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3º dia: ALTO DA LAGOINHA a MUTUÍPE – 17 quilômetros


3º dia: ALTO DA LAGOINHA a MUTUÍPE – 17 quilômetros

A paz é a única forma de nos sentirmos realmente humanos”. (Albert Einstein)


Mutuípe – 215 metros de altitude.

Contato: Hotel Portal do Vale – Angeli ou Edmilson (75) 3635-1221.

Do Alta da Lagoinha a Mutuípe são 17 quilômetros. Muitas subidas e descidas.

A saída para Jiquiriçá é pela rua do cemitério, em direção à Baixa Alegre.

(Transcrito do folheto informativo que o peregrino recebe na Pousada do Bosque, em Amargosa, início do Caminho)


A jornada não seria de grande extensão, mas prometia muitas emoções, pelas ladeiras que precisaríamos suplantar.

Assim, decidimos partir às 6 horas, como forma de agilizar nosso aporte a Mutuípe, pois era um sábado, dia em que o comércio fica bastante movimentado nas cidades.

Levantamo-nos no horário costumeiro, depois, ingerimos um gostoso e variado café da manhã.

Como ainda chovia muito, aguardamos até que ela amainasse.

Na hora da despedida, fizemos as fotos de praxe, depois, animados, iniciamos nosso périplo.


Despedindo-me da Juliana e de sua mãe Damiana, deixando o local onde ficamos hospedados em Alto da Lagoinha.

Como no dia anterior, seguimos pela rua do cemitério até chegar novamente na bifurcação que encontráramos no dia anterior.

Porém, desta vez, ao invés de dobrar à direita, em direção ao Morrinho de São José, já de saudosas lembranças, seguimos em frente.


Nessa bifurcação, desta vez seguimos em frente, em direção à Mutuípe.

O caminho estava úmido e liso em face das chuvas recentes.

Logo precisamos vencer a primeira das muitas ladeiras que iríamos encontrar nesse dia.


Ascenso liso e úmido.

Esta, por sorte, era de pequena extensão.

No topo, passamos diante do sítio Toda Hora, ainda enfeitado com bandeirinhas coloridas, remanescência de São João, que, no nordeste, é uma das festas populares mais importantes.

No cartaz, “Meu esporte é a cavalgada”.


Portão do Sítio Toda Hora.

Mais adiante transitamos diante de um pequeno aglomerado de casas, onde cumprimentamos alguns moradores que se preparavam para o trabalho.

Um deles, chamado Miguel, simpático e alegre, seguiu conversando conosco, dizendo que necessitava ver uma plantação de sua propriedade, localizada num sítio abaixo, situado à beira do caminho.

Enquanto caminhávamos, ele nos colocou a par das peculiaridades das pessoas que residiam naquele enclave, bem como seus hábitos e atividades.


Nesse trecho, a Marlene segue à frente.

Com sua voz melíflua, plena de coloquialismos, ele, uma pessoa simples e humilde, encantou nossos ouvidos e prendeu nossa atenção.

Concernente ao fato, posteriormente, lembrei-me de uma adágio que diz: “A simplicidade é o estágio mais elevado da sofisticação”. 

Uma vez o padre Antônio Vieira escreveu uma longa carta a um amigo e no final ele acrescentou: “Desculpe-me, mas não tive tempo para ser sucinto.”


Um belo vale se desenhava pelo nosso lado esquerdo.

Muitas pessoas são como esta epístola, pois não têm tempo para serem concisas e acabam se afogando na presunção e no preconceito.

Vivem dando voltas em torno de si mesmas, rebuscando a escrita, atolando-se cada vez mais na mesmice.

Resultado: Nunca saem do lugar, ficam se repetindo, e não chegam a parte alguma.


Caminho e franco descenso em direção as montanhas, por onde ainda iríamos transitar.

O que o antropólogo Lévi-Strauss falou sobre as sociedades também serve para as pessoas: “O que cada ser humano tem de melhor não são as suas particularidades, mas sim a universalidade”. 

Assim, devemos nos ater aos valores universais e não às nossas arrogantes mesquinharias pessoais.

À nossa esquerda, num imenso vale, a paisagem era integralmente verdejante e se prolongava até o infinito.

Divisávamos algumas elevações por onde, certamente, ainda transitaríamos naquele dia.


Uma árvore em flor, uma exceção em meio a muito verde.

No meio de imensa mata, pude fotografar uma belíssima árvore com flores na cor salmão, que se destacava na paisagem circundante.

Principiamos a descender com violência, forçando-nos a manejar os cajados para manter nosso precário equilíbrio.


Descendo sobre um piso úmido e perigoso. Nessas horas, o cajado é essencial.

Logo o Sr. Miguel se despediu e adentrou em uma trilha situada à direita, dizendo que por ali cortaria caminho em direção à sua roça de cacaueiros.

No final da descida, ultrapassamos um pequeno riacho por uma ponte e seguimos em forte ascensão pelo lado oposto.


Em forte ascensão, pelo lado oposto.

Nesse trecho, pude contar dois bares, porém nenhum deles ainda se encontrava aberto, face ao horário matutino.

A Marlene ficara alguns metros na retaguarda e eu prossegui solitário.


Desse patamar é possível ver a sequência do caminho, no alto, à esquerda.

Quando, finalmente, atingi o topo do morro, pude divisar, à esquerda, bem longe, em direção ao cume do outro morro, nova ladeira a ser sobrepujada.

O entorno, como de praxe, se mostrava magnífico, pleno de muitos cacaueiros, bananeiras e mata nativa.


Ascenso forte e pedregoso.

Fui vencendo com parcimônia as distâncias, até que finalmente alcancei o ápice da outra elevação.


O caminho descende, depois volta a ascender por outra elevação, ao fundo.

Ali, enquanto fazia uma pausa para aguardar minha parceira, tinha ampla visão do caminho que serpeava, mais abaixo, por um belo vale, depois prosseguia em direção a outra portentosa montanha.


O caminho passa por um belíssimo vale, depois volta a ascender.

Juntos novamente, prosseguimos em descenso e, quando atingimos o plano, a chuva voltou a cair em forma de garoa, deixando-nos indecisos se colocávamos as capas protetoras ou seguíamos em frente.

Resolvemos aguardar num local abrigado, situado ao lado de uma casa.

Fizemos uma pausa para descanso e hidratação.


Um tênue arco-íris brilha no horizonte em frente.

Enquanto ingeria uma banana, pude fotografar parte de um arco-íris que surgira à nossa frente.


Caminho aberto, arejado, e em ascenso.

A chuva logo cessou e seguimos adiante, em franco ascenso.


A grande árvore indica o final dessa elevação.

Depois, de íngreme subida o caminho aplainou.

A visão de nova subida, em cujo topo uma árvore se destacava, exigiu grande esforço.


Nessa bifurcação, tomamos à esquerda.

Ultrapassada esta, surgiu um grande cotovelo, onde depois de observar atentamente a sinalização, seguimos à esquerda.


O caminho prossegue abaixo e à esquerda.

Quando a paisagem se abriu, pudemos avistar mais abaixo a estrada por onde prosseguiríamos e, muito ao longe, ao redor de uma montanha, as casas da cidade de Mutuípe, nossa meta para aquele dia.


Descenso forte, em meio a muito verde.

Mais um quilômetro percorrido em fácil descenso, adentramos ao bairro de Lagoa Verde.


Chegando ao bairro de Lagoa Verde. Detalhe no poste à esquerda: 10 quilômetros percorridos atá aqui.

Até aquele local, segundo o GPS de meu celular, e conforme estava escrito em um poste, alcançamos a marca dos 10 quilômetros caminhados.

Fizemos uma pausa na mercearia da Elisângela, para uso de banheiro e compra de água, sorvete e chocolate.


A Marlene conversando com a Elisângela, diante da mercearia.

Sobre o exótico nome daquele minúsculo povoado, disse que sua origem era bastante antiga e que a lagoa nem existe mais.


Encaminhando-nos para o derradeiro e forte ascenso.

Retemperados, reiniciamos nosso périplo e logo enfrentamos outro duro ascenso, que se prolongou por centenas de metros.


A Marlene segue bravamente à minha retaguarda, sobrepujando mais uma dura ladeira.

Depois, já no plano, transitamos diante de um imenso bananal.

Dois trabalhadores trabalhavam no conserto de uma cerca e, quando inquiridos sobre o tipo de banana, confirmaram que o fruto ali colhido era da variedade “da terra”.


Uma enorme plantação de bananas, situada no lado direito do caminho.

Começamos a encontrar um maior número de residências e chácaras à beira do caminho.


Caminho plano, sob sol ardente, em direção à Mutuípe.

Concomitantemente, o tráfego de motocicletas e automóveis se intensificou, sinal de que estávamos próximos da zona urbana.


Chovera bastante nesse local, recentemente.

Em alguns trechos ainda encontramos muitas poças d'água na estrada, sinal de que a chuva passara por ali recentemente.


Primeira visão da cidade de Mutuípe, desde o alto do morro.

Finalmente, do alto de uma elevação, pudemos ver, abaixo e ao longe, casas da periferia da cidade.

Descendemos com muito cuidado, pois além da forte declividade, o piso liso e irregular aumentava exponencialmente o perigo de uma queda, principalmente por conta das erosões existentes na estrada.


Atravessando o rio Jiquiriçá por uma ponte de pedestres. 
(Créditos: Marlene Araújo Arruda)

Já no plano, ultrapassamos a rodovia 240.

Por uma ponte transpusemos o rio Jiquiriçá e adentramos a zona urbana de Mutuípe.

A cidade se encontrava em polvorosa, com um caótico trânsito de motocicletas, automóveis, caminhões, carros de som, buzinas intermitentes.


Cidade movimentada e barulhenta naquele dia, um sábado.

A razão era a feira semanal que estava sendo realizada no Centro de Abastecimento, um local específico destinado para tal atividade.

A afluência de pessoas, fosse de vendedores ou compradores, era intensa.

Ressalte-se que a cidade tem forte tradição agrícola.

Assim, a população local praticamente dobra nesse dia, por conta dos produtores da zona rural dessa e de outras regiões, que vem comercializar seus produtos.

Um burburinho intermitente invadia o ar e, preocupados com nossa segurança, seguimos adiante, utilizando o canteiro central da avenida de acesso ao centro da urbe, tomando imenso cuidado ao atravessar as passagens laterais.


Hotel onde ficamos hospedados nesse dia.

Seguimos pedindo informações para alguns transeuntes.

Depois de algumas indecisões, finalmente chegamos ao Hotel Portal do Vale, local de nosso pernoite nesse dia.

Ali, por R$50,00, pudemos desfrutar de um apartamento bastante confortável, com direito, dentre outros, de wi-fi e ventilador de teto, pois fazia muito calor.

Imaginei, ao observar apenas no quarteirão central, mais de 10 supermercados, quase sempre, um ao lado do outro, que essa cidade poderia constar do “Guinness Book”, em termos de quantidade desse comércio.


Um obelisco situado na parte central da cidade.

E, segundo me assegurou um morador local, todos vendem muito bem.

Após um revigorante banho, fomos almoçar no Restaurante Panela de Barro, de excelente qualidade.

Finda a lauta refeição, a Marlene optou por ir visitar e fotografar a feira, enquanto eu retornei ao hotel para descansar.


Restaurante onde almoçamos nesse dia, em Mutuípe.

Até meados do século XIX, toda a zona ribeirinha do rio Jiquiriçá, abrangendo o território do atual Município de Mutuípe, era habitada pelos índios Cariris, que pouco a pouco abandonaram a região, à medida que seus domínios eram conquistados pelos brancos.

Em 1849, Manoel João da Rocha, juntamente com outros pioneiros, chegou ao local onde hoje está situada a sede do Município, iniciando derrubadas e entregando-se ao cultivo da terra.

Entre as propriedades dos primeiros povoadores encontrava-se a Fazenda Mutum, assim denominada pela abundância verificada da ave do mesmo nome (craxalector).


Ao fundo, a igreja matriz da cidade.

Segundo Teodoro Sampaio, o topônimo Mutuípe vem de "mutum", ave do local, e "ipe", que em tupi-guarani quer dizer "forte".

Situada no antigo Município de Jiquiriçá, a Fazenda Mutum ficava à margem de uma estrada que ligava os sertões do sudoeste baiano a Minas Gerais.

Os tropeiros que por ali transitavam faziam daquela propriedade ponto de repouso e reabastecimento.


O rio Jiquiriçá, que banha a cidade.

Devido a isso, bem como à fertilidade do solo e ao espírito progressista do proprietário Bernadino Lopes, começou a formar-se em Mutum, por volta de 1900, um pequeno núcleo de agricultores e negociantes.

Com a chegada dos trilhos da "Tramroad de Nazaré", a 29 de janeiro de 1905, ligando o Município ao porto fluvial de Nazaré, teve início uma nova fase de progresso.


Prédio da Prefeitura Municipal de Mutuípe. Detalhe para o busto de Otávio Mangabeira, que foi Governador da Bahia.

O Município de Mutuípe pertencia ao Termo de Jiquiriçá, da Comarca de Ubaíra, até 2 de Julho de 1949, quando, por força da Lei n.° 175, foi criada a Comarca de Mutuípe, que compreende o Município de mesmo nome.

Fonte: IBGE - http://www.mutuipe.ba.io.org.br/


A igreja matriz da cidade.

Após a necessária soneca vespertina, fui conhecer e fotografar a igreja matriz da cidade, cujo padroeiro é São Roque.


Interior da igreja matriz da cidade.

Dei um grande giro pelas imediações, agora bem mais amena em termos de movimentação, pois a feira se encerrara às 14 horas.

Aproveitei, então, para ir fotografar o rio Jiquiriçá, que banha e corta o povoado em sentido longitudinal.

Mais tarde, acompanhado pela Marlene, fomos verificar o local por onde seguiríamos na manhã seguinte.


Mural anexado à parede da igreja matriz de Mutuípe.

Para tanto, seguimos as flechas amarelas até o cemitério municipal, onde nos demos por satisfeitos, visto a sinalização se encontrar impecável.

À noite, optamos por lanchar nas próprias dependências do Hotel, que nos forneceu uma refeição saudável a um preço justo.

Logo me recolhi, pois o dia seguinte, um domingo, se afigurava como um bom desafio, pelos relatos que havia lido sobre essa jornada.


Pintura homenageando São Roque, patrono de Mutuípe.

IMPRESSÃO PESSOALUma jornada de pequena extensão, mas com quatro importantes elevações a serem vencidas, algumas, de íngreme aclividade. Porém, como de praxe, em meio a um entorno fantástico, pleno de muito verde. No geral, um bom teste para a capacitação física do peregrino. Lembrando que no 10º quilômetro, quando da passagem pelo bairro de Lagoa Verde, existe a possibilidade de reposição de água e alimentos, pois ali há uma bem surtida mercearia.


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