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7º dia: MORRO DO PILAR a ITAMBÉ DO MATO DENTRO – 36 quilômetros


MORRO DO PILAR a ITAMBÉ DO MATO DENTRO – 36 quilômetros

 



A etapa, eu sabia, seria duríssima, assim, após os preparativos matinais, às 5 h 19 min, eu deixei a Pousada e segui por ruas desertas. 




E, mais à frente, desci com extremo cuidado, íngreme ladeira empedrada, até acessar, às 5 h 30 m, o primeiro marco da ER.




A estrada larga e bem sinalizada me conduziu por agradáveis paisagens, tendo o rio do Peixe, com suas águas negras, correndo majestosamente pelo meu lado esquerdo, compondo inenarrável cenário.




O clima úmido e a estrada arborizada favoreciam minha caminhada e, no quilômetro seis, ultrapassei singelo oratório, pintado em forte cor azul, que deixei à minha direita.




Logo à frente, iniciou-se pronunciada subida e, já no topo, ainda sob forte cerração, encontrei um senhor montado num cavalo, escudado por um fiel cão, rumo à uma roça próxima para a lida do dia. 





Conversamos alguns minutos, depois cada qual seguiu seu destino.

A trilha prosseguiu, descendo, subindo, cheia de desafios, como em seu passado glorioso de quase três séculos, por onde transitaram os desbravadores desse caminho, que, historicamente, foi a primeira estrada construída na América Latina, a nossa Estrada Real.



 
No quilômetro doze, no trevo de acesso ao distrito de Santo Antonio do Rio, obedeci a sinalização e segui à direita, sob um clima fresco e agradável, pois, o sol ainda não havia aparecido. 




Mais à frente, um bando de maritacas passou sobre minha cabeça, fazendo enorme zoeira.



 
No quilômetro 15 ultrapassei uma grande ponte sobre o rio Jequitinhonha, que, em seu curso, à minha esquerda, formava pequenas enseadas ornadas de areias brancas. 

Naquele local, também, fazem divisa os municípios de Morro de Pilar e Itambé.
 
A partir desse ponto, iniciaram intermináveis e alcantiladas ladeiras que fui sobrepujando, passo a passo, até atingir o cume do primeiro morro, avistando o Cânion do Travessão, localizado na parte mais alta da serra do Cipó. 

Vale lembrar que se trata de um importante divisor natural das bacias dos rios São Francisco e Doce.

Enquanto, ofegante, galgava penosamente outro outeiro, uma portentosa caminhonete me ultrapassou e parou logo adiante. 




Um simpático senhor desceu do veículo empunhando uma máquina digital, e pediu licença para me fotografar.

Após os cumprimentos, ele se apresentou como o Sr. Edmar, disse que residia em Belo Horizonte, e que circulava sempre por aquela região, pois, trabalhava na compra e venda de gado leiteiro.




Asseverou-me, admirado, que jamais havia visto alguém caminhando naquele roteiro, e quis saber os motivos pelos quais eu optei em levar tal despropósito adiante. 

Foi uma conversa amena e divertida, enquanto eu descansava e reunia forças para os novos desafios que me aguardavam.

Após as despedidas ele partiu e continuei minha escalada. 

Ao atingir o ápice, deixei a fazenda Sobrado, à direita, e daquele local privilegiado, pude contemplar, ao longe, inúmeras serras que também fazem parte do maciço do Espinhaço, em meio a um cenário de paisagens épicas e deslumbrantes. 




Prosseguindo, nova ladeira me desafiava e, quando atingi seu topo, o mototaxista que trazia a mochila me alcançou. 

Aproveitei para tirar uma foto, tendo como pano de fundo uma imensidão de píncaros no horizonte. 

Generoso, me entregou frutas remetidas por Dona Didica, depois, novamente me ofertou carona, auxílio que recusei, embora o sol já se mostrasse candente e eu estivesse sentindo forte dor no dorso de meu pé direito. 




 
Prossegui, mordendo uma maçã, maquinalmente, porquanto meus olhos estavam postos no cenário magnífico que me rodeava, deslumbrados com sua grandiosidade.


 

Grandes emoções ainda estavam por vir na estrada ascendente e de traçado ondulante pela qual eu trilhava. 




Logo à frente, atravessei, próximo a grandes rochedos, local onde reside um famoso ermitão, numa gruta, tendo como companhia a natureza e alguns animais.




Já num planalto, no quilômetro 32, pude observar ao longe, à minha direita, o robusto pico do Itacolomi do Itambé.



    
Logo encontrei o mototaxista Guilherme que retornava, após cumprir seu trabalho. 




À propósito da distância que me restava percorrer, afirmou que eu estava a 6 quilômetros de meu destino. 




Após as despedidas finais, prossegui animado e numa curva da estrada, encontrei um cavaleiro que se identificou como Sr. Marcelo, empresário carioca. 

Após as apresentações e fotos mútuas, contou que também estava percorrendo a Estrada Real, mas, em sentido contrário ao meu. 

Segundo me afirmou, saíra de São João del Rei há 22 dias e seus três cavalos já davam mostras de cansaço, pelo esforço dispendido na jornada, embora houvesse um revezamento na montaria.




Foi um papo agradável, contudo eu tinha pressa em chegar, pois, o sol se mostrava abrasador. 

Assim, após a troca de endereços virtuais, cada um seguiu seu destino. 




O roteiro prosseguiu numa estrada arenosa, de difícil progresso, contudo, razoavelmente arborizada. 

O cansaço que me invadia era tamanho, que quase não conseguia raciocinar. 

Meu corpo estava no limite da exaustão e um clima de nervosismo e inquietação começou a me envolver.




Na verdade, estava irritado, faminto e algumas bolhas haviam ressuscitado em meus pés, pois, sentia uma latente ardência naquele local. 

Sob as bençãos divinas, do alto de uma elevação, consegui ver o povoado onde pernoitaria, o que me infundiu novo ânimo.




Às 11 h 15 min, me encontrava diante de um grande morro, que abriga a torre de retransmissão de sinais telefônicos da cidade. 




O marco da ER, instalado à minha frente, determinava que eu deveria seguir à esquerda, por larga estrada de terra, ainda por 2 quilômetros, até a acessar o perímetro urbano. 

Porém, um senhor me dissera no dia anterior, que eu poderia aportar à povoação, descendo diretamente por uma trilha aberta do lado direito, em impressionante descenso.




Foi que fiz, escorando-me no cajado para não cair e, após exacerbados malabarismos, saltos e muitos escorregões, acabei por sair em asfalto, próximo de um rio.
 
Andei, ainda, uns cinco minutos, além dos meus limites, taciturno e sem força nas pernas. 
   
Nessas horas o cajado assume um papel importante. 

Sem ele seria quase impossível chegar, pois o corpo já não conseguia se manter em pé.




Exausto, aportei defronte à igreja matriz de Itambé de Mato Dentro, dedicada à Nossa Senhora das Oliveiras, devoção que, sinceramente, desconhecia. 



 
Na cidade fiquei hospedado no Hotel Estrela e, embora suas instalações estejam bastante desgastadas, os proprietários, Sr. Jânio e sua esposa Tatiane, fazem a diferença, posto que são extremamente atenciosos e hospitaleiros com os peregrinos.
 
 
Após reconfortante banho, examinei meus pés e tive desagradável surpresa, ao constatar que a unha do dedão do pé direito estava preta, inflamada e dava mostras de cair em breve.

Para complicar ainda mais, sobre dedinho do mesmo pé, tinha uma enorme bolha de sangue e ao redor existia uma extremada sensibilidade. 

Sinceramente, duvidava que pudesse introduzir os pés em minhas botas outra vez, tamanha era a dor e o desconforto sentido no local afetado.




Precavido, e antevendo dificuldades desse naipe, havia trazido um velho e desgastado tênis no fundo da mochila. 

Assim, decidi que faria um teste na manhã do dia seguinte e, se conseguisse calçá-lo, prosseguiria meu périplo, a pé. 




Em caso negativo, desistiria, ou continuaria a aventura motorizado. 

Lá, utilizei o restaurante do próprio hotel para almoçar. 

Assim, recomendo-o, pois, a refeição, embora simples, estava por demais saborosa.
 




Segundo a história, a cidade, que faz parte do roteiro original da Estrada Real, foi fundada pelo bandeirante Romão Gramacho, em 1.720, e a etimologia se seu nome, deve-se a termos indígenas que significam “ITA” (pedra) e “AIMBÉ” (afiada ou pontiaguda).


Pedras, montanhas, florestas, rios de corredeiras e cachoeiras, cavernas e sítios arqueológicos, compõem o cenário natural dessa bela localidade, que se encontra encravada no alto da Serra do Espinhaço, mais especificamente, nos contrafortes da Serra do Cipó.
 
Após merecido repouso, e quando o sol amainou, claudicante, fui verificar a saída da cidade, exatamente o local que acessaria no dia seguinte para iniciar minha nova jornada. 

Depois, providenciei a remessa de minha mochila para Ipoema, via ônibus, posto que não consegui entrar em acordo com os mototaxistas do povoado, por divergirmos, acentuadamente, no quesito preço.

À noite, optei por um singelo lanche e, em seguida, providenciei um vigoroso escalda-pés, como forma de apressar minha recuperação física. 

Na sequência, ingeri um analgésico e me recolhi, posto que a enfermidade que acometia meu pé direito, ainda que corriqueira a caminhantes, mostrava-se por demais inflamada e dolorida, o que muito me preocupava.




IMPRESSÃO PESSOALSeguramente, a etapa mais complicada e de maior grau de dificuldade dentre todas as que percorri. Primeiramente, porque não há sombras no roteiro. Depois, porque existe uma declividade absurda nesse trajeto, cuja ascensão total é de 565 metros, sendo necessário sobrepujar três grandes elevações. Some-se, ainda, a distância a ser percorrida. Em compensação, existem trechos de beleza incomensurável, como o da imperdível vista do Travessão, na serra do Cipó, e dos infindáveis picos que compõem o Maciço do Espinhaço mineiro.