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4ª etapa – TÁRREGA a BALAGUER - 38 quilômetros


4ª etapa – TÁRREGA a BALAGUER - 38 quilômetros


A dor faz você mais forte, o medo faz você mais corajoso e a paciência faz você mais sábio.




Em princípio, seguindo o meu cronograma de viagem, eu percorreria apenas 25 quilômetros nesse dia, um domingo.

Ocorre que quando eu liguei para o único hostal existente em Linyola, onde eu pretendia pernoitar, tive uma decepção ao saber que ele já estava com sua lotação esgotada.

E nessa cidade não há albergue para peregrinos.

Dessa forma, precisei redimensionar meus planos para aquele dia, seguindo até Belaguer, localizada 12 quilômetros à frente.

A jornada, como um todo, seria praticamente toda plana e, como nas etapas anteriores, sabia que a sinalização estava perfeita.

Dessa forma, às 5 h 30 min, com o dia ainda escuro, eu deixei o local de pernoite e retrocedi uns 300 metros até a linha férrea. 


Reenconrto com a primeira flecha do dia.

Naquele local me enlacei novamente com o Caminho e segui em frente animado.

O clima estava frio e ventoso, temperatura na casa dos 5 °C, excelente para caminhar.

Assim que findou a iluminação urbana, acendi minha potente lanterna de mão e segui adiante sem maiores percalços.


Tudo escuro ainda, eu caminhando sob estrelas no céu.

A primeira parte da caminhada transcorreu por estradas largas e bem definidas, com piso socado, o que facilitou sobremaneira meu deslocamento.

E, enquanto aguardava o dia raiar, aproveitei para colocar em dia minhas orações matutinas.

Seis quilômetros vencidos em bom ritmo e com o dia clareando, por uma ponte metálica, passei sobre o canal de Urgell, que irriga toda a região.


O sol finalmente aparece...

Quando o sol apontou e deixou tudo mais iluminado, pude ver que eu caminhava entre enormes plantações de frutas doces, onde o destaque eram as pereiras e as macieiras.

Em determinados locais, observei também a presença maciça de pessegueiros, embora essa cultura não fosse o destaque nessa parte do percurso.


Plantações imensas de frutas doces, de ambos os lados do caminho;

E sem grandes surpresas, depois de percorrer 10 quilômetros em duas horas, passei pela cidade de Tornabous, onde residem 847 pessoas.


Quase chegando a Tornabous.

Segundo meu guia, na povoação há bares e “tiendas”, mas encontrei tudo fechado e não vi pessoas ou automóveis se deslocando pela silenciosa aldeia.


Igreja matriz de Tornabous.

Seguindo as flechas calmamente, transitei diante da igreja matriz, depois, acessei uma rodovia vicinal asfaltada.

Sempre em meio a pés de fruta, dois quilômetros adiante, passei pelo distrito de El Tarrós, também integralmente deserto.


De volta aos campos frutícolas.

Ali não há comércio, porém existe uma fonte de água cristalina à disposição dos caminhantes.

Fiz uma pausa, então, e pude saciar minha sede, com sofreguidão.

Prosseguindo, um quilômetro depois, passei por La Fuliola, esta uma vila um pouco maior, pois possui 1.253 habitantes.


Muito próximo de adentrar em La Fulíola.

Nela há todo tipo de comércio, excetuando-se alojamento.

Trata-se de uma bonita vila, que ainda conserva os portões de acesso e algumas casas do primitivo núcleo antigo, que se encontrava recluso dentro das maralhas, na época medieval.

Até ali eu já havia caminhado 14 quilômetros e ainda me sentia disposto e entusiasmado.

Também ali não avistei vivalma nas ruas, e o silêncio só era quebrado pelo gorjeio ininterrupto dos pássaros.


Retorno ao campo. Maravilhoso!

Seguindo em frente, pouco mais de mil metros adiante, transitei pela pequeníssima Boldu, onde residem 223 almas.

Esta também me pareceu uma agradável vila, embora também pertença ao município de La Fuliola.

Entrei na aldeia e logo encontrei uma bonita praça, em cujo centro existe uma cruz de término. 


Igreja matriz de Boldu.

Daquele local pude fotografar sua antiga igreja românica, do século XI.


Igreja matriz de Boldu. De outro ângulo.

Um senhor idoso caminhava em sentido contrário e conversamos um pouco sobre o clima e as plantações frutíferas que eu avistara no percurso até aquele local.


Retornam os pessegueiros, à profusão.

Prosseguindo, a paisagem continuou imutável, mas agora, com intermináveis plantações de pessegueiros.

Transitei sempre por estradas largas e planas, situadas em locais desertos e silenciosos.


Caminho ermo e silencioso. Uma delícia!

Sem dúvida, um percurso belíssimo e agradável.

Mais à frente, eu caminhei sobre uma rodovia vicinal sem tráfego e, mais 3 quilômetros percorridos, cheguei a Castell del Remei, onde há um bar e restaurante. 


Quase chegando em Castell del Remei.

Esse plácido casario, que é um remanso de paz, engloba um castelo central, com quatro torres cilíndricas, uma bodega, um santuário, e dois pequenos pântanos, onde habitam diversas espécies de aves.

Também há uma residência para portadores de deficiência física, que pertence a Comunidade dos Irmãos Franciscanos de Cor Branca.


O famoso Castell del Remei.

O local se encontrava bastante movimentado, pois comemorava-se naquela data a festa da padroeira da minúscula aldeia.


A igrejinha existente em Castell del Remei.

Passei tranquilamente pelo local, fotografei o castelo e a simpática igrejinha que adorna a vila, depois prossegui meu périplo.

E duzentos metros depois, estava de volta aos campos.


Volta ao campo, desta vez entre vinhedos.

Quase de imediato, o entorno se modificou e passei a caminhar em meio a imensos trigais.


Retornam os trigais, uma constante em Aragón.

O sol já dardejava com força e após percorrer 20 quilômetros, fiz a primeira pausa do dia, para descanso e hidratação.

Eu me encontrava à beira de pequeno bosque e detinha uma ampla visão do entorno, até o horizonte longínquo.

E depois de renovar meu protetor solar, segui meu caminho.


Belas flores para alegrar o meu dia...

Um quilômetro adiante, após fazer pequena curva, fui ultrapassado por 10 ciclistas que faziam sua “pedalada” matinal.

Quase em seguida, me encontrei com 5 senhoras que caminhavam em direção contrária.

Uma delas me reconheceu como peregrino pela concha que eu levava dependurada na mochila e conversamos por algum tempo.

Dali eu já podia avistar a civilização, mas ainda demorou 30 minutos até que eu adentrasse em Linyola, uma cidade que foi construída sobre uma elevação, de onde domina parte do Planalto de Urgel.


Quase chegando em Linyola.


Possivelmente, esse local foi habitado pelo ilergetes e, posteriormente, pelos romanos, que lhes deram o nome pelo intenso cultivo de linho, pelo qual a vila colheu quando, então, o governador de Lérida iniciou a reconstrução e fortificação de diferentes povoados, dentre eles, Linõla.

Durante o século XI, com a invasão das tropas cristãs, entre os anos de 1076-79, Liñola foi conquistada pelo conde de Urgel Ermengol IV.

A partir daquele momento e durante 30 anos, Liñola se converteu num baluarte dos cristãos até a queda de Balaguer, no ano 1105.

Modernamente, ela apresenta dois edifícios de grande interesse:

A igreja matriz dedicada à Santa Maria, com seu campanário, é o prédio mais emblemático do povoado, com seu estilo gótico e com alguns elementos românicos, foi construída entre os séculos XV-XVI.

No final do século XVI o arquiteto Bartomeu Roig construiu o campanário octogonal que, com suas quatro torres de vigilância, fazem-no único na Catalunha. 


Igreja matriz de Linyola.

Pode-se, ainda, desfrutar também da praça porticada da igreja.

Já o prédio do “Ayuntamiento” é um edifício civil por excelência.

Trata-se de um magnífico palácio renascentista, que foi habitado por famílias nobres desde o século XVI até o século XVIII, sendo que a prefeitura local o adquiriu em 1902.

População atual: 2.800 habitantes.

Eu transitei rapidamente pela cidade e me ative ao traçado do caminho.

Ainda assim, passei diante de sua igreja matriz e pude fotografá-la.

No global, essa pequena cidade me impressionou positivamente por suas largas e limpas, com calçadas muito bem cuidadas.

Infelizmente, não pernoitaria ali, assim, comprei uma garrafa de água e uma barra de chocolates numa “tienda”, depois segui adiante.

Um senhor, com uma máquina fotográfica ao peito, possivelmente, um turista, vinha em sentido contrário e fez questão de me cumprimentar.

Depois seguiu algum tempo ao meu lado conversando, com o intuito de me mostrar por onde eu deveria seguir para deixar a pequena povoação.

Providência desnecessária, pois a sinalização também nesse trecho se mostrou estupenda.

Valeu, no entanto, pela atenção que ele me dispensou, perguntando, insistentemente, se eu necessitava de alguma coisa.

Numa esquina nos despedimos e prossegui adiante solitário, como de praxe.


Caminho retilíneo e poeirento.

Na sequência caminhei por estradas largas, planas e extremamente empoeiradas.

Em determinados nichos, encontrei inúmeros barracões que se destinam a criação de porcos para abate.

E, por óbvio, o cheiro que se exalava desses locais não era nada agradável.

O dia prosseguia bonito, sol forte, céu azul, enfim, tudo concorria para que minha caminhada fosse agradável e profícua.


Tudo plano e sem sombras.

Fui avançando lentamente, caminhando quase sempre entre imensos trigais.

Nesse trecho derradeiro, em várias oportunidades, eu cruzei ou fui ultrapassado por ciclistas, quase sempre aos pares.


Pedras na estrada, céu azul e sol forte.

O trajeto prosseguiu muito bem sinalizado e embora eu levasse o traçado desse caminho gravado em meu aparelho celular, pouquíssimas vezes eu precisei consultá-lo nesse dia.

Também nesse trecho, em nenhum momento o caminho ofereceu sombras.


Caminho plano, a perder de vista...

Em determinado local, coloquei os fones no ouvido, liguei meu radinho de pilhas e segui ao compasso da música espanhola.

A estrada foi passando sobre meus pés, ainda que lentamente, mas mantive um ritmo uniforme e, depois de mais 12 quilômetros avançados, adentrei em perímetro urbano.


Quase chegando... longa reta e sol forte..

Avancei pela rodovia que corta a cidade e logo me encontrava em sua zona central que, por sinal, se encontrava bastante movimentada.

Ali fiquei hospedado no Hostal Urgell, onde paguei 30 Euros por um excelente quarto individual.

Para almoçar utilizei os serviços do Restaurante El Três Fogons, onde ingeri um espetacular “menú del dia”, que me custou 12 Euros.

O trajeto desse dia fora extenso, assim, logo me deitei para descansar.


Ponte sobre o maravilhoso rio Segre.

Balaguer está localizada no vale do Segre, rio que corta a cidade de norte a sul, dividindo, basicamente, a parte histórica (oeste) dos bairros modernos (leste).

Ela é a capital da comarca de La Noguera e, com 16 mil habitantes, é a cidade mais povoada da Província de Lérida.

Crisol de diversas culturas, ela oferece a seus visitantes um patrimônio extraordinário.


A cidade vista desde o morro onde está a sua igreja matriz.

Seu monumento mais significativo, construído sobre uma colina e dominando toda a região, é a Igreja de Santa Maria (século XIV), de estilo gótico, de uma só nave, suportada por sólidos contrafortes e um imponente campanário octogonal.

Na parte baixa da povoação está a bonita Plaza Mercadal, a maior praça porticada da Catalunha e centro nevrálgico da urbe.


No cume de um outeiro, a igreja matriz de Balaguer.

Seu “casco viejo”, erigido basicamente pelos árabes, está muito bem conservado e é composto por inúmeras ruas estreitas e irregulares, contendo vestígios da antiga muralha que envolvia essa aldeia, em tempos remotos.

No cimo de uma colina, estão as ruínas do Castelo Formós que, primeiramente, foi um antigo palácio árabe, sendo que, posteriormente, passou a ser residência dos Condes de Urgell.


A Igreja Matriz de Balaguer.

Mais tarde, assim que me levantei, por uma ponte, ultrapassei o belíssimo rio Segre, e fui visitar e fotografar a belíssima igreja de Santa Maria, construída no cimo de um morro, de onde se tem uma ampla visão da cidade e região.

Também, pude visitar as ruínas do antigo Castelo Formós, construído entre os anos 897-898.

Depois, caminhei tranquilamente por um espaço ajardinado, construído ao lado do rio que, por sinal, estava bastante movimentado por cães e pessoas.


Ruínas do antigo Castelo de Formós.

Estávamos no dia 23 de abril, cujo padroeiro é São Jorge, o patrono da Catalunha.

Por isso, era dia de festa e todo o comércio, sem exceção, se encontrava fechado.

Na volta, no entanto, tive a sorte de encontrar uma “tienda” aberta, pertencente a um sofrido comerciante indiano.

Pude, então, me prover de alimentos para o jantar noturno e o café da manhã seguinte.

Nesse dia também me recolhi cedo, posto que a jornada sequente também seria de grande extensão.


Um trecho silencioso do Caminho, próximo de La Fuliola. Saudades dessa solidão...

CONCLUSÃO PESSOAL: Uma etapa de grande extensão, com trânsito por belos e ermos locais. Na primeira parte do percurso, caminhei entre extensas plantações de frutas doces, uma novidade no trajeto. A cidade de Linyola onde, em princípio, pernoitaria naquele domingo, me impressionou positivamente pela sua beleza, plasticidade e limpeza. O trecho final, todo em terra, foi um tanto sofrido, pois também não contém sombras para descanso e continha bastante poeira em seu leito. No global, uma jornada longa e cansativa, porém, integralmente plana.