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CAMINHO DA PRECE - III


2016 – CAMINHO DA PRECE – DIÁRIO DE BORDO 

"Ser peregrino é descobrir que o caminho nos abre os olhos ao que não se vê. Que se preocupa não a chegar, mas chegar com os outros. A mochila vai se esvaziando de coisas e o coração não sabe onde colocar tantas emoções. Descobrimos que o caminho tem muito de silêncio, de oração e emoção do encontro com a Mãe que te espera no final do caminho, ai temos a certeza que o caminho começa realmente quando termina.




Objetivando resgatar um compromisso firmado com Nossa Senhora do Carmo, resolvi ir com os amigos Polly e Ely Prado percorrer o Caminho da Prece numa “pernada” só, como se diz em Minas Gerais.

Uma extensão de 71 quilômetros, vencida em 15 h 30 min, ininterruptamente, a pé.

Cumpre ressaltar, que a nossa caminhada foi feita, em sua maior parte, durante a noite, o que favorece o condicionamento físico, pois evita-se os raios solares.

E, como o trajeto é, praticamente, todo em chão de terra, por estradas rurais, o roteiro se apresentou tranquilo, agradável e silencioso.

Contudo, a extensão percorrida desgasta sobremaneira os pés e joelhos do caminhante, mormente porque em sua parte final, existem 3 morros a serem sobrelevados que, embora de pequena extensão, acorrem exatamente quando o peregrino já se encontra sonolento, dolorido e estafado.

E para complicar, fomos castigados pela chuva em praticamente todo o percurso.

Contudo, com muita crença, perseverança e disciplina, nos foi possível superar esse imenso desafio.

Abaixo publico um singelo “Diário de Bordo”, contando um pouco mais dessa inesquecível aventura.

Necessário esclarecer que este relato representa ponto de vista pessoal, exclusivo do autor, sobre o que vivenciou e observou durante a caminhada, não obrigatoriamente o que as demais pessoas do grupo viu, pensou ou sentiu.


RUMO A JACUTINGA 


Deus, se um dia eu estiver prestes a perder as esperanças, me ajude a lembrar que os teus planos são maiores que os meus sonhos...” 


Altimetria oficial do Caminho da Prece

Hoje é sábado, dia 20/08/2016, 04 h da manhã – Em meu lar, local de onde partirei para Jacutinga, acordo para mais um dia e, ao me lembrar de meu compromisso com o Caminho da Prece, salto lépido da cama.

Será um dia intenso, quando farei uma caminhada de 71 quilômetros, algo inédito para mim, pois meu recorde para uma única jornada é de 50 quilômetros.

Assim, face à relevância do evento, professo minhas orações matinais com vigor e fé.

São 11 horas e, após almoçar, dou início à checagem final da mochila que carregarei, e seu conteúdo contempla água, isotônicos, barra de cereais, chocolates, além de frutas energéticas, como banana e maçã.

Levo comigo um pequeno pronto-socorro, além de um relaxante muscular, que são componentes essenciais, para o caso de surgir algum imprevisto.

Como bem diz uma frase da sabedoria chinesa: “O que nos deve acontecer, está escrito no livro da vida, que o vento da eternidade folheia ao acaso.”

O cajado, amigo inseparável do caminhante, segue, por ora, retrativo entre os demais objetos de minha equipagem.

Ainda, é imprescindível portar uma lanterna, pois a lua, nessa noite, somente surgirá no firmamento, após as 20 h, isto é, se as nuvens “cumulonimbus” permitirem.

E, para completar, carrego um agasalho impermeável, vez que as madrugadas na serra da Mantiqueira costumam ser, nessa época invernal, extremamente frias.

Já paramentado para a aventura, uso camiseta “dry-fit” de mangas longas, calça-bermuda, com 100% de poliamida, botas, e uma pochete cinge minha cintura.

São 12 h, estou partindo.

Antes, me despeço de minha filha, do genro, depois dou um beijo em minha neta Teresa.

Sigo sozinho neste primeiro trecho, pois encontrarei na cidade de Jacutinga, os amigos que me acompanharão nessa jornada.

Infelizmente, choveu bastante de manhã e agora cai uma garoa persistente, que me obriga a usar o guarda-chuva, algo que não estava nos meus planos.

Enquanto perfaço o derradeiro trecho até a Estação Rodoviária, lembro-me de pedir proteção ao meu Anjo da Guarda e, incontinenti, professo minha fé através da seguinte oração: “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, já que a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, guarda, governa e ilumina. Amém.”


RUMO A BORDA DA MATA


Uma pessoa só cresce quando é capaz de superar as dificuldades. Proteção é importante mas há certas coisas que deve-se aprender por esforço próprio.” Jiraya (Naruto) 


Antiga estação da Estrada de Ferro de Jacutinga/MG.

Hoje é sábado, dia 20/08/2016, são 14 h 40 min - Acabo de descer do ônibus da Viação Gardênia, na rodoviária de Jacutinga/MG.

Caminho, se tanto, uns 100 metros, e me posto diante do prédio que abriga o SEDECON de Jacutinga, onde se localiza o “Marco Zero” do Caminho da Prece.

Conforme combinado, logo aportam ao local meus amigos e “Companheiros de Viagem”: o Polly e o Ely Prado.

Depois de abraços, cumprimentos e manifestações de alegria, conjecturo sobre a longa distância a ser percorrida.

Conforto-me, entretanto, parafraseando o escritor Richard Bach: “Longe, é um lugar que não existe!”

A esposa do Ely participa de nossa prece comunitária, cujo propósito é solicitar proteção e bençãos, para que consigamos alcançar nosso objetivo.

Depois, solícita, faz fotos do grupo para eternizar esse momento mágico e inesquecível.
 

SEDECON de Jacutinga: Marco zero do Caminho da Prece, antes de iniciar nossa jornada.

Devidamente aquecidos e paramentados, após despedidas e votos de “Bom Caminho”, partimos em direção à saída da cidade.

Cem metros percorridos, faço pequena pausa para adentrar ao Ghandi Hotel e adquirir minha Credencial Peregrina, visto que pretendo retornar ao meu lar com mais um Diploma desse novel roteiro.

Depois, prosseguimos, agora, sequencialmente, pela rua Barão do Rio Branco e Avenida Brasil, até o local onde ela intersepta a Rua Marechal Deodoro, dois quarteirões à frente.

Ali, observando a sinalização, fletimos à direita, ultrapassamos a rodovia MG-290 (João Tavares Corrêa Beral), que liga Jacutinga a Ouro Fino e Inconfidentes, depois, prosseguimos, indefinidamente, pela Rua Vereador Noé Luís Ferreira, sob o conforto da tênue luz solar.

A tarde se apresenta fria, com temperatura ao redor de 16 graus, mas nos encontramos bem agasalhados e aquecidos, então, seguimos tranquilo pelas ruas pavimentadas da simpática cidadezinha.

Dez minutos depois, vencidos 1.000 metros, transitamos diante da residência/comércio do Polly, onde uma placa afixada na parede nos avisa que desse local restam, exatos, 70 quilômetros até nosso destino final.

Após percorrermos mais 1.000 m, aproximadamente, transitamos por um grande loteamento, localizado em um bairro periférico.

Então, para nossa alegria, o asfalto finda e adentramos em terra, mais especificamente, na Estrada Serra Morena. 


O Polly e o Ely, firmes na trilha.

Por sorte, face às chuvas recentes, seu piso se encontra apiloado, sem poeira, facilitando nosso deslocamento. 


Nesse trecho sigo conversando com o amigo Polly. (Créditos: 
Ely Prado)

Vamos caminhando e conversando, porquanto nossa intenção inicial seria assistir no dia seguinte, um domingo, a “Missa dos Romeiros”, que é celebrada na igreja matriz de Inconfidentes, às 10 h 30 min.

Entretanto, tanto o Ely como eu temos compromissos a honrar em nossas residências, de forma que necessitamos embarcar no ônibus que sai às 8 h 30 min de Borda da Mata.

Dessa forma, precisamos chegar ao nosso destino no máximo até 7 horas do dia sequente, o que nos obriga a imprimir um ritmo de caminhada ao redor de 5 quilômetros por hora. 


O Polly e o Ely, firmes na frente...

Não é uma velocidade de constância, mormente na etapa final, mas precisaremos superar limites se quisermos ter sucesso, como bem afirmou certa feita, Martin Luther King: “A verdadeira medida de um homem não se vê na forma como se comporta em momentos de conforto e conveniência, mas em como se mantém em tempos de controvérsia e desafio.” 


Caminho da Prece: paisagens imorredouras.

São 16 h 25 min e já caminhamos, aproximadamente, 7.300 metros, em ritmo uniforme, enquanto conversamos e trocamos informações preciosas sobre caminhadas pretéritas.

Durante esse primeiro percurso, o Edy e o Polly me contaram um pouco de sua infância, a luta pela sobrevivência, o desejo de vencer e, como ocorreu comigo também, percebo que eles só chegaram a posição que ocupam hoje, após muito empenho e sacrifícios.

A caminhada vai rendendo bem.

A tarde está fria, apesar do sol, o que está ajudando bastante. 


Primeira bifurcação. Seguimos à esquerda.

Neste momento, diante de uma bifurcação, situada na Várzea da Forquilha, estamos adentrando à esquerda, seguindo por uma estrada plana, situada ao lado de um grande e fresco bosque de eucaliptos.

Logo à frente, numa planície, ultrapassamos um trecho onde a terra solta no piso deixou o local embarrado e liso. 


Estrada com muita lama... 
(Créditos: 
Ely Prado)

Mas, nada que detenha nossa intrepidez e otimismo.

A conversa prossegue franca, interessante e, em determinados momentos, rende estrepitosas gargalhadas.


Segunda bifurcação. Novamente, adentramos à esquerda.

São 16 h 45 min, percorridos 9.400 metros, em outra importante bifurcação, adentramos à esquerda novamente e, quinhentos metros adiante, passamos ao lado de enormes estufas, solidamente edificadas, onde são cultivadas rosas para serem comercializadas. 


Grandes estufas, onde são cultivadas rosas.

Choveu de manhã na região e o céu se mostra cinzento e carregado, prenúncio certo de chuvas torrenciais mais à noite.

O Polly e o Edy trocam informações sobre as novas placas que foram colocadas no roteiro, conferem a sinalização, sugerem alternativas em termos de manutenção do percurso; enfim, eles são os fundadores desse Caminho, por isso o mimam como um “filho” ainda adolescente. 


O Polly e o Edy conversam sobre a sinalização...

Mais adiante, quando o GPS inserto em meu celular anuncia que estamos ultrapassando a marca de 10 quilômetros percorridos, o Polly me mostra uma árvore onde brevemente será afixada uma placa,

Ela informará aos peregrinos que naquele local está situada a divisa dos municípios de Jacutinga e Ouro Fino. 


Primeiro cruzeiro do Caminho da Prece, ainda com luz solar...

São 17 h 30 min, vencidos exatos 13.500 metros, encontramo-nos diante do primeiro Cruzeiro do Caminho da Prece, onde uma placa empoeirada convida o peregrino a uma reflexão, dizendo: “Ore em todas as circunstâncias e em todo lugar.”

Fazemos uma pausa para ingestão de água, depois nos perfilamos, damos as mãos e externamos pleitos à Nossa Senhora do Carmo.

Nesse primeiro aporte, o Polly assume o comando das preces e tece profícuas considerações sobre nossa abençoada jornada.

Depois, rezamos um pai nosso, uma ave-maria, e respondemos a algumas jaculatórias a exemplo desta: “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós, que recorremos a Vós”.

Ao final, fazemos o sinal da cruz, solicitamos proteção durante o trajeto e seguimos em frente.

Como bem lembra o Ely, na última caminhada de lua cheia, ocorrida há dois meses, eles aportaram ao bairro de Peitudos ainda sob a luz solar, mas hoje isto será impossível, pois lentamente o entorno vai escurecendo e grossas nuvens se aproximam provindas do sul.

São 17 h 48 min, estamos passando diante da igrejinha dedicada a São Francisco de Assis e faço uma pausa para fotografá-la. 


Igrejinha de São Francisco de Assis.

No frontispício de uma laje de um sítio próximo, uma placa afixava numa coluna nos avisa que restam 55 quilômetros até a Basílica de Borda da Mata, sinal que já havíamos caminhado 14 quilômetros até aquele local.

A noite avança rapidamente e logo precisaremos seguir com as nossas lanternas ligadas.


Bairro de Peitudos.

São 18 h 35 min – Depois de caminhar 18.500 metros, estamos chegando ao bairro de Peitudos, que pertence ao município de Ouro Fino/MG.

No minimercado Nossa Senhora Aparecida, Ponto de Apoio do Caminho da Prece nesse local, peço para seu proprietário, o Sr. Donizetti, carimbar minha credencial.

Depois, adquiro água, um isotônico e, em seguida, sento num parapeito, bem como meus companheiros, para ingerirmos um lanche que cada qual trouxe de casa.

Sopra uma brisa gelada vinda do leste e o um senhor ali presente comenta trata-se de um vento que trará chuvas para breve.

O Brasil está jogando contra a Alemanha pela partida final do futebol masculino na Olimpíada Rio-2016, e o Polly indaga sobre o resultado do prélio.

Ao saber que o Brasil está ganhando, vibra de alegria.

Vinte minutos depois, estamos em pé novamente. 


18 quilômetros percorridos, lanche no Bairro de Peitudos.

Fosse um sábado normal, eu também, como outros fregueses que observo num bar próximo, estaria ingerindo uma cerveja e olhando para a TV em minha residência.

Mas, o momento é outro e preciso alcançar uma graça, essa a razão precípua de minha peregrinação nesse dia.

O Edy passa vaselina nos pés, o Polly calça as botas, fazendo pequenos ajustes no cadarço.

Enquanto isso, flexiono meus membros superiores e reaqueço minhas panturrilhas. 


Bem alimentados, hora de partir...
(Créditos: 
Ely Prado)

Precisamos partir, afinal o corpo deve relaxar um pouco, mas não pode esfriar por completo.

Despedimos-nos dos presentes, vamos deixando a localidade e, mais abaixo, assim que finda a iluminação urbana, ligamos nossas lanternas e seguimos em frente.

Passa por nós uma caminhonete, cujo motorista conversou comigo no Minimercado do Donizetti.

Ele aciona a buzina e acena, como se quisesse dizer “Ultreya” - palavra de origem basca, muito utilizada no Caminho de Santiago e que quer dizer: boa sorte, força!

Aproximadamente, dois quilômetros adiante, passamos diante da Fazenda Talismã e Haras Zel, onde cumprimentamos algumas pessoas que estão sentadas em um local profusamente iluminado, ingerindo cerveja e outras bebidas.

O cheiro de churrasco também é convidativo e um rádio em alto volume propaga o som de uma famosa música sertaneja.

Mas, estamos concentrados em nosso intento e me lembro de Steve Jobs, que disse: “Foco é dizer não”.


Segundo cruzeiro do Caminho da Prece.

São 19 h 30 min e depois de caminhar 22.500 metros, encontramos o segundo cruzeiro do Caminho da Prece.

Uma placa afixada ao lado da cruz nos convidava a refletir a respeito da seguinte frase: “Viver é saber conviver com a diferença do outro. Com Cristo, ame, perdoe.”

Fazemos uma pequena pausa para orações e o Polly pede que eu coordene as preces nesse local. 


Segundo cruzeiro do Caminho da Prece. Momentos de intensas reflexões.

Minha preocupação maior é com minha filha que está grávida, mas a Cecília, renitente, se recusa a abandonar o casulo materno.

Em breve, ela completará a 42ª semana de gestação e semana vindoura tudo terá que ser decidido, ainda que através de uma cesariana, que reluta em enfrentar.

Peço, então, a Nossa Senhora do Carmo uma graça, uma benção, para que tudo ser resolva da melhor maneira possível, sem risco de vida para mãe e filha.

Depois, rezamos um pai nosso, uma ave-maria, e respondemos a algumas jaculatórias que o Polly respeitosamente salmodia.

Ao final, fazemos o sinal da cruz, solicitamos proteção ao Anjo da Guarda e prosseguimos em frente. 


Com o Ely, diante do segundo cruzeiro do Caminho da Prece.

Esse trecho estava com muita terra solta no piso quando aqui passei há menos de vinte dias, porém, por conta das chuvas recentes, tudo se encontra aplainado e fresco, por isso prosseguimos em bom ritmo.

Mais dois quilômetros vencidos em franco descenso, iniciamos um breve ascenso e acabamos por desaguar na rodovia MG-459, denominada Dr. Francisco Bueno Brandão, que liga Ouro Fino a Monte Sião.

Ali giramos à esquerda, e seguimos caminhando pelo acostamento, no sentido contrário ao fluxo de veículos que, por sinal, se mostra bastante intenso nesse horário.


Bairro da Ponte Preta - Ouro Fino/MG.

São 20 h 15 min e depois de percorrer 26.800 metros, deixamos o asfalto e adentramos em terra, já no bairro da Ponte Preta, que também pertence ao município de Ouro Fino.

Um restaurante localizado próximo dali, está lotado, pessoas conversam animadamente e o delicioso cheiro de comida que se propaga pelo ar o que é deveras tentador.

Muitos carros estão estacionados no entorno e o Polly arrisca perguntar ao porteiro do estabelecimento como está o jogo de futebol contra a Alemanha mas, para nossa decepção, ele desconhece o resultado.

No entanto, ouvimos o espoucar de uma salva de rojões ao longe, sinal que o Brasil deve ter vencido e abiscoitado mais uma medalha de ouro para nós brasileiros.

E essa notícia, ainda que sem confirmação, nos enche de orgulho e alegria.

Um bar próximo, que também serve de Ponto de Apoio do Caminho da Prece nesse local, está fechado e dois cachorros vira-latas dormem sob o alpendre existente em sua entrada.

O Edy sugere fazermos uma pausa para descanso ali, mas refaço as contas e digo-lhes que, em vista do adiantado da hora, mensurando a distância percorrida até aquele patamar, nos sobraria pouco tempo para lanchar e relaxar na cidade de Inconfidentes.

Dessa forma, de comum acordo, prosseguimos em frente, mergulhando novamente na negridão da noite.

E a lua tão aguardada, que deveria ter nascido às 20 horas, ainda não deu seu ar da graça e, sinceramente, duvidamos que o faça, pois o céu permanece plúmbeo e dele descai uma leve garoa.

O caminho segue agora em meio a inúmeras chácaras e em muitas delas percebemos existir pessoas ali festejando, face à abundante iluminação e alarido que brota das casas por onde passamos.

Nesse pique, atravessamos o bairro do Tanque, cães ladram raivosamente em um sítio próximo, denunciando nossa passagem pelo local.

Mais adiante, transpomos pequeno riacho por uma ponte onde, neste horário, tudo é escuridão e o silêncio é quebrado, de tempos em tempos, pelo coaxar de sapos e esturros de animais ribeirinhos.

Uma hora depois, transitamos diante do bar Beira-rio, localizado no bairro Ponte Branca, outro parceiro do Caminho da Prece.

Ali, tomamos a estrada que segue à direita e logo a chuva engrossa, enquanto prosseguimos firmes na trilha.

O caminho nesse trecho é protegido por árvores altas e eucaliptos que formam um verdadeiro túnel verde.

Em dias normais, proporcionam sombra e frescor, porém, à noite, tudo se transforma num autêntico blecaute, e as lanternas se fazem imprescindíveis para iluminar nosso rumo.

Em determinado local, face ao vigor da intempérie, o Ely, embora vestido com um sobretudo impermeável, saca uma velha sombrinha de sua mochila e se esconde debaixo dela.

Na escuridão reinante, eu também tenho dificuldade em localizar minha capa de chuva e, por essa razão, também me socorro do pequeno guarda-chuva que levo comigo.

Apenas o Polly segue impávido e desprotegido, enquanto o aguaceiro aumenta de intensidade. 


Terceiro Cruzeiro do Caminho da Prece. Chovia muita nessa hora.


São 22 h 15 min e, finalmente, chegamos diante do 3º Cruzeiro do Caminho da Prece.

Uma placa afixada ao lado da cruz nos convidava a refletir a respeito da seguinte frase: “Ao caminhar na luz que é Jesus, todos seguem em direção ao Pai.” 


Momentos de intensa oração.

Até aqui já caminhamos 37.400 metros e fazemos uma pausa para orarmos em conjunto, rapidamente, porquanto a chuva prossegue sem cessar.

Na sequência, o Polly encontra um local abrigado e rapidamente veste seu ponche impermeável.

Seguimos rápidos, já em zona urbana, e nos refugiamos sob a cobertura existente defronte ao bar do Maurão que, infelizmente, por conta do horário extemporâneo, se encontrava fechado.

Ali, descontraidamente, fazemos uma pausa restauradora para hidratação e ingestão de lanches e frutas. 


Bar do Maurão, em Inconfidentes/MG.

Ligo meu celular e sou colhido por uma notícia surpreendente: minha neta Cecília viera ao mundo há pouco mais de duas horas.

E, curiosamente, minha filha passara a sofrer contrações pouco tempo depois que eu deixara meu lar, em direção a Jacutinga.

Emocionado, cotejo os horários e verifico que o nascimento ocorrera no exato momento em que professávamos nossas preces, pedindo por sua saúde, diante do 2º cruzeiro do Caminho.

Algo realmente milagroso, mas quem duvida da força de nossas orações? 


Lanchando e descansando...

Quando dou a notícia aos amigos, sou imediatamente cumprimentado e abraçado, afinal, sou o vovô mais “fresco” do pedaço.

Um forte temporal se abate sobre a cidade, enquanto nós abrigamos, aguardando a borrasca amainar para prosseguir nosso périplo.

Fico prestando atenção na corrente líquida que verte pela sarjeta em direção ao rio Moji Guaçu, que hoje transpusemos por pontes, em duas oportunidades.

Em breve ela irá se encontrar com o mar, de onde saiu um dia para se transformar em nuvem, em chuva, em calma nascente no meio da mata e, novamente em rio.

É bom ter um lugar para voltar, depois de ter viajado pelos caminhos do céu, por isso gosto de ver o rio.

Segundo Anaxágoras, filósofo grego que viveu alguns séculos antes de Cristo, o mundo tem uma grande alma e nós estamos para a alma do mundo assim como cada gota de água está para o mar... 


Em Inconfidentes, diante do Bar do Maurão. Lá fora chove muito.

Bem, minhas tergiversações chegam ao fim, porque o Ely reclama de dores excruciantes em seu pé direito, onde a bota magoou sensivelmente as pontas e unhas dos dedos e, por conta disso, tem dúvida se prosseguirá conosco.

Prontamente, lhe ofereço esparadrapo para proteção do local lesionado e um relaxante muscular para aliviar seu mal.

Contudo, ele agradece minha oferenda e faz vigorosas massagens no lugar afetado, depois passa sobre a pele uma grossa camada de vaselina extraída de um frasco que levava em sua mochila.

Em seguida, veste as meias e calça novamente as botas.

Mais tranquilo, diz que caminhará, ao menos, mais 12 quilômetros conosco, até próximo da Venda da Ziza, onde pretendemos fazer nova pausa para descanso e lanche, na casa do Sérgio, primo do Polly, outro local de Apoio do Caminho da Prece.

Fico imensamente feliz por sua decisão, posto que meu sonho é aportarmos em Borda da Mata, todos juntos, tal qual encetamos nossa jornada em Jacutinga.


Em Inconfidentes, diante do Bar do Maurão. Hora de partir novamente...

São 22 h 45 min e, após a chuva abrandar sua intensidade, estamos partindo novamente.

Apesar do horário tardio, há muita gente circulando pela cidade e, logo adiante, ao transitarmos diante de uma Pizzaria, podemos observar que o estabelecimento está lotado, com muitas pessoas bebendo, comendo e se confraternizando.

Num bar vizinho, adquirimos água, porque caminharemos por mais 2 horas e 30 minutos antes de realizarmos nova pausa.

Seguimos retilineamente pela Avenida Alvarenga Peixoto, enquanto vamos parolando amenidades.

Um cachorrinho minúsculo late bravo, protegido pelo portão de sua casa.

Quinhentos metros depois, ultrapassamos a rodovia MG 295, e prosseguimos adiante, agora sobre bloquetes hexagonais de cimento, por locais onde a iluminação urbana é um tanto falha, obrigando-nos a ligar nossas lanternas.

Nosso receio são os cães que nesse bairro vivem soltos em algumas residências e, eventualmente, poderão nos atacar.

Três quilômetros percorridos sobre piso duro, finalmente, adentramos em terra e, então, prosseguimos em leve ascenso.

Daqui em diante, o terreno começa a acidentar-se, pois já atingimos os contrafortes da serra da Mantiqueira.

Estamos atravessando diante de um imponente portal e alguns cães de guarda ladram furiosamente.

Um carro passa por nós devagar e seu condutor, gentilmente, nos cumprimenta, depois deseja “boa viagem” e bençãos marianas em nossa jornada.

Lentamente o roteiro vai se empinando, porquanto estamos escalando a Serra do Monjolinho, o obstáculo mais proeminente do Caminho da Prece.

O Polly, finalmente, liga sua lanterna que, por ser alimentada por um dínamo, precisa ser recarregada manualmente.

Ele aciona uma manivela, a luz se intensifica, mas um chiado zune no ar cada vez que ele movimenta o gerador.

Essa cena rende gostosas risadas, porque ele se mostrara decepcionado por nós portarmos guarda-chuvas, afirmando ser isto um despautério peregrino.

O Edy afirma que aquele som proveniente do eixo alimentador mais parece um enxame de abelhas em atividade.

E novas gargalhadas explodem no ar.

A partir de determinado patamar, inicia-se forte e extensa ladeira, que vamos vencendo, lentamente, passo a passo.

Às vezes, caminhamos pela esquerda, outras vezes, pela direita da estrada, alternando, para aliviar as curvas e as subidas, evitando, preferentemente, os locais mais lisos e lamacentos.

Além de nossa respiração acelerada, ouvimos apenas o chichiar da natureza em nosso entorno, bem como o barulho de uma nascente que escorre pelo lado direito da trilha.

O Polly avança agilmente encosta acima e nós prosseguimos em seu encalço. 


Diante do quarto cruzeiro do Caminho da Prece, no cume do morro do Monjolinho.

São 23 h 45 min, percorridos 43.500 metros, finalmente, chegamos ao 4º Cruzeiro do Caminho da Prece, localizado a 1.046 m de altitude, no cume do morro do Monjolinho.

Uma placa afixada ao lado da cruz nos convidava a refletir a respeito da seguinte frase: “Com entusiasmo e coragem carregue diariamente sua cruz, conquistando seu ideal passo a passo.”

Cai uma leve garoa e aproveitamos a ocasião para deixar aos pés do madeiro as pedrinhas que levávamos guardadas na mochila, com a intenção de repetir o ritual existente no Caminho de Santiago, na Cruz de Ferro, onde também se deve deixar uma pedra, que simboliza o que há de errado em sua vida.

Segundo o Polly e o Edy, já existe uma outra cruz pronta, doada por um peregrino, toda feita de pedra, que será colocada uns duzentos metros adiante, com a intenção de abarcar esse milenar ritual. 


Aos pés do cruzeiro, pedras deixadas pelos peregrinos.

Como de praxe, agradecemos o dom da vida, proferimos orações, nos persignamos, depois seguimos em frente.

Na sequência, enfrentamos terrível descenso, local onde vivenciei grandes apuros quinze dias atrás, quando passei por esse declive, em face da imensa quantidade de terra solta no chão.

Mas, incrivelmente, a intempérie solidificou o piso e, sob as bençãos divinas, conseguimos descender em segurança, porquanto um tombo ou um escorregão mais impetuoso poderia colocar tudo a perder.

Já passa da meia-noite, ou seja, já estamos vivenciando um domingo, e seguimos em frente, como de praxe, animados e compenetrados em nosso objetivo.

Sobre o tema, disse a escritora Lorena Rodrigues: “Mantenha o foco naquilo que acreditas, derrame toda a energia que há em ti e acima de tudo, tenha atitude. Acredite que você é capaz, nunca duvide das possibilidades, tudo é possível.”

Alguns quilômetros adiante, transitamos pelo Bairro Boa Vista da Adelaide, onde tudo se encontra escuro e silencioso, apenas um cão ladrou ao perceber nossa passagem pelo local.

Ali, giramos à direita e principiamos a descender novamente.

Mais três quilômetros superados em bom ritmo, passamos diante da Venda da Ziza, outro local de Apoio do Caminho da Prece. 


Venda da Ziza...

São 01 h 30 min, vencidos 51 quilômetros, chegamos a residência do Sr. Sérgio, um primo do Polly, que preparou uma mesa farta de comida, além de um café quentinho, para animar nossa jornada.

Fazemos, então, uma pausa para hidratação, descanso e ingestão da abençoada refeição que está sobre a mesa. 


Mesa farta. Deus abençoe essa residência!

O Polly não se faz de rogado e ingere copos e copos de leite quente, no que é acompanhado pelo Ely.

Embora guardemos um respeitoso silêncio em nosso repasto, os 4 cães que fazem a guarda do local ladraram muito à nossa chegada, acabando por acordar o dono da casa, que logo se junta a nós. 


Lanche na casa do Sérgio, primo do Polly. Restam 20 quilômetros até o final.

Ele pergunta sobre nossa aventura, depois discorre sobre assuntos diversos e se mostra contente pelas fortes intempéries que se abateram sobre a região, pois ali também não chovia há mais de 2 meses.

Por fim, registramos algumas fotos, depois nos preparamos para partir. 


Sérgio, Polly e Ely. Momentos abençoados..

São 01 h 50 min, e após fraternais despedidas, deixamos a residência do Sr. Sérgio e retornamos ao Caminho.

Bem alimentados e com o astral elevado, seguimos em frente com grande determinação.

No entanto, para nossa preocupação, tem início um vendaval e relâmpagos cortam o céu em todas as direções, prenúncio certo de tempestade.

Que não tarda a se abater sobre nós, com violência.

Estamos bem protegidos pelas nossas capas impermeáveis e, intimoratos, prosseguimos em nossa jornada que, em determinados momentos, se torna épica.

A água que cai em expressiva quantidade, extrapola o limite das calhas laterais, invadindo o leito da estrada, obrigando-nos a chapinhar num extenso caudal que vai cobrindo nossas botas.

Por sorte, a minha é impermeável e apesar de afundar em vários buracos alagados, ainda tenho os pés secos.

Prosseguimos bravamente até que, passados 20 minutos, a borrasca vai amainando e se transforma numa intermitente garoa. 


Diante do quinto Cruzeiro do Caminho a Prece.

São 02 h 30 min e, depois de percorrermos 53.500 metros, chegamos ao 5º Cruzeiro do Caminho da Prece.

Ele está localizado junto a uma árvore, e uma placa fincada ao seu lado, nos convida novamente a refletir, com a seguinte expressão: “Começamos a ser feliz a partir do momento que fazemos algo para a felicidade do outro.”

Como de hábito, fazemos uma pausa para orações e agradecimentos. 


Diante do quinto Cruzeiro do Caminho a Prece. Chove muito! 
(Créditos: 
Ely Prado)

O Polly, que coordena as preces e externa as jaculatórias, nos convida a rezar um rosário, assim que o caminho aplainar.

Seguindo adiante, logo passamos diante da Fazenda Jerusalém, depois seguimos em ascenso e, logo em seguida, em forte descenso.

Mais dois quilômetros vencidos, a estrada finalmente se nivela, e o Polly, com voz forte e ânimo redobrado, dá início ao nosso terço na trilha.

São momentos de intensa comoção, que vivenciamos olhando fixamente para o chão, para verificar, com cuidado, onde colocamos nossos pés, enquanto vamos rezando ave-marias, pai nossos, externando nossas preces com fé e ardor.

Nesse toque, passamos pelo bairro Paredes, onde uma placa nos avisa que restam 15 quilômetros até Borda da Mata. 


Bairro Paredes...

Prosseguimos compenetrados em nossas orações e, mais adiante, exatamente, quando o roteiro volta a se empinar, nosso terço chega ao fim, após finalizarmos sua execução com uma fervorosa “Salve Rainha”.

São 03 h 30 min, percorridos 60.400 metros, chegamos diante da igrejinha de São Francisco de Assis, e o cansaço já se faz sentir, bem como uma grande sonolência me invade.

Ali existe uma ótima estrutura, com água, local coberto e banheiros, que foi disponibilizada pelos responsáveis do local, aos peregrinos do Caminho da Prece. 


Igrejinha de São Francisco.

O Ely abre o portãozinho de entrada e rapidamente nos escondemos sobre o telheiro, onde fazemos nossa derradeira pausa para descanso e hidratação, antes do aporte final.

A chuva prossegue lá fora, mas agora de forma descontínua e com fraca intensidade.

Quinze minutos depois, retemperados, estamos de volta à trilha.

A partir desse marco, o caminho prossegue em ascensos duros e íngremes declives, mas, veteranos no roteiro, seguimos em bom passo.


Sexto Cruzeiro do Caminho da Prece.

São 04 h 45 min, percorridos 63.100 metros, chegamos ao 6º Cruzeiro do Caminho da Prece.


Ao seu lado, uma placa também nos convida a refletir, estampando a seguinte frase: “A oração nem sempre nos livra do sofrimento, mas sempre nos reveste de força para suportá-lo.”

Desta vez é Edy quem comanda as orações, que externamos com ânimo reduplicado, sabendo que nossa meta está bem próxima. 


Momentos de orar com fervor!

Daquele local, situado a localizado a 1101 m de altitude, o ponto de maior altimetria do Caminho da Prece, podemos observar ao longe, no horizonte, uma feérica iluminação.

O Polly me esclarece que se trata da cidade de Pouso Alegre, que calculamos esteja situada, em linha reta, uns 30 quilômetros dali.

Curiosamente, a cidade de Borda da Mata ainda não invade nossa visão, vez que se encontra escondida por detrás de um protuberante morro.

Seguimos adiante e agora enfrentamos ríspido descenso, que vamos sobrepujando com muito cuidado, pois um tombo ali seria fatal.

Meus companheiros seguem com calma, então eu me adianto um pouco e, solitário, posso reflexionar sobre mais esse desafio que estamos superando a bom termo.

Compenetrado, prossigo orando: “Obrigado, Senhor, por esta chuva abençoada, depois de tantos dias secos e calorentos. Obrigado também pelo sol, que em breve retornará ao firmamento celeste. Todas as Tuas obras são importantes para a nossa vida e Tu sabes, tão bem do que necessitamos. Obrigado pela paz que estou sentido neste momento. Obrigado pela minha vida, pela minha saúde, por meus pés perfeitos e fortes. Que eu possa sentir sempre a Tua presente e que eu não tenha nunca vergonha de chorar, emocionado que fico diante da tua grandeza.”

Momentos indeléveis, onde aproveito para agradecer também a chegada de minha netinha, que veio ao mundo perfeita e com saúde. 


Ponto de Apoio no bairro Moji.

Estamos reunidos novamente, desta vez diante da igrejinha do bairro Moji e, como nos demais locais pretéritos por onde transitamos, tudo se encontra deserto e silencioso.

São 5 h 15 min e até aqui já vencemos 65.100 metros e a estrada, com altos e baixos, vai passando rápida sob nossos pés; agora falta pouco.

Um galo canta ao longe, repetidas vezes, anunciando mais um alvorecer.

Mais à frente, um boi muge num curral e ouço ainda o coaxar de rãs na beira de um córrego que margeia a estrada.

Percorremos um trecho plano, depois vencemos ainda mais duas pequenas elevações e, a partir da derradeira, já conseguimos avistar as luzes da cidade de Borda da Mata, que nos contamina de renovada energia.

Meus companheiros ficam novamente à minha retaguarda, porquanto, face à distância percorrida, nosso ritmo cai vertiginosamente; mas estamos chegando.

Café, descanso, banho, cama, passam a ser mais que um desejo, e não necessariamente nessa ordem.

Fruto dessa estafa, em alguns momentos sinto apenas uma leve pressão no lugar onde deveria reconhecer meus pés.

Na verdade, minhas pernas ficaram meio esquecidas, anestesiadas que estão, pela endorfina circulante.

Aproveito esse momento para renovar minha fé em Cristo, orando com fervor: “Senhor, que chamamos Bom Jesus, contemplando o mistério de dor, lembrando na vossa imagem, renovamos a nossa fé, vós nos amastes até o fim, sois o Senhor, vivo no meio de nós. Dai-nos o Espírito Santo, que forme o nosso coração na obediência ao Pai, na fidelidade a vossa Palavra, no amor aos irmãos. Senhor, atendei nossos pedidos na luta de cada dia, no sofrimento, em todas as dificuldades. Ficai sempre conosco, mostrai que sois o Bom Jesus. Amém.”

A chuva não dá trégua quando vou vencendo cuidadosamente o derradeiro e profundo descenso, agora em franca inclinação e meus membros inferiores protestam.

Nunca é demais enfatizar que as declividades fazem inverter toda a musculatura das pernas, pois há uma maior pressão sobre os joelhos e tornozelos.

E isso pode causar grande desconforto, mormente no final de uma jornada de grande envergadura, como esta que estou concluindo.

Mais abaixo, já no plano, faço uma pausa para fotografar o Portal da cidade de Borda da Mata, no local onde o Caminho da Prece se reencontra com a rodovia MG 295.

Observo que, apesar da névoa reinante, o dia vai amanhecendo lentamente.

Logo depois chegam meus companheiros e, novamente reunidos, seguimos adiante.

Mais dois quilômetros percorridos sobre piso molhado e chuva miúda, por ruas desertas e ventosas, aportamos, sob as bençãos divinas, na praça principal da cidade. 


Depois de 15 h 30 min de "viagem" a pé, chegada ao Marco Zero do Caminho da Prece, em Borda da Mata/MG. Com Polly e Ely Prado.

Imediatamente, nos dirigimos ao “Marco Zero” do Caminho da Prece e ali nos perfilamos para uma foto do grupo.

São, exatamente, 6 h 30 min e uma alegria imensa invade o meu coração.

O abraço festivo e jubiloso é de mútua satisfação, pois estamos felicíssimos por mais essa conquista.

Nesse momento me acorre uma límpida frase, do genial astrônomo americano, Carl Sagan: “O homem pode chegar onde quiser, a pé ou motorizado, basta lutar, planejar, ser razoável, crer em seu potencial, respeitar as leis da natureza e ter bom senso!”

Penso que se houve alguma conquista plena, ela ocorreu somente sobre minhas limitações físicas, no desafio pessoal de aportar ileso defronte à Igreja Matriz de Borda da Mata para, depois, prosseguir normalmente em minha trajetória de vida.

E para melhor defini-la, aproveito uma citação de Aldous Huxley, inerente à questão:

“O objetivo mais elevado a que os seres humanos podem almejar não é a busca de uma quimera, como a eliminação do desconhecido; é simplesmente o esforço incansável de mover os seus limites sempre um pouco mais além de nossa pequena esfera de ação”. 


Igreja Matriz de Borda da Mata/MG.

A Basílica de Nossa Senhora do Carmo ainda está fechada, então nos reunimos em seu átrio, onde professamos nossas orações finais de agradecimento e louvor pelo objetivo conquistado.

Depois, orgulhosos de nosso feito, seguimos até a feira, que se realiza numa rua lateral da praça, para tomar café e comer pastel.

Na sequência, nos despedimos do Polly que irá se refugiar na casa de seus parentes, antes de retornar para a tradicional “Missa dos Romeiros”, que será celebrada às 10 h 30 min, onde irá nos representar.

Infelizmente, o Edy e eu não poderemos lhe fazer companhia, em vista de compromissos adredemente assumidos.

Assim, nos dirigimos até o Hotel San Diego, levando nossos corpos molhados, fatigados, suados, mas, interiormente, realizados.

Ali, por R$10,00, o Sr. Carlos nos faculta um quarto onde podemos tomar um revigorante banho quente, depois, vestir roupas limpas e secas.

Em seguida, caminhamos até a Estação Rodoviária da cidade, onde embarcamos num ônibus da Viação Gardênia que, depois de deixar o Edy em Jacutinga, me conduzirá em segurança até a cidade onde resido.

Ao apossar do assento a mim destinado, sinto os músculos inferiores “pulando” ao relaxarem e meus pés inchados, doloridos, latejantes, enquanto abençoadamente estamos volvendo aos nossos lares.

Para finalizar este singelo relato, deixo aqui consignado um obrigado especial aos meus parceiros Polly e Ely Prado, grandes “Companheiros de Viagem”, pois nesses últimos 12 meses construímos uma amizade mais sólida que fraternidade, posto que o irmão é aquele com que a natureza nos premia, mas o amigo é aquele que escolhemos!


FINAL

É erro vulgar confundir o desejar com o querer. O desejo mede os obstáculos; a vontade vence-os.” (Alexandre Herculano) 


Firme na trilha... sob as bençãos divinas! 


ORAÇÃO À NOSSA SENHORA DO CARMO




"Ó Senhora do Carmo, revestido de vosso escapulário, eu vos peço que ele seja para mim sinal de vossa maternal proteção, em todas as necessidades, nos perigos e nas aflições da vida. Acompanhai-me com vossa intercessão, para que eu possa crescer na Fé, Esperança e Caridade, seguindo a Jesus e praticando Sua Palavra. Ajudai-me, ó mãe querida, para que, levando com devoção vosso santo Escapulário, mereça a felicidade de morrer piedosamente com ele, na graça de Deus, e assim, alcançar a vida eterna. Amém.” 


EPÍLOGO

Nenhum obstáculo será grande, se a sua vontade de vencer for maior.” (A. Dumas) 


Meu 3º Diploma do Caminho da Prece. Outros virão, com certeza...

Quando decidimos entrar em um Caminho e “viajar”, mesmo sabendo que não temos tanto tempo disponível, devemos nos deligar de tudo e seguir em frente, aproveitando cada minuto.

O contato com a trilha nos traz sensações fortes, mais dinâmicas, mais confiantes, mais independentes.

A linha indefinida do horizonte se movimenta lentamente, nossos limites se ampliam.

Aprendemos que grandes desafios podem ser vencidos com um passo de cada vez.

O mundo dos caminhos é sutil, feito de liberdade e de energias, como o voo das borboletas.

Descobrimos que aquelas regras que nos impuseram desde crianças não são assim tão reais.

Porquanto, os caminhos nos fazem livres.

Diria, por fim, que sou grato a Deus, que está por trás de todas as coisas, sejam elas agradáveis ou constituam desafios.

Considero que o fato de tornar-me um peregrino foi minha maneira de expressar essa gratidão, e com grande humildade ofereço esse singelo “diário de bordo” como parte de minha devoção.

Que ele possa servir de incentivo e auxílio a outros cristãos caminhantes, em sua busca de um sentido espiritual e de realização. 


Amigos Polly e Ely, muito obrigado pela companhia nessa maravilhosa viagem....

Quanto aos amigos Polly e Ely Prado, deixo-lhes um abraço carinhoso e um agradecimento fraterno.

Vez que, embora tenhamos vivido poucas horas em mútua companhia, foram momentos ricos, de contemplação da natureza e grande aprendizado pessoal.

Nessas ocasiões descobrimos que nem sempre nossos irmãos estão ligados a nós por laços de sangue.


Bom Caminho a todos! 

Agosto/2016


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