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5º dia: FAZENDA TRAIBUBA à CRUZÍLIA – 38 quilômetros


5º dia: FAZENDA TRAIBUBA à CRUZÍLIA – 38 quilômetros


"Nós viajamos, inicialmente, para nos perder, e viajamos em seguida para nos encontrar. Nós viajamos para abrir os nossos corações e nossos olhos. E viajamos, em essência, para nos tornar jovens tolos novamente, para retardar o tempo e nos apaixonar 

mais uma vez." (Ray Bradbury)



Trecho com estradas largas, em bom estado e com poucos mata-burros. É muito bem sinalizado e a maior parte é feita em estrada municipal, bem conservada e pouco movimentada. Trecho com pouco aclives e declives, mas com chuva é precisa ter cuidado, 

pois a quantidade de fazendas na região deixa o solo frágil e barrento. Aliás, durante o percurso existem algumas fazendas leiteiras. Por isso, é comum encontrar animais na pista. A paisagem predominante é de pastos, grandes e antigas fazendas e árvores 

imponentes. O fim do trecho é em Cruzília, cidade erguida numa encruzilhada da Estrada Real, daí a evolução do nome: São Sebastião da Encruzilhada, Encruzilhada e, finalmente, Cruzília. Hoje, é conhecida nacionalmente como a cidade do queijo fino. 

(Fonte: http://www.institutoestradareal.com.br/roteiros/velho/38)”



A jornada seria difícil, de grande extensão e, de acordo com a previsão meteorológica, o sol e o calor seriam meus companheiros inseparáveis durante a viagem.

Dessa forma, me levantei às 3 horas, ingeri barras de cereais e frutas, depois desci para aguardar a taxista, pois havia combinado de sairmos às 4 horas.

Exatamente no horário aprazado o táxi apareceu e seguimos em direção à Fazenda Traituba, 31 quilômetros à frente.

A viagem foi calma e tranquila e às 4 h 50 min chegamos ao destino.

Eu desci, paguei a quantia combinada e, enquanto ela retornava a Carrancas, fiz alongamentos e professei minhas orações matinais.

Exatamente, às 5 h, mochila afivelada, cajado numa mão, lanterna na outra, dei início a jornada daquele dia.

Tudo se encontrava escuro e o silêncio só era quebrado pelo cantar de galos e dos pássaros madrugadores.

O caminho nesse trecho é praticamente único e totalmente plano, de maneira que não tive problemas para encontrar meu destino.


São 5 h 30 min e o dia começa a clarear.


Durante 40 minutos segui no escuro, até que a aurora começou a banhar de luz a paisagem que estava escondida.

Com o dia clareando, percorridos 6 quilômetros, encontrei uma bifurcação, bem diante da famosa Fazenda Chalé, outro exemplo de bela arquitetura colonial.

Nesse local foi construída a primeira fábrica de manteiga da América do Sul, conforme informava o marco da Estrada Real, inserto no totem de número 1060.

Se eu prosseguisse em frente, me restariam 24 quilômetros até chegar à cidade de Cruzília/MG.


Muita nebulosidade no ambiente.

Porém, a Estrada Real segue pelo outro lado e, a partir daquele marco, ainda me restavam 32 quilômetros para o final da jornada.


Assim, girei à esquerda, e logo passei ao lado de uma grande plantação de soja, algumas já em fase de colheira.

Prosseguindo, a paisagem se manteve quase imutável, por estradas retas, planas, em meio a imensas pastagens.

Ocorreram, também, pequenos ascensos e descensos, e o dia ainda se mantinha nebuloso e, então, pude manter um ritmo uniforme e profícuo em minha caminhada.


Estrada plana e arejada.

Em alguns locais encontrei bastante lama no piso, fruto das chuvas dos dias anteriores.


Marco do CRER: Faltam 26 quilômetros até Cruzília.

Nessa etapa, o trajeto do CRER coincide com o da ER, o que facilita sobremaneira para o caminhante, pois ele encontra sinalização com fartura e o risco de se perder é praticamente zero.


Entorno silencioso e ermo.

Após um pequeno ascenso passei um bom tempo transitando pelo topo do morro, com belas vistas do entorno.

Mais à frente, eu me internei num pequeno trecho matoso, onde o silêncio era total.


Trecho em mata nativa.

Foram momentos agradáveis, onde pude respirar o ar fresco da madrugada e agradecer a Deus por mais aquele dia de vida.

A paisagem era exuberante demais para descrições precisas ou para sentimentos simples.

Não se tratava apenas de beleza ou feiura, era uma visão de calar a mente. 


Caminho agradável e arborizado.

Por um longo instante, saboreei sentimentos antagônicos de insignificância e de elevação.

A realidade parecia grande demais para mim, e ao mesmo tempo, eu mal cabia dentro de mim mesmo.

Na sequência, voltei a ascender novamente, ainda que de forma suave.


Transitando em meio a uma imensa plantação de batatas.

Logo adiante, passei pelo interior de uma extensa plantação de batatas que, com certeza, já estavam em época de ser colhidas, pelo tamanho de seus talos.


O batatal prossegue em ambos os lados da estrada.

Então, atingi o topo de pequeno outeiro e a partir daquele ponto passei a descender lentamente.


Caminho infinito entre imensas pastagens.

Em ambos os lados, havia campinas a perder de vista e nelas pastavam cavalos e alguns rebanhos de gado leiteiro.

Até aquele momento eu não avistara vivalma, bem como não fora ultrapassado por nenhum veículo.

Foram momentos prazerosos e de grande alegria, onde eu seguia pensando que por aquele local haviam passado muito ouro e diamantes a caminho dos navios da Coroa Portuguesa.


Caminho infinito entre imensas pastagens. Era eu e Deus...

Passaram também tropeiros, bandeirantes e escravos desbravadores do sertão brasileiro, bem como importantes personalidades da história.

Enquanto eu tergiversava sobre o assunto, a paisagem prosseguia imutável, arejada e com grande visibilidade.


Descendendo ainda entre pastagens.

Ainda assim, sentia uma certa apreensão, considerando o ermo que é essa região e a completa ausência de trânsito, mas não poderia considerar uma “catástrofe”, se algo ruim acontecesse comigo.


Paisagem aberto e em descenso.

Assim, procurava me acalmar, conversando com “os anjos dos caminhos”, visto que é a fé que faz operar todas as bençãos.


Ao fundo e abaixo, à direita, vista da Fazenda Narciso.

O descenso prosseguiu contínuo por muito tempo e, já no plano, depois de atravessar o encorpado rio Ingaí, sobre uma ponte, passei diante da Fazenda Narciso que foi construída pelo Barão de Alfenas, para seus filhos Antônio Gabriel Junqueira e Joaquim Tibúrcio Junqueira, e se tornou outro dos pilares da formação do Cavalo Mangalarga Marchador no Brasil.


Placa existente no totem nº 1089.

Por sinal, o garanhão Abismo-Rosilho foi seu mais importante padreador, com grande influência em toda a tropa sul mineira.

Até aquele local eu já havia percorrido 19 quilômetros; estava pois, exatamente, na metade de minha jornada.


Depois da Fazenda Narciso, caminho sombreado.

Diante da imensa propriedade, o caminho seguiu à esquerda, e logo me internei em agradável bosque de eucaliptos.

O sol já crestava com vigor e, mais adiante, fiz outra pausa para hidratação e ingestão de uma banana.

Ao ver muito lixo espalhado na beira da estrada e imensos campos de pastagem à frente, reflexivo, me lembrei de algumas noções de ecologia que lera ainda recente.

As florestas têm a missão, muito importante, de fazer penetrar a água da superfície nos lençóis freáticos, através das raízes de suas árvores.


Trecho plano e silencioso.

O lençol freático é o grande manancial, mas aí vem o homem e arranca as árvores, para formar pastos para os animais.

O pasto é superficial, e não tem como ajudar a água a voltar aos depósitos subterrâneos e, por isso, com o tempo, eles tendem a se transformar em desertos.

Por enquanto, ainda podemos ver montanhas verdes, bonitas, algumas árvores margeando os rios, desempenhando heroicamente o papel que era das matas ciliares.

Mas tudo isso é precário e tem vida curta, porque se as florestas não forem restabelecidas, os rios correm o risco de morrer.

E, morrendo os rios, morrerão também a Terra e o homem. 


Os eucaliptos me ladeiam nesse trecho.

Sei que existe em mim um fragmento de Deus, que é imortal, assim, quando eu desparecer desse plano, essa partícula retornará ao grande campo da energia universal, mas ficará minha mensagem de amor pela natureza.

Stephen Hawking chocou a comunidade científica internacional ao afirmar que “a matéria não existe. O que permanece da matéria é a sua energia. Nós, homens, não existimos (como matéria). Somos pontos de luz soltos no universo”.

Prossegui em meio a muita sombra, por um caminho plano, ainda silencioso e bastante fresco.

Uma placa inserta no totem de número 1077 da Estrada Real, esclarecia que minerais e micronutrientes encontrados no solo e, consequentemente, nas pastagens de Cruzília, fazem com que o leite aqui produzido, possibilite a fabricação de um dos melhores queijos finos do Brasil.


Norremose Agropecuária, uma potência!

Mais adiante, ainda sob a sombra reconfortante dos eucaliptos, eu transitei diante da Norremose Agropecuária, uma enorme propriedade que se dedica a criação e comercialização de cavalos da raça Mangalarga Marchador, gado Holandês, gado Girolando, leite, milho, soja, aveia e eucalipto.

A atividade no local era intensa, onde havia um grande silo sendo alimentado por poderosas máquinas, além de intenso mugido das vacas ordenhadas, o que subtraiu um pouco da introspecção que eu vinha vivenciando.


O caminho ascende em direção a um eucaliptal, mais acima.

Ultrapassada essa fazenda, iniciou-se um vigoroso e longo ascenso que fui vencendo paulatinamente, porquanto o calor já se fazia intenso.


Trecho fresco em meio a mata nativa.

Por sorte, escudado na experiência do dia anterior, eu carregava dois litros de água e foi uma decisão acertada, porque não avistei nenhuma casa a beira do caminho onde eu pudesse, se o caso, repor meu estoque.


O caminho é belíssimo nesse tramo.

Vencido esse obstáculo, passei a caminhar pelo topo do morro alternando locais sem sombra, com pequenos trechos umbrosos, numa estrada de piso socado e sem poeira.

Em determinado trecho, visualizei um trator arando um grande campo a uns duzentos metros de distância.


Seguiu-se um longo trecho sem sombra...

Gaviões sobrevoavam à procura de pequenos animais desalojados da terra pela ação da máquina.

Já exaurido, parei sob a sombra de uma árvore para descansar, tomar um gole d'água, tirar a mochila e ingerir um pedaço de pão.


Sol forte e caminho sem sombras.

Prosseguindo, caminhei um bom tempo sob a sombra de eucaliptos e uma brisa leve acariciou meu rosto, o que eu achei muito bom!

Mas, ainda que lentamente, eu estava me aproximando de uma concorrida rodovia, pois verifiquei que o trânsito de veículos aumentara consideravelmente nesse intermeio.


Mais sol e nada de sombras ainda...

Ocorre que nesse trecho encontrei acessos para incontáveis chácaras, fazendas e haras, sendo essa a razão de tanta movimentação.


Prosseguindo, debaixo de sol forte.

A cada meia hora eu fazia uma pausa para descanso e hidratação, como forma de assegurar meu estado físico, pois a canícula reinante me fazia transpirar abundantemente.


Finalmente, um pouco de sombra para me animar.

Aproximadamente 27 quilômetros caminhados, eu adentrei em outro refrescante trecho orlado por eucaliptos, que elevou meu ânimo novamente, pois nesse tramo derradeiro não vi nenhum tipo de cultura agrícola, apenas pastagens, o que concorria para deixar o percurso um tanto monótono.


Mais eucaliptos..

No 30º quilômetro eu desaguei em outro ramal que provinha do meu lado direito, e que dava acesso à Fazenda Tapera, outra grande propriedade existente nessa região, que se dedica a criação e comercialização do Cavalo Mangalarga Marchador, com sufixo do Caminho Real.


Entrada para a Fazenda Tapera.

Então, teve início o derradeiro ascenso do dia, num local inóspito e desprovido de árvores, vencido sob um fulgurante céu azul, onde as nuvens brancas davam um ar de festa.


O derradeiro ascenso, sob sol fortíssimo.

Superado esse desafio, adentrei num fresco bosque e, mais abaixo, acabei por sair na rodovia BR-383, que liga Minduri/MG à Cruzília/MG.


Encontro com o asfalto, rodovia BR-383.

Então, girei à direita, e prossegui caminhando pelo acostamento por mais 5 quilômetros, até adentrar em Cruzília, minha meta para aquele dia.


Chegando em Cruzília/MG.

Na cidade, fiquei hospedado na Pousada Cruzília, um dos estabelecimentos que reúne as melhores condições de estadia que já encontrei, dentre todas as cidades em que pernoitei.

Pois, além de suas instalações serem novíssimas, ela me ofereceu um quarto extremamente confortável, com direito a TV de plasma, ventilador de teto, ar-condicionado, amplo banheiro e outros requintes, tudo isso por R$65,00.


Local do meu almoço nesse dia.

Face ao adiantado hora e meu desgaste físico, após um banho retemperador, corri para almoçar e, para tanto, utilizei os serviços do Restaurante Gula Sem Pecado, de excelente qualidade.

Ali, utilizei os serviços de um variado menu servido no sistema Self-Service, por R$25,00 o kg.

Depois, retornei ao local de pernoite para um merecido repouso.


Local onde me hospedei nesse dia.

Cruzília – “terra da Cruz”. O primitivo nome da localidade foi encruzilhada. Originou este nome o fato de o povoado localizar-se ao lado da encruzilhada formada por duas importantes estradas no período colonial, que ligavam os municípios de São João Del Rei e Aiuruoca e Rio de Janeiro à região aurífera de Minas Gerais.

Localizada no Sul de Minas, Cruzília pertence ao Caminho Velho da Estrada Real, sendo conhecida por suas fazendas centenárias, por ser o berço dos cavalos da raça Mangalarga Marchador e sua indústria de móveis e queijos.

Os primeiros habitantes da região foram os faiscadores de ouro vindos provavelmente da província de São Paulo, e que exploraram o metal de aluvião encontrado nas encostas de morros nas margens de córregos da zona.

Ainda hoje, constituem testemunhas da presença daqueles desbravadores várias escavações existentes nas margens de córregos do território municipal.

Só após a fase de mineração de ouro, chegaram os primeiros agricultores e senhores de escravos.

No século 19 (1828), o viajante francês Saint-Hilaire cita em seu livro o povoado de “Encruzilhada” como originário do sítio de Manuel de Sá. Por causa da capela em homenagem a São Sebastião construída nas proximidades do sítio, o local passa a ser chamado de São Sebastião da Encruzilhada.


Praça central da cidade.

Cruzília é conhecida como o Berço do Cavalo Mangalarga Marchador.

Na Fazenda Campo Alegre, por volta de 1812, Gabriel Francisco Junqueira, o "Barão de Alfenas", ganhou de D. João VI um garanhão da raça Alter Real e iniciou sua criação de cavalos, cruzando este garanhão com as éguas comuns de sua fazenda.

Dezenas de haras estão espalhados pelo município, alguns em fazendas centenárias, carregadas de histórias e cultura.

No final do mês de Agosto acontece anualmente, no Complexo Humano da Ventania, a Copa de Marcha do Sul de Minas.


Belo coreto existente na praça central de Cruzília/MG.

A fabricação de queijos finos levou Cruzília à liderança do Ranking Nacional dos Melhores Queijos do Brasil em 2009 e novamente em 2010.

No município são produzidos também diversos outros tipos de queijo, que se dividem em sete grupos: queijos de massa filada, queijos de massa cozida, queijos de massa semi-cozida, queijos de massa crua, queijos de mofo branco, queijos de mofo azul e queijos condimentados.

Um dos queijos mais populares do Brasil – o prato – tem origem em Cruzília. Imigrantes dinamarqueses que chegaram à cidade, na segunda década do século 20, e começaram a produzir um queijo baseado na receita de dois tradicionais queijos da Dinamarca, o Tybo e o Danbo. Os fiscais do Ministério da Agricultura, em uma visita à fábrica, descreveram o queijo, até então desconhecido, como “grande, circular e com formato de prato”. Surgia, assim, o nome do saboroso queijo. Hoje, Cruzília produz queijos finos de altíssima qualidade, que sempre conquistam prêmios nacionais.

De acordo com o censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, sua população era de 14.529 habitantes.

Igreja matriz de Cruzília/MG.


À tarde, quando o sol amainou, fui visitar a igreja matriz da cidade, cujo padroeiro é São Sebastião, mas só pude fotografá-la pelo lado externo, visto que a encontrei fechada.

Depois, dei um giro pela pequena vila, aproveitando para verificar o local por onde partiria no dia sequente.

O povoado, como um todo, parece que mudou bastante em relação ao qual eu imaginava, pois não pude me compactuar com o lindo artigo publicado em 1973 sobre a cidade, porque vi muito lixo nas ruas, cães vadios aos montes, bem como calçadas apertadas e mal conservadas.

Vale, no entanto, acompanhar esse interessante texto que muito me impressionou, ao menos, antes de conhecer a Cruzília de hoje:

“Em 1973, o poeta Carlos Drummond Andrade, escreveu uma crônica intitulada, “A Pequenina Cruzília” sobre a cidade de Cruzília, que foi publicado no Jornal Estado de Minas e no Jornal do Brasil.

O poeta inicia o texto apresentando a pequena cidade ao Brasil. 

Praça central de Cruzília/MG.

“Era uma encruzilhada, no caminho de São Paulo para as Minas, no começo do século XVIII. Nessa encruzilhada se fixaram alguns moradores, sob a proteção de São Sebastião. (...) Cruzília não quer emparelhar-se com Belo Horizonte, que avança para chegar a 2 milhões de habitantes e meio milhões de problemas; contenta-se com 10 mil moradores, em seu único distrito. Mas desses 10 mil moradores, é justo destacar, umas poucas irmãs camilianas, cuja congregação se fundou em Roma para cuidar de enfermos em hospitais, leprosários, ambulatórios e casas particulares. O hospital, que elas dirigem, em cidade tão pequena, dispõe de cirurgião, obstetra, cardiologista... (...)

E dizer que o interior não atrai médicos especializados... Atrai sim, quando eles encontram no interior condições técnicas de trabalho, além de conforto pessoal.

Cruzília possui isto. Seu hospital é um brinco e, bem articulado com Unidade Sanitária local, torna a cidadezinha um pólo médico de causar inveja”.

O poeta ainda questiona: “... Estou vendo o leitor dizer: - Mais uma das mentirinhas do CDA. Município assim não existe! – Existe, meu caro, e digo mais: Cruzília não quer só para si os benefícios de uma organização médico-assistencial que pode ser considerada modelo. Gostaria que as populações vizinhas também se valessem dos recursos de uma obra comunitária testada e aprovada. Pois o que ali fez este prodígio foi o espírito comunitário, a reunião de gente boa, que tornou espiritualmente grande um burgo mínimo, dentro da concepção das cidades humanas e não das aglomerações atrozes”.

Depois o poeta faz um pedido: “... Para estender aos moradores da região este serviço de qualidade, Cruzília precisa apenas de 10 quilômetros de fita asfáltica, em ligação com a BR-267. Dez quilômetros que a comunidade, por maior que seja sua disposição generosa, não tem condições de fazer. É assunto estadual e assunto federal. Se há sentido social numa rodovia, ou num pedaço de rodovia, creio que este é ocaso”.


Praça central de Cruzília/MG, muito bem cuidada.

O poeta se justifica: “Mas por que estou falando de uma organização de saúde municipal e de uma fatia de estrada, se minhas matérias são outras, e nem tenho poder político para dizer: “Façam-se os 10 quilômetros”, e os 10 quilômetros serem feitos? Nem acredito que o DNER e DER se debrucem sobre estes escritos leves, mas é a tal coisa: tomei conhecimento de Cruzília, fiquei impressionado e comovido com aquele cantinho de terra sul-mineira, e aqui estou pedindo sem saber pedir, sem ter talento e autoridade para pedir, 10 quilometrozinhos de asfalto para as irmãs camilianas e seu hospital e sua equipe médica e mais a Unidade Sanitária e mais a boa gente da antiga Encruzilhada, que na cruz dos caminhos não bota despacho, bota esperança, alegria e saúde.”

Drummond tinha a propriedade de falar aos corações dos homens, transpassando as dimensões do possível. Sua crônica foi lida pelo presidente da Organização Mundial de Saúde, que passava férias no Rio e também se comoveu com a descrição do poeta e da história por ele narrada. Como ele teria em sua visita ao Brasil um encontro com o governador de Minas, Rondon Pacheco, trouxe ao governador um recorte do texto de Drummond e o pedido de conhecer a tal cidade. Rondon viabilizou sua ida a Cruzília e sem ninguém saber de quem se tratava, conheceu e se encantou com o hospital das irmãs camilianas.

Na volta para Belo Horizonte, formalizou seu pedido do asfalto ao governador, com a justificativa de que aquele hospital poderia atender a toda região, minimizando o déficit sanitário no sul das Gerais. Seis meses depois, por designação do governo do Estado, chegava até a pequena Cruzília, 10 quilômetros de afasto.


AVALIAÇÃO PESSOAL
Uma etapa de grande extensão, e com algumas variações altimétricas importantes. Nela, também transitei por inúmeros locais ermos e silenciosos, principalmente, até o momento em passei diante da portentosa Fazenda Narciso, exatamente na metade do trajeto. Depois desse marco, o trânsito de veículos se intensificou e o sol passou a agredir com violência. Tirante tais contratempos, ainda caminhei por locais maravilhosos, onde a natureza se fazia exuberante. Porém, todo final da jornada é desgastante e este não foi diferente, porque enfrentei 5 quilômetros em asfalto. Para se ter ideia da dificuldade que vivenciei nos derradeiros metros, constatei num termômetro instalado no frontispício de uma loja, que a temperatura reinante na minha chegada, às 13 h, era de 34°C. Um suplício para qualquer caminhante.


RESUMO DO DIA
:

Tempo gasto, computado desde a Fazenda Traituba, em Cruzília/MG, até a Pousada Cruzília, em Cruzília/MG: 8 h 10 min;

Clima: frio e nublado de manhã; depois das 7 horas, calor e sol forte até o final da jornada.

Pernoite na Pousada Cruzília: Apartamento individual – Excelente! – Preço: R$65,00.

Almoço no Restaurante Gula Sem Pecado: Excelente – Preço: R$25,00 o kg, no Self-Service.


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