8ª Jornada - PORTUGALETE a CASTRO-URDIALES

8ª Jornada – Portugalete a Castro-Urdiales - 28 quilômetros: “Adeus ao País Vasco!”


                A jornada seria relativamente longa, de forma que, como de praxe, decidi sair o mais cedo possível.

  Assim, me levantei às 5 h 30 min e uma hora depois deixava o local de pernoite, seguindo em direção ao centro comercial da urbe, por uma rua íngreme e escorregadia.

            Mais acima eu atravessei a rodovia que liga Bilbao a Portugalette e, logo à frente, num semáforo, girei à esquerda, prosseguindo pela Avenida “EL Ojillo” até a ermida dedicada a São Roque, o santo protetor da cidade.

            Na sequência eu segui, à esquerda, na direção do cemitério local, por uma rodovia vicinal.

            Contudo, mais abaixo, depois de passar defronte à monumental escultura “La Casa de Hierro”, uma obra de Agustín Ibarrola, deixei o asfalto e prossegui à direita, por uma ciclovia nova e de traçado espetacular, já que atravessa a Autovia Nacional em nível superior e prossegue por quase um quilômetro, suspensa em pilares, cuja altura varia de 30 a 50 metros.

            Mais à frente a pista voltou a encontrar sua altimetria natural, pois desceu à terra firme e, ali, do lado direito, iniciou-se uma pista exclusiva para caminhantes.

            Quase em seguida, a chuva retornou de maneira contumaz, ainda que em forma de garoa.



            Então, fiz uma parada estratégica para me hidratar, ingerir um pedaço de chocolate e vestir minha capa de chuva.

            Na sequência, prossegui sempre sobre asfalto, em meio a muito verde, por mais nove quilômetros até aportar, às 9 h 30 min, na “Playa de La Arena”, pertencente ao povoado de Zierbana, e ali me reencontrei novamente com o mar Cantábrico.

            Na pequeníssima localidade tudo estava silencioso e avistei apenas um bar aberto, porém eu estava bem provido, de forma que segui adiante, agora caminhando, primeiramente, por vegetação rasteira, típica de zona aquática, depois pela areia da praia.

            Quinhentos metros percorridos, eu atravessei o rio Barbadun, por uma extensa ponte de ferro, exclusiva para pedestres.

   Suas estruturas exteriores exibiam uma tinta em berrante cor vermelho-ocre.

            Já do outro lado, desci uma grande escadaria e continuei a caminhar numa estreita ciclovia, até chegar num enorme estacionamento de automóveis, já na pequena e carismática Pobeña.

            A origem dessa pequena vila remonta 1.860, quando surgiram as primeiras explorações mineiras na região, mais precisamente, entre as cidades de Cobarón e Ontón.

            Mclennan Servo Supplies foi a companhia inglesa que construiu as primeiras obras de infraestrutura nesse local, há mais de 50 anos, porém, todo esse entorno mineiro está completamente abandonado, e a própria natureza está assimilando o que um dia fez o homem.

            Atualmente, existe uma grande preocupação ambiental quanto ao desenvolvimento dessa área, procurando-se aproveitar principalmente o potencial turístico, em razão de suas belezas naturais e das riquezas da fauna e flora existentes nesse lugar.



            Defronte a uma pequena praça, pude ver uma grande placa indicando a localização do albergue de peregrinos, porém ainda era muito cedo e minha meta para aquele dia ainda estava muito distante, de forma que, após breve pausa para fotos, prossegui em frente.

             E o fiz, seguindo à direita, e depois de vencer uma grande escadaria, um tanto escondida pelo matagal existente em seu entorno, ascendi ao traçado da antiga ferrovia mineira do século XIX.

   Prossegui, então, próximo ao mar, por uma pista cimentada, situada entre um barranco pétreo e uma cerca de madeira, que serve de proteção aos caminhantes.

            Nessa toada, segui por aproximadamente 1 hora, no plano, sempre beirando o oceano, com vistas preciosas, sendo que, nesse trecho específico não existe praia, mas um abismo representado por penhascos de uns 100 metros até a água, no fundo do precipício.

            Pena que o dia prosseguiu frio, com chuviscos intermitentes e muito vento, o que obscureceu um pouco meu passeio por esse inesquecível local, pois são sete quilômetros, simplesmente magníficos.

            Durante o trajeto encontrei pessoas a desfrutar o dia de lazer, fontes de água potável, bancos e mesas para descanso e piquenique, além da minha vista alcançar até o infinito, posto que de onde eu me encontrava via inúmeras cidades costeiras, algumas a dezenas de quilômetros adiante.



            Depois de aproximadamente uma hora caminhando, ultrapassei um singelo marco próximo à cidade de Baltezama, e ali deixei definitivamente o País Vasco para adentrar na Província da Cantábria, cuja capital é Santander.

            Um pouco mais à frente, eu atravessei um túnel, depois contornei uma grande fábrica de produtos químicos pertencente a “Derivados del Flúor”, ultrapassei a Autovia Nacional por outro túnel e logo cheguei à cidade de Ontón, onde encontrei chalés modernos e algumas casas construídas em estilo tradicional.

            Mais acima, conforme estava em meu guia, encontrei uma bifurcação: se seguisse à esquerda, precisaria vencer grandes encostas, passaria pelas localidades de Otañes e Santullán, bem como teria a companhia da natureza.

            No entanto, esse desvio acrescentaria mais oito quilômetros em meu roteiro, de forma que preferi seguir, à direita, por asfalto, através da rodovia N-634, um trajeto insosso, difícil e perigoso, posto que nesse trecho o acostamento tem dimensões mínimas.

            E para complicar, voltou a chover forte e o trânsito de veículos, por conta da “Pascoela”, feriado comemorado naquela data, estava simplesmente terrível, causando-me desconforto e preocupação, em razão da velocidade imprimida pelos condutores.

            Um senhor que caminhava com seu cão e com quem conversei, me desanimou, pois me relatou algo bastante interessante, relativamente ao que eu encontraria pela frente:

            Cantábria e “carretera” (rodovia) iniciam com “c” e terminam por “a”, possuem o mesmo número de letras e, rematou: não sei se isto tem algum significado oculto, mas nesta Província seus pés vão sofrer terrivelmente com a quantidade de asfalto que o Caminho lhe reserva.

            Cinco quilômetros caminhando, ultrapassei o povoado de Mionõ e prossegui adiante, até aportar em Castro-Urdiales, uma cidade belíssima, cuja origem remonta a tempos de Roma.

  A localidade de hoje se situa sobre a antiga colônia Flavióbriga, que data da época do Imperador Vespasiano.



            Fundada no ano 74, ela experimentou grande progresso na Idade Média, graças à sua intensa atividade portuária, e dessa época data sua igreja matriz, dedicada a Santa Maria, uma construção do século XIII.

            Com o recrudescimento da atividade mineira e turística a partir do século XIX, ela ganhou novo impulso em seu desenvolvimento com a construção de numerosos edifícios que estão quase sempre localizados à beira do “paseo Amestoy”, um grande e bem cuidado calçadão a delinear a orla marítima.

            Na cidade, fiquei hospedado na Pensão La Mar, e para refeição utilizei um dos inúmeros restaurantes localizados em seu belíssimo e bem conservado “casco viejo”.

            Como de praxe, à noite ingeri um singelo lanche no quarto e em seguida fui dormir, pois fazia um frio de doer.



 IMPRESSÃO PESSOAL – Uma etapa de razoável dificuldade, principalmente nos derradeiros quilômetros, porém com vistas belíssimas, mormente no trecho entre Pobenã e Ontón, todo ele feito à beira mar. No geral, afora 500 m caminhados na praia Zierbana, todo o trajeto foi feito em asfalto, o que arrebenta com o pé e arrefece o ânimo do mais intimorato peregrino.


 9ª Jornada - CASTRO-URDIALES a LAREDO