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1ª dia – PERUÍBE à ITANHAÉM

1ª dia – PERUÍBE à ITANHAÉM – 30 quilômetros

 

Vires acquierescit eundo – “Avançando vai adquirindo mais força”. (Provérbio Latino)

 

A previsão metereológica indicava chuva para aquele sábado, porém, ao me levantar, pela janela do quarto, pude constatar que o céu estava estrelado.

Bom augúrio, pensei!

Assim, após a ingestão de frutas e uma barra de chocolates, desci até o vestíbulo do hotel e ali deixei minha bagagem com o porteiro na noite, para ser entregue ao motorista da Van, pertencente à Agência de Viagens, conforme havia sido combinado.

Eu carregava comigo apenas uma pequena “mochila de ataque”, onde levava água, bananas, barras de cereais, óculos de sol, protetor solar, um pequeno estojo contendo alguns medicamentos emergenciais, celular, máquina fotográfica, um pouco de dinheiro, além da imprescindível capa de chuva.



Em seguida, às 6 h da manhã, deixei o local de pernoite e, animado, iniciei minha “viagem”.

Para tanto, eu desci uns 50 metros em direção ao mar, e ali acessei a Avenida Governador Mário Covas Junior, que discorre paralela à orla, e por ela prossegui em frente, tendo o Oceano Atlântico pelo meu lado direito.



Lentamente, o dia foi clareando, enquanto eu, num ritmo confortável, ia vencendo as distâncias.

Mais adiante, eu encontrei uma pista para ciclistas e, ao lado dela, uma passarela para caminhantes, seguindo, a partir dali, sob um piso plano e cimentado.



Depois de 9 quilômetros percorridos, passei por uma placa que me sinalizava à esquerda, em direção às Ruínas do Abarebebê, porém eu já as havia visitado no dia anterior, de forma que segui adiante.

Então, como havia planejado, o correto era prosseguir pela orla marítima, em direção às praias de Tapirema e Piaçaguera, até a divisa com o município de Itanhaém.

Mais adiante e à esquerda, havia outra rota alternativa, que conduz o turista a um mirante instalado no Morro dos Prados, proporcionando ao visitante uma visão panorâmica de toda a cidade e adjacências.

Lá fica também o Museu Histórico e Arqueológico, sendo recomendado, ainda, uma visita a capela da Colônia Veneza, cujas paredes são revestidas de mosaico italiano, representando cenas históricas e religiosas.

Porém, ainda era muito cedo, de maneira que esses locais ainda estavam fechados, eu não estava fazendo turismo, e sim caminhando em direção a um objetivo, desta maneira, prossegui adiante.

Logo em seguida, me encontrei com um senhor que passeava com seu cão.



Ele então me chamou a atenção para a mudança de tempo que estava à minha retaguarda, e me disse que a chuva era iminente.

Como eu transitava no sentido norte, volvi meus olhos para trás e pude constatar que aparentemente, uma pequena tromba d’água estava a caminho, e um tênue arco-íris aparecia no céu matutino, o que me fez duvidar um pouco de tal aflitiva previsão.

Posto que, tudo o que eu desejava era luz e calor, como companhia em meu “passeio” praiano.



Após 11 quilômetros vencidos, o calçadão terminou, e uma placa me remeteu a caminhar sobre o areia da praia.

A partir desse limiar, inexistem construções à beira-mar, pois se trata de uma área de preservação ambiental, de propriedade da União.

A orla estava integralmente deserta, o que me deixou temeroso, pois logo um senhor montado em uma motocicleta me ultrapassou em grande velocidade, despertando em mim o sentimento de apreensão, que já estava um tanto adormecido.

O sol que tentava furar um espesso mar de nuvens à minha frente, repentinamente deu-se por vencido e despareceu, deixando tudo escuro ao redor, apesar do meu relógio marcar 7 h 30 min..

Rapidamente me voltei para trás e, apavorado, atentei para uma grande borrasca que se aproximava, acompanhada de muito vento.

O local onde eu estava era ermo e desabitado, não oferecendo nenhuma construção onde eu pudesse me abrigar da intempérie, ainda que temporariamente.

Rapidamente, então, tirei a mochila dos ombros, guardei alguns pertences que estavam nos bolsos e, apressurado, eu coloquei minha capa de chuva.

Na sequência, o temporal me alcançou, desabando com intensidade, acompanhado de alguns raios e trovões.

Sem alternativa, prossegui caminhando, enquanto a praia inundava rapidamente, obstando os meus passos.

Acabou-se, então, todo o meu entusiasmo, pois a paisagem ao meu derredor tornou-se escura e opressiva, restando-me, apenas, seguir em frente.

Em minha opinião, baseado na experiência que vivia naqueles momentos, concluí que praia e chuva não combinam, apenas desmancha-prazeres, pois não há graça alguma em caminhar com capa.

Além disso, há algo profundamente deprimente no ruído no náilon e no tamborilar infindável e curiosamente amplificado dos pingos no tecido, além do que a sua proteção me fez suar tanto, que em minutos, eu estava literalmente ensopado.

E logo, também, meus pés desistiram de lutar contra a umidade, pois estavam encharcados e eu chapinhava, a cada passo.

Um pequeno córrego, que deságua na orla, havia se tornado um riacho em pouco tempo por conta da violenta intempérie, e tive que atravessá-lo com a água já batendo em meus joelhos.

Do outro lado, eu adentrei ao município de Itanhaém, mais especificamente, no bairro das Gaivotas, onde retornaram as habitações e o comércio.

Avistei, então, um grande quiosque do meu lado esquerdo, e nele fiz uma pausa para verificar meus pertences, tomar água e ingerir uma banana, enquanto aguardava a tempestade amainar.

Quinze minutos depois, já refeito, e sob uma intermitente garoa, prossegui adiante.



Infelizmente, a larga faixa de areia fora totalmente invadida pelo fluxo e refluxo da água do mar, assim não me restou alternativa a não ser seguir caminhando pelo calçadão que segue paralelo à orla.

E, mais adiante, adentrei ao bairro do Cibratel, um local de construções novas, belas vivendas e de alto padrão imobiliário.


7/7/2012 09:23:03 - Portico: 6 - 2º Pórtico Eletrônico: Posto da Guarda Civil Municipal (Itanhaém)


O percurso se tornou duro, frio e insosso, até que às 9 h 30 min, depois de vencidos aproximadamente 18 quilômetros, passei defronte à base da Guarda Civil Municipal de Itanhaém, onde se encontra instalado o 2º pórtico do roteiro.

Após pausa para fotos, prossegui adiante, agora pela praia, visto que a chuva cessara e pude utilizar a larga faixa de areia que ali me foi oferecida, pois já me encontrava próximo da praia da Enseada.

No final da orla, passei diante do “Pocinho de Anchieta”, lugar que, segundo a lenda, foi construído pelos índios, instruídos pelo próprio Padre Anchieta, para aprisionamento de peixes durante o inverno, quando a pesca era abundante.

Na sequência, subi o morro do Paranambuco, onde sobressai a pedra da Esfinge.



Daquele local, apesar do tempo nublado, eu tinha uma visão completa das praias por onde viera caminhando, desde a Guarau, em Peruíbe, de onde eu partira, até aquele místico lugar, por sinal, hoje bastante devastado.

Sobre esse local, interessante saber mais sobre o assunto:

 Paranambuco é um dos morros mais bonitos da orla itanhaense e, infelizmente, um dos que mais sofreu devastações.

O local se encontra assolado há muito tempo.

Já não havia a cobertura da Mata Atlântica na década de 60, porém seu topo conservava o nível original e um resquício da Mata sobrevivia no lado oposto ao mar.

Nos anos 70, porém, serviu por diversas vezes como pista de campeonato de motocross e, também, como local para a edificação de um vilarejo de madeira para abrigar trabalhadores.

Desmontadas as casas, o morro voltou à paz habitual.

Contudo, com a construção dos reservatórios de água necessários para a cidade, sofreu nova devastação que expôs rochedos, os quais vieram a ser chamados de Pedra da Esfinge e Portal Místico.

O restante da depredação foi obra de um condomínio que não se concretizou, sem antes, porém, ter descaracterizado a topografia original do terreno, nivelando-o e deixando estacas de concreto no local.

Apesar de tudo isso, o lugar permanece como um ponto de observação de todo Litoral Sul, com uma atmosfera impressionante e uma bela vista que se descortina sobre o mar, as ilhas e as serras da região, dando uma ideia da imensidão do ambiente ao seu redor.

O lado do morro que dá para o mar é conhecido como Costão e possui uma vegetação rasteira, espinhosa e retorcida pela força dos ventos marinhos.

Por isso mesmo, as árvores que ali devem ter existido deveriam ser todas torcidas e envergadas como que buscando refúgio do mar.

Ainda hoje em dia, existem muitas bromélias que dão flores coloridas, destacando-se em meio ao verde do costão.

Ali, pedras enormes são atingidas pela força do mar, compondo um quadro impressionante.

É possível a travessia do Costão somente com os devidos cuidados, acompanhado por guias que conheçam o local.

A Pedra do Sapo é usada por quem pratica a pesca com vara, sendo célebre entre os pescadores.

Do lado oposto ao mar, prevalece uma planície onde no sopé do morro, nos anos 70, em um paredão, existia uma pequena mina d'água que formava uma piscina.

Aos turistas, recomenda-se a visitação por carro e não a pé: a via de acesso asfaltada se localiza próxima da Gruta. (extraído do site www.litoralsulvirtual.com.br.)

 

Já descendo o morro pelo lado oposto, passei ao lado dos famosos painéis de Anchieta, uma belíssima obra de arte, que ali estão localizadas, devido ao seu grande alcance visual.

Após atingir o piso plano, eu caminhei um pouco seguindo as flechas, e logo passei diante da gruta de Nossa Senhora de Lourdes, um lugar de intensa visitação religiosa.



Do lado direito desse monumento, após vencer uma pequena escadaria, nasce uma passarela de madeira, inaugurada em 2.006, que possui uma estrutura de 220 metros de comprimento por 1,60 de largura, construída com ipê e materiais derivados do eucalipto ecológico, seguindo as normas de preservação ambiental.

Através dela, é possível que pessoas de todas as idades acessem a formação rochosa que, segundo a lenda, por seu aspecto de cama, encravada entre o costão da Praia dos Sonhos e o mar, tornou-se o local preferido do beato José de Anchieta para encontrar paz e força inspiradora a fim de poetar.

Conta a lenda, que o beato em suas peregrinações pela cidade, costumava descansar no local e obter inspiração para compor seus poemas, entre eles, o da “Bem Aventurada Virgem Maria Mãe de Deus”.

Além de ser um lugar diferenciado, por oferecer uma visão privilegiada da costa litorânea, também é bastante frequentado por casais e solteirões que acreditam na benção que o local oferece.


"...a formação rochosa que, segundo a lenda, por seu aspecto de cama, encravada entre.." 

Vez que, diz um mito, que os namorados que se deitarem na pedra onde o Padre repousava durante sua peregrinação pelo litoral, ou então, a pessoa que estiver procurando sua alma gêmea, terá a união abençoada eternamente ou logo encontrará o seu bem amado.

Após deixar o local, acessei uma rua lateral e logo desembocava na praia dos Sonhos onde, segundo o guia turística da cidade, estão localizadas as melhores casas de entretenimento e de gastronomia da região.

O mar continuava agitado, o tempo nublado, fazia frio e pouquíssimas pessoas frequentavam aquele lugar, naquele horário, apesar de estarmos num sábado.


No final da orla, junto às pedras que a delimitam, eu adentrei à pousada Recanto dos Sonhos, estabelecimento em que fizera reserva antecipadamente e, que também acolheria o grupo de caminhantes de Santo André.

Depois de um bom banho, fui almoçar no centro da urbe, mais especificamente no restaurante Panela Velha, onde fui muito bem atendido.

Em seguida, debaixo de uma branda garoa, retornei ao local de pernoite para um merecido descanso.



Itanhaém é a 2ª cidade mais antiga do Brasil, pois foi fundada em 22 de abril de 1.532.

Atualmente, com 90 mil habitantes, é um local de grande importância histórica, pois oferece ao turista a possibilidade de conhecer diversos locais que remetem e retratam de forma fiel a sua cronologia.

Ela foi elevada à  categoria de Vila, no ano de 1.561, e graças às construções da época, que eram de grande porte, logo conquistou o “status” de município.

A cidade oferece vários tipos de atrativos turísticos como: igrejas, museus, passeios nas ilhas oceânicas (que são points de mergulho de classe internacional), rios, mata atlântica, itinerários culturais e de lazer para toda a família.

 

À tardezinha, já refeito, dei uma volta pela praia dos Sonhos, porém o vento frio que fustigava o local afastara os possíveis turistas, de forma que uns poucos “gatos pingados” se aventuravam a passear pelo local ou, mesmo, adentrar ao mar.


7/7/2012 16:08:57 - Portico: 7 - 3º Pórtico Eletrônico: Praça Narciso de Andrade (Itanhaém)

Então, resolvi retornar à praça principal da cidade, para registrar minha passagem pelo 3º pórtico do roteiro, pois é ali que ele se encontra fincado.

Na sequência, fui visitar a bela igreja Matriz de Sant'Anna, localizada na Praça Narciso de Andrade, o “coração” dessa bela e preservada urbe.

Iniciada em 1.639, uma construção em estilo colonial português, foi concluída, provavelmente, em 1.679.

É de se ressaltar que suas paredes são feitas de sambaquis e possuem 90 centímetros de espessura.

Por seu visual inusitado, é considerado um dos templos mais antigos e bonitos de todo o litoral paulista.

Logo na entrada, vê-se uma peça rara, a imagem de Virgem Maria, feita em barro cozido, há mais de 400 anos.

Conta-se que o padre José de Anchieta teria orado diante dessa escultura, durante sua passagem por aquele local.

A histórica ermida abriga um quadro de autoria do incensado pintor Benedito Calixto, bem como possui nos seus altares, exemplares importantes do remanescente da arte sacra paulista, que foram reconhecidas em 1.942, pelo órgão federal de preservação do patrimônio histórico e artístico (SPHAN), como monumentos nacionais.

Após a demorada visita ao templo sacro, fui até um supermercado a fim de me prover de mantimentos para o dia seguinte.

Quanto deixava o local, a chuva retornou com toda intensidade, obrigando-me a entrar num casa que comercializava variedades.

Aproveitei para adquirir um guarda-chuva, pois a intempérie não dava mostras de cessar tão cedo.

E foi debaixo dessa proteção, que consegui retornar ao meu local de pernoite, ainda que bastante molhado, em face da brisa cortante, que varria as ruas desertas por onde eu passei.

A intempérie prosseguiu noite adentro, obrigando-me a ingerir singelo lanche no quarto da pousada e, em seguida, fui dormir, pois ventava e fazia muito frio externamente.

 


AVALIAÇÃO PESSOALUma jornada tranquila, onde o trecho de maior preocupação fica por conta da segurança física do caminhante. Situa-se entre o final da zona urbana da cidade de Peruíbe e a divisa com o município de Itanhaém, pois representam 5 quilômetros de praia integralmente deserta, sem nenhuma construção no trajeto. Ainda, no meu caso específico, a jornada teve seu brilho embaçado pela forte borrasca que me atingiu, impedindo-me de curtir as belezas paisagísticas que são oferecidas aos caminhantes e contempladores da natureza, nesse percurso.


2ª dia – ITANHAÉM à PRAIA GRANDE