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6º dia: DOUTOR PEDRINHO à BENEDITO ZINCO – 34 quilômetros


6º dia: DOUTOR PEDRINHO à BENEDITO ZINCO – 34 quilômetros



“As viagens só começam depois que a gente volta.” (Juan José Morosoli)

 

 

“Não estranhe! Hoje você voltará um pequeno trecho do percurso de ontem. Ao sair do alojamento, providencie lanche e água, pois, o caminho deste dia terá poucas opções para alimentação. O sinuoso caminho em estradas secundárias, estreitas e de terra colocará você novamente em contato com frondosas árvores e com a mata nativa. Rios e riachos também serão companhias constantes até o final deste percurso. Fique atento aos atrativos turísticos e tenha sempre em mãos uma câmera fotográfica para registrar a beleza do percurso. Depois de contemplar tantas paisagens formosas e cenários exuberantes, o fim do dia culmina com a presença de uma linda cachoeira. A próxima parada é a hospedagem do dia. Bom descanso!”  (Extraído do livro guia do roteiro, que é entregue ao caminhante quando da retirada da credencial, em Indaial/SC)


Levantei no horário costumeiro e enquanto me preparava para a jornada do dia, pensava que ao me adiantar em uma etapa, certamente deixaria de conhecer um dos trajetos mais bonitos e agrestes desse Circuito.

Isto, ao menos, era o que diziam os relatos que eu havia lido na internet, além do que afirmava o livro guia que eu portava sobre esse percurso.

Porém, eu não via outra alternativa, posto que a ausência de local de pernoite no Zinco, me obrigaria a caminhar 49 quilômetros até a cidade de Rodeio.

E isso estava fora de cogitação, pois além de exigir um esforço extra de minha parte, estávamos em dezembro, mês de sol forte, além de haver previsão para chuvas à tarde.



Assim, conforme combinara com o taxista no dia anterior, exatamente às 6 h, ele passou no hotel, e eu embarquei com o intuito de percorrer 25 quilômetros de automóvel, para depois iniciar minha jornada do dia.

O condutor, o Sr. Francisco, uma pessoa extremamente cordial, além de profundo conhecedor da região, pois se tratava de um ex-policial que atuara em várias cidades do Circuito, seguiu me contando casos e enaltecendo as maravilhas que existiam nesse trajeto.

Ao saber do meu propósito, ele me disse que eu deveria ter tentado me comunicar com a Pousada Toca dos Índios, que também atende caminhantes.

No entanto, em consulta à internet feita antes de partir, tomei conhecimento de que um grupo lá se hospedara em agosto de 2013, porém o estabelecimento também está situado fora do percurso, e eu precisaria de dados consistentes para depois retornar ao Caminho.

Ainda assim, ele prosseguiu insistindo de que eu não deveria prescindir dessa etapa, vez que ela seria quase integralmente verde e agreste, um colírio para os olhos de quem habita cidades grandes, como no meu caso.

Seu tom de convencimento foi vital para que eu repensasse em minha decisão, assim, inopinadamente, resolvi que ao invés de desistir, eu retornaria caminhando até Doutor Pedrinho, qual seja, eu faria essa etapa, mas no sentido inverso.

E ele, após me deixar no local aprazado, retornaria com minha mochila e faria nova reserva no Hotel Cristofolini, além de solicitar à Dona Lúcia, a proprietária, para que mudasse meu pernoite em Rodeio para o dia seguinte.



Tudo decidido, ele me deixou num local onde ocorre uma bifurcação de Caminhos: se eu seguisse adiante por mais 8 quilômetros, iria aportar à Pousada do Zinco, segundo li, um local belíssimo, cercado de muito verde, e onde existe uma portentosa cachoeira.

Porém, se lá pernoitasse, no dia imediato teria que retornar até aquele ponto, para depois seguir à direita, em direção à cidade de Rodeio.

Nessa “esquina” decisiva foi onde aportei e, depois que me despedi do Francisco, parei para fazer uma rápida checagem na “mochila de ataque” que carregaria, onde levava apenas água, frutas e chocolate.



Aproveitando o local ermo e fresco, fiz alguns alongamentos, depois pedi a proteção divina, orando da seguinte forma:

“Senhor Deus, em nome de Jesus, peço que me proteja e me guie. Amém! Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a plenitude divina, que Deus me guarde, me ilumine e me leve para um bom caminho. Amém!”

 


Em seguida, bastante motivado, iniciei minha jornada.

E não tive problemas em encontrar meu rumo, vez que ao invés das flechas brancas, eu passei a seguir as flechas amarelas, pois são essas setas que guiam os cicloculturistas, que percorrem esse roteiro no sentido inverso ao dos mochileiros.

Dessa forma, após um grande descenso, eu transpus o Ribeirão Liberdade por uma ponte e, já do outro lado, passei a caminhar, um bom tempo, tendo um bosque de eucaliptos de meu lado direito e grandes pastagens do outro.



E logo o sol despontou, deixando tudo mais belo, claro e verde.

Mais abaixo, eu passei a caminhar dentro da mata ciliar, sempre beirando o ribeirão, que me ladeava pelo lado direito.



Nesse trecho, avistei belas residências, inúmeras áreas com plantações de arroz e milho, bem como passei diante de duas movimentadas serrarias.


Caminho em direção à Benedito Zinco, outro trecho onde o verde e a natureza preservada é a tônica.

O percurso prosseguiu bucólico, entre verdes matas, e paisagens deslumbrantes.

E, também, bastante fresco, por conta da sombra ofertada por frondosas árvores e inúmeras coníferas.



Mais adiante, a trilha passou dentro de uma plantação de eucaliptos e a estrada, repentinamente, ficou perfumada.

Nesse trecho, caminhei sozinho por mais de uma hora, apreciando a paisagem, sentindo o coração pulsar forte e perdendo-me em pensamentos.



Meu passo era rápido, mas lento o suficiente para não ofegar e nem suar, enquanto aspirava o ar puríssimo que oxigenava o entorno.

Sem dúvida, as longas caminhadas são verdadeiras viagens internas, horas de reflexão, pensando em muitas coisas, mas há instantes em que a mente fica absolutamente vazia e prosseguimos marchando quase pela intuição.



Depois de 12 quilômetros percorridos, enfrentei a primeira grande ascensão, mas ainda dentro de um espesso bosque de pinheiros.



Mais à frente, depois de converter à direita, ultrapassei o rio Benedito por uma ponte, acessei uma rodovia, caminhei por 100 metros e logo, diante de uma igreja luterana, as flechas me remeteram à direita, para a terra novamente.



Eu estava no bairro São João, que também pertence ao município de Doutor Pedrinho, embora esteja situado longe de sua sede.

Nesse local específico, ainda me restavam caminhar, exatamente 10 quilômetros, para aportar ao meu destino.

O céu principiou a nublar, inibindo o sol abrasador, mostrando sinais que o clima iria se modificar.

Mais alguns quilômetros percorridos em boa marcha, passei pelo movimentado bairro Alto Donner, que também pertence à Doutor Pedrinho.



Já descendendo, próximo de uma grande moita de bambu, fiz uma pausa para hidratação e descanso.

Curioso, observei uma teia de aranha presa em uma cerca de arame, caprichosamente esticada, fui dar uma olhada e notei que a dona não estava “em casa”.

Segundo li certa vez numa revista de zootecnia, isto significava que iríamos ter intempérie naquele dia.

A aranha sabendo disso por antecipação, deixa a armadilha bem tensionada, para a chuva não desmanchá-la, e sai para se proteger.

Depois volta. 

Descansado e bem disposto, prossegui adiante, ainda pensando nas informações que a natureza nos passa sem que as percebamos.

E, não sei porque, me lembrei de outro caso que lera anos atrás, onde informações reais, críveis e verdadeiras, acabaram por soar inverossímeis aos ouvidos de um burocrata leigo:

 


Em 1947, o pesquisador sueco Bengt Danielssen subiu o rio Amazonas de canoa, entrou no Peru e chegou finalmente à Lima.

Na mesma semana, estava na cidade o explorador norueguês Thor Heyerdahl, ultimando os preparativos para navegar numa balsa primitiva pelo Pacífico e chegar à Polinésia.

Ele queria provar sua teoria de que os polinésios eram originários da América do Sul e se mudaram para as ilhas do Pacífico Sul, em canoas construídas com toras de pau-de-balsa.

Quando Bengt Danielssen ficou sabendo dos propósitos de Thor, procurou-o e se ofereceu para integrar a chamada Expedição Kon-tiki.

Na hora de preencher os documentos para sair do Peru, Bengt foi ao departamento civil de controle de passaportes.

A história está contada no livro “A expedição Kon-tiki”, escrito por Thor Heyerdahl:

 


- Qual o seu nome? – perguntou um funcionariozinho cerimonioso, olhando desconfiado, por cima dos óculos, para a imensa barba de Bengt.

- Bengt Emmerik Danielssen – respondeu Bengt respeitosamente. O homem pôs na máquina de escrever um longo formulário.

- Em que navio o senhor veio para o Peru?

- Acontece – explicou Bengt, inclinando-se para o assustado homenzinho – que não vim de navio, vim de canoa para o Peru.

 Mudo de assombro, o funcionário olhou para Bengt e bateu “canoa” num espaço aberto no formulário.

- E em que navio vai sair do Peru?

- Acontece, repito – disse Bengt delicadamente -, que não vou sair do Peru em navio, mas numa jangada.

- Acredito, acredito! – exclamou nervoso o funcionário, rasgando o papel ao retirá-lo da máquina. – Quer fazer o obséquio de responder convenientemente às minhas perguntas?

 


Finalmente, às 11 h 30 min, com o tempo se fechando, nuvens negras toldando os céus, eu aportei pela segunda vez ao Hotel Cristofoloni.

Depois das providências de praxe, como tomar banho e fazer a barba, desci para almoçar.

E quando eu terminava a refeição, ao redor das 13 horas, iniciou-se uma torrencial chuva de granizo, acompanhada de fortes ventos, que deixou todos amedrontados em face da violência com que se abateu o temporal.

Eu me recolhi para um merecido descanso, porém, quando me levantei, pude aquilatar o estrago que o “minitornado” havia feito na cidade, pois o próprio hotel onde eu me encontrava hospedado, teve parte de seu telhado arrancado pela força do vendaval.



Da mesma forma, inúmeras residências ficaram completamente destelhadas, árvores desabaram fragorosamente, e houve grandes danos materiais numa importante indústria daquela cidade.

Inclusive, o fornecimento de energia elétrica fora interrompido, sendo restaurado somente no início da noite.

Posteriormente, fiquei sabendo que os ventos chegaram a 180 km/h no fim da manhã daquela quinta-feira, próximo dali, no Aeroporto de Chapecó, zona Oeste do Estado.

O registro foi feito às 11 h 15 min pelo anemômetro instalado no local - aparelho que mede a velocidade dos ventos e é usado pelas torres de comando para orientar os pousos e as decolagens dos aviões.

Mais uma vez, tive a sorte de já estar abrigado, pois se ainda estivesse na trilha, teria passado por sérios apuros.

E, mistérios da natureza, provou-se que a aranha ao abandonar sua teia de manhã, mais uma vez estava certa, seguiu seu instinto divino.

 


Mais tarde, antes de seguir até o supermercado, dei outra volta pela cidadezinha, e pude novamente constatar que ela mais parece um presépio, com tantas casas bonitas, de pintura recente, quase todas albergando jardins floridos e bem cuidados.

Enquanto lentamente caminhava por suas calçadas impecáveis, pensava que os dias agitados em terras paulistas definitivamente haviam ficado para trás, nem parecia estar no Brasil, tamanha a pacatez que a cidade oferece.

Em Doutor Pedrinho, todas as coisas pareciam estar nos seus devidos lugares.

Observando aos transeuntes, sentia uma certa dose de segurança no semblante de cada pessoa, me parecia, até, que o mundo em volta não estivesse girando tão rapidamente como nos outros locais.

Na praça principal, defronte ao prédio da Prefeitura Municipal, várias pessoas ainda elaboravam um interessante presépio ao ar livre, pleno de luzes e esculturas que, por milagre, não havia sido afetado pela chuva recente.

Fiquei um bom tempo observando o meticuloso trabalho feito pelos voluntários, pessoas da comunidade, depois, fui ao supermercado, para me prover de víveres para o lanche noturno.

Mais tarde, fiz contato com o Sr. Francisco, o taxista que me levaria novamente à “esquina do Zinco” no dia seguinte, para que eu pudesse prosseguir meu périplo.

E, em seguida, me recolhi, pois ventava forte e trovões ao sul indicavam mais chuva para o período noturno.

 


IMPRESSÃO PESSOAL: Uma jornada tranquila e bastante agradável, sempre em meio a plantações, pastagens, arrozais e bosques, tendo, em boa parte do percurso, o Ribeirão Liberdade a me escoltar pelo lado direito. De se lamentar, contudo, a dificuldade de pernoite nessa etapa, visto que a Pousada Zinco está 8 quilômetros fora do Circuito e só atende grupos.