2a Etapa – VILA FRANCA DE XIRA à AZAMBUJA – 21 QUILÔMETROS

2a Etapa: VILA FRANCA DE XIRA à AZAMBUJA – 21 QUILÔMETROS – “TOUROS, CAVALOS E MUITOS CARROS

“A jornada adentra à Comarca do Ribatejo, uma grande planície inundada e muito fértil, beneficiada pelas águas do rio Tejo e pelo lodo ali acumulado. Por isso mesmo, ela é considerada a horta verde de Portugal, um território rico em agricultura e gado, onde se criam os melhores touros e cavalos do país. A boa notícia para o caminhante, é que o perfil da altimetria se apresenta completamente plano, por onde se avança sem dificuldade. A má notícia é que os entornos urbanos e rodovias nacionais, repletas de veículos, seguirão sendo, ao menos por hoje, parte fundamental do trajeto. Demasiados trechos em asfalto e em inúmeras zonas industriais, numa rota histórica que segue, quase que fielmente, naquilo que um dia foi o Caminho Medieval, unindo Lisboa ao Porto.” (Traduzido/transcrito do Guia El País Aguilar, edição do ano de 2007, que utilizei na viagem)

 

Ás 7 horas, quando eu deixei o Residencial Flora ainda estava bastante escuro, de forma que evitei retroceder para acessar o roteiro do Caminho, que faz uma grande volta para beirar o rio Tejo, porém, mais à frente, volta à N-10.

Assim, segui em frente pela rodovia e, depois de mil metros percorridos, me reencontrei com as tranquilizadoras flechas amarelas.

Depois de algum tempo, a sinalização me encaminhou novamente para a direita e, por um bom tempo eu caminhei por uma rua larga, tendo um enorme polígono industrial à minha esquerda, e a linha férrea pelo lado direito.



O trecho, plano e integralmente reto, mostrou-se bastante monótono e perigoso, pois a quantidade de veículos, que conduzia o pessoal para o trabalho, aumentou paulatinamente, e nesse trecho eu não encontrei calçada para caminhar.

Logo passei defronte à Estação Ferroviária de Castanheira do Ribatejo e, mais adiante, fleti à esquerda, até alcançar uma ponte, por onde girei à direita e transpus o rio Vala do Carregado.

E, na sequência, passei defronte à imensa Central Termoelétrica do Carregado, localizada num local bastante barulhento e poluído.

Então, acessei uma rodovia vicinal asfaltada, bastante movimentada e, por azar, que também desprovida de acostamento.



Em compensação, o percurso se tornou bucólico, porque passei a caminhar em meio a zonas de cultivo e imensos campos de pastagem.

O clima estava frio e em alguns locais, a intensa neblina dificultava a visualização dos veículos, que trafegavam, quase sempre, em alta velocidade.

Depois de vencer mais 4 quilômetros, finalmente, eu desemboquei na rodovia N-3, já na altura da cidade de Vilanova da Rainha.

Observando a sinalização, eu atravessei a perigosa e movimentada “carretera”, transpus os rios Alenquer e Ota por uma ponte de pedra, depois transitei por ruas da pequena, mas simpática povoação.

Historicamente falando, não custa lembrar que foi na igreja matriz desse minúsculo povoado, que o condestável Dom Nuno Álvares Pereira, celebrou seu contrato de núpcias.

Esse personagem histórico foi o herói da Batalha de Aljubarrota, ocorrida no final da tarde de 14 de Agosto de 1385, entre tropas portuguesas com aliados ingleses e o exército castelhano de D. Juan I de Castela.



A Batalha deu-se no campo de São Jorge, nas imediações da vila de Aljubarrota, entre as localidades de Leiria e Alcobaça, no centro de Portugal.

O resultado foi uma derrota definitiva dos castelhanos, o fim da crise de 1383-1385, e a consolidação de D. João I como rei de Portugal, o primeiro da dinastia de Avis.

A paz com Castela, porém, só veio a estabelecer-se em 1411, e no campo diplomático, este combate permitiu a aliança entre Portugal e a Inglaterra.

Em face do horário, fiz ali uma pausa para hidratação e ingestão de uma banana, enquanto consultava meus mapas, para saber a distância exata do que ainda me faltava caminhar.

Mais acima eu retornei definitivamente à N-3 e segui pelo seu acostamento, por mais 8 tediosos quilômetros, até aportar à Azambuja, minha meta para aquele dia.



Esta cidade foi a primeira parada de etapa na viagem de Confalonieri, já que eles seguiam a cavalo, e segundo seu diário, à noite eles assistiram à missa e no dia seguinte prosseguiram até Cartaxo.

A história da vila de Azambuja remonta a tempos antigos.

De acordo com alguns historiadores, a localidade já existia na época romana, com o nome de Oleastrum, que significa “zambujeiro”.

Com a invasão dos muçulmanos em 711 da era cristã, a vila foi ocupada pelos Árabes. Estes lhe deram a designação de Azanbujâ, que significa “oliveira brava”.

Ela foi reconquistada aos mouros por D. Afonso Henriques, que do termo da Azambuja, fez doação em 1147 a D. Childe Rolim, filho do conde de Chester, como recompensa pelo heroísmo demonstrado no cerco de Lisboa, que nessa altura era designada por Vila Franca.



O nome de Vila Franca reapareceu no reinado de D. Sancho I, que lhe deu Foral em 1200, ano em que dela fez doação a D. Rolim de Moura, filho do primeiro donatário. Foi possível depreender da Carta de Doação, que Azambuja já era povoada e que a sua doação tinha como intuito legalizar e definir claramente essa ocupação.

A designação Vila Franca manteve-se até ao início do século XIII, época em que foi substituída pelo topônimo Azambuja, e confirmada por D. Afonso II no foral em 1218.

Em 1296, D. Dinis, “o Rei Lavrador”, mandou semear nas redondezas, mais precisamente nas Virtudes, o célebre Pinhal de Azambuja, muitas vezes referido por Almeida Garrett, na obra Viagens da Minha Terra.

D. Manuel veio a conceder um novo Foral ao concelho em 1513.

Na atualidade, trata-se de uma povoação tranquila e agradável, e embora não conte com albergue, oferece bons serviços para o peregrino pernoitar.



No meu caso, fiquei hospedado no Residencial Flor de Primavera onde, por 20 Euros, me disponibilizaram um excelente apartamento, num local arejado e, providencialmente, próximo da Estação Ferroviária, local por onde eu transitaria na jornada sequente.

Para almoçar utilizei os serviços do Restaurante lll, onde por 10 Euros, pude comer bacalhau e tomar vinho à vontade.

À tarde, após uma necessária soneca, fiz um grande giro pela cidadezinha.



Segui até a Praça do Município, e pude visitar a Igreja Nossa Senhora da Assunção e o Pelourinho, ambos construídos no século XVI.

Também, pude verificar o local por onde eu deixaria a cidade no dia seguinte, pois seria um percurso de razoável amplitude.

Sem me esquecer de que seria um sábado, dia em que o comércio fecha mais cedo.



À noite, em face do frio reinante, optei por um singelo lanche no quarto e logo fui dormir, porquanto a chuva cessara de vez, mas um vento gelado varria as ruas da simpática urbe.

Mais um dia sem avistar qualquer peregrino, embora a dona do Residencial tivesse dito que na noite anterior havia pernoitado ali um peregrino e, não seria impossível que eu o alcançasse em algum momento pelo Caminho.

 


IMPRESSÃO PESSOAL – Uma jornada curta e toda plana, com alguns trechos vencidos em meio a muito verde. No entanto, feita integralmente sobre asfalto, o que magoa sensivelmente os pés do peregrino. Ademais, os derradeiros 8 quilômetros, foram percorridos pelo acostamento da rodovia N-10, num trajeto barulhento e perigoso. De se lembrar, contudo, que o percurso todo está muito bem sinalizado.

3ª Etapa – AZAMBUJA à SANTARÉM – 33 QUILÔMETROS