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5ª dia – GUARUJÁ (PEREQUÊ) à BERTIOGA

5ª dia – GUARUJÁ (PEREQUÊ) à BERTIOGA – 18 quilômetros

 

“Devemos merecer o êxito antes de alcançá-lo”. (Lester B. Pearson)

 

Relativamente ao percurso, meu dia seria tranquilo, posto que me restavam poucos quilômetros para finalizar o roteiro.

No entanto, nesse trecho específico, em face de sua ermosidade, havia ocorrido alguns assaltos, bem como outros caminhantes e ciclistas estiveram bastante próximos de tão infausto acontecimento. 

De qualquer forma, eu precisava correr esse risco se quisesse dar sequência ao meu projeto, contudo iria precavido e atento aos detalhes, como forma de me proteger.

Assim, às 7 h, ainda em Santos, deixei o local onde estava hospedado, caminhei em direção ao porto e, ali tomei a balsa que faz a travessia em direção ao Guarujá.



Já do outro lado, adentrei em um ônibus municipal no terminal rodoviário que, pouco tempo depois, me deixou no bairro do Perequê, onde eu havia interrompido a caminhada no dia anterior.

O dia estava nublado, nuvens escuras cobriam o céu, porém, não havia previsão de chuva, ao menos para o período matutino.

Depois de fazer alongamentos e me hidratar, dei início à minha derradeira jornada, nesse roteiro inicial, pré-delimitado.



Prossegui, então, pela rodovia Ariovaldo de Almeida Viana, caminhando pelo acostamento, em sentido contrário ao fluxo de veículos.

Dois quilômetros depois, sempre em meio a uma densa e protegida mata, passei sob um grande pórtico informativo.

Prossegui, então, pela Estrada Parque Serra do Guararu que ali se inicia.

A mata natural acompanha todo o percurso, que se transforma em uma estrada de lazer e ecoturismo.



Historicamente, foi nessa mesma região que o alemão Hans Staden, foi aprisionado pelos índios, por volta de 1550.

Esse trecho está inserto numa região de 4.000 hectares, hoje administrada pela Fundação SOS Mata Atlântica, cujo objetivo é fazer com que um espaço de “ir e vir” (estrada) passe a envolver conscientização, conservação, cultura, preservação ambiental e geração de renda.

Contudo, antes da parceria que possibilitou sua proteção, esse espaço estava ameaçado por graves problemas de ocupação desordenada, agressão ao meio ambiente e muito lixo.

Nesse entorno privilegiado pela natureza, também conhecido como Rabo do Dragão, há nascentes, córregos, cachoeiras, vegetação de restinga e os manguezais essenciais para o controle das marés e a reprodução de espécies nativas.

Rica em biodiversidade, a Serra do Guararu é considerada o último trecho remanescente de Mata Atlântica intacto em Guarujá, sendo que suas encostas servem de abrigo para felinos, como a onça parda e a jaguatirica.

A vegetação, rica em palmito juçara, funciona como ninhal para tucanos, pica-paus e gaviões de várias espécies.

Nas picadas que levam às praias Branca e de Iporanga, a trilha sonora fica por conta de saíras de sete cores e maritacas.

E embora não exista um estudo específico sobre a área, foram contabilizados relatos sobre a visualização de tamanduás-mirins, bichos-preguiça, veados, pacas, tatus e gambás, além de centenas de espécies características da Mata Atlântica.

Além da importância em termos arqueológicos e de biodiversidade, a área também abriga centenas de nascentes alimentadoras do Rio Iporanga, que corta essa Serra. 

Entre os ilustres habitantes dessa área, estão animais ameaçados de extinção como a preguiça e o pássaro tiê-sangue.

Há nela, ainda, patrimônios arqueológicos e arquitetônicos, como as ruínas dos Fortes de São Felipe e São Luís, além de casas antigas feitas com a técnica de taipa.

 

Em termos climáticos, o dia se apresentava nublado, com céu escuro e ameaçador.

O trânsito veicular naquele horário era quase inexistente, e eu me sentia um tanto vulnerável e exposto, em meu caminhar solitário.

Por isso mesmo, eu seguia tenso e prestando bastante atenção nos ocupantes dos veículos que trafegavam em ambos os sentidos.

Três quilômetros depois, algo me deixou assustado, pois percebi uma motocicleta azul que me ultrapassara à pouco, retornara em baixa velocidade, tendo seu condutor me observado atentamente ao cruzar comigo.

Embora estivesse com pouco dinheiro no bolso, levava celular e a máquina fotográfica, de grande importância para mim, pois em sua memória estavam arquivadas todas as fotos que colecionara em minha jornada.

Eu me encontrava algo angustiado, quando a mesma moto retornou vagarosamente, dando a impressão que me aguardaria na próxima curva, talvez, para uma possível abordagem.

Imediatamente, eu me vi apavorado, pois senti um pressentimento de que a ameaça de roubo era iminente.

De repente, naquele turbilhão de pensamentos confusos, um lampejo de luz me invadiu.

Eu precisava me tranquilizar, porquanto sabia que nunca se deve entrar em pânico, pois nos faz perder o controle da situação, e precisamos sempre, seja qual for a adversidade, manter a conjuntura sob nosso comando.

Contudo, embora não estivesse paranoico, eu me lembrava, com exatidão, de um depoimento postado no próprio site do Caminho dos Jesuítas, onde o peregrino Beto Leite, descreve pormenorizadamente a ingente experiência pela qual passou, conforme abaixo reproduzo:

 

"Durante o Carnaval meus amigos Déto Bicas e José Amauri “Lobo” fizeram a 1ª etapa do “Caminho dos Jesuítas” de Peruíbe a Bertioga, período em que eu não pude acompanhá-los, pois faria Plantão.

Em abril combinei com o Déto Bicas e Lobo para fazermos 1ª etapa para que posteriormente pudesse acompanhá-los na 2ª etapa “Bertioga a Ubatuba”.

Confirmado, marcamos para o feriadão do dia do trabalho, faríamos do 7º Pórtico – Portinho na Praia Grande até o 13º Pórtico no Forte de São João em Bertioga em dois dias.

Partimos de ônibus no dia 28/04/2012 às 06h30 h. de Jacupiranga com destino a São Vicente,

- 12:00 h. Chegada a São Vicente no “PECE” para emissão do meu Cartão de caminhante
-  13:30 h. Chegada ao Portinho – Praia Grande ( Almoço )

- 14:00 h. No Portinho, juntou-se ao nosso grupo a Carla Martinez de Azevedo (da Praia Grande) – Obs.: Ela já havia feito contato com o Bicas pelo site do Caminho dos Jesuítas e combinado para caminhar conosco. Iniciou sua caminhada no dia anterior em Mongaguá e parte da Praia Grande,

- 14:35 h. 7º Pórtico - Portinho – Praia Grande,

- 15:19 h. Travessia da Ponte Pênsil da Praia Grande para São Vicente,

- 15:36 h. 8º Pórtico – Praça da Biquinha – São Vicente,

- 16:44 h. 9º Pórtico – Posto de Inf. Turísticas – Teleférico –São Vicente,

- 18:27 h. 10º pórtico – Aquário Municipal de Santos,

- 19:05 h. Travessia de Barco de Santos – Guarujá,

- 23:14 h. Chegada ao Hotel/ Pousada – C. Pitangueiras no Guarujá.

Dia 29/04/2012 –- 05:40 h. Partida do Hotel C. Pitangueiras – Guarujá,

- 06:40 h. 11º Pórtico – Secretaria Municipal de Turismo – Praia Pitangueiras – Guarujá,

- 11:30 h. 12º Pórtico – Associação dos Pescadores da Praia do Perequê – Guarujá,

- + - 12:00 h. Tivemos um imprevisto no Parque do Guararú – Estrada de Guarujá a Bertioga - Km 09 + 500 m,  fomos assaltados por dois motoqueiros e, por ficarmos sem as nossas mochilas, sem dinheiro e documentos, retornamos de ônibus sem concluir o nosso objetivo, quando estávamos a aproximadamente 9 Km de Bertioga.

Peregrino: Carlos Alberto de Oliveira Leite – “Béto Leite” - 15/05/2011- (extraído da seção “depoimentos” do site: www.caminhasaopaulo.com.br)

 

No meu caso, contudo, possivelmente por obra divina, logo adiante, no lado esquerdo, surgiu uma grande marina náutica, onde estavam estacionados alguns automóveis, além de inúmeras embarcações, desde lanchas até luxuosos iates.

Uma estranha energia pulsou por todo o meu corpo, enviando uma onda de euforia pelas veias.

Rapidamente me refugiei no interior do estabelecimento, expliquei meu caso ao porteiro, e pedi autorização para repousar um tempo ali, até me acalmar, no que fui prontamente autorizado.

O simpático Sr. Jairo que me atendeu, depois de ouvir atentamente a exposição acerca de minhas suspeitas, disse que casos de ataques de ladrões naquele trecho eram raros, contudo, mais difícil ainda era alguém transitar a pé por ali, sozinho ou desacompanhado, como no meu caso.

Lentamente, enquanto me hidratava e ingeria frutas, fui ganhando confiança, e 30 minutos depois, quando o trânsito de veículos ganhou intensidade, me senti mais seguro para continuar.

Porquanto, qualquer tentativa de ameaça por assaltantes, certamente contaria com testemunhas visuais.

Assim, otimista e acalmado, reiniciei meu percurso, não sem antes me despedir e agradecer meu benfeitor.

Ruínas da Ermida Santo Antônio do Guaibê

Na sequência, passei a caminhar por um local mais aberto, tendo o belíssimo canal de Santos/Bertioga a me acompanhar pelo lado esquerdo.

Também, nesse trecho derradeiro, existem outras marinas e diversos condomínios, o que me deixou mais tranquilo e confiante.

Alguns quilômetros adiante, eu passei diante do Centro de Educação Ambiental e Estudos do Mangue, base do programa na região, onde monitores da SOS Mata Atlântica fornecem informações para os turistas.

Quase chegando ao final da aventura, ainda do lado do Guarujá, visualizei uma placa indicando a entrada para uma pequena trilha, que conduz os turistas às Ruínas da Ermida Santo Antônio do Guaibê, uma capela construída em 1.550, a pedido do padre José de Anchieta.

Seria uma boa alternativa para visitar, mas eu estava cansado e um tanto abalado, assim, deixei para conhecer essas relíquias históricas numa outra oportunidade.

Nessa toada, depois de 4 horas caminhando, cheguei à beira do canal e utilizei a balsa para fazer a travessia do braço de mar em direção à cidade de Bertioga. 

“Seu nome tem sua origem no tupi antigo falado na costa brasileira, através do termo tupi piratyoca, que significa "casa do peixe branco".

Durante o início da colonização portuguesa, no século XVI, a região era considerada de transição entre o território tupinambá, que ia desde o cabo de São Tomé, no atual estado do Rio de Janeiro, até o rio Juqueriquerê, em Caraguatatuba e o território dos tupiniquins, que ia desde as cercanias de São Vicente, passando por Itanhaém e Peruíbe, até Cananeia

Foi  de Bertioga que, em 1565, Estácio de Sá e expedicionários de Santos, São Vicente e São Paulo, saíram para fundar a cidade do Rio de Janeiro.

Durante muito tempo Bertioga conservou-se como um núcleo de pescadores, dos mais pobres, com cerca de duas dúzias de casas defronte do porto da barca e três pequenas casas de comércio.

Somente na década de 40, o pequeno núcleo de pescadores começou a despertar para sua grande função: a de Estância Balneária.

Atualmente, com aproximadamente 50.000 habitantes, ela foi distrito de Santos até 19 de maio de 1991, quando se tornou um município independente.”

 

27/7/2012 11:55:22 - Portico: 18 - 13º Pórtico Eletrônico: Forte de São João (Bertioga)

Já do outro lado, segui as flechas indicativas, e logo cheguei diante do 13º pórtico do caminho.

Após registrar minha passagem, dei por encerrada minha jornada, ficando o prosseguimento até o seu marco final, em Ubatuba, agendado para meados de 2.013.

Em seguida, fiz demorada visita ao Forte de São João da Barra, localizado próximo dali, exatamente numa das extremidades do local em que se dá o encontro do canal com o mar aberto.

 

Inicialmente chamado de Forte São Thiago, ele foi edificado em 1532, a mando do colonizador português Martin Afonso de Souza, sendo a primeira fortaleza erguida no Brasil, construída em paliçada de madeira.

Após um ataque indígena que resultou em sua destruição, foi reerguido em alvenaria no ano de 1547.

Em 1765 passou a ser chamado de Forte São João, devido a uma capela erigida em homenagem a este santo no local.

Após 408 anos de sua construção, em 1940, o Forte São João foi declarado como patrimônio histórico, tombado oficialmente pelo  Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), e recebeu obras de restauração.

Além de sua beleza arquitetônica, a fortaleza está integrada a natureza local, como o canal de Bertioga, Praia da Enseada e o Parque dos Tupiniquins.

Atualmente recebe cerca de 50 mil visitantes por ano.

Diversos artefatos estão expostos em seu interior, como armaduras medievais, réplicas trazidas por Martim Afonso de Souza de Portugal, canhões de murada, espadas, arcabuzes, capacetes de soldados, etc.

Dentro da reserva da fortificação, há diversos monumentos, um deles representando o Padre José de Anchieta catequizando os índios, bem como uma canoa indígena feita apenas com um tronco de árvore, dentre outros.


Finalizada minha visitação, fui até um restaurante almoçar, onde aproveitei para ingerir frutos do mar, acompanhado por um merecido copo de caipirinha.

Depois, tomei um ônibus e retornei à cidade de Santos, de onde, no dia seguinte, regressei ao meu lar.

 


AVALIAÇÃO PESSOAL – Um percurso fácil, de pequena extensão e integralmente plano. O trajeto a partir da Estrada Parque Serra do Guararu é extremamente matoso e de selvagem beleza. Contudo, a preocupação, nesse derradeiro trecho, se volta para a segurança pessoal do caminhante. Como no meu caso, pois durante todo o trajeto não visualizei carro de polícia ou algum tipo de segurança. Por isso mesmo, quase fui abordado por marginais, o que me levou caminhar tenso e preocupado, até meu aporte à Bertioga.


CONSIDERAÇÕES FINAIS