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5º dia - SÃO BRÁS DO SUAÇUÍ à ENTRE RIOS DE MINAS – 22 quilômetros


5º dia - SÃO BRÁS DO SUAÇUÍ à ENTRE RIOS DE MINAS – 22 quilômetros 




Como no dia anterior, o percurso seria de pequena extensão Assim, levantei sem pressa, às 5 h, e após as abluções matinais, tomei o café da manhã em companhia da minha simpática anfitriã, Eliane.

Às 5 h 45 min, deixei a Pousada e caminhei em direção à igreja matriz de São Brás e, do lado da edificação, encontrei o primeiro totem da Estrada Real.

A manhã ainda não raiara e uma neblina fria vestia a cidade, enquanto gotas do sereno da noite escorriam das árvores fronteiriças. 

Alguns moradores já circulavam apressados pelas ruas, certamente, em direção ao labor diário.     

No mais, tudo permanecia estático, e o silêncio reinante só era quebrado, de vez em quando, pelos galos madrugadores.


  

Na sequência, prossegui pelo acostamento da rodovia BR-040 por 2.500 metros até a entrada para a mineradora MRS. 

Então, obedecendo a sinalização, fleti à direita e acessei uma larga e bem conservada estrada de terra. 

O dia ainda estava amanhecendo, quando, após 700 m percorridos, adentrei à esquerda, prosseguindo por uma trilha deserta e arborizada.



Uma neblina muito leve velava a campina adelgaçando-se aqui e ali, deixando ver os capões de mato ou as árvores maiores, ou adensando-se nas baixadas, impedindo a vista além de poucas dezenas de metros.

Logo iniciou-se um grande descenso, bastante erodido em seu leito, que fui vencendo cuidadosamente pelo iminente risco de escorregar e cair. 



No final do percurso, numa matosa baixada, por uma precária “pinguela”, transpus um lamacento córrego d'água.

Nessa latitude em que me encontrava, a claridade vem rápida e nem se percebe como. 

As árvores cujas silhuetas distantes mal distinguia no lusco-fusco, tornaram-se insensivelmente próximas e nítidas. 



E, rapidamente, se fez dia.

Mais acima, atravessei os trilhos de uma via férrea e continuei subindo em meio a uma verdejante pradaria. 



Na sequência, o roteiro me levou a caminhar entre várias fazendas de criação de gado e inúmeras plantações de milho e cana-de-açúcar, num trajeto extremamente ermo.  



Às 7 h 30 min, depois de já ter percorrido 9 quilômetros, encontrei-me com o Sr. Geraldo e paramos para bater um papo. “Landinho”, como é conhecido naquele bairro, denominado de Ponte Pequena, contou-me que residia numa propriedade próxima, há mais de 30 anos. 

Ali criara os filhos, sempre labutando na terra e com os animais leiteiros que possuía. Segundo ele, os vizinhos eram gente de bom coração e ele se sentia muito bem protegido e feliz naquele sítio.

Foi uma conversa assaz interessante, contudo eu precisava seguir em frente. 

E foi o que fiz, após emocionada despedida. 

Mais adiante, numa bifurcação, obedecendo os marcos, prossegui à direita e logo transpunha um riacho através de uma pequena ponte.



Num local ermo e plano, aproveitei para fazer uma pausa para lanche e hidratação. 

O sol nascera a pouco, porém o clima persistia frio, ideal para uma caminhada.

Revigorado, prossegui adiante e, no trecho seguinte passei em meio a várias fazendas que se dedicam à criação de gado leiteiro. 

Inclusive, em alguns locais, me defrontei com vários animais soltos na estrada, pastando à beira do caminho.



Mais adiante, transitei ao lado de uma casa com um grande pomar, sendo que toda a propriedade se encontrava cercada com arame farpado. 

O local estava quieto e vazio, sob a luz já intensa da manhã. 

O ar, de odor adocicado, estava levemente embaçado pela neblina, o que prenunciava outro dia inusitadamente quente para a estação.

Defronte a porta principal da residência, dois pés carregados de laranjas maduras pareciam me convidar para uma pausa restauradora. 

Então, precisei de muita força mental para conter meus instintos, e não invadir a propriedade alheia, objetivando degustar tão atrativos frutos.

Em todo o percurso tive a companhia, à distância, da maravilhosa Serra do Gambá, a elevação mais altiva da região, que se destacava no horizonte, graças aos seus 1.274 metros de altitude e ao verde de suas matas. 

Segundo relato do geólogo Agostinho Junior, que em 2.008 participou da primeira expedição em direção a esse maravilho patrimônio natural, seu relevo é compartimentado por montes arredondados, de flancos alongados, que se coadunam e formam uma alongada serra.



Esse notável cenário emerso na paisagem regional, tem toda a sua extensão coberta por virtuosas matas e vertentes que escorrem e formam ribeirões.

Vistas do horizonte, suas curvas têm desenho suave, conformando-se como ondas no mar. 

Suas rochas são antigas, e datam do período geológico Arqueano, época em que houve uma concentração paleogeográfica de sedimentos marinhos enriquecidos em ferro. 

Rochas do Complexo Barbacena afloram nos flancos e próximo ao topo. 

Ocorrem também gnaisses, quartzitos e vulcânicas e nos descampados, aparecem inúmeros cupinzais vermelhos.

Os símios, serpentes, roedores, felinos e canídeos, alinhados às aves, já foram mais numerosos e sua flora reserva requintes de beleza nas biotas do cerrado e mata atlântica em transição. 

Árvores robustas resistem em trechos remanescentes da mata, apesar das intervenções extrativistas históricas.



Prosseguindo, num cruzamento da estrada, encontrei o Sr. Manoel, mais conhecido como “Manezinho Picapau”, trabalhando no portal de seu sítio. 

Um cachorro que o acompanhava tentou me atacar e foi prontamente contido pelo seu dono.

Simpaticamente, ele me disse que eu estava na “Comunidade do Rio Abaixo” e me convidou para tomar um café em sua casa. 

Agradeci a gentileza, e após uma conversa amena, prossegui em frente.

O dia permanecia nublado e fresco, excelente para minha aventura. 

A estrada larga e plana, com um piso bastante socado, conduziu-me por locais de rara beleza, sempre em meio a muito verde. 



Por bastante tempo, do lado direito, tive a companhia do rio Brumado, um curso d'água de razoável massa líquida.

Numa longa planície onde caminhava, avistei uma perua kombi vindo em sentido contrário, 

Ela parou bruscamente e, Jorginho, o motorista, um senhor muito simpático e falante, veio ao meu encontro, pois queria saber quem era o andarilho de mochila e cajado.

Após as apresentações e alguns comentários, aproveitei para confirmar o rumo e a sequência, já que ele conhecia bem a área. 

Antes de partir, recomendou-me procurar o Celso, numa padaria, na cidade de Casa Grande, pois ele participava de cavalgadas de longa distância pela região. 

E, certamente teríamos inúmeros assuntos a debater.



Quase no fim da jornada, passei por um grande bosque de eucaliptos que, com sua sombra e frescor, emprestaram um belíssimo visual ao meu roteiro. 

No final de pequeno ascenso, desaguei numa estrada larga em terra batida e dali já pude visualizar, ao longe, à direita, meu destino para aquele dia.



No final de um pronunciado descenso, encontrei a rodovia MG-270 e, seguindo as indicações, prossegui à direita pelo acostamento, no sentido contrário ao fluxo de veículos. 

Depois de 500 metros, ultrapassei um posto de gasolina e adentrei à esquerda, na Avenida Major Juscelino, e por ela, sempre em grande ascensão, aportei ao centro da urbe.



O município de Entre Rios de Minas tem as suas origens no século XVIII, com a chegada dos portugueses Pedro Domingues e Bartolomeu Machado à região, em 1.713. 

Bartolomeu Machado ergueu a sua casa no lugar onde se encontra hoje a Fazenda do Engenho.

Anos depois, erigiu uma capela em homenagem a Nossa Senhora das Brotas em torno da qual surgiu o povoado do Bromado, que posteriormente teve o seu nome alterado para Brumado do Suaçuí. 

Em 1.875, foi elevado a distrito e, em 1.953, a cidade. 

Nessa ocasião, recebeu o nome de Entre Rios de Minas, por estar situada entre os rios Camapuã e Brumado.

A economia do município se baseia na pecuária leiteira e sua população atual soma 14.000 habitantes.



Na cidade fiquei hospedado na Pousada das Pedras, que fica muito bem localizada, próxima do centro da urbe. 

Para almoçar utilizei os serviços do restaurante “Rancho Mineiro”, onde pude degustar, por preço acessível, a saborosa comida típica da região.

Depois de um bom descanso, fui visitar a igreja matriz, dedicada à Nossa Senhora das Brotas, uma construção diferente e de rara beleza. 



Em seguida, fui ao banco, e numa “Lan House”, onde pude acessar a internet e dar notícias aos meus familiares.

Nas sequência, fui até a saída da cidade, mais especificamente, no trevo de acesso da rodovia MG – 383, conhecer o local por onde eu prosseguiria no dia posterior.



E, mais tarde, em conversa com um morador local, fiquei sabendo da história do maior herói cultuado na cidade, a qual descrevo abaixo.

Cassiano Campolina foi um homem que viveu há mais de 100 anos, numa época em que as pessoas não imaginavam que a ciência seria capaz de realizar inseminações artificiais em animais, e até em seres humanos, ou mesmo aperfeiçoar espécies já existentes. 

No entanto, ele criou uma nova raça de cavalo para atender, acima de tudo, a sua paixão pela equinocultura. 


Mesmo antes de serem descobertos, os princípios da Engenharia Genética foram utilizados - fora do ambiente de laboratório - por esse amante dos animais, fazendo surgir, no interior de Minas Gerais, mais precisamente na cidade de Entre Rios de Minas, a raça de cavalo que até hoje leva o seu sobrenome.

Essa estirpe, assim como outras existentes naquele tempo, nasceu da necessidade dos feudos da época, de locomover-se em animais fortes, de porte altivo e de andamento cômodo, devido às longas caminhadas a serem empreendidas. 

E teve como referencial os animais do império, quase sempre da casta Andaluz, difíceis de serem adquiridos, àquela época.

O mercado de animais era rentável por sua aplicação em todas as atividades de deslocamento ou trabalho na lavoura. 



E a raça Campolina teve início em 1.857, na Fazenda Tanque, a partir do garanhão Monarca, filho de uma égua cruzada com o garanhão Puro Sangue Andaluz-Lusitano da Coudalaria Real de Alter, pertencente ao criatório de D. Pedro II. 

Há de se ressaltar que os descendentes de Monarca sofreram a infusão de sangue das raças Pecherão, Orloff, Oldenburger e, mais tarde, do Manga-Larga Marchador e Puro Sangue Inglês.

Dessa profícua mescla, resultou animais de pelagem com predominância de baios e castanhos, temperamento vivo e dócil, com andamento em marcha batida ou picada, caracterizando-se, a primeira, por maior tempo de deslocamento dos bípedes em diagonal e, a segunda, em lateral.

Devido ao seu porte elevado e andamento cômodo, a linhagem Campolina é excelente para passeio, como cavalo de lazer. 

E também para serviços de fazenda, sendo utilizado para esta finalidade, na maioria das vezes. 

É, ainda, um ótimo animal para a produção de muares marchadores, robustos, de grande porte.

Cassiano Campolina faleceu solteiro e sem herdeiros legítimos, deixando toda a sua fortuna para prover um hospital que leva o seu nome, cujo funcionamento é operacionalizado num prédio belíssimo, localizado próximo ao centro da cidade.



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AVALIAÇÃO PESSOAL – Um trajeto fácil, bem sinalizado, ermo e agradável, contudo com pouca sombra no percurso. No entanto, rodeado por maravilhosas paisagens, tendo como pano de fundo, pelo lado direito, a famosa serra do Gambá, de belíssima conformação.