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PIRANGUÇU à WENCESLAU BRAZ

3º dia - Piranguçu à Wenceslau Bráz - 38 quilômetros


A jornada seria longa e, como as anteriores, bastante complicada.

Como nota alvissareira, observei que o clima mudara, pois, às 4 h 30 min quando fui buscar minhas roupas no varal, constatei que o céu se encontrava cravejado de brilhantes estrelas.

Além disso, a lua cheia em seu segundo dia, brilhava bojuda no sudoeste, iluminando tudo em minha volta com o seu manto prateado, o que tranquilizou o meu espírito.

O café fora deixado pelo Luiz na noite anterior em uma garrafa térmica, de forma que pude ingeri-lo com calma, aproveitando para degustar algumas frutas.

Depois de fazer um breve aquecimento, deixei o local de pernoite quando meu relógio marcava 5 h 20 min e segui por ruas desertas e silenciosas em direção ao centro da cidade. 


Flecha indicando o bairro Pedra Branca, por onde segue o caminho.

Cruzei a urbe em sentido longitudinal e 20 minutos depois, às 5 h 40 min, encontrei as flechas sinalizadoras.

Na sequência, acessei uma estrada larga e plana em terra, em direção ao meu objetivo do dia.

Tudo ainda estava um tanto escuro, apesar do brilho da lua, pois eu me encontrava na derradeira hora: o paralelo entre a escuridão e o início lívido da palidez de mais um dia que se aproximava.

Porém, com minha lanterna de bolso, pude seguir sem percalços em direção às serras que se erguiam abruptas no horizonte.

Logo à frente, eu derivei à esquerda, deixando pelo meu lado direito o bairro Pedra Branca que, naquele horário, se encontrava visível em função da iluminação urbana, porém afora o monótono cantar dos galos, tudo o mais ali era quietude.

A estrada prosseguiu plana e com piso firme, apesar da intempérie vivenciada nos dias anteriores.


Caminho agradável e plano.

Mais adiante, numa bifurcação, eu fleti à direita e segui caminhando dentro de um frondoso bosque de eucaliptos, onde pude ver troncos recém-cortados, sinal de que houvera pessoas trabalhando naquele local recentemente.

Finalmente, quando o mato acabou, eu atravessei uma porteira e prossegui por uma estrada pedregosa, ainda subindo, mas, apenas levemente.


Um sítio em plena atividade matutina.

Mais acima, eu transpus outra porteira e passei defronte à casa de um sitiante, onde observei vacas sendo ordenhadas num mangueiro próximo, e uma grande variedade de animais soltos ao redor da casa, como cães, cabras, patos e galináceos, alguns deles dessedentando num belo lago existente no local.

Caminhei ainda alguns metros e, então, após transpor nova porteira, o “bicho pegou”.


Um riozinho desce a montanha.

Iniciou-se severa ladeira que fui vencendo lentamente, enquanto observava do meu lado direito, no fundo do precipício, a passagem de um murmurante riozinho, cujas águas ao se entrechocar nas pedras alocadas no fundo de seu leito, formavam graciosas cachoeiras.

A subida prosseguiu sem patamares para descanso e eu ofegava a cada passo.


Graciosa cachoeira.

Contudo prossegui em frente, enquanto sentia minha blusa colada à pele em função do suor que porejava de meu corpo, porém um vento gelado soprava do alto, o que me desestimulava a tirá-la.         

Num determinado ponto, após “escalar” uns 300 m de fortíssimo aclive, passei próximo à uma edificação solitária e abandonada, que possivelmente servira de residência a algum intimorato sitiante.


A famosa casinha branca...

Lembrei-me, então, de que no dia anterior o Luiz, ao visitar a pousada para carimbar minha credencial, chamou a minha atenção para essa construção que avistávamos ao longe, isolada e perdida, no meio do morro.

 Disse-me, na ocasião, meu hospedeiro, que eu iria passar caminhando junto à essa casinha branca, que de lá mal distinguíamos, face à distância em que nos encontrávamos.

Pois agora eu estava ao lado dela, e olhando à minha retaguarda, podia avistar a cidade de Piranguçu no horizonte, lá embaixo, e mais adiante, pelo lado direito, alguns bairros da cidade de Itajubá.

O sol também já despontara e iluminava o cume de alguns picos distantes.


Um mar de serras no horizonte.

Meu coração pulsava forte, não só pelo esforço da subida, mas, principalmente, pelo encantamento ante o panorama jamais imaginado, que se descortinava ao meu redor, até onde minha vista alcançava.

Depois de uma breve pausa para hidratação, eu segui em frente sempre em duríssimo aclive.

Para se ter uma ideia da dificuldade, a estrada serpenteava pelos contrafortes da elevação e seu piso, quando mais eu me aproximava do topo da montanha, mais liso e embarreado se apresentava.


Aclive sem fim...

Nessa altitude, frondosas árvores me ladeavam, bem como inúmeras e portentosas araucárias.

Paisagens maravilhosas desdobravam-se diante de meus olhos, e para qualquer lado que eu mirasse, avistava uma sequência interminável de estupendos cenários.

Finalmente, às 7 h eu alcancei o topo da colina e dali eu pude desfrutar de uma visão inesquecível, pois estava a 1.400 metros de altitude, o local de maior altimetria nessa etapa.

Naquele lugar, observei a existência de um mata-burro, além de uma estrada que seguia à esquerda, em direção a uma pista de decolagem para asa-delta, parapentes e outros esportes radicais.

Essa foi, sem dúvida, a elevação mais agressiva que enfrentei nessa aventura, posto que em apenas 3 quilômetros, se tanto, eu ascendi 500 m, sendo que em alguns locais eu precisei enfrentar quase 60 graus de inclinação na trilha.


            Um mata-burro no topo do morro.

Por sorte eu me sentia muito bem preparado fisicamente, de forma que pude superar a íngreme escalada, quase sem necessidade de efetuar paradas para descanso, até porque nem sempre havia locais propícios para fazê-lo.

Dali tive uma ampla vista de toda a região ao meu redor, algo para ficar admirando por horas, no entanto, a contemplação não faz parte do meu estado natural.

Os momentos em que me permito desfrutar a paisagem, o cenário ao meu redor, são quase sempre pausas em meio a uma atividade constante e enérgica.

Porquanto, se eu ficar muito tempo estático, já começo a pensar que não faço parte daquilo, assim, para me sentir integrado à natureza preciso estar em ação.

Dessa forma, depois de uma breve e necessária pausa para hidratação e degustação de uma barra de chocolate, prossegui em frente, e já do outro lado da pequena planície, existente no cume do outeiro, encontrei dois solitários cruzeiros fincados do meu lado esquerdo de direção.


Paisagens surreais..

A partir desse patamar eu principiei a descer e, para complicar, por uma vereda úmida e escorregadia, a qual eu fui vencendo com extremo desvelo, cuidando para não levar um tombo, embora os escorregões se sucedessem com pouco intervalo.

Foi uma declividade maluca e em meia hora em alcancei à altitude de 900 metros, agora já no bairro São Bernardo.

Logo no plano, passei a caminhar entre inúmeras chácaras, todas muito bem cuidadas, com flores, casas com edificação nova, pintura recente e decoração externa de muito bom gosto.

A manhã se apresentava azul e dourada e os passarinhos pousados nas árvores adjacentes à estrada cantavam loucamente, saudando o fim da chuva.


Belíssima chácara situada no bairro São Bernardo.

Nesse local existe um belíssimo pesqueiro, bem como abriga a cachoeira São Bernardo, um atrativo muito procurado nos finais de semana pela população da região, por sua exótica e insofismável beleza.

Porém, meu tempo era curto e não tive o prazer de apreciar esse paraíso ecológico, porque eu precisaria desviar de meu roteiro e o clima naquele horário já se fazia abafado, sinal de haveria sol forte em breve.

Além disso, eu tinha muito chão pela frente, de forma que prossegui minha caminhada.

Mais adiante, próximo de um bar, parei para conversar com o Sr. Antoninho.


Flores: sempre bem-vindas!

Ele me confirmou que estávamos distantes 9 quilômetros de sua sede.

Contou-me, ainda, que pela estrada por onde eu viera, não passam carros, apenas motos e cavalos, de maneira que se ele precisasse ir à Piranguçu, o município ao qual seu bairro pertencia, necessitaria dar uma volta de 34 quilômetros, ou seja, teria que passar antes por Itajubá.

Um tremendo absurdo, convenhamos!

Logo adiante eu encontrei uma ponte que serve para a população ribeirinha transpor o rio Sapucaí, um maravilhoso curso d’água de aproximadamente 40 metros de extensão, que conta com inúmeras pedras e corredeiras, em seu encorpado leito líquido.

Naquele local situa a divisa dos municípios de Piranguçu e Wenceslau Bráz, e do outro lado do rio, as terras fazem parte do Estado de São Paulo, já que pertencem ao município de Campos do Jordão.


O rio Sapucaí segue ao lado do caminho nesse trecho.

Sapucaí quer dizer rio das sapucaias, isto é, rio que canta ou grita.

O nome foi dado pelos índios em alusão às lecitidáceas que, quando fustigadas pelos ventos, frequentes no vale, produziam silvos semelhantes a gemidos.

Daí chamarem eles sapucaia, isto é, árvore que chora, que geme, então existentes com abundância em quase todo o vale, sobretudo nas margens e barrancas do rio, onde eram mais aglomeradas.


Igrejinha do bairro dos Borges.

Prossegui adiante e depois de mais 2 quilômetros percorridos, adentrei ao bairro dos Borges, onde avistei uma bela igreja dedicada à Nossa Senhora Aparecida e casas simples espalhadas pela única rua que corta esse arrebalde, por sinal, coberta com bloquetes.

 O local é de singular beleza, pois está localizado entre uma grande montanha e o rio Sapucaí, num vale plano e fértil, onde existem várias culturas, porém o forte ali é a plantação de milho.  


Chalé da Paz, mais um ponto de apoio desse caminho.

Depois de mais 4 quilômetros caminhados, cheguei ao Chalé da Paz, situado num lugar cuja natureza é exuberante.

Ali, no bar Nossa Senhora da Paz, a minha credencial peregrina foi carimbada pelo proprietário do estabelecimento, o Sr. Luiz Paulo, com quem mantive uma agradável conversação.


Paisagens de encher os olhos..

Depois de comprar água e despedidas formais, prossegui adiante, por uma estrada larga e deserta, que me levou após mais 2 quilômetros de caminhada, debaixo de sol forte, ao bairro dos Freires.

Ali não avistei nada de interessante, apenas uma igrejinha onde se realizava uma missa, por sinal, bastante concorrida.

Na sequência, caminhei mais 5 quilômetros, por uma estrada larga e pedregulhada, de onde eu tinha uma visão fantástica de toda região ao meu redor, onde sobressaiam cores verdes de todos os tons da bela paisagem que se descortinava no horizonte.


Chegando ao asfalto.

Finalmente, às 10 h 30 min, eu aportei no bairro de São Pedro e ali parei num bar para me hidratar e ingerir uma fruta, pois o sol já se fazia candente.

Naquele local se localiza a divisa entre os municípios de Itajubá e Wenceslau Braz.

Na sequência, obedecendo à sinalização do caminho, eu dobrei à direita, ultrapassei uma ponte sobre o rio Bicas e segui em frente.

Infelizmente, a partir desse marco, o caminho prosseguiu por asfalto, numa estrada ascendente, pouco sombreada e sem acostamento, por sorte era domingo, e o trânsito de veículos ínfimo.

Com muita paciência fui vencendo as distâncias e, finalmente, às 11 h 30 min, eu adentrei em Wenceslau Bráz, um município que conta, na atualidade, com aproximadamente 2.700 habitantes.


Quase em Wenceslau Bráz...

Ali tive uma grande decepção, pois pretendia pernoitar naquela cidade, mais especificamente na pousada de Dona Ditinha, onde havia feito reserva.

No entanto, após me receber com todo carinho, ela me explicou que a urbe toda estava sem abastecimento de água há mais de 3 dias, por conta do rompimento de uma tubulação localizada num local próximo à sua captação.


Dona Ditinha (Wencelau Bráz) e Luizinho (Piranguçu)            

Dessa forma, todos estavam impossibilitados de tomar banho, usar sanitários e, muito menos, fazer comida, o que inviabilizava meu pernoite naquela simpática povoação.

Assim, após um telefonema, consegui hospedagem numa pousada localizada mais à frente, já no município de Delfim Moreira.

Porém, antes de sair da cativante cidadezinha, passei por sua igreja matriz cuja padroeira é Nossa Senhora de Sant’Ana, onde fiz uma rápida visita, além de bater algumas fotos da bela e original edificação.


Igreja matriz de Wenceslau Bráz.

Depois, como meu estômago reclamava por algo substancial, entrei num bar localizado à beira da rodovia, onde degustei um lanche, acompanhado de um refrigerante.

Na sequência, mochila às costas, reencetei a dolorosa etapa, alentado pela esperança de alcançar o escopo final da jornada, conforme planos pré-estabelecidos.

Então, sem alternativa, apesar do desgaste físico sofrido até aquele local, prossegui adiante.


Finalmente, o final da jornada.

E após caminhar mais 6 quilômetros por asfalto, debaixo de um céu azul, sol fortíssimo, e pior, sempre em contínua ascensão, aportei à pousada Lageado, local onde fiquei hospedado.

Meu cansaço era enorme, a fadiga incomensurável, contudo o local era belo e espetacular, com o dom de espantar qualquer baixo astral.

Assim, depois de revigorante banho, pude desfrutar de um excelente almoço, cujo “menu” era especial e caprichado, por se tratar de um domingo.

Na verdade, o complexo turístico ali existente, está fincado numa propriedade de 120 alqueires, cujos atrativos vão desde uma piscina térmica, até cachoeiras, lago, pesqueiro, cavalos, trilhas, tirolesa, quartos com lareira e tv, enfim, um lugar para ser desfrutado com intensidade.


A belíssima Pousada Lageado.

No entanto, eu estava preocupado com o que me aguardava na jornada seguinte, de forma que após um merecido repouso e assim que o sol amainou, retornei ao asfalto e prossegui subindo mais uns mil metros, até encontrar algumas casas simples, construídas à beira da rodovia.        

Eu tinha informações que ali encontraria pessoas que conheciam de sobejo, os locais por onde eu transitaria na jornada precedente, de maneira que para lá me dirigi.

Encontrei o Sr. Edson trabalhando na reforma de uma cerca e conversamos por mais de 30 minutos sobre a “Trilha da Santa”, que eu enfrentaria no dia seguinte.


Local paradisíaco, hoje desativado.

Confirmando o que eu já sabia de outros relatos, ele também foi enfático no sentido de me aconselhar a não enfrentá-la sozinho, porquanto o local era ermo, perigoso e se algo me acontecesse eu não teria a quem me socorrer, posto que naquela região não existe torre de propagação de ondas para celular.

Cônscio e preocupado, tentei entre os moradores daquele bairro conseguir alguém que me acompanhasse, porém, mesmo oferecendo uma remuneração condizente pelo trabalho a ser realizado, não encontrei ninguém interessado em me escoltar.

Frustrado, porém confiante que conseguiria vencer mais este desafio, retornei ao local de pernoite, onde ingeri apenas uma singela sopa.

Depois, rapidamente me recolhi, pois a pousada está situada a 1.350 metros de altitude, e apesar de estarmos no mês dezembro, quando o calor diário é tórrido, à noite a temperatura caiu bastante.   

        

Flores do caminho.

IMPRESSÃO PESSOAL Uma etapa bastante difícil, a começar pela escalada da Serra dos Vieiras, a mais agressiva dentre todas que venci. Depois, a descida pelo lado oposto, que exige muito esforço dos membros inferiores. O percurso seguinte, embora de beleza incomum, transita quase sempre por locais urbanizados, onde existe um expressivo tráfego de veículos. E a parte final, diretamente por asfalto, desanima e estressa o peregrino, já cansado pelo percurso até ali vencido. No geral, uma jornada de larga extensão, com muito verde, pessoas solícitas e belas paisagens.            


04 - WENCESLAU BRÁZ ao BAIRRO dos PILÕES