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1º dia: CAMBUÍ/MG a BOM REPOUSO/MG – 27 quilômetros


1º dia: CAMBUÍ/MG a BOM REPOUSO/MG – 27 quilômetros


Ó Virgem imaculada da Medalha Milagrosa, que, movida à piedade de nossas misérias, descestes do Céu para ensinar-nos com quanto cuidado acolheis os nossos sofrimentos e o quanto fazeis para afastar de nós os castigos de Deus e nos obter suas graças, socorrei-nos nas necessidades presentes e concedei-nos as graças que vos pedimos.” 




A etapa não seria por demais extensa, porém, eu já sabia que enfrentaria alguns ascensos importantes no trajeto.

Como de hábito, gosto de partir bem cedo, de forma que às 4 horas eu já estava fazendo alongamentos e ingerindo frutas e chocolate, o combustível principal que utilizo no início de minhas jornadas.


Cinco horas da manhã, pronto para partir.

Exatamente, às 5 horas, eu deixei o local de pernoite e segui por ruas frias e vazias em direção à saída da cidade.

Primeiramente, eu utilizei a Avenida do Carmo e, mais adiante, acessei a rodovia MG-295, e por ela segui sem pressa, mas integralmente focado em meu objetivo do dia.

Dois quilômetros caminhados, numa rotatória, eu girei à esquerda e, utilizando um pontilhão, eu passei sobre a rodovia Fernão Dias, já bastante movimentada naquele horário.

Então, acessei uma estrada asfaltada que segue em direção à cidade de Senador Amaral.

Porém, mais 300 metros caminhados, numa bifurcação, observando atentamente o aplicativo Wikiloc que baixara em meu aparelho celular, adentrei à direita e prossegui por uma larga estrada de terra.

Até aquele local eu percorrera 2,5 quilômetros e já transpirava abundantemente pelo esforço dispendido.

O dia ainda não raiara, de forma que utilizei minha potente lanterna de mão e pude seguir em frente sem maiores dúvidas ou receios.

Nesse primeiro trecho, com o firmamento cravejado de estrelas, ouvia apenas o barulho do vento e esparsos latidos de cães, à distância.

Eu estava transitando entre grandes fazendas de gado leiteiro e, como pude observar, em algumas a ordenha estava a pleno vapor.

Por conta disso, o mugido faminto dos bezerros era intenso, intercalado pelo cantar, amiúde, de galos nos terreiros da vizinhança.

A lua cheia, em seu segundo dia de aparição, cintilava intensamente no firmamento, e com seu brilho selênico auxiliava meu deslocamento por uma estrada ascendente e de piso arenoso.

A temperatura exterior se encontrava ao redor de 10 graus, agradável e propícia a uma boa caminhada.


Lentamente, o dia vai clareando...

Meia hora mais tarde, olhando à minha direita, podia observar a madrugada decadente, o céu se tornando claro, sinal de que em breve o sol nasceria.

Por sinal, a previsão meteorológica previa calor, porém, somente depois das 10 horas, acompanhado de baixa umidade.

Segui sempre em bom passo e, ainda que lentamente, eu estava em perene ascenso.

Eu havia partido de uma altitude média de 850 metros, mas depois de caminhar 6 quilômetros por locais planos, mas desertos, verifiquei, preocupado, que o aplicativo que eu seguia em meu aparelho celular, simplesmente, deixara de funcionar.

Até aquele local, eu cruzara com apenas um motociclista e não avistara mais ninguém.

Fiquei uns 10 minutos tentando reverter a situação, enquanto aguardava que se materializasse alguém para que eu pudesse conferir meu rumo, mas debalde minha ansiedade, ninguém apareceu.


Encontro com a primeira flecha azul do Caminho das Graças.

Resolvi seguir em frente e, numa bifurcação próxima, observando atentamente meu GPS, segui à esquerda e, quinhentos metros adiante, em outra bifurcação, milagrosamente, encontrei a primeira flecha azul desse roteiro.

Aparentemente, pelo que eu pude concluir posteriormente, depois de ultrapassar a rodovia Fernão Dais, o traçado oficial segue pelo asfalto para, depois de uns 5 quilômetros, adentrar em terra, à direita.

Não tenho essa certeza, mas até aquele marco, não buscara nenhuma flecha para me orientar, visto que eu caminhava sobre o traçado do aplicativo fixado no visor de meu celular.

Com o dia claro e as setas me orientando no caminho, pude seguir mais tranquilo e dali em diante não encontrei dúvidas quanto ao rumo a tomar.


Início de forte e ininterrupto ascenso.

Andei um pouco num planalto, contudo, após atravessar um pequeno riacho por uma ponte, principiei a ascender, ininterruptamente.


Uma graciosa cachoeira localizada em meio a mata nativa.

Em determinado local, fiz uma pausa para hidratação e aproveitei para fotografar uma cachoeira situada em meio a um bosque, do lado direito do caminho, mas, localizada em propriedade particular, com porteira fechada a cadeado.

Logo em sequência, enfrentei duríssimo aclive que, em sua parte mais íngreme estava calçada por bloquetes de cimento, como forma de propiciar aderência às rodas dos veículos automotores.


Ainda em ascenso, com o sol já brilhando.

Ela me fez recordar, em termos, a serra do Caçador, situada no Caminho da Fé, no trecho que vai de Estiva a Consolação, mas, claro, em tamanho diminuto, o que não diminuiu a sua estafante rudeza.

E quando, finalmente, eu cheguei ao topo dessa primeira elevação, depois de percorrer 2.500 metros ascendentes, atingi a marca de 1.146 metros de altitude.


Finalmente, no topo do morro.

Até ali eu já havia caminhado 8 quilômetros e ainda me sentia extremamente bem e animado.

Passei por um pequeno bosque no cume, depois descendi com violência pelo lado oposto e quando atingi o plano, obedecendo a sinalização, girei à direita, e segui um bom tempo caminhando por locais extremamente silenciosos e ermos.


Transitando por locais desertos e silenciosos.

A estrada retilínea e, praticamente, deserta me propiciou gratificantes momentos de introspecção e comunhão com a exuberante natureza circundante.

Como os demais Estados da região Sudeste, Minas Gerais sofria com a longa estiagem, pois lá também há mais de 60 dias não chovia na região.


Caminho ermo e retilíneo.

Por conta disso, encontrei muita terra solta no leito da estrada, o que, em determinados trechos, dificultava minha locomoção.

Os mineiros são extremamente religiosos e me deparei com muitas capelas no roteiro, algumas dentro de propriedades, sempre com pintura recente.


Uma bela igrejinha vestida de azul..

No trecho sequente, passei a encontrar grandes plantações de morango, uma das culturas mais fortes no município.

E, com um detalhe interessante: quase todas irrigadas por aspersores fixados ao longo dos canteiros frutíferos.


Plantação de morangos irrigada.

O sol já brilhava forte no céu, mas, a temperatura se mantinha baixa e hidratada.

Eu estava caminhando em ascensão, num patamar de 1.100 m, por isso o frescor que me envolvia, propiciava uma jornada ainda tranquila.


Descendendo em direção a formoso vale.

Depois de ultrapassar outro bairro situado num formoso vale, ultrapassei um riacho por uma ponte e, na sequência, enfrentei outro ríspido ascenso.

A aclividade era tamanha, que todo o trecho estava calçado por bloquetes e, para minha satisfação e conforto térmico, ele transcorreu em meio a frondosas árvores.


Outro ascenso duríssimo, desta vez sobre bloquetes.

Quase chegando ao topo, observando à minha retaguarda, podia visualizar montanhas e a estrada por onde eu viera caminhando do lado oposto.


Olhando à minha retaguarda, visão dos locais por onde eu viera caminhando.

No cimo do outeiro, encontrei outra capelinha muito bem cuidada, com pintura verde.

Com certeza pertencia a algum bairro, mas não sei o nome daquele enclave, pois não encontrei vivalma a quem indagar.


No topo do morro, uma singela igrejinha, pintada de verde.

Prosseguindo, fui descendendo lentamente, entre grandes pastagens e quando ia perpassar por novo núcleo de casas, surpreendentemente, as flechas me encaminharam para um caminho vicinal ascendente, num giro de 90 graus, a esquerda.


Último descenso. Depois, só enfrentei ascensos.

A partir desse patamar, os ascensos foram se sucedendo em série.

Havia pequenos platôs para descanso, depois a aclividade retornava, sem tréguas.


Ascenso e sol forte, a tônica nesse trecho.

O sol já brilhava forte no firmamento e praticamente não avistei ninguém nesse entremeio.

Apenas, em determinado local, encontrei um cavaleiro que descia um morro, acompanhado por 3 alentados cães.


O derradeiro ascenso, até atingir 1.459 m de altitude.

Estoicamente fui vencendo as dificuldades e, após grande esforço, escalei a derradeira montanha e, em seu cume, eu atingi 1.459 m de altitude, o ponto de maior altimetria nessa jornada.

E após breve descenso pelo lado oposto da montanha, depois de caminhar 21 quilômetros, acabei por sair na rodovia que liga Bom Repouso a Estiva.

Ali, uma placa colocada ao lado do asfalto me avisava que restavam 6 quilômetros para eu aportar ao meu destino final.


Início do trecho asfaltado. Restam 6 quilômetros até a chegada.

Sem maiores dificuldades, por um roteiro praticamente plano, segui sem pressa pelo exíguo acostamento asfáltico, sempre no sentido inverso ao tráfego de veículos.

Notei grande movimentação de viaturas policiais na área, além de um helicóptero que fazia rasantes no céu, e logo inferi a existência de alguma ocorrência de porte na cidade.

Fato que confirmei quando da chegada a Bom Repouso, onde o prédio que abrigava o banco Sicoob e a sede dos Correios, fora explodido e assaltado na madrugada.


Portal da cidade de Bom Repouso/MG.

Quando finalmente acessei a zona urbana, segui as flechas em direção ao bairro dos Bentos, onde está situado o Santuário e a escultura de Nossa Senhora das Graças.

O caminho que leva a imagem é íngreme mas reconfortador, pois em seu cimo, dei por realizado mais um sonho longamente acalentado.


Início do caminho em direção ao Santuário de Nossa Senhora das Graças.

Infelizmente, tanto a igrejinha quanto os locais de comércio lá existentes estavam fechados.

Assim, depois de fotos e um breve giro pelo local, de onde eu detinha ampla visão do entorno, professei minhas orações do lado externo do templo.


Santuário de Nossa Senhora das Graças.

Isto não amainou minha exaltação pela vitória, ao revés, eu estava muito feliz por mais essa conquista.

Tudo resolvido, alegre e jubiloso, descendi do outeiro e me hospedei na Pousada Alto da Boa Vista, onde havia feito reserva.

Nela dispendi R$50,00 por um excelente e espaçoso quarto individual, porém, com banheiro externo.

No entanto, como eu pernoitei sozinho ali naquele dia, pude utilizar as dependências do estabelecimento sem me preocupar em compartilhá-lo.


Local onde almocei neste dia.

Para almoçar utilizei os serviços da Restaurante e Pizzaria La Roma, de excelente qualidade.

Nele paguei R$28,40 o quilo da refeição, servida no sistema self-service.

Depois, face ao cansaço acumulado na jornada, merecidamente, deitei para descansar.


A cidade de Bom Repouso/MG, vista desde o Santuário, situado no cume do morro.

O Município de Bom Repouso está situado em planaltos de montanhas com topos arredondados pertencentes ao segmento oeste da Serra da Mantiqueira, sendo que sua altitude é de 1680 metros, chegando a atingir, em alguns pontos, 1800 metros.

Seu clima é tropical de altitude, com temperaturas que variam de -5º C a 26,5º C, constituindo um forte referencial turístico.

Possui aproximadamente 10.500 habitantes; trata-se de um povo extremamente receptivo, simples, que vive da agricultura e da pecuária de leite e corte.

O surgimento do município ocorreu devido aos desbravadores dos sertões, que encontraram dificuldades em transpor o trecho pantanoso da região de Estiva, que dava acesso à região do ouro.

Assim, eles procuraram um desvio, iniciando-o em Atibaia, pelo seguimento oeste da Serra da Mantiqueira, atingindo o planalto conhecido como “Cabeceira das Águas”. 


Gracioso coreto edificado na praça central de Bom Repouso/MG.

A intenção era atingir o “Pouso do Mandu”, atual Pouso Alegre, ficando dessa forma traçado o desvio, que mais tarde daria acesso à mineração de Ouro Fino.

Considerado lugar de descanso de tropeiros, surgiu a Vila de Bom Retiro que, com a sua emancipação política em 12 de dezembro de 1953, passou a se chamar de Bom Repouso.

Situada na Serra da Mantiqueira, no Circuito Serras Verdes do Sul de Minas, Bom Repouso é quarta cidade mais alta do Brasil, estando situada a uma altitude de 1360 metros.

A cidade também é privilegiada por abrigar a nascente do Rio Mogi, além disso, possui mais de 28 cachoeiras, tornando-se uma excelente opção para quem procura desfrutar momentos de muita paz e tranquilidade nas montanhas.

A população vive da agricultura, plantações de morango e batata-inglesa, produtos comuns na região, e da pecuária de leite e corte.

A natureza exuberante proporciona aos amantes do turismo de aventura e ecoturismo atividades bastante agradáveis e repletas de emoção.


A IMAGEM DE NOSSA SENHORA DAS GRAÇAS


O pedestal onde se encontra a imagem de Nossa Senhora das Graças é o segundo maior do mundo já erigido em sua homenagem, pois possuí 20 metros de altura, e se localiza ao lado de um Santuário Mariano.

Ele foi inteiramente edificado em argamassa, equivale a um prédio de seis andares e se encontra a 1410 metros de altitude.


A imagem de Nossa Senhora das Graças e, ao seu lado, o Santuário.

Sua construção data de 2001 e é uma das maiores estátuas da santa no Brasil (em Irati, no Paraná, há uma imagem de Nossa Senhora das Graças de 22 metros de altura).

A iniciativa veio de uma moradora local, muito devota de Nossa Senhora das Graças, e a construção foi realizada com a ajuda de toda a população e da Prefeitura Municipal, com o intuito de atrair turistas para a cidade.

Segundo a municipalidade, o santuário recebe, em média, 40.000 visitantes por ano.

No alicerce da imagem há uma lojinha, onde os turistas e romeiros encontram orações de Nossa Senhora das Graças com folders, santinhos, adesivos, chaveiros religiosos em geral e um pequeno espaço com fotos de pessoas que fizeram seus pedidos e promessas e foram abençoadas, recebendo graças da santa.

Os visitantes também podem visitar a capela ao lado e deixar seus pedidos e ofertas a Nossa Senhora das Graças.


Igreja matriz de Bom Repouso/MG.

Mais tarde, quando o sol amainou, fui fotografar a igreja matriz da cidade, que tem São Roque e São Sebastião como padroeiros.

Infelizmente esse templo também se encontrava fechado, obstando minha visita ao seu interior.

Depois dei um giro pela praça fronteiriça, aproveitando para conversar com alguns moradores locais.

Como não podia deixar de ser, o assunto do dia era a explosão e roubo do cofre do banco, que ocorrera às 2 h 30 min daquela madrugada.

E, pelo que ali ouvi, apesar de extensas diligências feita pela polícia civil e militar nas estradas da região, ninguém ainda fora detido.

À noite, após frugal lanche, fiquei um bom tempo conversando com Dona Claudete, a proprietária da pousada onde pernoitei.

Ela se mostrou uma pessoa educada, culta e atenciosa, qualidades que me cativaram profundamente.


Para refletir....

RESUMO DO DIA:

Tempo gasto, computado desde o Hotel Zémaria, localizado em Cambuí/MG, até a Pousada Alto da Boa Vista, localizada em Bom Repouso/MG: 7 horas.

Clima: frio e neblinoso de manhã, ensolarado e poeirento, após as 7 h 30 min, com temperatura variando entre 10 e 24 graus.

Pernoite na Pousada Alto da Boa Vista - Apartamento individual excelente, com banheiro externo – Preço: R$50,00.

Almoço no Restaurante e Pizzaria La Roma - Excelente! – Preço: R$28,40 o kg, no sistema self-service.


IMPRESSÃO PESSOAL: Uma etapa de grande dificuldade, pois cumprida quase que integralmente em ascenso. De se recordar que a cidade de Cambuí/MG, de onde eu parti, está a aproximadamente 850 m de altitude e quase no final da jornada atingi 1459 m de altimetria. Além do sol forte e baixa umidade, a estiagem vivenciada na região foi outro importante fator a ser superado, por conta da poeira que levantava quando da passagem de algum veículo automotor. No geral, uma etapa difícil, mas cumprida com muita superação. E a chegada diante da imagem milagrosa de Nossa Senhora das Graças, um sonho antigo, serviu como coroamento ao esforço dispendido na jornada.