A PEREGRINAÇÃO


A PEREGRINAÇÃO


“Peregrinar é muito mais que um esporte, muito mais que uma aventura, muito mais que uma viagem turística, muito mais que rota cultural através dos monumentos admiráveis, testemunhas silenciosas de uma rota secular. Sem negar o sentido específico dos motivos indicados, a peregrinação possui uma alma humana e cristã esmorecida, a qual perde a sua intima eloquência, a sua chamada a acordar o espírito, a sua capacidade fraternizadora de homens e dos povos. Sem alma, o caminho seria inerte.” 

(texto escrito pelo Monsenhor Ricardo Vázquez, publicado na revista Compostela, edição 1995, tradução de Sandra de Sá Carneiro)


Na Praça da Catedral, centro nevrálgico da cidade de León

Minha aventura começou numa terça-feira à tarde, quando embarquei em São Paulo, rumo à Espanha.

No dia seguinte, após breve translado pelos aeroportos de Madri e Barcelona, desembarquei na cidade de León, capital da Província homônima, que faz parte da Comunidade Autônoma de Castilla e León, cuja capital é Valladolid.

Rapidamente, tomei um táxi, que me conduziu até o centro dessa belíssima urbe.

Em seguida, registrei-me no Hotel Paris, local já conhecido, pois me hospedara em 2.001 e 2.004.

Na sequência fui almoçar, pois já passava das 14 horas.


Uma das ruas de Léon

León, através de sua dilatada história, desde sua fundação no século I a.C., pela legião romana “Legio IV Victrix”, se configurou como um lugar imprescindível, porque é passagem das rotas que se iniciavam ao norte da
Península Ibérica.

A mais importante de todas elas, sem dúvida, é o Caminho de Santiago, do qual confluem nessa cidade diversas variantes, sendo o “Caminho del Salvador”, uma delas.

Um vasto e monumental patrimônio se encontra espalhado por essa pujante urbe, entre os quais pode-se destacar sua Catedral, a Basílica de Santo Isidoro e o Parador de San Marcos.

Junte-se a isso suas bem cuidadas praças e ruas, o bairro Húmedo e seu comércio e bares, que fazem dela um imemorável ponto de parada ou partida.


Catedral de Santa Maria de la Regla


Depois de uma necessária soneca para me adaptar ao fuso horário de 5 h, existente entre o Brasil e a Espanha, fui novamente visitar a fulgurante Catedral de Santa Maria de la Regla (sec. XIII), que já conhecia de minhas peregrinações anteriores.

Considerada a jóia gótica da Espanha, ela também é nominada de “Pulchra leonina”, pela pureza de suas formas.

Além da exótica beleza dos seus 1.800 m2 de vitrais coloridos que lhe valeram o título de catedral de pedra e cristal, vale ressaltar, ainda, que ela, curiosamente, tem seu pórtico orientado para Jerusalém, centro do Mundo e da Redenção.

Ali pude externar preces de agradecimento pela minha chegada sem intercorrências, bem como rogar proteção ao Santo Apóstolo, concernente à jornada que encetaria no dia seguinte.


Parador De Leon San Marcos

Depois, concentrado, segui as flechas amarelas orientadoras do peregrino que está a percorrer o “Caminho” até o “Parador De Leon San Marcos.

As origens desse faustoso edifício são do século XII, tempos do rei Alfonso VII.

Diz a história que a princesa Sancha de Castela fez uma doação para a construção de um edifício modesto nos arredores da cidade murada e, ao longo do rio Bernesga, com a finalidade de servir como um templo e hospital-abrigo para os peregrinos que demandavam à Santiago.

No século XVI, este edifício foi demolido e um novo trabalho foi executado às expensas do rei Fernando II de Aragão, sendo considerado, atualmente, um dos monumentos mais importantes do Renascimento espanhol. 

Na praça de mesmo nome, onde antigamente se encontrava instalado o “Monastério de San Marcos”, encontrei as setas sinalizadoras da divisão dos Caminhos.

Se girasse à esquerda, prosseguiria pelo Caminho Francês, que eu já conhecia de sobejo.

Porém, à direita, um marco indicava que ali se iniciava o “Caminho Del Salvador”, minha meta para o presente ano.

Aproveitando a ocasião, fotografei o imenso edifício, observei com bastante acuidade o local de minha partida na manhã seguinte, depois, calmamente, retornei ao local de pernoite.

À noite, em face do cansaço acumulado, optei por ingerir apenas um lanche, no quarto onde estava hospedado.

Já estava deitado, preparando-me para dormir, quando me lembrei de pedir proteção ao Santo Apóstolo.

Então, recorri à “Oração do Peregrino”, transcrito em meu caderninho de anotações e, com muita fé e devoção, rezei:

 


“Ó Deus,

que tiraste Teu servo Abraão da cidade de Ur, dos caldeus,

protegendo-o em todas as suas peregrinações,

e que foste o Guia do povo hebreu através do deserto,

peço que protejas este Teu filho,

que por amor ao Teu nome,

peregrina a Santiago de Compostela.                                                                                        

Sê para mim, O companheiro nas caminhadas,

Guia nas encruzilhadas,

alento no cansaço,

desafio nos perigos,

albergue no Caminho,

sombra no calor,

luz na escuridão,

consolo nos desalentos,

e firmeza em meus propósitos.

Para que, por Tua mão, eu chegue são e salvo

ao término do Caminho.

e, enriquecido de graças e virtudes,

volte ileso à minha casa,

pleno de saúde e perene alegria.

Por Jesus Cristo, Nosso Senhor,

Amém.”

A HISTÓRIA