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2º dia: SÃO SEBASTIÃO DA VITÓRIA à CAPELA DO SACO – 26 quilômetros


2º dia: SÃO SEBASTIÃO DA VITÓRIA à CAPELA DO SACO – 26 quilômetros


"Se vamos percorrer o caminho, temos que começar no início. Não podemos começar no meio e não podemos começar no nível de sonho. Temos de enfrentar a realidade da nossa situação de vida." (Chögyam Trungpa Rinpoche)



Trecho em ótimas condições de terra batida, maior parte plana, com poucas subidas e descidas leves. O viajante trafega com a companhia de paisagens de montanha, com muitas plantações de milho, café e eucaliptos. Atenção nesse trecho com os mata-

burros na vertical, principalmente para os cicloturistas. O trecho termina no povoado de Caquende. Nele, o viajante que quiser seguir a Estrada Real deve dirigir-se pela rua principal, em direção a represa, onde é necessário atravessar de balsa. O seu 

funcionamento é de 7 h às 12 h e de 13 h às 18 h. De lá, chega-se a Capela do Saco. É recomendável informar-se no telefone (35) 3327-1081, pois ela eventualmente pode estar inoperante.” (Fonte: http://www.institutoestradareal.com.br/roteiros/velho/35)



Era um domingo e o resumo fornecido pelo site da Estrada Real apontava o percurso como fácil e sem muitas complicações.

Porém a meteorologia previa sol forte e muito calor para depois das 9 horas.

Assim, levantei às 4 h 30 h e, findas as providências de praxe, iniciei meu périplo às 5 h 30 min, depois de ingerir um saboroso café preto que o porteiro noturno me preparou.

Quinze minutos depois, passei pelo centro da povoação e observando a sinalização, fleti à esquerda e segui meu destino.


Final do asfalto, início da estrada de terra. Nessa etapa, lado a lado, os marcos da ER e do CRER estão sempre juntos.

Aproximadamente 2 quilômetros adiante, o asfalto se findou, e adentrei em agradável e plana estrada de terra, que prosseguiu em meio a um silencioso bosque de eucaliptos.

Uma espessa cerração cobria o ambiente, deixando o entorno um tanto espectral.

Encontrei algumas bifurcações, mas o caminho nesse trecho também está muito bem sinalizado e não tive problemas quanto ao rumo a seguir.


Muita cerração no entorno. Caminho fresco e hidratado.

Ademais, como o CRER faz o mesmo percurso, sempre encontrava seus marcos próximos aos totens da ER, o que me infundia enorme confiança.

O sol, já alto no céu, lutava para furar um compacto bloco de nuvens, de forma que a temperatura ainda se encontrava fresca, ideal para uma boa caminhada.


As quaresmeiras dão um tom colorido a paisagem.

Enquanto seguia adiante, pude repensar decisões tomadas quanto as pretéritas etapas, bem como externar minhas orações matutinas.

Na verdade, durante uma caminhada solitária, certas ideias me atravessam incessantemente o espírito, sem que eu seja capaz de controlar seu fluxo incoerente.

Evocações de situações antigas, projeções no futuro, esboços de projetos, sonhos esparsos... 


Primeira bifurcação: A Estrada Real segue à direita.

O cérebro tem vida própria.

Às vezes consigo fixá-lo em temas específicos e esmiuçar tudo ao redor, mas, muito frequentemente, no seio deste imenso caminho, minha mente trabalha sem me consultar.

Todos os assuntos, ou quase todos, têm a ver com o passado ou com o futuro. 


Caminho plano, com poças d'água e lama.

Parece-me às vezes que não estou muito integrado a esta aventura, dividido entre a imensidão do lugar, de um lado, e as realidades cotidianas, do outro.

Bem, sem maiores problemas, as distâncias foram sendo superadas e depois de percorrer 5 quilômetros, passei diante de um túmulo, erigido à beira da estrada.


Túmulo do fazendeiro Tininho do Curtume.

Uma cruz solitária vela dia e noite, há mais de 100 anos, a campa do fazendeiro Tininho do Curtume, situado próximo à antiga Fazenda do Sulais, que pertencia a Zé Maria e Zizico da Lavra.

Prosseguindo, o caminho se mostrou fresco e arborizado até que, depois de 7 quilômetros percorridos, desaguei numa outra estrada larga e de piso socado.


Estrada larga, plana e arborizada.

Até aquele local eu não havia avistado nenhuma pessoa, bem como não fora ultrapassado por qualquer tipo de veículo motorizado.

Então, obedecendo à sinalização, girei à esquerda e prossegui em frente.


Estrada vazia e silenciosa. A cerração persiste.

Transitei um bom tempo por um extenso bosque de eucaliptos, ainda sob forte cerração, sinal de que o sol viria com força mais tarde.

Durante 3 quilômetros desfrutei de um clima ameno e oloroso, e nesse trecho cruzei com 3 automóveis que seguiam rumo à rodovia BR-265.


A Estrada Real aqui adentra à direita, em direção ao distrito de Caquende/MG.

Depois de 10 quilômetros percorridos, encontrei uma grande bifurcação e, atento à sinalização, deixei a via principal e adentrei à direita, na direção de Caquende, como indicava uma placa ali fincada.

A partir desse ponto, iniciou-se grandes plantações agrícolas, sobressaindo, nesse primeiro trecho, extensos milharais.


Um grande milharal me ladeia pelo lado esquerdo.

Caminhando em leve descenso, logo passei debaixo de um imenso viaduto, sobre o qual discorria a antiga Ferrovia do Aço, que hoje é operada pela Vli.


Imenso viaduto por onde discorrem os trilhos do trem.

Sobre esse assunto, assim se expressou o cronista Wainer Ávila: “Nunca paramos de entregar nossas jazidas. Escuta o rilhar das locomotivas da Ferrovia do Aço levando nossas riquezas. É nosso sangue que está indo embora. Pois minério não dá duas safras e o passado ensina isto.”


Caminho em descenso. Agradável para caminhar, pois o sol ainda não havia hascido.

A partir desse patamar a paisagem se abriu e passei a caminhar entre pastagens e plantações de soja.


Trajeto aberto, com vistas laterais.

O sol ainda não havia apontado e o clima persista fresco e nebuloso.


Um grande cafezal me ladeia à direita.

Mais adiante, caminhei um bom tempo ao lado de um extenso cafezal, enquanto o trajeto se mostrava imutável: uma sucessão de curtos e suaves ascensos e descensos.


Caminho belo e agradável, pois o dia persiste nublado.

Sempre em meio a muito verde e exuberante vegetação.


Estrada deserta, erma e silenciosa.

O piso socado e ainda úmido, em face das chuvas recentes, não produzia poeira e dava conforto ao caminhante.


Longos e agradáveis retas longilíneas, nesse trecho.

À minha frente se abriam imensos estirões retilíneos, que calmamente eu ia sobrepujando enquanto ouvia o murmúrio da natureza em todo seu esplendor, traduzida pelas árvores adjacentes e o chilreio dos pássaros.

Em determinado cruzamento, eu prossegui à direita, enquanto à esquerda se situava a entrada para o povoado de Engenho da Serra.


Ao longe e abaixo, o povoado de Jaguara.

Logo adiante, também avistei ao longe o povoado de Jaguara, cujo acesso se encontra no lado direito do caminho.


Milharais a perder de vista.

Voltei depois a transitar um bom tempo entre extensos milhares, alguns já no ponto de colheita.


Imensas plantações de milho me ladeiam nesse trecho.

Sozinho na estrada, finquei meu cajado num local lamacento, posicionei a máquina fotográfica, acionei o temporizador e pude eternizar mais um momento de indelével alegria.


Solitário no caminho; pausa para comemorar!

O sol finalmente deu o ar da graça e passei a sentir um intenso calor, em face de seus raios causticantes.


O sol finalmente apareceu. Caminho sem sombras.

Eu levara um litro de água e me hidratava a cada hora, parcimoniosamente, pois nessa etapa não encontrei um único local em que pudesse comprar ou pedir um copo desse precioso líquido.

Para piorar, passei a caminhar por campos abertos, onde não existiam árvores que me albergassem dos adurentes raios solares.


Primeira visão da represa dos Camargos, ao fundo.

Mais adiante, acessei um pequeno outeiro e daquele local privilegiado, já podia visualizar um dos braços da Represa de Camargos.

Então, iniciou-se leve, mas perene descenso, que culminou com minha chegada a vila de Caquende, outro pequeno distrito, que também pertence a São João del Rei.


Descendendo com força em direção à Caquende/MG.

Ali encontrei 2 bares abertos e, num deles, adquiri água e pude matar a sede que me oprimia.

Aproveitei para dar um giro pelo local, além de fotografar a singela igrejinha que abençoa o minúsculo povoado.


Graciosa igrejinha existente no distrito de Caquende/MG.

Quem sou? Um pequeno povoado às margens direita do Rio Grande, inserido no distrito de São Sebastião da Vitória, município de São João Del Rei, Estado de Minas Gerais.

Antigamente, dizia-se que Eu não constava em nenhum mapa: mas aí estava Eu com minhas casas de pau-a-pique ou adobe em sua maioria, porém desconhecendo o verdadeiro valor (das construções). Não existia para muitos... mas era passagem de tropeiros” (Retalhos de lembranças de Caquende, pág.20)

Ao ler este pequeno relato que está inserido no livro Retalhos de Lembranças do Caquende, faz-me lembrar do encanto ao chegar no alto do Caquende e observar toda a beleza que rodeia o povoado. O verde das matas, as árvores parecendo estar entranhadas com as casas, os campos com várias tonalidades, de secura e poeira no tempo de estiagem e o belo verde como que de agradecimento à natureza durante o período de chuva. Um pouco mais distante, observa-se a serra de Carrancas e bem próximo o povoado vizinho, Capela do Porto do Saco, onde dá-se origem a Cá-aquém-de, Caquende está aquém de Capela do Porto do Saco.

Ao chegar ao povoado, o verde da grama, na praça principal ao redor da igreja com suas residências, define um conjunto que se torna único. O dedinho de prosa à sombra das árvores. Todos que por ali passam sentem-se na obrigação de voltar isto se dá pela hospitalidade de seus moradores.

A modernidade chegou e com ela alguns costumes se perderam, como a bica d’água, onde as senhoras lavavam as roupas e aproveitavam para colocar a conversa em dia, a bica do “Tote”, que ficava próximo a um barranco cuja água era canalizada por um bambu onde as pessoas aproveitavam para se banharem. Tote era o senhor que canalizou a bica e lá se banhava todos os dias. E quem não se lembra do moinho de vento, que abastecia o povoado?

Retorno a mais um trecho do livro Retalhos de Lembranças do Caquende para lembrar que Caquende está saindo do anonimato: “eis que pressinto uma “guinada” (uma mudança) e das boas, em minha história. Não é que saí do anonimato? Figuro em jornais, mapas, revistas. Verdade podem crer. Posso até provar: vejam o percurso da Estrada Real, Caminho Velho, lá estarei.”

O filme “Uma professora maluquinha” mostrou um pouco desta beleza relatada por mim na vista maravilhosa do Alto do Caquende. A novela “Amor Eterno Amor” de Rede Globo mostrou a beleza do Povoado e de sua gente. (Eduardo Antônio da Silva)

Fonte: www.caquende.com.br


Aguardando a balsa. Do outro lado situa-se a Capela do Saco/MG

Como essa pequena e simpática vila não possui infraestrutura para hospedagem, a indicação que eu tinha era atravessar a represa e pernoitar no distrito de Capela do Saco, localizada do outro lado do rio Grande.

Para tanto, me dirigi ao local de embarque, onde uma balsa faz esse translado, de aproximadamente 700 metros de largura, por meros R$2,00.


Balsa que transporta carros, motos, pessoas a pé, etc..

A travessia não dura mais que 15 minutos e, impressiona o passageiro a distância que a água está da margem normal, sinal de que a seca também castigou essa região, minorando sensivelmente o nível do imenso açude.

Aliás, um relatório que vi, datado de julho/2014, emitido pela Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), dava conta que a represa estava 12 metros abaixo de seu nível normal, o pior dos últimos 10 anos.

Ela faz parte da Usina Hidrelétrica de Camargos, construída próxima ao município de Itutinga, e que entrou em operação em 1960.

Está localizada no curso superior do Rio Grande, entre os municípios de Madre Deus de Minas e Itutinga, em Minas Gerais.

Possui uma barragem de 36 m de altura e gera até 45 MW (2 x 22,5).

Seu reservatório inunda uma área máxima de 50,46 Km2, nos seguintes municípios: Carrancas (40,26% do lago), Itutinga (9,45%), Madre Deus de Minas (17,87%), Nazareno (6,50%) e São João Del Rei (25,91%).

Seu nível operacional fica entre 899 m e 913 m acima do nível do mar.


Quase chegando na Capela do Saco/MG.

Interessante relembrar que por aqui passou a expedição de Fernão Dias Pais, que zarpou de São Paulo em 1674, assim como tantas outras.

Este era, desde o século XVII, um obstáculo no caminho das caravanas, dada a dificuldade da travessia.

Afinal, trata-se do rio Grande represado, um dos maiores afluentes do rio Paraná, e onde também ocorre a divisa dos municípios, pois Caquende pertence a São João del Rei.

E na outra margem, Capela do Saco, é distrito de Carrancas.


Adentrando na Capela do Saco, distrito de Carrancas/MG.

Já do lado oposto, me dirigi a Pousada Reis, local onde havia feito reserva.

Ali, por R$70,00 pude desfrutar de um quarto amplo e confortável.


Almoço domingueiro na Pousada Reis.

Dona Kátia, a proprietária do estabelecimento, providenciou um saboroso almoço domingueiro, pelo qual despendi a quantia de R$25,00.

Posso dizer que a refeição estava supimpa e após sua ingestão me senti novamente retemperado, em face das calorias gastas na jornada.


Piscina existente n Pousada Reis, para os hóspedes desfrutarem.

Então, após a necessária lavagem das roupas, deitei para descansar.


A emblemática Capela de Nossa Senhora, que dá nome ao povoado.

Capela de Nossa Senhora do Porto do Saco, distrito de Carrancas tem esse nome em razão dos primeiros colonizadores terem construído por volta de 1700, uma capela próximo a uma grande curva do Rio Grande que forma um verdadeiro "saco".

A data de inauguração da Capela de N S da Conceição é 1712, a mando de Júlia Maria da Caridade, uma das três irmãs “ilhoas''*.

Dona Júlia era proprietária da antiga Fazenda do Saco e devota de Nossa Senhora da Conceição, e há quem diga que a construção da capela tenha sido motivada pela aparição de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição nas margens do rio Grande.

A capela fica no distrito de Porto do Saco, que já foi importante canal comercial de São João Del Rei antes da ferrovia.

Após 1879, as terras foram doadas à própria capela e às pessoas que desejassem formar um povoado em torno dela.


Pessoal embarcando na balsa, para retornar aos seus lares.

Hoje em dia é possível visitar a pequena capela branca, de janelas azuis, e imaginar os costumes do passado ao conversar com os moradores mais antigos, uma verdadeira aula de história.

Esta capela está tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais, IEPHA/MG, e é considerada o primeiro patrimônio municipal de Carrancas.

O distrito está a cerca de 30 quilômetros de distância de sua sede e é banhado pelo rio Grande, um dos principais cursos d'água de Minas Gerais, hoje represado em um lago chamado Represa dos Camargos.

Devido a isso, atrai muitos visitantes nos finais de semana para a prática de esportes ou simplesmente relaxarem em suas águas.

*As três Ilhoas: A história das "Três Ilhoas" fala sobre três irmãs naturais da Ilha do Faial, Açores, que vieram para Minas na primeira metade do século XVIII. Vem delas a origem de famílias tradicionais do sul de Minas, como os Rezende, Carvalho, Ribeiro, Andrade, Junqueira, Ferreira, Guimarães, entre outras.

Fonte: http://www.carrancas.com.br/


Interior da Pousada Reis.

Mais tarde, após a retemperadora soneca, fui fotografar e conhecer a igrejinha que dá nome ao local, porém a encontrei fechada e não pude adentrar em seu interior.


Com o famoso Pinguinha em seu bar.

Então me dirigi à beira da represa, onde está localizado o famoso bar do Pinguinha, e ali pude provar de seu néctar, além de bater uma foto em sua companhia.


Por do sol em Capela do Saco. Infelizmente, o dia se encontrava nublado.

Dizem que o melhor local para se fotografar o pôr do sol no local, é no tablado fronteiriço ao seu estabelecimento, mas como o tempo estava nublado, pouco pude aproveitar desse momento.

Ali fiz amizade com algumas pessoas que descontraidamente bebericavam uma cerveja, e acabei entrando na dança.


Festejando com amigos de São João del Rei/MG.

Foram momentos de alegre confraternização, mas o pessoal não trabalharia no dia seguinte, uma segunda-feira.

Eu, ao revés, teria um longo trecho a percorrer, além de precisar transpor a famigerada serra de Carrancas.

Assim, logo me despedi do pessoal, retornei ao local de pernoite e, em seguida, fui dormir, pois o dia fora intenso.


Para relaxar, ingerindo um néctar de cana, naquele domingo inesquecível...

AVALIAÇÃO PESSOAL
Uma etapa de média extensão, sem grandes variações altimétricas e extremamente bela. Nela transitei por locais ermos, silenciosos e com exuberante vegetação. Nesse trajeto, além de pastagens e gado leiteiro, 

também encontrei imensas plantações de soja, café e milho. No derradeiro terço da jornada, o cenário se expandiu e caminhei por locais sem sombra, sob um sol excruciante. No global, um percurso fácil, pleno de muito verde e belas paisagens, 

mormente quando se avista a Represa dos Camargos.



RESUMO DO DIA:

Tempo gasto, computado desde a Pousada Nova Vitória, em São Sebastião da Vitória/MG, até a Pousada Reis, em Capela do Saco/MG: 6 h;

Clima: frio e nublado de manhã; depois das 9 horas, calor e sol forte até o final da jornada.

Pernoite na Pousada Reis: Apartamento individual: Excelente – Preço: R$70,00.

Almoço no Restaurante da Pousada Reis: Excelente – Preço: R$25,00.


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