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3º dia - DESCIDA DA SERRA DO CORVO BRANCO


3º dia - DESCIDA DA SERRA DO CORVO BRANCO


Mochilas fechadas, apenas aguardando a hora da partida. Coincidentemente, as três eram da mesma cor e tamanho.

Após a noite tempestuosa, acordamos às 5 h já sem chuva, porém com muita umidade no ar.

Findos os preparativos matinais, nos dirigimos à sede da Pousada, onde pudemos ingerir nosso profícuo e imprescindível café da manhã, em vista das dificuldades que teríamos de enfrentar nesse dia.

Depois, ainda aguardamos um pouco antes de partir, porque a aurora demorava a surgir e ninguém portava lanterna.


Com o dia principiando a clarear, a Celina e o Perdiz caminham à minha frente.

Mas, às 6 h 30 min, quando a claridade lentamente espancava as trevas, saímos os três, observando as serras que nos ladeavam todas tomadas por intensa neblina.

O dia amanheceu promissor, com temperatura amena, o que indicava que teríamos condições excelentes em nossa jornada.


A claridade revela uma estradinha plana e bucólica, por onde havíamos transitado no dia anterior debaixo de sol ardente.

Voltamos pelo mesmo caminho do dia anterior, com a diferença de que agora o clima se mostrava fresco e arejado.


Lentamente, o Perdiz e a Celina vão ficando à minha retaguarda.

Lentamente o Perdiz e a Celina foram ficando à minha retaguarda, e eu segui sozinho com meus pensamentos e orações.


Caminhando em ritmo diferente, logo fui perdendo de vista o Perdiz e a Celina.

Completados 3 quilômetros de caminhada, reencontrei a bifurcação onde adentrara no dia anterior, então, girei à esquerda e prossegui pela rodovia SC-439 em direção à Serra.


Bifurcação que havia encontrado no dia anterior. Nessa ocasião, fui à direita, retornando à rodovia SC-439.

E logo enfrentei muito barro, pois as máquinas que trabalham no asfaltamento da pista haviam deixado o solo com muita terra solta, onde a água acabou por empoçar, face à intempérie da noite anterior.


Seguindo em direção ao pico da Serra do Corvo Branco, em meio a muito barro, pois chovera forte na noite anterior.

Mais acima o roteiro lentamente se empinou e passei a caminhar numa estrada cascalhada, situada em meio a um esplendoroso entorno verde, onde as araucárias e as matas de altitude davam o tom.


A rodovia, sempre em ascendência, me levou a transitar entre muito verde e matas preservadas, num trajeto agradabilíssimo.

O cenário belíssimo me levou a transitar sempre em ascendência e, depois de uma hora e intensa transpiração, finalmente, cheguei ao topo da serra.


Chegada ao topo da Serra do Corvo Branco, a 1239 m de altitude.

Ali o clima se encontrava frio e ventoso, lembrando que eu estava a 1239 m de altitude.


Vibrando de alegria no alto da Serra, antes de iniciar a temível descida.

Fiz uma pausa no local para apreciação da paisagem circundante, hidratação e ingestão de uma banana, enquanto aguardava pela chegada dos meus dois companheiros peregrinos.


Alegria compartilhada com o Mestre Gilberto Perdiz, por mais um sonho realizado.

Quando eles ali aportaram, fizemos algumas fotos, nos confraternizamos por mais aquela vitória, depois me despedi deles e, novamente solitário, iniciei a famosa descida da Serra do Corvo Branco.


O entorno mostrava-se nebuloso  e escuro: choveria nesse dia? Dúvida cruel..

Na verdade, estávamos sem sinal no celular desde o dia anterior, e necessitávamos contatar o taxista que iria nos apanhar em Grão Pará.

Além disso, urgia fazer a reserva no Hotel Zata em Criciúma, onde iríamos pernoitar nesse dia.



Altimetria da descida da Serra do Corvo Branco capturada pelo peregrino Perdiz, diretamente no Google Earth.

Assim, tomei essas incumbências a meu encargo para serem envidadas assim que eu chegasse à Aiurê, medida que se mostrou inócua porque lá também não existe nas imediações torre de repetição de nenhuma operadora.

Então, já descendendo, logo no início adentrei em uma “garganta”, onde se atravessa em meio a dois paredões de pedras com 90 m de altura, naquele que e considerado o maior corte rodoviário em rocha arenítica do Brasil.


A HISTÓRIA DA SERRA DO CORVO BRANCO


A Serra do Corvo Branco foi a primeira estrada a ligar o Litoral à Serra de Santa Catarina e tem formação rochosa de 160 milhões de anos.

Ela faz parte da rodovia SC-439, entre Urubici e Grão Pará e, na região, algumas curvas são bastante fechadas e o tráfego de veículos maiores é proibido, segundo a Prefeitura de Urubici.

O percurso, com fortes subidas e curvas fechadas, ora junto dos precipícios ora passando entre fendas de até 90 metros de altura escavadas nas rochas, é de uma obra de engenharia invejável, que deve mérito ao ex-prefeito da cidade de Urubici, Natal Zilli (1969).


Placa explicativa fincada logo no início da descida da Serra.

A despeito de opiniões pessimistas sobre a viabilidade do projeto, Zilli empenhou-se de tal forma na execução da estrada que chegou a trabalhar como operário na sua construção, para cumprir o expediente de prefeito apenas à tarde.

Um sinal da disposição cabocla que se arraigou, ao longo dos séculos, na alma dessa gente que habita o alto da serra no Sul do Brasil.

Gente que aprendeu a enfrentar as adversidades impostas pelo frio e pelo isolamento das montanhas naquelas latitudes.

No início da Serra do Corvo Branco há uma placa que explica as formações rochosas da região.

Ao longo da descida há uma faixa vertical de rocha mais escura, explicando que esta parte da rocha, um dique de basalto, foi formada há 160 milhões de anos, e resultou do resfriamento de lava incandescente.

O basalto, chamado também de Formação Serra Geral, cobre toda a extensão do arenito.


Foto batida dentro do maior corte em rocha arenítica do Brasil.

Além da estrada, é possível realizar uma caminhada pela borda, onde é possível observar a Serra do Corvo Branco por cima da fenda e vislumbrar parte da Serra Geral.

O principal atrativo da Serra do Corvo Branco é a parte conhecida como “garganta”, onde a estrada atravessa dois imensos paredões com 90 metros de altura, num trecho que é considerado o maior corte em rocha arenítica do Brasil.

Do lado esquerdo o paredão é úmido e do lado direito é seco, e isso se justifica por causa da inclinação leste-oeste do Arenito Botucatu, que forma o Aquífero Guarani.

A estrada tem este nome por causa do urubu rei, ave de plumagem branca que foi, erroneamente, chamada de corvo.

O animal possui uma envergadura que varia de 170 a 198 cm e peso que oscila de 3 a 5 quilos.


Explicações sobre a origem do nome da Serra do Corvo Branco.

Ele tem poucos predadores naturais, mas, devido à baixa reprodutividade da espécie e à degradação do seu habitat, é uma espécie cada vez mais rara de se observar.

A rodovia é asfaltada na maior parte do trecho, mas quando o este acaba, ainda é preciso caminhar por aproximadamente 5 quilômetros numa estrada de chão até chegar ao asfalto de novo.

Atualmente ela está fechada para o trânsito de veículos, pois será integralmente asfaltada, estando seu leito liberado apenas para ciclistas e caminhantes.


PROSSEGUINDO NA CAMINHADA


Visual fantástico na descida, que é íngreme e pode causar danos aos joelhos dos caminhantes menos preparados.

Seguindo já solitário, encontrei na primeira curva do caminho placa explicativa de onde provinha o nome da serra.

Trata-se de uma ave de rara beleza, conhecida como Urubu rei.

Esta ave de plumagem branca e alguns detalhes coloridos, desconhecida pelos habitantes locais, foi apelidada erroneamente de corvo, originando o nome Corvo Branco.

Logo se descortinou ante meus olhos uma paisagem de tirar o fôlego, porque avistava vertiginosos precipícios, ladeados por imensos paredões pétreos.


Vista mágica, de intensa beleza.

Do alto da serra, a visão do vale é indescritível e merece uma pausa de alguns minutos de silêncio absoluto e contemplação.

O que veio depois? Foram sinuosas e perigosas curvas que jamais pude ver em uma estrada!


Vista a 1.100 m de altitude, em rápido descenso.

Foram mais 5 quilômetros de descidas íngremes, precipícios que fizeram alguns “valentes” não prosseguirem adiante.

Em volta, a mais imponente criação da natureza: a serra, cujos picos parecem dentes de tubarão apontados para o céu.


"...dentes de tubarão.."

Após o “portal”, há uma sequência impressionante de curvas em um desnível extremamente acentuado.

Este trecho, devido a sua dificuldade, foi pavimentado, porém o restante da estrada é todo de pedra ou terra, muito estreita e obviamente sem qualquer tipo de proteção ou defensa metálica nas laterais.


Estrada em péssimo estado de conservação.

Apesar de todas essas dificuldades, acreditem, caminhões madeireiros encaram a serra e suas curvas.


Isto é estrada? Está mais para uma trilha.

A descida prosseguiu por uma pista estreita, com curvas acentuadas nos mais diversos ângulos e inclinações.

Não por acaso, ela é considerada uma das mais perigosas do Brasil, por isso é preciso ter muito cuidado ao descê-la.

O lugar é impressionante, pois os paredões são muito altos e o som dos pássaros e das pequenas cascatas ecoa e se propaga por todo o entorno.

Nesse trecho, pude ver inúmeras nascentes e cachoeiras em meio a uma vegetação remanescente de Mata Atlântica, onde é possível observar inúmeras espécies de pássaros, incluindo beija-flores e arapongas.


Vista à minha retaguarda...

Mais abaixo, já em franca descendência, encontrei muito barro e buracos na pista, sinal de que a manutenção na estrada deixou de ser feita há muito tempo, embora ainda existam pessoas que arrisquem a descer a serra, porque no momento, o serviço de terraplenagem nesse trecho, visando seu asfaltamento, foi interrompido.


Já bem em baixo, volvendo à retaguarda, é possível ver o corte existente no paredão rochoso por onde eu iniciara a descida no morro.

Em determinado local, a aproximadamente 600 m de altitude, observando a minha retaguarda, conseguia identificar a imensa fenda existente na rocha bruta situada no topo da serra, por onde eu havia passado, sem dúvida, numa paisagem inesquecível.

Ainda em descenso, observando à minha esquerda, podia avistar um imenso bosque de araucárias e pinheiros que cobriam até onde minha vista alcançava, numa paisagem de verde incomensurável.


Uma paisagem de verde incomensurável..

Bem mais a baixo, a altimetria praticamente se nivelou, mas revelou a péssima condição da estrada, quase intransitável, em face dos imensos barreiros que havia em seu leito.


Essa estrada está sendo asfaltada, então encontrei muito barro e convulsão em seu leito.

Fui patinando, passando em meio a poças d'água e, em alguns locais, utilizando atalhos naturais, como barrancos e caminhos paralelos.

A estrada seguiu serpeante, ainda em franco descenso e, nesse trecho específico, encontrei apenas 2 veículos que vinham contrários a minha direção.


Mais barro para transpor na estrada e que, infelizmente, aderia fortemente às minhas botas.

Por sinal, soube depois, que um deles enfrentou problemas numa curva e precisou da ajuda do Perdiz, que auxiliou o motorista a empurrá-lo para fora de um atoleiro.


A estrada serpenteia à minha frente, sempre em franco descenso.

Quase no final da jornada, transitei em meio a espesso bosque de pinheiros, onde avistei algumas casas simples de pessoas que ali residem e labutam na queima e fabricação de carvão vegetal.

Na sequência, encontrei trechos quase intransitáveis, felizmente a pé tudo fica mais manejável, mas um carro de passeio normal, com certeza, iria enfrentar apuros nesse trajeto.


Estrada lisa em face da chuva do dia anterior.

Mais um quilômetro e do morro, olhando para baixo, pude avistar o distrito de Aiurê, cuja sede é Grão Pará, minha primeira meta para aquele dia.


O distrito de Aiurê, que pertence à cidade de Grão-Pará, aparece abaixo e à minha frente.

Já no plano e dentro da povoação, transitei em meio a uma grande madeireira, transpus o rio Pequeno por uma ponte de madeira e segui caminhando pela rua principal da simpática vila.


Ultrapassando o rio Pequeno por uma ponte de madeira, para acessar a rua principal do pequeno distrito.

Num local onde encontrei comércio, entrei no bar do Edilson para pedir informações e acabei ali permanecendo no aguardo de meus companheiros.

Que chegaram mais tarde, bastante estafados, em razão dos grandes entraves enfrentados na jornada.


Bar do Edilson, onde fizemos nossa parada.

Infelizmente nossos telefones celulares prosseguiam mudos, de forma que não consegui manter contato com o taxista que iria nos resgatar em Grão Pará.

Por outro lado, em conversa com moradores locais, fomos dissuadidos da ideia de prosseguir caminhando, visto que a estrada após Aiurê está em fase final de pavimentação, fato que, como pudemos ver “in loco”, a pista está sofrendo terraplenagem, aterros, e desvios estão sendo construídos, etc..

Mesmo transitando a pé, precisaríamos dividir a estrada com motoniveladores, caçambas e tratores.


Comemorando o final da jornada do dia no Bar do Edílson, enquanto aguardávamos o táxi.

Diante desse cenário, optamos por encerrar nossa jornada naquele local, avaliando que, apesar das dificuldades sofridas na caminhada, as paisagens na descida do Corvo Branco compensaram todo o esforço.


Este cartaz pregado no interior do bar nos fez dar muitas risadas.

Em seguida, contratamos um taxista e, enquanto aguardávamos sua chegada, brindamos o final do percurso com uma cerveja bem gelada, enquanto ingeríamos alguns salgadinhos.

Na saída da minúscula localidade, ainda pudemos fotografar a estátua da indiazinha que deu nome ao local, cujo monumento se encontra fincado numa grande praça localizada defronte a igreja matriz do povoado, cujo padroeiro é o Bom Jesus.


A estátua da índia que deu nome ao distrito. Ao fundo, a igreja do Bom Jesus.

Uma placa nela inserta, conta a história do distrito e a trágica morte da pequena silvícola.

Seguimos no fusca do Aírton, num percurso difícil e arriscado, pela quantidade de máquinas que se encontravam trabalhando na estrada, cujo leito se achava barrento e, em alguns locais, extremamente convulsionado.


Em Criciúma, aguardando o jantar, com o Perdiz e o Carmo.

Por sorte, chegamos bem em Grão Pará, onde rapidamente contratamos outro taxista que, mesmo debaixo de pavoroso aguaceiro, nos levou com segurança até o Hotel Zata, em Criciúma, onde conseguimos fazer reserva para aquela noite.


Brindando com os amigos, duas autênticas "feras" peregrinas, pois o dia fora valioso em termos de realização.

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