pode-se pois dizer que, sendo aquele lugar do conhecimento dos combatentes de Manoel Nunes Viana, chefe dos Emboabas, a provável formação do arraial tenha se dado em torno de 1.700, talvez antes, por ser passagem entre a Cachoeira do Campo e Ouro Branco. 

A incorporação do hagiomástico "Santo Antônio" ao "Leite" deu-se somente após 1.858, quando foi concluída a igreja construída em torno da primitiva capela erguida em homenagem a Santo Antônio de Lisboa.



Numa padaria localizada defronte ao singelo templo comprei água e barra de cereais. 

Aproveitei ainda para ingerir aromático e fumegante copo de café. 

Em seguida, prossegui em frente, pois o sol já apontava na nascente, sinalizando calor intenso para aquele dia.

A saída se faz por uma rua ascendente, em terra batida. 



Logo adiante, acessei uma estrada vicinal plana e larga, pavimentada em cascalho, que naquela hora ainda estava úmido, fruto da intensa neblina noturna. 

A paisagem bucólica descortinava mostrando muitas fazendas de criação de gado, por ambos os lados.



Em vários trechos, a mata fechada ladeava a estrada, proporcionando sombra e frescor. 

Com o passo cadenciado, às 7 h 30 m, depois de percorrer 13 quilômetros, passei defronte à propriedade onde é fabricado o famoso aguardente “Gota de Minas”.



 O silêncio reinante somente era quebrado, de tempos em tempos, pela passagem de algum caminhão, posto que o tráfego de veículos era praticamente nulo nesse horário.

 


Um rio de razoáveis proporções me acompanhou por um bom tempo do meu lado direito, rumorejando entre pedras e matas.



Alguns quilômetros à frente, passei junto a um trevo, com acesso à cidade de Itabirito, pelo lado direito.



E, às 8 h, depois de percorrer 17 quilômetros, cheguei ao distrito de Engenheiro Correia.

Localizado a 35 quilômetros de sua sede, Ouro Preto, e contando com uma população estimada em 400 pessoas, o povoado desenvolveu-se com a chegada da ferrovia, no fim do império. 

Segundo moradores, o nome da localidade foi uma homenagem ao Engenheiro Corrêa, que servia à RFFSA e morreu em 1911, num acidente ferroviário. 

O distrito sofreu um grande impacto com a desativação da via férrea, obrigando seus moradores a saírem em busca de trabalho e, consequentemente, residir em localidades próximas.

Suas casas e estabelecimentos comerciais caracterizam-se por construções térreas, implantadas ao longo da via urbana e sem afastamento frontal. 

Já as mais antigas, assumem características da arquitetura colonial e eclética, sem muitos ornamentos, demonstrando a simplicidade de seus proprietários.

Era um dia comum de trabalho e, apesar do horário matutino, muitas pessoas estavam reunidas em animada conversa defronte um bar. 

Entrei no estabelecimento para comprar água e fui efusivamente cumprimentado pelos animados fregueses que me perguntaram o motivo de minha solitária caminhada, pois confessaram não ser muito comum o trânsito de pessoas a pé por aquela localidade.



Sucintamente, expliquei-lhes minha procedência, de onde saíra naquele dia e objetivos que levava em mente. 

Para finalizar, contei-lhes que estava percorrendo a Estrada Real como forma de me desligar da estafante rotina diária, aproveitando as férias para manter um contato mais íntimo com a natureza. 

Não sei se entenderam bem minha mensagem, pois vi sorrisos zombeteiros e incrédulos. 

De qualquer forma, senti que estava entre amigos.

Depois de cordiais despedidas, prossegui em frente, e logo adiante passei defronte a igrejinha de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do povoado, erguida na década de 60, cuja edificação possui traços contemporâneos simples.

Em sequência, caminhei mais uns 100 m e deixei a simpática vila para trás, adentrando, imediatamente, em larga estrada de terra.

Logo depois, numa baixada, encontrei um senhor que passeava com seu cão. 

Afavelmente me cumprimentou e paramos para conversar um pouco. O Sr. José Teodoro era aposentado e contou-me que nascera e sempre vivera naquele distrito, em sua opinião, era o melhor lugar do mundo.



Quando questionei-lhe a ausência de plantações de cereais, fato que observara desde que deixara o distrito de Santo Antônio do Leite, ele comentou que as terras daquela região não eram férteis, de forma que, efetivamente, nada vingava ali. 

Alguns proprietários criavam gado para a venda do leite, mas a maioria das fazendas servia apenas para diversão em finais de semana, pois, quase sem exceção, estavam tomadas por bosques preservados, além da região ser bastante montanhosa e imprópria para o cultivo.

O caminho prosseguiu quase sempre plano, muito arborizado e com ínfimo trânsito de veículos. 

E, às 8 h 15 min, finalmente, o sol apareceu num céu azul e sem nuvens.



Às 9 h, depois de ter caminhado 22 quilômetros, o táxi que levava a minha mochila me alcançou. 

O motorista, Sr. Geraldo, parou o veículo e conversamos um pouco. 

A meu pedido, bateu algumas fotos, entregou-me um lanche, ofertou carona e ante minha recusa, seguiu em frente.

Depois de mais alguns quilômetros, a mata desapareceu e passei a caminhar entre grandes fazendas de criação de gado. 

Num local ermo, encontrei Dona Maria que caminhava acompanhada de 8 cães. 



Como alguns rosnaram para mim, coloquei-me em defensiva até que ela acalmou os ânimos e pudemos conversar um tanto. 

Contou-me que residia num sítio próximo e havia levado as vacas para pastarem em outro sítio, do outro lado da estrada.

Com o sol já incomodando, prossegui adiante e numa baixada encontrei um grupo de topógrafos trabalhando, alguns encarapitados no alto dos barrancos que margeavam a estrada.     

Todos usavam grandes perneiras feitas em couro bruto, uma proteção necessária ante o perigo iminente de cobras. 

Um deles com quem conversei disse-me que elas são abundantes naquela região, algumas venenosíssimas.

Quanto às medições que faziam com seus teodolitos, disseram-me que era um trabalho preparatório para fins de asfaltamento daquela via, evento que deverá ocorrer até o final deste ano. 

Lamentei tal notícia, pois, embora o progresso seja algo necessário, indubitavelmente, aquele trecho deixará de ser propício às caminhadas, posto que brevemente seu histórico e rústico pavimento será sepultado pelo piso asfáltico.



Faço, como minhas palavras, alguns trechos pinçados de um protesto noticiado no site “www.rederiodasvelhas.ning.com”, contra o asfaltamento do trecho MG-030, que liga Rio Acima a Itabirito, pelo imenso prejuízo que causará ao meio ambiente, posto que lá como aqui, haverá interferência no ecossistema regional, além de acrescer o perigo de acidentes automobilísticos, pois o trecho é cheio de curvas e com precipícios abissais.

Tanto quanto aquele, esse antigo caminho, com de mais de 300 anos, ligava Minas Gerais ao Rio de Janeiro, mais especificamente, à Parati, e serviu de roteiro aos bandeirantes, faiscadores, mineradores, bem como aos componentes da Tropa Real.

Para reverter o tresloucado asfaltamento, os defensores do meio ambiente e da cultura local, fizeram um anteprojeto para que o leito carroçável fosse calçado com pedra “pé de moleque”, acrescido ao irrefutável argumento de que daria maior autenticidade ao local e permeabilidade ao solo, propiciando condições às plantas, nascentes, animais e pássaros de conviverem harmoniosamente.

Os sistemas de empedramento ecologicamente corretos são indicados para pavimentos que preservam o meio ambiente, sem agredi-lo. 

E o calçamento feito com pedra “pé de moleque”, além da vantagem ambiental, é fortalecido pelo argumento do aspecto social, pois poderá ser feito empregando material e mão de obra locais, o que viria ainda incentivar a adoção exemplar em várias outras cidades, alocadas no entorno das estradas vicinais, com grande ganho ambiental e cultural. 

O calçamento “pé de moleque” pretendido pelos ambientalistas permite a perfeita drenagem das águas de chuva e, ao mesmo tempo, evita a impermeabilização do solo, pois as juntas entre as pedras possibilitam a infiltração de uma grande parcela das águas incidentes, amenizando, desta maneira, o impacto ambiental.

Portanto, esse tipo de calçamento é considerado piso ecologicamente correto. 

Além do mais, é a forma ideal de resguardar as riquezas naturais e culturais, mudando o foco de desenvolvimento para atividades de ecoturismo, que também podem ser viáveis economicamente, de forma sustentável e a longo prazo, sem a perda desse valioso patrimônio.


Às 10 h 30 min, depois de transpor a linha férrea por um viaduto, passei defronte à entrada da mina de propriedade e exploração da Gerdau Açominas. 

Em seguida principiei a descer e logo adentrava ao gracioso distrito de Miguel Burnier, minha meta para aquele dia.

No pequeno povoado onde residem apenas 340 pessoas, não existe pousada ou pensão. 



Porém, eu descobrira pela internet um blog de um filho ilustre desse lugar, o Marco Antônio (www.projetoestacao.blogspot.com). 

E ele, através de seu sogro, o Sr. Geraldo Maguino Vasconcelos, mais conhecido por “Tuia”, providenciou um local para meu pernoite.

Na verdade, fiquei alojado no Centro Comunitário do distrito, que funciona num prédio recentemente restaurado, onde uma de suas salas serviu-me como dormitório. 

O local, após ficar abandonado por muitos anos, foi reformado pelos próprios moradores que, depois, com doações de livros, armários, camas, mesas e outras utilidades, propiciaram sua operacionalidade. 



Para banho e lavagem das roupas utilizei o espaço interno onde funcionam os vestiários masculinos.

O almoço foi preparado no próprio refeitório do edifício pelas simpáticas cozinheiras Regina e Dirce, e estava uma delícia. 

Por sinal, fiquei sabendo por elas, que a culinária típica do lugar contempla exóticos pratos, como por exemplo: munheca de samambaia, capiçoba (gondó, maria nica ou major gomes), ora pro nobis acompanhadas de angu, carne moída e torresmo. 

Algo bastante peculiar, não é?

Conta a história que Miguel Burnier ou São Julião, nasceu com as fazendas mineradoras de ouro. 

Fazia parte da Freguesia de Cachoeira do Campo, onde ocorreram inúmeras batalhas da Guerra dos Emboabas.

Em 1.812, o Barão Von Eschwege propiciou na sua Fábrica Patriótica de São Julião a primeira corrida de ferro no Brasil, conferindo à localidade importante papel na história da siderurgia brasileira. 

O estabelecimento, no entanto, foi fechado em 1.822, após a partida do Barão para a Europa. 



A localidade mudou com a construção, em 1.880, da ferrovia, primeira linha construída pela Estrada de Ferro Dom Pedro II que, em 1.889, passou se chamar Estrada de Ferro Central do Brasil, considerada de segurança nacional. 

Quatro anos depois, foi inaugurada a estação, cujo nome foi dado em homenagem ao então diretor da ferrovia, engenheiro Miguel Noel Nascentes Burnier.

Em 1893, o comendador Carlos Wigg implantou a Usina Wigg, produtora de ferro-gusa, sucedida pela Siderúrgica Barra Mansa (Grupo Votorantim) e agora de propriedade da Gerdau-Açominas. 

Em 8 de outubro de 1929, determinou-se que a sede do distrito seria São Julião, povoado da usina onde havia a capela de São Julião. 



Porém, por força da Lei 336, de 1948, o distrito passou a se chamar Miguel Burnier. 

À tarde, após breve descanso, fui conhecer a igreja do Sagrado Coração de Jesus (séc XIX), único exemplar em estilo neo-romântico do município de Ouro Preto. 

Segundo um morador local, ela é revestida interiormente em mármore carrara, contudo, não pude aferir tal informação, pois a mesma se encontrava fechada. 



Por trás do templo, pode-se observar em destaque a magnífica serra do Ouro Branco, que faz parte do complexo do Espinhaço, e na base abriga a Lagoa da Açominas-Gerdau, formada pelas nascentes existentes em Miguel Burnier.

Mais tarde, vagarosamente, percorri as ruas do pequeno povoado, todas calçadas em pedras “pé de moleque”. 

Conversei com alguns moradores sobre suas atividades diárias, e ainda visitei as ruínas da velha estação ferroviária que ali existia.

Coincidentemente, naquele data comemorava-se o dia de Nossa Senhora Auxiliadora, da qual a comunidade local é extremamente devota. Assim, após jantar, acompanhei o pequeno cortejo que saiu da residência de uma devota. 



 Para completar o encanto das festividades, o Capitão Antônio Xisto conduziu o Congado de Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia, do qual é fundador e diretor. 

A cerimônia religiosa, onde foi oficiada a “Celebração da Palavra pela Irmã Tereza, realizou-se defronte uma capelinha recentemente erigida em homenagem à Mãe Maior. Imprescindível lembrar que um afinado coral da comunidade abrilhantou sobremaneira a festa.



Após o término do ato religioso, os instrumentos musicais repicaram sob o comando de Mestre Xisto. Na verdade, a congada é um evento que faz parte do folclore brasileiro. 

Trata-se de um desfile ou procissão que reúne elementos das tradições tribais de Angola e do Congo, com influências ibéricas no que se refere à religiosidade.

Esse fenômeno cultural é conhecido como sincretismo religioso: entidades dos cultos africanos eram identificados à semelhança dos santos católicos. Assim, a Igreja, as autoridades e os senhores de engenho em geral aceitavam ou prestigiavam a solenidade.

Animada por danças, cantos e música, a procissão acabava numa igreja (em geral, as de irmandades de negros, como Nossa Senhora do Rosário) onde, com a presença de uma corte e seus vassalos, acontecia a cerimônia de coroação do Rei Congo e da Rainha Ginga de Angola - uma personagem da história africana, a Rainha Njinga Nbandi, do século XVII. 

Esses autos, contudo, não existiram no território africano.



De qualquer forma, foram momentos únicos, vivenciados num intenso contato com a comunidade local, da qual guardo fagueiras recordações pela deferência com que fui recebido e pela hospitalidade dispensada.

Em seguida, retornei ao local de pernoite e, logo adentrava ao mundo dos sonhos, face o cansaço propiciado pela intensa aventura vivenciada naquela data.


 Sr. Tuia, meu anfitrião, e família

AVALIAÇÃO PESSOAL – Um percurso agradável e com muita beleza natural, embora os primeiros 8 quilômetros sejam feitos em asfalto. No geral, trajeto fácil, quase sempre plano, bem sinalizado e com bastante sombra no caminho. De se considerar, entrementes, a distância a ser percorrida, pois o trecho é de razoável amplitude.


03º dia – MIGUEL BURNIER à CONGONHAS – 28 quilômetros