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7º dia: CAXAMBU à SÃO LOURENÇO – 28 quilômetros


7º dia: CAXAMBU à SÃO LOURENÇO – 28 quilômetros


"Para algumas viagens não se parte quando se vai. Se parte antes." (Fúlvio Ervas)


"A estrada do trecho é boa. Paralela à linha do trem que passa pela região, é pouco movimentada e plana. O caminho é por dentro de fazendas, o que dificulta a passagem em períodos chuvosos, pois o chão fica muito mole e barrento, facilitando o 

atolamento. Também por essa característica, há muito gado na estrada. O trecho termina em São Lourenço. Também no Circuito das Águas, a cidade teve a criação da primeira Companhia de Águas Minerais de São Lourenço em 1890. Dois anos depois, 

inaugurava-se a primeira fonte, a Oriente. Hoje, o Parque das Águas é a maior atração da cidade e recebe visitantes de todo o país em busca das propriedades medicinais de suas águas minerais. (Fonte: 

http://www.institutoestradareal.com.br/roteiros/velho/40)"



O trajeto desse dia não apresentava grandes problemas porque, eu já o conhecia, visto que o percorrera em 2014, quando fazia o Caminho dos Anjos que, nessa etapa, coincide com os roteiros do CRER e da Estrada Real.

Ocorre que, para inovar, existia previsão de fortes chuvas para aquele dia, o que acabou se confirmando.

Aquela seria a última jornada desse périplo e, ao seu final, face a problemas particulares, eu retornaria para minha residência.

Dessa maneira, como forma de agilizar meu trânsito pela trilha, eu deixei o local de pernoite às 5 h 15 e, em consonância ao que me aconselhou o porteiro noturno, eu segui no primeiro trecho pela rua Dr. Viotti, que é bem mais iluminada que a Avenida Camilo Soares, aquela que margeia o Parque das Águas.

Chovera a noite toda e, para minha surpresa, constatei que caía uma fina garoa ameaçando engrossar.

Como prevenção, vesti minha capa de chuva, depois segui meu destino.

Mais adiante, passei por trás da rodoviária municipal, e logo acessei uma larga estrada de terra, bastante arborizada e úmida, fruto das recentes precipitações pluviométricas.

Quase em seguida, transitei diante de um totem da Estrada Real, bem como de um marco do C.R.E.R, que nesse trecho também segue pelo mesmo roteiro e infunde mais confiança ao viajor.


Dia nublado, estrada úmida.

Um quilômetro à frente, a chuva cessou e pude seguir tranquilo, embora o céu estivesse encoberto e carregado prometendo mais água para breve.

Nessa hora um sentimento de felicidade me invadiu o peito, pois eu estava chegando ao fim de minha aventura sem dores ou bolhas, além da alegria interior que sentia por ter transitado por locais inéditos, conhecido pessoas do bem, feito novos amigos, pernoitado em cidades que nunca vira, etc.


Muita umidade no caminho.

Além disso, eu detinha o poder de decidir meu próprio rumo e, por isso, provei de um indescritível bem-estar, um gosto de liberdade jamais experimentado.

O caminho seguiu fresco e sem tráfego, apresentando exuberante vegetação em suas laterias, mas, também, muita umidade e poças d'água no chão.

Por sorte, o piso empedrado favorecia meu deslocamento, e a chance de um escorregão era pequena.

A estrada, praticamente toda plana, seguiu sempre em meio a extensas fazendas de criação de gado leiteiro, característica comum em quase todo o percurso.

Como já conhecia o roteiro, pude me interiorizar e deslocar meus pensamentos para outros destinos, focando meu lado espiritual, repensando projetos futuros, enfim, colocar meus sonhos em dia.

Na verdade, ia raciocinando, não acho ruim caminhar sozinho.

Aliás, desacompanhado, o que é diferente.

Parece até que a marcha rende mais.

Tenho certeza de que há muita gente aqui por perto, me acompanhando.

Talvez meu pai, em pensamento, e são essas “presenças” que me dão muita tranquilidade. 


Estrada plana e agradável.

Certamente estão torcendo por mim, me desejando sorte, me orientando, me ajudando de alguma forma.

Eu estava tão absorto em minhas reflexões, que levei um tremendo susto quando um senhor montado em uma velha bicicleta, me ultrapassou vagarosamente e me externou um sonoro bom dia.


Estrada silenciosa e hidratada.

Ao lhe responder a saudação, deixei meu lado meditativo e voltei à realidade.

Cinco quilômetros vencidos, passei diante da Fazenda Primavera, que se destina à criação e venda de equinos.


Transitando entre verdejantes paisagens.

Defronte ao seu portão principal, e situada do lado direito da estrada, existe uma nova e bem cuidada capelinha, erigida em memória de Nhá Chica, onde pude fotografar e externar orações.


Caminho plano, com piso socado. Excelente para caminhar.

O roteiro seguiu sem alterações, bucólico e intensamente arborizado em quase toda a sua extensão.


Entorno maravilhoso, porém, logo voltaria a chover.

Nesse entremeio, fui ultrapassado apenas por algumas motos, cujos condutores se dirigiam à faina do campo.


Caminhando sob leve garoa.

Aproximadamente 7 quilômetros percorridos, fiz uma pausa diante do sítio São Francisco, para retirar a capa de chuva, já que sentia um calor intolerável e, por conta disso, estava com a camisa toda encharcada, fruto da intensa transpiração.


Pausa para tirar a capa de chuva.

Prosseguindo, logo percebi que a mata, logo em frente, densa e exuberante, estava agitada pelo vento.


Entorno fresco e verdejante.

Mau sinal, pensei, pois via no horizonte sinais claros de que lá estava ocorrendo uma tempestade.


Transitando por locais maravilhosos.

Depois de percorrer 10 quilômetros, numa bifurcação, atento às setas verdes e amarelas, adentrei à esquerda, e o caminho se tornou ainda mais deserto e silencioso.


Nessa bifurcação eu segui à esquerda e logo a chuva voltou com tudo.

No cimo de pequeno morro, fiz uma pausa para hidratação e ingerir uma banana.

Quando ameaçava reiniciar a jornada, a chuva que há tempos ameaçava cair, chegou com força e, aos trancos e barrancos, consegui vestir rapidamente minha capa protetora.

Depois, segui adiante, tomando muito cuidado onde punha meus pés, face ao iminente perigo de um tombo.


Piso bastante liso por conta da chuva.

O roteiro prosseguiu levemente ondulante, ainda entre grandes pastagens, onde rebanhos de vacas leiteiras se movimentavam em busca de alimento.

Nas principais bifurcações do caminho sempre havia um marco do C.R.E.R ou um totem da Estrada Real a me avisar qual o rumo tomar.


A chuva não deu mais tréguas.

Além disso, também havia setas amarelas e verdes do Caminho dos Anjos, numa profusão de sinais, que torna impossível o caminhante se perder nesse trecho.

A chuva prosseguia sem trégua, quando passei diante de uma singela igrejinha com área de convivência, ambas trancadas quando ali transitei, já na comunidade do Mato Dentro.

Pelo que li na internet, houve, supostamente, uma tentativa de instituir uma sociedade alternativa no local alguns anos atrás e, pelo que depreendi, parece que não deu muito certo.

São poucas e esparsas moradias naquele enclave, além de uma escola e um posto de saúde.


Muita água na estrada.

Em razão da chuva torrencial, eu estava preocupado com minha máquina fotográfica e o aparelho celular, pois ambos estavam guardados na mochila, porém sem proteção adicional.

Mais à frente, junto à entrada de uma fazenda, que continha uma pequena cobertura de telhas sobre a porteira, pude fazer uma pausa para verificar o estado desses equipamentos.

Nada de mal ocorrera, mas tive o cuidado de embalá-los em sacos plásticos, para reforçar a blindagem contra o dilúvio que enfrentava.

Contudo, por conta disso, não pude mais fotografar com tanta frequência.


Em alguns locais eu passei com água pela canela.

Em alguns locais, em virtude da violência da borrasca, a água invadira a estrada e precisei passar pelo local com água correndo pelas minhas canelas.

Mais à frente, adentrei num trecho com árvores, contudo havia silêncio ao derredor, pois os pássaros não cantam na chuva forte, e eu me senti bastante solitário nesse intermeio.

Prosseguindo, iniciou-se curta mas íngreme ladeira, que me fez transpirar bastante.


Estrada lisa, difícil para caminhar.

Já descendendo pelo lado oposto, tinha ampla visão de uma pequena serra por onde eu transitaria na sequência.

Após vencê-la, num promontório, pude visualizar no horizonte embaçado, a uns dez quilômetros de distância, situada numa depressão do terreno, a cidade de São Lourenço, minha meta para aquele dia.

Depois, enfrentei um trecho aberto, no topo de um morro, onde eu podia verificar que nuvens escuras cobriam os 360 graus que minha visão abrangia.

Nesse trajeto intermediário existem várias bifurcações, porém, loas sejam vertidas em favor dos responsáveis pelo caminho, pois todo esse percurso está muito bem sinalizado e não tive dúvidas para onde seguir.

Mais adiante, transitei ao lado de um luxuoso condomínio, onde observei belas vivendas construídas num local amplo e pleno de muito verde.


Entrada para o Hotel Fazenda Vista Alegre.

Já descendendo, depois de 18 quilômetros percorridos, eu acabei por desaguar numa estrada de terra e, cinquenta metros depois, eu fiz uma pausa defronte ao belíssimo Hotel Fazenda Vista Alegre.

Naquele local, restando ainda 7.500 metros para encerrar a jornada, eu tinha algumas opções a seguir.

Prosseguir o caminho por terra, conforme detalhado na planilha que eu portava, ou então, girar à direita, e a uns cem metros abaixo, acessar a rodovia e seguir por asfalto até São Lourenço.

Ou, ainda, se estivesse por demais cansado, poderia solicitar na portaria do hotel que fosse enviado um táxi para me resgatar.

Porém, como a chuva amainara, e eu ainda estava animado, optei por seguir o roteiro original e prossegui à esquerda, por uma estrada movimentada pois, próximo dali, existe um concorrido pesqueiro.


Quase chegando ao final da trilha.

Por sorte, depois de 400 metros, o caminho adentrou à direita, e seguiu por uma trilha deserta, localizada entre grandes fazendas de gado.

Esse trecho se mostrou sempre ascendente, extremamente pedregoso, lamacento e ríspido em seu final.

Depois, iniciou-se outro terrível declive que, com muita terra solta, me colocou em alerta total, pelo risco de uma queda que, graças à providencial ajuda do cajado e do meu Anjo da Guarda, não aconteceu.

Findo o trajeto em terra, ultrapassei uma rodovia e prossegui já em zona urbana.

Esses derradeiros 3 quilômetros, caminhados sobre asfalto, próximos a bairros de periferia, se mostraram os mais perigosos e inadequados de todo o caminho.

Carros passavam pela rua em alta velocidade, com o som ligado no máximo volume, em locais que só comportam um veículo por vez.

Também, a ausência de calçadas me fez correr grandes riscos, pois os veículos trafegavam sempre em excessiva velocidade e sem preocupação com os transeuntes.

Foi, possivelmente, o pior e mais deprimente trecho que caminhei nesse trajeto da Estrada Real, e não tenho a intenção de repeti-lo novamente, se algum dia tornar a percorrer esse Caminho.

Assim, mesmo sem a noção comparativa das distâncias, tenho certeza que o trecho final feito em asfalto pela rodovia, ainda é a melhor opção.

Finalmente, depois de tensos e detestáveis metros vencidos nesse conturbado trecho, eu transpus o rio Verde por uma ponte.

Na verdade, nesse local específico, eu transitei a 837 m de altitude, o lugar de menor altimetria nessa etapa.


Parque das Águas de São Lourenço/MG.

Então, seguindo à sinalização, dobrei à direita, e por um tranquilo calçadão, cheguei em frente ao Parque das Águas de São Lourenço.

Naquele local, dei por encerrada minha jornada.

Então, pedi a um transeunte que fizesse uma foto no local, para eternizar ainda mais aquele momento especial.

Pelos meus cálculos ainda restam aproximadamente 252 quilômetros até Parati/RJ.

Em breve, quiçá ainda em 2016, retorno até essa cidade para seguir pela Estrada Real até o seu ponto final.


Nesse local eu dei por encerrada minha caminhada. Breve retorno para prosseguir até Parati/RJ.

AVALIAÇÃO PESSOAL Uma jornada de razoável extensão, com uma conclusão decepcionante. Na verdade, o roteiro entre Caxambu e o Hotel Fazenda Vista Alegre, um percurso de 18.500 m, é de excepcional beleza. Porém, o trecho final é difícil e inseguro, mormente o terrível trânsito pelos bairros periféricos de São Lourenço. Um trajeto de 3 quilômetros, por locais que não oferece beleza e nada acrescenta ao fatigado caminhante. Diria mesmo, que o ideal seria aportar à cidade pela rodovia ou, até, via táxi, pois esse derradeiro “tramo” não recomendo a ninguém, porquanto é tenso, estressante e arriscado.


RESUMO DO DIA:

Tempo gasto, computado desde a 
Pousada Águas de Caxambu, em Caxambu/MG, até o Parque das Águas de São Lourenço, em São Lourenço/MG: 5 h 30 min;

Clima: Chuvoso do início até o final da jornada.


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