1º dia: SERTÃOZINHO a DUMONT – 21 quilômetros


1º dia: SERTÃOZINHO a DUMONT – 21 quilômetros

Que Maria sempre enfeite sua alma com as flores e o perfume de novas virtudes e coloque a mão materna sobre sua cabeça. Fique sempre e cada vez mais perto de nossa Mãe celeste, pois ela é o mar que deve ser atravessado para se atingir as praias do esplendor eterno no reino do amanhecer.” 

A jornada do dia seria curta e, praticamente, sem dificuldades altimétricas.


Não havia pressa na chegada, de forma que tranquilamente ingeri o café da manhã, depois me preparei para partir.


Iniciando a primeira jornada. Momento tenso! Lá fora, a temperatura beirava 6 °C.

Deixei o local de pernoite às 7 horas, quando o trânsito já era intenso pelas ruas da cidade, composto por motocicletas, vans escolares, ônibus, automóveis e outros veículos.

Fazia bastante frio e pelo que verificara na internet, a temperatura estava ao redor de 8 °C.

Uma placa do Caminho da Fé amarrada num poste situado defronte ao hotel, me informava que restavam 571 quilômetros até Aparecida, minha meta final.


Ao longe, o Mirante do Cristo Redentor.

A sinalização urbana está perfeita, de forma que não tive dúvidas, em nenhum momento, quanto ao rumo a tomar.


Parque do Cristo Redentor, em Sertãozinho.

Dois mil e oitocentos metros depois, eu passei diante do Parque Municipal “Antônio Gimenes Filho”, onde se localiza o Mirante do Cristo Salvador, recentemente inaugurado.

Os portões de acesso ainda se encontravam fechados, mas foi possível verificar que o local está muito bem cuidado e deve ser um ponto de maciça visitação por parte de turistas e dos sertanezinos.


Portal da cidade de Sertãozinho.

Prosseguindo, mais abaixo, eu ultrapassei o portal de acesso à cidade e, numa rotatória, tomei à esquerda, seguindo, ainda em asfalto, pela Estrada Municipal Américo Strimi.


Imagem de Nossa Senhora localizada próximo ao Portal da Cidade.

Com cinco quilômetros percorridos, finalmente as setas amarelas me direcionaram para uma estrada de terra, situada à direita.


Início do trecho em terra, caminho situado à beira de canavial recém-cortado.

E logo eu estava caminhando ao lado de uma mata ciliar, tendo um amplo terreno à minha esquerda, onde a cana ainda estava em formação, com baixa estatura.

Depois de atravessar um pequeno bosque, prossegui em ascendência, em meio a outra grande plantação de cana, com ampla visão que se estendia por todo horizonte, pois ela também fora recentemente cortada.


Retão infinito...

Eu me encontrava solitário, debaixo de um céu azul, temperatura agradável, sol fraco, tudo o que um peregrino deseja.

Mais acima, passei a transitar entre plantações de cana já em ponto de corte, sempre entre carreadores.


Apesar da dificuldade, trecho muito bem sinalizado.

Por sorte, a marcação do Caminho da Fé, nesse trecho, mostrou-se estupenda.

Porquanto, há chances de confusão, tendo em vista que esta é uma região de extensos canaviais.

Como, mesmo sem querer, se algum caminhão derrubar a seta/marca pode deixar o peregrino sem direção, pois é quase impossível se orientar no meio da plantação, principalmente se a cana estiver muito alta.


Caminhando entre canaviais.

A partir de determinado local, eu passei a caminhar em meio a hastes de 3 metros de altura, e minha visão ficou extremamente limitada.

Por isso, segui observando, atentamente, à sinalização, uma vez que se me perdesse, não saberia para que lado ir, já que não conseguia ver o horizonte.


A cana-de-açúcar é a tônica nessa etapa.

A esse respeito, faço minha as palavras que estão insertas no site: http://peregrinosecianocaminhodafe.blogspot.com.br/, que reproduzo abaixo.


Solitário na trilha: hora de festejar!

“Esclarecemos que o trecho Sertãozinho-Cravinhos apresenta como peculiaridade o fato de estar na região de maior densidade de canaviais do mundo. É percorrido em cima das melhores terras do Brasil, empoeiradas no inverno e lamacentas no verão. Assim, aliando interesses municipais, oportunidades de sombras e certeza direcional na travessia de canaviais, mourões protetores e estacas foram estrategicamente plantados para a sinalização com as tradicionais setas amarelas. Por isso, não se consegue evitar o ziguezague, necessário para encurtar algumas distâncias e proporcionar meios de reabastecimento e descanso. Deve o peregrino ficar atento, notadamente quando a cana estiver alta.”


Paula para descanso e hidratação.

Em determinado local, depois de percorridos 10 quilômetros, fiz uma pausa para ingestão de uma banana e hidratação.


Caminho plano e retilíneo.

Depois prossegui por uma estrada retilínea, onde a cana já havia sida colhida do lado esquerdo, me possibilitando visualizar melhor o entorno.


Piso vermelho e enlameado.

O piso vermelho estava úmido em alguns locais, em face das intensas chuvas recentes mas, por sorte, barro ou alagados eu encontrei em apenas alguns locais específicos.

Percorridos 12.500 m, passei diante de uma singela capelinha azul que, somente por milagre, ainda se encontra em pé no meio do canavial.


Uma capelinha que milagrosamente não foi engolida pelos canaviais.

Ali me persignei em sinal de respeito, fiz algumas orações, depois segui adiante.

O roteiro seguiu deserto e silencioso.


Canaviais a perder de vista.

Ora eu transitava entre carreadores, com a cana em ponto de colheita, outras vezes, por locais arejados.


A cidade de Dumont já aparece no horizonte.

E depois de percorrer 14 quilômetros, do alto de um morro, pude visualizar a cidade de Dumont, localizada abaixo, num fértil vale.


Em descenso, junto a um cafezal.

Um quilômetro à frente, junto à um cafezal, eu principiei a descender e logo adentrava em zona urbana.

Logo passei diante da igreja matriz de Dumont, dedicada à Nossa Senhora da Imaculada Conceição, uma cidade situada 595 m de altitude, distante 18 quilômetros de Ribeirão Preto.


Igreja matriz de Dumont.

Dentre as atividades econômicas do município, as que mais se destacam são a lavoura de cana-de-açúcar e as indústrias de diversos segmentos.

No entanto, a cidade está despontando como um grande polo industrial do interior de São Paulo e, nesse sentido, podemos citar algumas empresas de grande porte, ali localizadas, tais como: Rio Alimentos, Doces Balsamo, Usina São Martinho e BM Dumont, uma empresa fabricante de equipamentos agrícolas.

O município se formou da antiga Fazenda Arindeúva, comprada por Henrique Dumont, genitor de Alberto Santos Dumont, o Pai da Aviação, e transformada em fazenda-modelo para produção de café.

Por sinal, o imóvel que servira de sede para a fazenda é hoje utilizado como paço municipal.

Eu atravessei a minúscula povoação, onde vi praças bem cuidadas, povo educado, e o jardim onde estão expostos as relíquias que fazem referência ao “Pai da Aviação”, Santos Dumont, e ao seu genitor.


A praça central de Dumont.

A cidade tem origem histórica ligada à família de Henrique Dumont, pai de Alberto Santos Dumont, o “Pai da Aviação”.

Em 1879, Henrique Dumont, engenheiro e proprietário de lavouras diversas, adquiriu da família Silva Prado a Fazenda Arindeúva. Mudou-se com sua esposa Dª Francisca Santos Dumont e seus sete filhos e em dez anos de trabalho ininterrupto, a Fazenda Dumont, que assim passou a chamar-se, tornou-se uma propriedade agrícola modelar.


Locomotiva Baldwin – Utilizada na Fazenda Dumont.

Henrique Dumont não mediu esforços para desbravar as matas que a fazenda possuía e transformá-la numa grande produção de café. Ele construiu aqui o que chegou a ser a maior propriedade agrícola do Brasil, com cinco milhões de cafeeiros em plena produção, o que lhe valeu o título de “Rei do Café.

Com a ajuda dos colonos, foi idealizando, criando e construindo. Em 1894, na fazenda Dumont já se arava terras com tratores a vapor e se utilizava secadores mecânicos para café. Com espírito de iniciativa e audácia, Henrique Dumont construiu uma estrada de ferro para serviço exclusivo da propriedade, esta percorria os cafezais e levava o produto de exportação para a Estação da Alta Mogiana em Ribeirão Preto, numa extensão de 30 quilômetros.

Henrique Dumont, já muito doente, vendeu a Fazenda à Companhia Melhoramentos do Brasil, entretanto pouco tempo a mantiveram em seu poder. Em 1894, a propriedade foi transferida a um grupo de Capitalista Ingleses, que constituíram a “DUMONT COFFEE COMPANY”. Foi conservado o nome do fundador, não só como justa homenagem, mas também em atenção a projeção que este mantinha nos mercados mundiais do café.


Busto em Homenagem a Alberto Santos Dumont – Pai da Aviação.

Com o dinheiro deste negócio, Henrique Dumont garantiu ao filho ALBERTO SANTOS DUMONT, os recursos necessários ao financiamento de suas experiências com balões dirigíveis e aeroplanos.

No início da Companhia Agrícola Fazenda Dumont, o braço escravo fazia parte da mão de obra, mas pelo fato do Dr. Henrique não acreditar nesse seggmento, estes foram substituídos pelo trabalho livre e remunerado, como dos imigrantes italianos, espanhóis, alemães, portugueses, e outros, predominando o imigrante “italiano”

Estes imigrantes juntaram-se e fizeram sua própria história, são famílias que hoje continuaram trabalhando aqui em prol do desenvolvimento do Município. Isto explica a etnia do povo dumonense formado essencialmente por descendentes de italianos.

Em 1953,foi criado o Distrito de Dumont, o qual passou a ser Distrito de Ribeirão Preto.

Em 1963,pela Lei nº 8.050,de 31/12/1963, era o então Distrito de Dumont, transformado em Município.

Dumont, hoje tem 9.000 habitantes, sua economia está voltada a cultura da cana-de-açúcar, amendoim e a indústria e comércio dos produtos da suinocultura e industrialização de produtos com amendoim.. (Fonte: http://dumont.sp.gov.br)


Avião Doado Pela Força Aérea Brasileira ao Município de Dumont.

Eu transitei calmamente pelo pequeno lugarejo, conversei com moradores, fiz algumas fotos, depois segui adiante.

O Caminho passa diante do Museu Histórico de Dumont – SP, porém o mesmo se encontrava fechado e em seu frontispício não havia indicação dos dias em que ele abre, nem o horário de funcionamento.


A antiga sede da Fazenda que pertencia ao pai de Santos Dumont. Hoje nela funciona a Prefeitura Municipal da cidade.

Esse estabelecimento, embora incipiente, preserva alguns objetos de Santos Dumont, réplicas de seus inventos e de alguns documentos que testemunham a sua passagem pelo local e o seu trabalho em prol da aviação.

Hoje, consultando a internet, consegui as seguintes informações: Museu Histórico de Dumont – SP - Av. 13 de Maio x Av. 21 de Março - Telefone: 55 16 3944 – 9100 - Horário: 3ª à 6ª das 10 h às 16 h 30 min.

Eu passei ali numa sexta feira, depois das 10 horas, e inexplicavelmente, suas portas permaneciam cerradas.

Prossegui adiante um tanto frustrado, porque tinha vivo interesse em visitá-lo, já que sou um admirador incondicional desse gênio brasileiro.


Descendendo em direção à Pousada Veronezi.

Observando à sinalização, caminhei uns 2 quilômetros por asfalto, depois voltei a transitar em terra e, como de praxe, entre extensos canaviais.

O caminho plano e de piso socado me proporcionou nesse trecho final bons momentos de silêncio e introspecção.


Chegando à Pousada Repouso do Peregrino.

Finalmente, percorridos 21 quilômetros, cheguei à Fazenda Albertina, local onde fiquei hospedado nesse dia, distante 4.500 m da cidade de Dumont.

No local está instalada a Pousada Veronezi “Repouso do Peregrino”, que oferece amplas instalações, como cozinha, sala de estar, TV, lavanderia e um quarto com 4 beliches.

Enquanto eu me dirigia à residência da responsável pelo local, para obter as chaves da habitação, tive o prazer de encontrar o peregrino Isidro, de Ribeirão Preto, que percorria o Caminho de bicicleta, e parou ali para carimbar sua credencial.

Seguimos conversando animadamente até a casa sede, onde fomos entusiasticamente recebidos pela Dona Helena, a proprietária da Fazenda Albertina.


O ciclista-peregrino Isidro, de Ribeirão Preto, com quem me encontrei na Pousada Veronezi.

Depois de fotos e cotejamento de nossas experiências peregrinas, Isidro seguiu adiante e eu, como único peregrino a pernoitar ali, tomei conta de todo o espaço disponível na Pousada.

Após um banho retemperador e a necessária lavagem das roupas, fui almoçar.

A refeição foi feita em companhia de toda a família que ali habita, em clima de afabilidade e descontração, na cozinha da própria casa onde Dona Helena reside.


Pesque pague da Fazenda Albertina.

Na Fazenda Albertina, tradicional e histórica propriedade, foram implantados o pesqueiro, restaurante e açougue de carne suína Veronezi,

Sua história mereceria um capítulo a parte.

Esta propriedade, hoje parcelada, tanto é que a família Veronezi possui apenas 100 hectares, foi uma das maiores seções da grande Fazenda Dumont, que deu origem à cidade homônima.

Apenas para se ter uma ideia de sua importância e produção cafeeira, tinha ela um ramal da Estrada de Ferro Dumont, justamente aquela em que Alberto Santos Dumont, aprendeu os rudimentos de mecânica, que o tornaram o inventor do avião.

A fazenda em questão, que, por primeiro, pertenceu a Martinho Prado Júnior, que deu o nome de Albertina porque este era o nome de sua mulher, foi vendida a Henrique Dumont em 1.890.

Depois pertenceu aos ingleses, que adquiriram toda a Fazenda Dumont, tendo sido parcelada por volta de 1.940, tendo sido adquirida por vários ex-colonos da fazenda e outros agricultores.

Hoje, ali, a família Veronezi a explora plantando cana-de-açúcar, amendoim, vendendo notáveis produtos derivados da carne suína e como local de entretenimento, como pesque e pague e restaurante.

Fonte: http://peregrinosecianocaminhodafe.blogspot.com.br/



Local por onde eu deixaria a Fazenda na manhã seguinte.

Mais tarde, após descansar, fui conhecer o pesqueiro, bem como observar atentamente o local por onde eu deixaria o local na manhã seguinte, pois sairia ainda no escuro.

Como encontrei tudo muito bem sinalizado, despreocupado, retornei e fui até a casa de carnes conhecer a famosa linguiça suína que ali é comercializada.

À noite, o jantar transcorreu no mesmo local da refeição vespertina.


Dona Helena, pessoa boníssima e proprietária da Pousada Veronezi.

Depois, conversei bastante com Dona Helena, uma senhora atenciosa, ponderada e muito hospitaleira.

Sinceramente, ali eu me senti em casa, tal a lhaneza do tratamento a mim dispensado.


Os fortes "guardas" que velaram por meu sono naquela noite.

E logo retornei ao local de pernoite, onde desfrutei de uma profícua e tranquila noite de sono.

IMPRESSÃO PESSOAL – Uma etapa de pequena dimensão e bastante agradável, pois também não apresenta dificuldades altimétricas. Embora o forte nesse trecho sejam os canaviais, a passagem pela cidade de Dumont é um capítulo a parte, um mergulho na história, e que muito me emocionou. Já a Pousada Veronezi é dos locais mágicos do Caminho da Fé, onde Dona Helena recebe o peregrino com o coração aberto e extrema hospitalidade. Vale a pena conferir!



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