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4ª dia – MONTE VERDE/MG a SAPUCAÍ-MIRIM/MG (Bairro do Paiol) – 40 quilômetros


4ª dia – MONTE VERDE/MG a SAPUCAÍ-MIRIM/MG (Bairro do Paiol) – 40 quilômetros



Teríamos outra jornada de superação pela frente, assim, como de praxe, levantamos às 4 horas.

Desta vez o desjejum foi servido no horário combinado e após as orações da manhã feita pelo grupo, das quais o proprietário da pousada, o Sr. Belarmino, fez questão de participar, partimos, conforme combinado, às 5 horas.

Madrugada fria e nebulosa, temperatura na casa dos 6 Cº, normal para a região, afinal, estávamos praticamente a 1.300 metros de altitude.

Lanterna na mão, seguimos todos por uma larga estrada de terra em direção ao Hotel Fazenda Floresta Negra, uma referência nessa estrada.


Paisagem exuberante, em meio a mata nativa.

Ultrapassamos o rio Jaguari por uma ponte e, depois, ele seguiu perenemente nos escoltando pelo lado direito.

Quando o dia clareou, pude observar que atravessávamos imensos bosques de mata nativa e frondosas araucárias, algumas com mais de 30 metros de altura.


Caminho fresco e hidratado. Faz frio!

Uma máquina de terraplenagem havia passado recentemente nesse trecho, deixando bastante espaço livre para caminhantes e veículos automotores.

Na verdade, essa região é popularmente conhecida como Jaguari de Cima.


Os pinheirais dão o tom nesse intermeio.

Às 7 h, vencidos aproximadamente 10 quilômetros, fizemos uma parada no bairro Ponte Nova, para lanches e hidratação.

Segundo um morador que aguardava sua condução para o trabalho, o forte naquele enclave é a extração de madeiras, mas existe também muitas plantações de batata e repolho.

Fazia bastante frio e a neblina prosseguia intensa no entorno.

Prosseguindo, logo adiante, giramos à esquerda e enfrentamos brusco ascenso.


Muita cerração no entorno.

No topo do morro, como por mágica, nossos celulares que estavam mudos há quase dois dias, inesperadamente, criaram vida.

Algumas pessoas do grupo aproveitaram a ocasião para dar notícias aos familiares.

Eu também não perdi a chance e deixei recados, já sabendo de antemão que voltaríamos a permanecer mudos por mais um dia.


Trecho maravilhoso do caminho..

Na sequência, transitamos por locais de infinda beleza, cercados por plantações de pinheiros e mata nativa.

Nesse trecho, mais atrasado, eu caminhei sozinho e aproveitei para colocar minhas orações em dia.

Foi, ainda, um dos momentos mais agradáveis dessa etapa, porque, cercado por verde de todos os lados e aspirando um ar extremamente hidratado, eu me sentia imensamente bem e alegre.

Dois quilômetros adiante, numa trifurcação, adentramos à esquerda e prosseguimos em agradável caminhada.


Pausa para hidratação e ingestão de frutas.

Percorridos mais alguns quilômetros, próximo de uma fazenda de gado leiteiro, encontramos o “carro de apoio” nos aguardando e ali ingerimos frutas, doces e água.

Como de hábito nessas ocasiões, o pessoal aproveitou o momento para interagir, comentar passagens pretéritas e dar muitas risadas.


O caminho segue em pequeno ascenso..

Caminhamos, depois, por uma estrada ascendente que, em seu ápice, nos ofereceu nova trifurcação.


Nesse ponto há uma coincidência de percurso com outros caminhos.

Ali tomamos, novamente à esquerda, e a partir desse local, nossa trajetória passou a coincidir com o roteiro do Caminho da Divina Providência, que se inicia em Limeira/SP.

Pouco adiante, às 9 horas, vencidos 17 quilômetros, fizemos uma pausa diante da pousada do Jetinho, que está situada próxima da pousada do Juca, para o nosso tradicional “café da manhã na trilha”.

Além de café e pão, havia ainda queijo branco mineiro, mortadela, manteiga e um vidro de maionese.


Visão desde o local em que fizemos uma pausa para ingestão de nosso "café na trilha".

Estávamos nas faldas de um morro, a 1.200 metros de altitude, e dali detínhamos extasiante visão do nosso lado direito, onde existiam fazendas e abundantes capões de mata nativa.

Do nosso lado esquerdo, havia um imenso barranco, encimado por árvores e araucárias, que prosseguia até o cimo da montanha.

Refeitas as energias, partimos todos animados, por estradas sombreadas e dotadas de entornos belíssimos, para fazer nova pausa, 3 quilômetros à frente, diante da Fazenda Esperança, cuja data de fundação é 1882.


Portão de entrada da famosa Fazenda Esperança.

A propriedade se encontra localizada no bairro Jaguary de Cima, que fica nas proximidades de Monte Verde.

É uma fazenda centenária, cercada pela mata ainda virgem e com lindas corredeiras cortando a fazenda.

Possui uma infraestrutura de restaurante que atende com hora marcada, casais e grupos fechados.

A vista panorâmica do local é privilegiada, além das lindas quedas d'água próximas e, em dias de muita chuva, pode-se ver e ouvir imensas cachoeiras temporárias que se formam no paredão da serra.

A casa sede é antiga, bonita e espaçosa e tem uma lateral inteira avarandada, com redes que convidam o visitante a relaxar, enquanto contempla a paisagem, ao som dos pássaros.

Tudo na Fazenda foi projetado tendo em vista os serviços de qualidade, nada ali é improvisado, como na maioria dos lugares rurais.

A fauna nativa (seriema, lobo-guará, tamanduá-bandeira, veado-campeiro, pato mergulhão e tucanos entre outros) costuma frequentar as terras da Fazenda Esperança.

E, acredite, é incrível a quantidade de pássaros que nela habita.

Fonte: Web

Sobre essa propriedade, nada custa reproduzir um dos muitos comentários que encontrei na internet:

“A Fazenda Esperança é simplesmente espetacular. Fiz uma passeio de quadriciclo com a Quadriventure saindo de Monte Verde, distância de aproximadamente 29 km até a fazenda. Vale muito à pena, a fazenda é muito bem cuidada pelo senhor Arthur e toda a família. Pelo que ele conta, sua família é a terceira família dona da fazenda depois de Dom Pedro 2º, por conta disso tudo na fazenda tem história, até mesmo as tramelas das portas da sede da fazenda que vieram da Europa. A fazenda também conta com as melhores cachoeiras para se banhar em toda a região de Monte Verde, água cristalina e gelada (típico de cachoeiras). O melhor ainda é o almoço que sem dúvidas é a melhor comida mineira da região, o valor pago foi de R$ 35,00 servido a vontade; também estava incluso o suco de banana com limão (só encontra lá.. rss) e de sobremesa o doce de leite feito na fazenda com apenas 10% de açúcar. O passeio foi sensacional, realmente foi diferenciado de tudo que já fiz e pretendo voltar.

Enfim, tudo na fazenda é especial é feito com muito carinho recomendo de olhos fechados.”


Por incrível que possa parecer o Furlan, o Renato e o José Palmeira, quando reconheciam o roteiro, haviam almoçado no restaurante da Fazenda e, unânimes, teceram elogios ao local e ao Sr. Arthur, seu proprietário.

Prosseguindo, caminhamos mais 3 quilômetros, quando a estrada se bifurcou.

Para a direita, seguem motocicletas, ciclistas, cavaleiros e peregrinos a pé, que chegam a “Trilha dos Pinheiros”.

Os veículos automotores, seguem à esquerda e depois de, aproximadamente, 9 quilômetros, ambos os roteiros voltam a se encontrar.

Até aquele local já havíamos vencidos 21.300 metros e prosseguíamos animados na trilha.

Após os aprestos necessários, como ingestão de água, renovação de filtro solar e outras providências, seguimos adiante.


Nesse primeiro trecho ainda é possível o trânsito de veículos.

O Sr. Antônio, veterano no roteiro, pois o percorria pelo 15º ano, partiu na frente e eu o acompanhei a uns 100 m de distância.

Nos primeiros dois quilômetros, encontramos casas, animais domésticos e caminhões carregando madeira recém-abatida.

Contudo, na entrada de uma fazenda ecológica, encontrei uma porteira fechada que só tem espaço para a passagem de pedestres, cavaleiros, ciclistas e motociclistas.


A partir dessas porteiras, carros/caminhões não passam.

Carros ali, nem pensar!

Então o caminho se tornou uma trilha muito bem cuidada, localizada em meio à mata fechada, onde também há coníferas.

Eu estava basicamente a uns 150 metros do ponteiro, o Sr. Antônio e, aproximadamente a 200 metros dos outros quatro caminhantes que vinham à minha retaguarda.


A trilha é silenciosa e sombreada.

Então, solitário, tive tempo de observar tudo, fotografar, ouvir os sons da natureza e viajar em meu interior, face ao clima propício para uma saudável reflexão.

Porquanto, a mata nativa se exibe ali, orgulhosa em seu estado original. 


Momentos do mais puro encanto.

O ambiente seguiu fantástico e o oxigênio inspirado escaldava nos pulmões, tamanha sua concentração e pureza.

Caminhei, então, por bom tempo, em meio a árvores medianas, onde uma grande paz adormentava o ambiente, cujo silêncio era quebrado, de quando em quando, pelo piar dos pássaros que ali habitam.

Uma borboleta azul, daquelas gigantes, passou voando à minha frente como se estivesse me guiando pelo caminho.

A mata nativa praticamente abraça o peregrino.

Alguns raios de sol perpassavam com dificuldade por entre as frestas das copas das árvores, formando ilhas de luz sobre as sombras que cobriam o chão.

Nele, num local mais adiante, em vasta extensão, uma correição de formigas se movia assanhada.


Possivelmente, o trecho mais belo de todo o caminho.

Foram 3.500 metros que venci encantado, enfeitiçado mesmo, pelo que vivenciei nesse maravilhoso intermeio.

Para mim foi, sem sombra de dúvidas, o local mais belo e exuberante que encontrei em todo o roteiro, desde Itatiba até Aparecida.


Retornando a locais abertos, já na Fazenda Boa Vista.

Ao emergir da umbrosa mata encontrei uma porteira e após atravessá-la, saí num local arejado, onde existia uma casa do lado direito.

Naquele local eu estava na Fazenda Boa Vista, conforme me explicava uma placa que avistei depois.

Ali, um jovem concertava sua motocicleta.

A partir daquele marco já era permitido novamente o trânsito de veículos, mas, certamente, utilizado apenas pelos parcos moradores daquele enclave.

O roteiro prosseguiu arejado e observando à minha esquerda, vi um bosque fechado onde sobressaíam milhares de pés de araucárias, espécie cuja origem remonta mais de 200 milhões de anos, quando sua população se disseminava pelo Nordeste brasileiro.

Sua forma é inconfundível, com um tronco colunar que pode chegar a 50 m de altura e 2,5 m de diâmetro, com uma casca rugosa e persistente de 15 cm de espessura, sustentando uma copa de simetria radial em candelabro ou umbela.

É fonte de alimento para a fauna local e a cutia, como grande apreciadora que é do pinhão e pelo costume que tem de enterrar as sementes, para comê-las depois, talvez seja, graças a este comportamento, uma das disseminadoras mais importantes do pinheiro.

É tradição no Sul do Brasil, principalmente no Paraná, considerar a gralha-azul como o principal dispersor da pinheiro-do-paraná, porém, ela raramente desce ao solo, vivendo o tempo todo no alto das árvores, na floresta.

Quem esconde o pinhão no chão, para possivelmente vir buscá-lo mais tarde, é a gralha-picaça ou gralha-amarela, Cyanocorax chrysops...

Na Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais, entre os principais dispersores desta espécie podem ser mencionados os aiurus, os tucanos, as tiribas e os macacos.

O homem, que também utiliza o pinhão na sua alimentação, pode, em certos casos, funcionar como agente dispersor.

Entre outros animais que se beneficiam das sementes estão quatis, pacas, bugios, ouriços, camundongos, esquilos, besouros e formigas.

Dá substrato para mais de 50 espécies de epífitas, entre plantas vasculares, musgos e líquens, e abrigo para os ninhos de 23 espécies de formigas.

A araucária é protegida por lei desde a publicação da Carta Régia de 13 de março de 1797, que reservava os pinheiros para uso exclusivo da Coroa portuguesa.

Em maio de 2001 o CONAMA determinou ao IBAMA a suspensão das autorizações concedidas, por ato próprio ou por delegação, para corte e exploração de espécies ameaçadas de extinção constantes na lista oficial daquele órgão - onde a araucária está inscrita -, excetuando-se os casos de utilidade pública, que devem ser precedidos de um estudo de impacto ambiental.

Os estados sulinos também se dedicaram a criar variada legislação sobre a araucária e sobre a sua floresta.



Graciosa cachoeira descai pelo lado esquerdo.

Enquanto eu repensava da importância dessa espécie para o meio ambiente, pude avistar e fotografar uma graciosa cachoeira, que descaia pelo meu lado esquerdo.

E, embora eu me encontrasse embevecido pelo espetacular entorno, as distâncias iam sendo sobrepujadas, porquanto meus pés mantinham seu ritmo constante.


A araucária domina nesse trecho.

Em determinados locais, caminhei entre paredões de terra clara.


Mais pés de araucária nesse trecho.

Em outros, sob túneis de luz formados pelas frondosas árvores que me ladeavam.


Mata fresca e silenciosa...

E, finalmente, depois de caminhar 8.500 metros por locais mágicos, de beleza indescritível, onde a natureza está integralmente preservada, atravessei uma porteira e me reencontrei com a estrada novamente.

E ali, estrategicamente estacionado, se encontrava nosso “carro de apoio”.

Meu relógio marcava 12 horas e até aquele patamar havíamos caminhado, exatos, 30 quilômetros.


Pausa para almoço..

Como de hábito nessa jornada, almoçamos lanche quente, acompanhado de bebidas e frutas na sobremesa.

O descanso foi profícuo e rendeu boas risadas, contudo, uma hora depois voltamos ao trabalho.

E o percurso sequente, também se mostrou mavioso, situado entre nichos frondosos de mata nativa e plantações de pinheiros.


Na sequência, outro trecho fantástico.

Nesse trecho derradeiro, o pessoal se manteve agrupado e o clima frio auxiliou a manter o alto-astral.

O derradeiro declive da jornada foi feito entre frondosas matas de pinus, recentemente reflorestadas.


Próximos de chegar, peregrinos ainda animados e com muito fôlego.

Sem maiores percalços, aportamos à Pousada Aiyaras do HP, às 15 horas, sob céu nublado e frio emergente.

Afinal, estávamos a 1.400 metros de altitude, num local espetacular, tendo uma grande serra a nos ladear pelo lado esquerdo.


Local onde pernoitamos nesse dia.

Segundo seu site:

“A pousada Aiyras do HP está localizada em ponto privilegiado da serra da Mantiqueira, com visual deslumbrante, contato direto com a natureza, ar puro e uma sensação inexplicável de bem-estar.

Ela se encontra rodeada por uma vegetação rica e possui lareira; além disso, apresenta um lago em sua propriedade e oferece um ambiente relaxante.

O estacionamento é gratuito, e você pode desfrutar de receitas regionais no restaurante.

Os quartos da Aiyras do HP contam com pisos de madeira e têm estilo simples, porém acolhedor, além de incluírem TV e banheiro privativo, com chuveiro de água quente.

O Aeroporto de São José dos Campos fica a 95 quilômetros de distância, enquanto o centro da cidade de Sapucaí Mirim e sua estação rodoviária, estão a 22 quilômetros do estabelecimento”.



Visão desde o terreno da pousada. Do lado esquerdo, a serra do Paiol e o Pico do Campestre.

Bem, após o necessário banho e lavagem de roupas, ficamos a conversar no aguardo do jantar.

Infelizmente, o simpático proprietário do estabelecimento, o Sr. Lélio, havia se enganado na data das reservas e estava em São José dos Campos, mas retornaria em seguida.

Isto acabou por atrasar a refeição noturna que acabou por ser servida após as 20 horas.


O prédio da pousada. Mestre Furlan trabalhando...

Com medo de me exceder, em face do adiantado da hora, ingeri 1 litro de água, depois me recolhi e, confesso, não me arrependi.

No entanto, segundo meus parceiros, o jantar estava excelente.

Como complemento, diria que o local é sensacional, mas não oferece acesso ao wifi e, por isso, fiquei mais um dia sem ter notícias da família.


Com Furlan e Renato, momentos de confraternização antes do jantar.

Custo individual na Pousada Aiyras do HP: R$170,00, incluindo pernoite, jantar e café da manhã.

AVALIAÇÃO PESSOAL: Outra jornada de grande extensão, contudo, com intermeios de massiva beleza, mormente aquele vivenciado na “Trilha dos Pinheiros”, para mim, a “cereja no bolo” de todo o percurso. De se ressaltar sempre, que essa etapa foi uma das mais belas de todas as vivenciadas nesse roteiro. Caminhamos cercados por muito verde e imensas plantações de araucárias, árvore mágica e que deve ser preservada. O pernoite no HP foi um dos melhores do roteiro e, também, o mais caro de todos. No global, um trajeto agradabilíssimo, fresco e pleno de locais e vistas inesquecíveis. Talvez, a etapa mais bela de todo o percurso.