4º dia: SÃO SIMÃO a SANTA ROSA DO VITERBO - 27 quilômetros


4º dia: SÃO SIMÃO a SANTA ROSA DO VITERBO - 27 quilômetros


"Milhões de luzes, dia e noite, iluminando o seu altar. Milhões de filhos, o ano inteiro, aos seus pés irão tocar. Em cada dia, uma esperança, obrigado por esta vida. Ó Mãe querida ,Nossa Senhora Aparecida."


Mais uma vez teria um dia aprazível pela frente, pois o frio persistia e a jornada seria de média extensão.

O desjejum somente seria servido a partir das 6 h, horário que programei para partir, porém 15 minutos antes tudo já estava arrumado no refeitório e pude ingerir um copo de café quente, que muito me estimulou.


Placa dos 484 quilômetros restantes.

Bem-disposto, dei início a etapa do dia e, logo à frente, pude fotografar uma placa do Caminho da Fé afixada num poste, que me informava restarem 484 quilômetros até Aparecida.

Segui, então, em direção à igreja matriz da urbe, pois o roteiro do caminho passa defronte à ela.

Ali pude exteriorizar minhas orações matinais, ainda que do lado externo.

Aproveitei ainda para fotografar novamente o singelo Portal do Caminho da Fé, que foi edificado no paço fronteiriço ao templo.


Início do trecho em asfalto.

Depois prossegui por ruas ascendentes até aportar no trevo viário da cidade, localizado na rodovia SP-253.

O dia ainda não raiara, mas havia claridade suficiente para, por exemplo, fazer uma foto sem flash.

Obedecendo às orientações, segui à direita pelo acostamento, no sentido contrário ao fluxo de veículos, sempre em contínua ascensão.

Enquanto vencia longa elevação, lentamente, o dia principiou a raiar preguiçoso, com pálida claridade, e à primeira mostra do dia, com o sol já assomando no horizonte, o que me trouxe uma sensação de alívio.


Caminho plano e agradável.

Depois de 6 quilômetros percorridos, com o dia já translúcido, entrei à esquerda, numa larga e plana estrada de terra, e segui, então, ao lado de uma plantação onde a cana já havia sido colhida.


Caminho arejado, dia belíssimo!

E tal paisagem não se modificou, porque prossegui entre campos abertos, com total visão do horizonte sem fim.


Ampla visão de todo o entorno.

Seis quilômetros percorridos, girei à direita e logo adentrei num caminho orlado por árvores.


Uum trecho com mata nativa e sombreada.

O sol penetrava no ambiente, formando pequenos arcos rendilhados nas curvas da estrada.


Caminho agradável.

O piso arenoso se encontrava ainda úmido, fruto das intempéries recentes, mas não prejudicava meu deslocamento.


Bosque com mata nativa.

Foi um trecho pleno de grande beleza, sob ar puro e hidratado.


Um dos trechos mais belos dessa etapa.

Mais à frente o panorama mudou e passei a caminhar, alternadamente, entre canaviais e fazendas de criação de gado. Por sinal, surpreso, nesse trecho, observei na Fazenda Rincão, à minha direita, uma grande plantação de pés de café com os frutos maduros, já em ponto de colheita.

Logo adiante, passei diante da Fazenda Primavera, onde um arbusto da mesma espécie dava o seu tom rosê a paisagem campestre.


Primaveras na estrada.

Na sequência, caminhei algum tempo entre plantações de cana, algumas já ceifadas recentemente.

Depois de 10 quilômetros percorridos, passei diante de 2 casas amarelas, onde não avistei ninguém, mas ouvi uma senhora ralhando com uma criança em seu interior.


Dia luminoso..

Dois cães vira-latas tomavam sol no terreiro e ignoraram solenemente minha presença.

Galinhas ciscavam no terreiro e no céu observei um gavião dando voltas, certamente à caça do seu repasto matinal.


Placa informativa.

Uma placa colocada logo à frente me avisava que eu deveria girar à direita, depois de mais 140 metros percorridos.


Ultrapassando um riacho por uma ponte.

Foi o que fiz e, a partir dali, iniciou-se breve descida e logo, dentro de agradável bosque, transpus um rumoroso riacho sobre uma ponte. 


Caminho solitário, dentro de um enorme bosque de eucaliptos.

Depois de breve ascenso, adentrei em outro extenso bosque de eucaliptos e por três quilômetros transitei em meio a árvores altas que, ao obstar os raios de sol, propiciavam uma caminhada refrescante, plena de fragrâncias olorosas.


Dentro de imenso bosque de eucaliptos, trajeto extremamente fresco e agradável.

Contudo, o caminho seguia, ainda que de maneira leve, sempre em contínua ascensão.

Catorze quilômetros percorridos, finalmente, saí do bosque e encontrei uma grande e larga estrada de terra, bastante movimentada naquele horário. 


Cana e eucaliptos a me ladear.

Seguindo as flechas, virei à direita e logo deixei essa via, adentrando à esquerda, em meio a um avantajado canavial do lado esquerdo e eucaliptos pelo lado direito.

Depois de meia hora, labutando em meio a dificultoso areal, fleti à esquerda, e encontrei um caminho de terra bem demarcado, com bastante sombra e muitos pássaros a gorjear. 


Descenso agradável.

Iniciou-se uma longa e agradável descida, com belas paisagens por ambos os lados.


Flores de São João, me saúdam nesse local.

Quase no final dessa extensa ladeira, passei em meio a um curral e algumas casas, onde poderia, se estivesse necessitado, conseguir água. 


Ainda em descenso...

O descenso se encerrou, depois de 17 quilômetros percorridos.

Era 9 h, quando então transpus um encorpado riacho.

O local, agradavelmente arborizado, convidava a fazer um descanso.

E foi essa a decisão que tomei, aproveitando para lanchar e me hidratar, pois o calor era insuportável.

Enquanto ingeria uma banana que trouxera na mochila, matutava sobre a vida magnânima do Conde Francisco Matarazzo, que residira por muitos anos, numa fazenda situada próximo do local onde me encontrava.

Na verdade, sua vida foi um exemplo de trabalho e dignidade, pois, assim como meus avós paternos e maternos, também era um imigrante italiano pobre, e sua história merece ser lembrada.




Nascido em uma pequena vila do Sul da Itália, 1854, numa família antiga da região, Francesco, em 1881, aos 27 anos, imigra para o Brasil em busca de melhores condições de vida.

No desembarque, na Baía de Guanabara, perde a carga de banha que trazia.

Com o pouco dinheiro que lhe sobrara se estabelece na cidade de Sorocaba no comércio de secos e molhados.

Alguns anos depois abre uma empresa de produção e comércio de banha de porco.

Em 1890, muda-se para São Paulo e funda, com os irmãos Giuseppe e Luigi, a empresa Matarazzo & Irmãos.

Diversifica seus negócios e começa a importar farinha de trigo dos EUA. Giuseppe participava da empresa com uma fábrica de banha estabelecida em Porto Alegre e Luigi com um depósito armazém estabelecido na cidade de São Paulo.

No ano seguinte, a empresa foi dissolvida e constituiu-se em seu lugar a Companhia Matarazzo S.A. que já contava com 43 acionistas minoritários.

Essa sociedade anônima passa a controlar também as fábricas de Sorocaba e Porto Alegre.




Em 1900, a guerra entre a Espanha e os países centro-americanos dificulta a compra do produto e ele consegue crédito do London and Brazilian Bank para construir um moinho na capital.

A partir daí, seu império se expande rapidamente, chegando a reunir 365 fábricas por todo o Brasil.

A renda bruta do conglomerado é a quarta maior do país, e 6% da população paulistana depende de suas fábricas, que, em 1911, passam a se chamar Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo (IRFM), uma sociedade anônima.

Sua estratégia de crescimento segue o lema "uma coisa puxa a outra".

Para embalar o trigo, monta uma tecelagem e para aproveitar o algodão usado na produção do tecido, instala uma refinaria de óleo, e assim por diante.

Francesco Matarazzo não pertencia à nobreza italiana nem à de outros países da Europa, tendo emigrado para o Brasil em busca de melhores condições de vida.

Aqui, enriqueceu acumulando uma fortuna bilionária, e em reconhecimento à ajuda financeira e demais mercadorias que envia à Itália durante a Primeira Guerra Mundial, em 1917 recebe do rei Vitor Emanuel III o título nobiliárquico de conde.

Em 1928 participa da fundação do Centro das Indústrias de São Paulo (atual FIESP).

Morre na capital paulista, em dezembro de 1937, após uma crise de uremia, na condição de homem mais rico do país, possuindo uma fortuna avaliada em 10 bilhões de dólares.


Início de perene ascenso.

O sol já estava seguindo em direção ao zênite, quando principiei a subir pelo lado oposto. 

Logo acima, observei uma grande placa afixada à minha direita, informando que, a partir daquele marco, se iniciava a Rodovia Municipal Esdras Wilson Wiezel.

Em sequência, por uma via ensolarada e, praticamente, sem sombras, ladeado por grandes fazendas de criação de gado, sempre em contínua e dura ascensão, prossegui por mais 3 quilômetros, até aportar num local amplo, onde cruzavam inúmeros caminhos vicinais.


Transitando por belos locais.

De quando em vez, eu parava e olhava para trás, para observar a bela paisagem que ia se descortinando a minha retaguarda.


Caminho levemente ascendente e sem sombras.

Em 2010, passara sufoco nesse trecho, pois além de ser um domingo, com muitas pessoas se dirigindo à cidade, sendo que naquela época não chovia na região há muito tempo, e cada veículo que passava, deixava uma nuvem de poeira no ar.

Aquilo me sufocava, obrigando-me a respirar com dificuldade e lançar mão de um lenço para minorizar o efeito do pó em meus pulmões.


A paisagem que ia ficando à minha retaguarda...

Desta vez, contudo, em face das chuvas recentes, o piso se encontrava firme e o trânsito de automotores era incipiente.

Seguindo as flechas amarelas, prossegui pela estrada mais larga e em seguida, retornaram os canaviais. 


Trecho retilíneo e sem sombras.

No trecho final encontrei imensos estirões retilíneos, que fui vencendo com parcimônia.

Eventualmente, algum treminhão, carregado de cana, que seguia em direção à Usina, para entregar a carga, me ultrapassava, mas sempre em velocidade reduzida.


Quase chegando ao asfalto..

Sem maiores problemas, mais acima, reencontrei a rodovia SP-253 e, seguindo a sinalização, dobrei à esquerda e, por uma rua de terra, paralela ao asfalto, segui até o trevo de acesso à cidade.

Prossegui adiante, e depois de mais um quilômetro percorrido, encontrei uma moderna ciclovia, prosseguindo então sobre um piso empedrado até a Rotatória João Gentil.


Monumento existente no entrada da cidade.

Ali acessei a Avenida Presidente Vargas, que segue em direção ao centro da cidade.

E logo acima, no número 730, encontrei o Hotel Malim, local em que fiquei hospedado.

Ali paguei R$65,00 por um excelente quarto individual.

Por sugestão do atendente do hotel, o Sr. Roberto, fui almoçar bem próximo do local de pernoite, no restaurante Cantinho do Céu, o qual recomendo, onde desembolsei R$13,00 para comer à vontade no sistema self-service.


Local onde almocei nesse dia.

Santa Rosa do Viterbo, atualmente, com pouco mais de 26.000 habitantes, foi fundada em 1.883, como distrito de São Simão, do qual se emancipou em 1.910.

A história conta que o município se formou à beira do Córrego da Lagoa, em terras doadas por um casal de fazendeiros.

Eles ofereceram as terras a Nossa Senhora e compraram a imagem da Santa de um mascate turco que passava pela cidade.


Interior da igreja matriz da cidade.

Quando levaram a imagem para benzer em Cajuru, município vizinho, o padre tomou um susto, pois a objeto sacro representava Santa Rosa de Viterbo.

Eles tinham sido enganados pelo mascate, que não dispondo da escultura pretendida, entregou outra. E assim ficou.

Só que a Santa Rosa de Viterbo não é propriamente uma Santa, porquanto não foi canonizada.

Na verdade, era uma jovem que fazia milagres na Itália, região de Viterbo, e o povo italiano passou a idolatrá-la como tal.

A cidade tem uma qualidade de vida invejável, pois possui o maior parque industrial da região, além de usinas de açúcar e álcool, fábricas de ácido cítrico, papel e embalagens, sabonetes e outras, todas localizadas nas terras da antiga Usina Amália, além de um comércio local forte e atuante. 


Igreja matriz de Santa Rosa do Viterbo.

Depois de uma bela sesta, fui conhecer o centro da urbe, bem como sua bela igreja matriz.

Estávamos no em 13 de junho, dia de Santo Antônio, do qual sou grande devoto.

Para minha sorte, estava ocorrendo uma missa e pude assisti-la, bem como participar da comunhão.


Assistindo à missa de Santo Antônio.

No final da celebração, como todos que ali estavam, também ganhei um pãozinho bento, que foi meu repasto na trilha do dia seguinte.

Interessante notar que foi ao lado do templo, bem perto do marco inicial do Caminho da Fé, que o jovem Francisco Matarazzo escolheu para construir um belo palacete, de onde administrava suas 365 empresas.

É de se ressaltar que até ser adquirida, em 1920, a fazenda pertencia a Henrique Dumont, pai do inventor do avião, Alberto Santos Dumont.

Hoje, quem passa pela praça Mariah Pia, no coração da cidade, ainda vê o portão, trancado a cadeado e escoltado por dois leões de metal, que delimita a estrada àquela herdade.

Em tempo: o palacete é uma das poucas partes da Fazenda e Usina Amália que ainda pertencem aos Matarazzo.

À noite, como de praxe, ingeri um singelo lanche no quarto, enquanto estudava a etapa do dia seguinte.

E logo fui dormir, pois a próxima jornada além de longa, prometia muitas emoções.

IMPRESSÃO PESSOAL – Uma jornada normal, com algumas ladeiras importantes a serem sobrelevadas. Porém, com belos visuais e, afora o derradeiro trecho, com bastante sombra no percurso. No total, são 18 quilômetros em terra e 9 em pavimento, contando com 3 “tops” bem distintos.