1º dia – OVIEDO à GRADO

1º dia – OVIEDO à GRADO – 27 quilômetros

"Estou falando daqueles para quem viajar é sentir a vida nas pernas. O peregrino deve nascer de novo na estrada e receber seu passaporte dos elementos - os principais poderes que vigoram para ele. Não dá descanso às solas dos seus pés, e a noite o cansaço é seu travesseiro." (Henry David Thoreau)

Na tarde anterior busquei informações com alguns peregrinos que iniciariam, como eu, o Caminho Primitivo naquela data, de forma que ficara contente com o encontro, posto que eu viera caminhando o tempo todo sozinho, desde minha partida de León.

Alguns deles estavam em sua primeira etapa, porém conheci três jovens alemães que haviam saído de Irún, País Vasco, e naquele dia completariam sua 20ª jornada, qual seja, já estavam bem adaptados à dura rotina peregrina.

Assim, com muita disposição, e após uma noite bem dormida, eu me levantei às 5 h, completei minha higiene e abluções matinais, tomei café e deixei o local de pernoite, exatamente às 6 h.

Todavia, por mais que eu me lembrasse da sábia frase que diz que a melhor maneira de cumprir um longo percurso é dando um passo de cada vez, não deixava de ser intimidante pensar em todo o “trabalho” que eu tinha pela frente.

Lá fora fazia muito frio, e havia intensa neblina matinal, mas não me parecia que iria chover, embora o céu escuro não me deixasse antever o que poderia ocorrer durante aquele dia.

Pelas ruas, escassos pedestres circulavam, e os poucos que encontrei, vestiam grossos casacos de lã.

E estavam corretos, pois um termômetro instalado no frontispício de uma farmácia marcava 5 graus naquele momento.

Alguns minutos depois, eu passei defronte à Catedral de Oviedo, lugar onde o Caminho Primitivo oficialmente tem seu inicio.

A partir dali, segui as indicações consistentes por vieiras de metal dourado, que estão incrustadas nas calçadas e cruzamentos das ruas, até a saída da cidade.

Um trajeto que, em urbes da dimensão de Oviedo, se faz eterno, até que sejam avistadas as derradeiras casas.

Em determinado ponto, ainda no início do percurso, eu me senti perdido, pois não encontrei as tímidas marcas terrestres.

Então, indeciso quanto ao rumo a seguir, me socorri a um gari que fazia a limpeza numa praça, e ele prontamente me indicou a rua por onde eu deveria prosseguir o meu périplo.



Pus-me, então, a caminhar, sequencialmente, pelas “calles” San Juan, La Luma, Covadonga onde, inclusive, localizei além da vieira, uma flecha amarela pintada no chão, o que muito me animou.

Prossegui depois pelas ruas Melquíades, Álvarez e Independência, onde passei defronte à igreja de “San Juan El Real” que, curiosamente, forma um ângulo obtuso entre duas “calles”.

Na sequência, transitei pela Plaza de la Liberación, calles Teniente Coronel Teijeiro e Arganosa, até chegar a uma grande passarela, através da qual eu transpus as vias férreas, que ali existem.

E, logo abaixo, bastante animado, encontrei o primeiro “mojón” do caminho.

Eu ainda estava em zona urbana, porém, ao término da “calle” Alfonso I, “El Católico”, o panorama começou a mudar, pois predominavam as habitações térreas e zonas gramadas.

No final da rua del Gozón, eu girei à direita, prossegui pela Avenida la Florida e, após ultrapassar uma grande rotatória, finalmente, passei a caminhar por uma estrada vicinal asfaltada, situada em meio a muito verde.

Logo alcancei um senhor que seguia à minha frente, a passos rápidos, calçado com botas, e carregando uma pequena mochila nas costas.

Puxei conversa, e ele logo explicou que não ia à Santiago, mas que diariamente, como exercício saudável, fazia aquele trajeto por uns cinco quilômetros, até encontrar um amigo que partia da cidade de Bolguiña, em sentido inverso, com seus dois cães.

Quando se cruzavam, ambos retornavam à Oviedo, e mais tarde, a mulher, vinha de carro, resgatar o marido e seus “perros”.

Seguimos conversando animadamente sobre a política espanhola, futebol e, naturalmente, peregrinos, pois ele me contou que todo dia via um magote deles caminhando por aquele roteiro em direção à Compostela, contudo, quase sempre em horário mais tardio.

Nessa toada, depois de 4 quilômetros superados, passamos pela pequena vila de San Lázaro de Paniceres, onde havia antigamente um leprosário, construído em 1.331, do qual, infelizmente, nenhum vestígio remanesce.

Parei defronte do bar La Trappe, o único existente no local, na esperança de ingerir um café, contudo, em face do horário ainda estava de portas cerradas.

Junto a um tanque de água, curiosamente, pude ler em suas paredes que eu me encontrava a 335 quilômetros de Santiago, pelas minhas contas, alguns a mais do que meu guia informava.

E, em outra parede, a seguinte legenda: “Conta-se que o infeliz mortal que profane un cruceiro ou mete a unlla no peto das animas andara depois de morto a vagar de noite polo sitio en que cometen o pecado buscando algun parente ou amigo que queira trocar o ben o mal que fixo pois entre mentras non devolva o que roubou e non amañe o que desfixo non tera acougo na morte”.

A tradução seria assim: “Conta-se que o infeliz mortal que profana um cruzeiro ou não respeita aos animais, andará, depois de morto, a vagar à noite, pelos locais em que cometeu seus pecados, buscando algum parente ou amigo que queira trocar o bem pelo mal, pois caso ele não devolva o que roubou ou desfaça o que realizou de errado, não terá sossego após a morte.”

Prosseguindo, mais adiante, nós encontramos com o Sr. Alejandro, que vinha acompanhado por seus dois enormes pastores alemães.



Imediatamente, o meu interlocutor perfilou-se para uma foto a meu pedido, despediu-se e logo retornava em direção a sua cidade, em companhia dos amigos.

O Sr. Carlos foi o primeiro dos muitos anjos surgidos ao longo dessa “viagem”, já que seu carisma e tranquilidade acalmaram meu coração ao longo do meu solitário caminho.

Fiz uma parada para contemplar o ambiente e podia ver pela direita, o avantajado monte Naranco.

À esquerda, observei extensas pradarias verdejantes, onde se movimentavam gado bovino e cavalos, alguns com suas crias recém-nascidas.

Como pano de fundo, avistei os agrestes contornos das montanhas em que situam as cidades de Santo Adriano, Grado e Belmonte, por onde eu transitaria na jornada seguinte.

Às minhas costas, eu avistava a serra “del Áramo”, com seus picos principais: La Mostayal (1.301 m), La Gamoral (1.712 m), El Gamoniteiro (1.791 m) e, um pouco adiante delas, o mítico Monsacro, com suas quatro elevações principais.

E, ainda, bem ao fundo, eu podia distinguir as primeiras grandes elevações pertencentes aos “Picos da Europa”.

Uma visão realmente imorredoura.

Na sequência, prossegui subindo por uma encosta e, ao mesmo tempo, bordejando uma imensa ladeira.

E, ao descender pela vertente oposta, eu pude comprovar que a paisagem nessa região é deveras preciosa, plena da cor verde, em todas as suas nuances, tal qual eu iria encontrar mais à frente, já na Galícia.

Fazia uma manhã maravilhosa, orvalhada e fria, mas com o tipo de sol indolente que prometia muito calor para mais tarde.



Logo passei defronte à capela “del Carmen”, e através de uma portinhola existente na fachada, pude mirar a pequena imagem da Virgem, sobre o altar.

Existe ali, ainda, uma pequena caixa de madeira, inserida na parede da ermida, do lado esquerdo da porta, nela há material de primeiros socorros e um carimbo, com o qual pude “sellar” minha credencial.

A explicação para tal fato, conforme me contou um morador local, é a de que muitos peregrinos aportam à estação ferroviária de Oviedo, e já partem caminhando, sem passar por sua Catedral, de forma que ficam sem o carimbo inicial em suas credenciais, empecilho que pode ser suprido nessa ermida.

Segui adiante, sem adentrar na aldeia de Llampaxuga, pois ela se situa do lado esquerdo, fora do caminho.

E depois de vencer uma encosta íngreme, 500 metros abaixo, cheguei à igreja de Santa Maria de Loriana, do século XII, dedicada a São Vicente, o padroeiro dessa aldeia.

O destaque ali é a verticalidade do frontão, acentuado por sua torre imponente.

Do lado de fora existe uma fonte, onde aproveitei para matar minha sede, posto que o sol já brilhava forte, num céu azul e sem nuvens.

Em seguida, a trilha por onde adentrei, me conduziu através de exuberante vegetação, e logo abaixo eu acessei a rodovia AS-232.

Ali segui com bastante cuidado, pois não há acostamento no local, embora o tráfego de veículos naquele horário fosse praticamente nulo.






Numa baixada, por uma trilha que segue beirando o asfalto, eu atravessei a encantadora ponte medieval Gallegos, edificada sobre o rio Nora, uma construção datada do século XIII.

Essa passagem servia os viajantes que demandavam à Galícia.

Mas logo retornei novamente ao asfalto, e por ele eu atravessei o povoado de Gallegos.

Logo adiante, um desvio sinalizado com um “mojón” me introduziu em outro dos bosques encantados do caminho, “El Castañéu del Soldáu”.

Frondosas castanheiras cobriam um trecho matoso, coberto por grandes samambaias.

O trinar dos pássaros e o sussurro das águas a fluir por um riozinho, que corria paralelo ao meu roteiro, punham um contraponto naquele parasidiaco lugar.

E, por várias vezes, quedei-me admirado e caminhei em silêncio para não turbar o ambiente de paz e harmonia que aquele bosque irradiava, pois a paisagem era efetivamente inesquecível.

Num local ermo, debrucei-me um instante, contemplando o riacho cristalino, onde se espelhavam enormes, vetustas e copadas árvores, repletas de folhas, num lugar bonito, muito pitoresco e tranquilo.

Um quilômetros depois, eu encontrei o portão da fazenda “Molino de Quintos.

Então, obedecendo à sinalização, dobrei à esquerda, e enfrentei duríssimo “repecho”, até sair mais acima, novamente em asfalto.

Bastante suado e arfante, logo adentrei á vila de Escamplero, situada no outeiro homônimo.

Antigamente, por volta do ano 978, ali existiu um monastério dedicado a San Martin, bem como um hospital de peregrinos, fundado por um piedoso fidalgo de nome Rodrigo Alfonso de Escamplero.

Na sua história, consta que no início do século XIV, em 1.350, ele acolheu a Enrique de Trastámara, fugitivo das terras asturianas, para livrar-se de seu irmão Pedro I, que acabara de ascender ao trono.

Ao atravessar a cidadezinha, observei alguns hórreos quadrados, todos de construção moderna, muito diferente daqueles edificados na Galícia, que são de formato retangular.

Mais à frente, passei diante da Casa Concha, um bar onde os caminhantes costumam fazer uma pausa para lanche ou tomar café, porém eu estava bem e preferi seguir adiante.

Numa placa colocada numa esquina, pude ver que eu estava distante 23 quilômetros de Avilés, magnífica e industriosa cidade localizada à beira mar, por onde eu havia passado no ano anterior, quando transitava pelo “Caminho del Norte”.



Um morador local, que passeava com seu belíssimo e avantajado cão, me contou que aquele trajeto que eu seguia, não pertencia ao traçado original do caminho, visto que este encontrava sepultado sob o asfalto, um componente do progresso que avulta naquelas paragens.

Logo avistei o albergue de peregrinos que existe nessa localidade, e pude observar, ainda de longe, uma peregrina deixando o refúgio, apesar do horário adiantado.

Meu relógio marcava 8 h 50 min, e eu já havia percorrido 12 quilômetros.

Logo a alcancei, conversamos um pouco, ela tinha origem germânica, mas exprimia-se bem no idioma espanhol.

Sucintamente, contou-me que apenas 5 pessoas havia dormido ali naquela noite, e que ela vinha caminhando desde Irún, País Vasco, ou seja, já percorrera mais de 400 quilômetros.

Assim, não se sentiu muito animada quando lhe disse que naquele dia, mais 15 peregrinos estavam no trecho, procedentes de Oviedo, e que possivelmente, lhe fariam companhia no próximo albergue.

O ritmo dela era bastante lento, se aquecendo ainda, em início de jornada, de forma que logo me despedi e segui adiante, embora eu a tenha ultrapassado em vários percursos posteriores, pois apesar de sua aparente fragilidade, ela vencia grandes distâncias, diariamente.




Quinhentos metros depois, eu abandonei o asfalto, seguindo por uma estrada vicinal asfaltada, à esquerda, e a paisagem seguiu formosa, porquanto verdes vales, serras ao longe e grandes pastagens compunham o panorama.

Logo passei defronte à igreja de Santa Fátima, localizada no pequeno “pueblo” de Valsera.

Mais abaixo, por uma vereda situada entre exuberantes árvores, eu ultrapassei o rio Andallón, acessei uma rodovia asfaltada em forte ascenso, e logo aportei no povoado de Premoño, seguindo pela via principal.

Seguindo adiante, passei pela igreja de Santa Ana, uma construção do século XVII, e mais abaixo acessei, à direita, uma trilha bastante matosa, situada em meio a muito verde.



Como sempre, o caminho estava bem sinalizado, mas em alguns lugares quase tomado pela vegetação, com as samambaias e outras folhagens baixas, chegando ao meio da senda.

Mais abaixo, ela se converteu em uma vereda empedrada, um melhoramento que visa combater os barreiros que ali se formam no período das chuvas.

Depois de fazer uma imensa volta, por uma larga estrada de terra, que me levou a passar diante de grandes propriedades rurais, dedicadas à criação gado leiteiro, acabei por sair na rodovia AS-234, que, nesse trecho, corre paralela ao volumoso rio Nalón.

Segui avançando e numa bifurcação parei indeciso, pois não vi flechas sinalizadoras.

Porém, ao lado existia uma senda onde um letreiro indicava “Via Jacobea”, o que não deixou dúvida sobre o roteiro a seguir.

Na verdade, ele discorre ao lado de uma chácara e, curiosamente, essa vereda também é empedrada, parecendo mais uma calçada rústica, que se torna um tanto incômoda para andar, pelo fato do piso estar bastante desalinhado.

Ao final dela encontrei um cartaz indicando “Palácio de Ardaxe”, embora a única coisa que eu avistasse próximo dali fosse um pasto, onde três belos cavalos me olhavam curiosos.

E a uns 100 metros de distância, à minha direita, o restante de uma casa semidestruída, que não me pareceu à primeira vista, ter algum valor arquitetônico ou histórico.

Pela esquerda, e ao longe, eu ouvi o apito de um trem, e, observando melhor, consegui distinguir um viaduto por onde ele trafegava sob a Autovia Nacional, a famosa N-634.

Depois de um quilômetro, acabei por desembocar novamente na rodovia AS-234, que segue à margem do rio Narcea, de onde pude constatar sua espetacular largura e volume d’água.

Mais adiante, próximo da aldeia de Paladín, encontrei uma fonte de água cristalina, que me foi indicada por um senhor residente naquele povoado, pois ela se encontra situada a uns 30 metros do caminho, escondida, e sob densa vegetação.

O sol estava deveras quente, de forma que aproveitei a ocasião para matar minha sede.

Mas adiante eu adentrei em outra senda extremamente matosa e estreita, que impede a caminhada lado a lado, sinal inequívoco de que por ela havia passado poucos peregrinos até aquele momento.

Mais à frente, após vencer pequena, mas íngreme elevação, voltei a acessar a rodovia AS-234, seguindo, então, pelo acostamento.

Na sequência, caminhei mais uns 1.000 metros para, finalmente, adentrar nos arrebaldes de Peñaflor, e ali encontrei o bar e restaurante Casa Aurino, situado nas cercanias dessa urbe, onde vi quatro peregrinos, que inferi tivessem pernoitado no albergue de Escamplero.

Observei que eles lanchavam sentados ao redor de uma grande mesa de cimento, alocada no espaço externo do bar, debaixo de uma grande árvore.

Cumprimentei-os e daquele local eu pude visualizar um grande rochedo que se projeta em direção à povoação, formando um estratégico e famoso desfiladeiro.




Após ultrapassá-lo, eu dobrei à esquerda, e por uma belíssima ponte romana, datada no século XII, que se destaca pela monumentalidade de seus arcos de desigual feitura e tamanho, por terem sido restaurados, eu transpus o rio Nalón.

Já do outro lado, eu acessei a Autovia Nacional e segui caminhando uns 300 metros, num trecho bastante perigoso, pois não existe acostamento na estrada e o tráfego de veículos pesados é intenso.

E logo adentrei à povoação utilizando um túnel existente debaixo da via férrea, para sair defronte à igreja principal daquela vila, que é dedica a São João, e ainda conserva seu estilo de templo romântico.

Segui por uma rua estreita, à esquerda, onde avistei uma quantidade enorme de hórreos antigos, em estilo uniforme, porém, a grande maioria deles em calamitoso estado de conservação.

Muitos exibiam sintomas de abandono.

No entanto, como a compensar essa visão tétrica, as casas me surpreenderam, pois a maioria ostentava pintura recente, além de inúmeras plantas e flores assentadas em balcões e no limiar das belas vivendas.



Ao final da urbe, eu segui por uma pista de terra, que se estende junto ao vale do rio Nalón, onde não existem árvores nem sombras, e ao longe eu já podia avistar Grado, minha meta para aquele dia.

Logo na saída, pude ver várias hortas comunitárias, onde observei inúmeros moradores, sobretudo mulheres, se alternando na faina do campo, situado na rica várzea ali existente.

No roteiro eu cruzei com muita gente local, caminhando em ambos os sentidos, sinal de que as pessoas saem de suas cidades, vão até o povoado vizinho e em seguida retornam.

Uns três quilômetros depois, sob intenso sol, eu adentrei em zona urbana, para tanto, passei pelo bairro de San Pelayo, um local situado junto à estação ferroviária.

E precisei atravessar todo o povoado, por aproximadamente, 1.200 metros, até encontrar meu local de pernoite.

Lá fiquei hospedado no Hotel Auto-Bar, situado na saída da cidade, que oferece excelentes instalações, num preço razoável para peregrinos.

É bom esclarecer que o albergue está localizado na pequena vila de San Juan de Villapañada, situada 3 quilômetros à frente, e onde não existe nenhum tipo de comércio.

Assim, o caminhante que lá pernoitar, necessita se prover de víveres para o jantar e o desjejum, além de enfrentar um grande aclive até o prédio onde se localiza o refúgio que, por sinal, em vista dos depoimentos colhidos via internet, dão conta de sua deterioração.

Assim, depois de tomar um banho e fazer a barba, rapidamente me dirigi ao Centro de Saúde, pois minha visão congestionada continuava a preocupar.

Diferentemente do dia anterior, ali fui muito bem atendido e prontamente encaminhado ao médico de plantão, porquanto não havia ninguém na fila de espera.

O simpático doutor, após me examinar detidamente e ouvir minhas queixas, afirmou que a infecção, que tanto me incomodava, estava em franca decadência, e que dentro de três dias eu estaria curado, fato que realmente ocorreu.




Aguardando o médico, no Centro de Saúde de Grado

Falou, ainda, que o colírio utilizado era o correto, e que eu deveria continuar com o tratamento, porém, pingando seu conteúdo com maior frequência.

Bem mais tranquilo, fui almoçar, posto que meu relógio marcava 14 h e eu estava extremamente estafado e faminto.



Depois de uma retemperadora soneca, saí passear pela cidade e pude conhecer sua obra mais famosa, o Palácio de Valdecarzana, construído no século XV, que apresenta uma planta de forma cúbica, com duas alturas e quatro torres de esquina.

Atualmente, ali funciona o Museu Etnográfico do município de Grado. 

Trata-se de uma vila fundada por Alfonso X, “El Sábio”, que durante a Idade Média foi centro de intensa vida comercial e política, por se encontrar sobre a rota de comunicação da zona central das Astúrias com o ocidente da região e da vizinha Galícia.

Ademais, ela também coincidia com outra importante via transmontana, o Caminho de La Mesta.

Por sua rua principal transcorria o caminho até Santiago, no sentido leste/oeste, e na saída ainda há uma cruz que se conserva e dá o nome ao bairro, sendo ela o sinal do roteiro por onde deveriam seguir os caminhantes.

A cidade ainda mantém todo o encanto da zona rural asturiana, oferecendo pratos típicos de sua gastronomia, e se encontra rodeada de montanhas pelos quatro costados.

Documentos históricos atestam que ali houve assentamentos na pré-história, e durante a dominação romana, por ali passava uma via que partia de Astorga e ia a Lugo, seguindo depois a Gijon, chegando deste modo até o mar.

Ali também existiu um hospital de peregrinos sob a égide de Nossa Senhora das Candeias, que entrou em franca decadência, já no final do século XVIII.

À noite, em face do cansaço da jornada, cumprida sob sol forte e céu azul, optei por um singelo lanche no bar existente embaixo do hotel, e logo em seguida fui dormir.

 


IMPRESSÃO PESSOAL – Uma jornada de razoável amplitude, cumprida sob muito calor, e com alguns ascensos importantes, todavia curtos. No geral, um percurso em meio a muito verde, com trânsito por diversos povoados, sendo que alguns deles possuem comércio, o que serve de facilitador para o peregrino. O trajeto reserva algums “tramos” por rodovia, porém ¾ dele é feito em terra, e, em alguns locais, através de bosques ermos e sombreados.


2º dia - GRADO à SALAS