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2º dia – NEGREIRA a OLVEIROA – 34 quilômetros



2º dia – NEGREIRA a OLVEIROA – 34 quilômetros

"Todos peregrinos possuem duas características em comum: a dor e a felicidade."



Muito frio lá fora. Partindo para mais um dia de superação.

A jornada seria longa e o sol seria meu companheiro o dia todo, com muita força em seus raios após as 10 horas.

Deixei o local de pernoite às 6 h 30 min, girei à esquerda, acessei a rodovia de San Mauro e prossegui em descenso,

Mais abaixo, por uma ponte, atravessei o rio de Barcala, afluente do rio Tambre.


A primeira flecha do dia.

Logo adiante, numa rotatória, segui à esquerda, em direção ao lugar chamado de Negreiroa, uma pequena aldeia, que foi o núcleo original de Negreira, cem metros depois, passei diante do Albergue Municipal.

Na sequência, transitei diante da igreja matriz de San Xulian, descendi à direita, e as flechas amarelas me conduziram para um caminho de terra, situado entre frondosa vegetação.

Segui respirando o ar puro, ouvindo o chilrear dos pássaros, enquanto, lentamente, mais um dia desabrochava.

Vencidos 3 quilômetros em bom ritmo, transitei pela vila de San Mamede de Zás, pequeníssimo povoado cortado ao meio pela “carretera” DP-5603.


Bosques silenciosos e arejados.

Então, as flechas me remeteram para a direita, onde acessei uma estrada de terra situada em meio a fantásticos bosques galegos.

Um caminho silencioso e plano, por onde segui em profunda introspecção.


Transitando por locais belíssimos.

Nesse trecho, pude professar minhas orações matutinas, aproveitando para agradecer a Deus pelo dom da vida.

O sol logo surgiu e deu novo colorido à paisagem circundante.


Trilhas desertas e silenciosas..

Esse trecho é realmente precioso, mormente pela solidão que eu experienciava.

Numa curva da senda, encontrei 5 peregrinos se hidratando, enquanto o sexto colocava um curativo no pé, com os quais troquei algumas palavras.

No final da jornada, no albergue de Olveiroa, voltamos a nos encontrar e aproveitamos para conversar, então, soube que eles estavam de folga do trabalho, e pertenciam ao quadro da Polícia Civil Espanhola.


Tudo muito bem sinalizado...

Prosseguindo, sem pressa, podia contemplar a paisagem circundante, fotografar, enfim, desfrutar do entorno úmido e verdejante.

São momentos como esses que tornam nossa jornada inesquecível.


Bosques galegos: indiscriíiveis...

Difícil descrever a sensação de paz e comunhão com a natureza circundante.


Seguindo em frente....

O forte nesse trecho eram os robles (carvalhos), castanheiras e eucaliptos.

Nesse tramo, quase sem perceber, transitei pelas minúsculas vilas de Camiño Real, Rapote e Piaxe (A Pena).


Ao fundo, parque eólico.

Lentamente, fui ascendendo e, depois de caminhar pela rodovia, já num local mais alto, localizado próximo a um parque eólico, principiei a descender.


Muito verde no entorno....

Logo as flechas me remeteram à esquerda, por um caminho de terra e, em seguida, passei por Vilasério, outra minúscula povoação.

Dois bares que ali existem, ainda estavam cerrados.

Nessa pequena vila, onde residem exatas 65 pessoas, existe um albergue municipal, mas que também se encontrava fechado quando por ali transitei.


Afinal, seria Vilaserio ou Vilacerio, conforme está na placa?

No mais, tudo estava deserto e silencioso.

Fiz uma foto no local, depois segui adiante, novamente pela rodovia.

Enquanto caminhava recordei sobre uma informação que lera numa das cidades do Caminho, cujo nome não me recordo, de que na Galícia existem mais de 6.500 aldeias, todas devidamente catalogadas, sendo que a população não alcança 25 habitantes.

E nesse dia, ao menos, até onde eu me encontrava, já passara por cinco delas.


Seguindo em direção a Cornado.

Ao longe eu já avistava alguns peregrinos que, possivelmente como eu, também haviam madrugado.

Transitei mais algum tempo pela “carretera”, depois, um caminho ascendente me levou até Cornado, onde residem 50 pessoas.

Até ali, eu já havia vencido 15 quilômetros, de forma que fiz uma pausa para descanso, hidratação e ingestão de uma banana, utilizando um banco providencialmente instalado num jardim.


Peregrinos se movimentam à minha frente.

Na sequência, acessei uma larga estrada de terra em ascendência, onde pude avistar alguns peregrinos caminhando ao longe, a minha frente.

O entorno prosseguiu sempre verde, e com sombras em alguns locais.


Caminho aberto e com muito verde no entorno.

A estrada larga e bem sinalizada, me levou a transitar entre pastagens e extensos campos agriculturados.


Entorno fantástico...

Nesse tramo, enfrentei alguns ascensos e descensos, contudo, todos de pequena intensidade.


Solidão e silêncio...

Apesar do sol e um céu sem nuvens, a temperatura se mantinha ao redor dos 16 graus, excelente para caminhar.


Trecho sombreado...

Os peregrinos, que estavam na minha dianteira, seguiam em bom ritmo e não consegui alcançá-los.


Pequeno ascenso...

Sem maiores problemas, vencidos mais cinco quilômetros, quase sempre em linha reta, transitei pelo povoado de Maroñas, que também nada oferece em termos de serviços aos peregrinos.


Estrada retilínea e sem sombras.

Prosseguindo, caminhei pelo acostamento de uma rodovia vicinal retilínea, onde não cruzei com nenhum veículo.


Ainda, sem sombras...

Mais abaixo, passei por Santa Marina de Maroñas, uma pequeníssima aldeia, onde vivem 50 almas.


Descendendo para Santa Marina.

Nesse local, existem dois albergues privados de peregrinos, e aqueles que não conseguem caminhar mais que 21 quilômetros por dia, acabam por pernoitar nessa localidade, pois essa é a distância que a separa de Negreira, o início da jornada desse dia.


Belíssimo cruzeiro.

Eu caminhei ainda uns 500 metros pela rodovia, até que as flechas me remeteram para a direita.

Lentamente, fui ascendendo, por uma rodovia vicinal deserta, agora, em direção ao ponto de maior altimetria dessa jornada.


Caminhando em direção ao Monte Aro.

Calmamente, fui vencendo a elevação, enquanto observava atentamente o entorno, onde observei grandes tratores trabalhando na aração da terra.

Segui pensando que quanto mais me afastava de Santiago de Compostela, uma cidade grande e agitada, melhor me integrava à paisagem bucólica e campestre que ia se sucedendo.


Grande atividade agrícola...

Nesse tramo, passei pelas minúsculas vilas de Bon Xesús e Gueima (370 m)

Então, cheguei a vila de Vilar de Castro, de onde detinha uma vista privilegiado de todo o entorno, pois eu me encontrava a quase 420 metros de altitude.


Desde o patamar do Monte Aro, vistas belíssimas.

Ali há uma bifurcação, e o correto seria prosseguir à esquerda, em direção ao aclive histórico do Monte Aro.

No entanto, esse percurso foi interrompido pelo proprietário do terreno.


Vistas belíssimas...

Assim, eu virei à direita, e prossegui ascendendo pela vertente norte do Monte.

Em algumas bifurcações, encontrei placas informando que eu caminhava por um trajeto provisório, de qualquer forma, acabou por acrescer aproximadamente 1.500 metros ao roteiro original.


Embalse de Fervenza, ao longe.

Uns 2 quilômetros depois, comecei a descender e daquele local, a 400 m de altitude, eu detinha vistas soberbas dos vales circundantes, bem como do Embalse de Fervenza, situado na comarca de Tierra de Xallas.


Outra vista do Embalse de Fervenza.

Em sequência, transitei por Corzón, depois, Abeleiroas.


Caminho silencioso no final.

Nesse trecho derradeiro, ultrapassei um bom número de peregrinos, sendo que a maior parte das pessoas permaneciam sentadas, descansando.


Seguindo, agora, em forte descenso.

Outros, lanchando ou tomando café e cerveja em bares localizados à beira do roteiro.

Eu prossegui descendendo, sempre sobre piso asfáltico e, mais adiante, ultrapassei o encorpado rio Xallas, por uma ponte romana, do século XVI, que divide os Concelhos de Mazarícos e Dumbria.


Seguindo em direção a Ponte Olveira.

Nesse local, em 13 de abril de 1809, se produziu a trágica batalha de A Ponte Olveira, quando uns 1000 soldados da França de Napoleão, aniquilaram a resistência local, protagonizada pelos moradores desse povoado.

Os franceses avançaram pelo mesmo caminho para atacar e arrasar Cee e Corcubión.

Já do outro lado, adentrei em Ponte Olveira, onde existe um bar-restaurante, onde funciona um albergue particular.

Nesse local, sedento e desidratado, adquiri uma garrafa d'água, pois fazia muito calor naquele horário


Caminho plano, mas sem acostamento.

Em seguida, caminhei ainda mais 2 quilômetros, pelo acostamento de uma rodovia que apresentava expressivo tráfego de veículos, até adentrar à esquerda, em direção à vila de Olveiroa.

Ali fiquei hospedado na Pensão As Pias, onde paguei 28 Euros por um excelente quarto individual.

Para almoçar, utilizei as próprias dependências do estabelecimento, onde gastei 10 Euros pelo “menu del dia”.


Chegando em Olveiroa.

Santiago de Olveiroa é um distrito do Concelho de Dumbría e em seu território havia uma torre defensiva que controlava a passagem pelo rio Xallas.

Hieroglifos da Idade do Bronze, além dólmenes e túmulos megalíticos encontrados nas terras de Dumbría, revelam ricos vestígios pré-históricos em toda essa região.

Dois séculos atrás, durante a Guerra da Independência, os franceses não encontraram resistência para cruzar o rio Xallas em Ponte Olveira, onde assassinaram centenas de habitantes de Olveiroa e Hospital.

Alguns deles foram enterrados no átrio da igreja de Santiago, sóbria construção de origem românica, que foi desvirtuada pelas reformas posteriores.


Para refletir...

Nas proximidades do povoado, a uns 750 m do albergue de peregrinos, se encontra a capela de Santa Lúcia.

A fonte que existe em seu átrio, tem propriedades milagrosas para os problemas da visão e é costume durante as romarias, empapar um pano, esfregar os olhos com ele e depois atá-lo a uma das colunas da ermida.


Flores são sempre bem-vindas.

A passagem constante de peregrinos pela localidade, pouco desvirtuou a fisionomia dessa pequena aldeia, que ainda conserva vestígios de seu traçado medieval, embora conte atualmente com mais serviços para atender os caminhantes.

O albergue público foi inaugurado no verão de 2001, junto com o de Negreira, e antes de sua abertura, como relata Manuel Vilar, morador local, os peregrinos dormiam num depósito de alumínio, onde era guardado o leite produzido pela ordenha.


Hostal e Albergue, onde fiquei hospedado nesse dia.

Em 2011 foram inaugurados dois albergues privados e alguns bares e restaurantes, propiciando progresso a essa pequena vila.

Próximo dali, na povoação de Ézaro, que também pertence a Dumbría, mas muito longe para ir a pé, se encontra a espetacular desembocadura do rio Xallas, que verte suas águas ao mar, através de uma belíssima cascata.

Um passeio que pode ser feito a partir de Olveiroa, mas de táxi.


Albergue de peregrinos de Olveiroa.

Depois de uma soneca retemperadora, fui carimbar minha credencial no albergue municipal, onde conversei demoradamente com alguns peregrinos espanhóis.

Em seguida, adquiri víveres numa pequena “tienda”, onde pude matar saudades de nosso país, com sua proprietária, a simpática Carmem, uma brasileira nascida em Goiânia.

Mais tarde, fui conhecer o local por onde deixaria a povoação na manhã seguinte, pois partiria bem cedo.


Local por onde eu deixaria a cidade na manhã seguinte.

À noite, optei por fazer um lanche no bar, depois me recolhi, pois, no dia seguinte, teria novamente outra larga etapa.

Antes de dormir, enquanto anotava os principais fatos do dia, pude analisar a jornada daquele dia.


Boas lembranças....

Foi um trajeto extenso, embora decorrido em pleno ambiente rural, passando por muitas aldeias, apresentando desníveis, em geral, suaves, ainda, que frequentes.

De fato, o percurso é um tanto longo, mas a presença de cinco albergues intermediários permite que a etapa possa ser dividida ao gosto de cada peregrino.