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SÃO BENTO DO SAPUCAÍ à LUMINOSA


1º dia - São Bento do Sapucaí a Luminosa - 24 quilômetros


Curiosamente, a chuva que caíra com violência à noite toda, parou logo que me levantei às 4 h 30 min, e dei início às minhas abluções matinais.

Eu havia combinado com o Sr. Zingra de tomar o café da manhã às 5 h 30 min, e exatamente nesse horário o desjejum estava sobre a mesa, com uma pontualidade capaz de causar inveja ao mais ortodoxo dos britânicos.


Momento da partida. Sob leve garoa.

Foi um momento de descontração e boa conversa, porém, após as fraternais despedidas, às 6 h, eu parti para cumprir a jornada do dia.

Lá fora a intempérie cessara, porém persistia uma fina e fria garoa, e como o céu se mantinha nublado e ameaçador, eu vesti meu “poncho” impermeável, na certeza de que a qualquer momento o mau tempo poderia persistir.

A saída desse roteiro se faz pela avenida principal da cidade, e segue em direção contrária ao antigo roteiro do Caminho da Fé que por ali passava, até ultrapassar um riacho por uma pequena ponte.


Saída da cidade por uma estradinha asfaltada.

Na sequência, fleti à direita e prossegui em asfalto, sempre entre belas vivendas e algumas chácaras.


Igrejinha do bairro Quilombo.

Depois de 3 quilômetros percorridos, no final de brusco declive, adentrei ao bairro Quilombo e logo passava defronte uma igrejinha dedicada à Nossa Senhora da Imaculada Conceição, cuja festa de comemoração se realizara na véspera.


Momento em que deixei o Sr. Antônio e prossegui sozinho.

Esse é um lugar pitoresco, reduto de artesãos, como o famoso escultor Ditinho Joana, bem como ponto de manifestações culturais e ainda possui um centro de artesanato, que confecciona produtos com a palha da bananeira.

Ali também há um Museu da Revolução de 32, uma estrutura construída em pau-a-pique, localizada dentro da Pousada do Quilombo, onde existe um acervo com relíquias: fotos históricas, peças e armas que fizeram parte da história da Revolução Constitucionalista.

Ao final de um pequeno trecho em bloquetes eu adentrei em terra e logo enfrentei uma penosa ladeira, onde fui progredindo, passo a passo, pois o piso se encontrava úmido e escorregadio.

Logo alcancei um trabalhador que subia lentamente, com um pequeno cajado numa das mãos e um picuá com comida, na outra.

Era o Sr. Antônio, residente no próprio bairro, com quem, após os cumprimentos habituais, eu conversei brevemente. Ele contou-me que estava indo ao seu sítio onde, diariamente, com chuva ou sol, fazia a manutenção necessária, ao mesmo tempo em que passava o dia distraído com os afazeres campestres.

Ele aparentava certa idade e caminhava com dificuldade, de forma que eu, mais ativo e em melhores condições físicas, logo me despedi e segui adiante.

O aclive foi se acentuando, e em alguns locais eu encontrei patamares onde pude descansar, para depois prosseguir com mais desenvoltura.


Bifurcação. O Caminho segue à esquerda.

Em compensação, a garoa foi recrudescendo, a estrada se tornando mais barrenta, contudo, como forma de aplacar meu espírito, toda vez que me voltava para trás, podia ver ao longe a cidade de São Bento, de onde tinha partido, cada vez mais longínqua.

Apesar da precariedade do piso por onde eu transitava, fui suplantado por uma barulhenta e valente motocicleta, pilotada por um jovem rapaz, que logo encontrei mais acima, trabalhando numa lavoura recém-semeada.

O nome do piloto era José Augusto, me disse que estava cultivando abóboras e, ante meu assombro, disse-me que outras hortaliças, como batata, pimentão e tomate, também se davam muito bem naquela altitude, pois a água ali era farta.


Moto do José Augusto e seu proprietário, ao fundo.

Fato que pude comprovar “in-loco”, porquanto um encorpado riacho descia a serra e passava para o lado contrário da estrada, exatamente naquele lugar onde eu me encontrava.

A uma indagação minha, ele redarguiu que ainda faltava bastante para que eu atingisse o topo do morro, onde encontraria um grande lago do meu lado direito, informação que me deixou um tanto preocupado, pois eu já estava me sentindo um tanto estafado.

Agradeci-lhe e segui em frente, agora por uma estrada que foi diminuindo em largura e mais acima se transformou numa trilha íngreme, localizada entre dois altos paredões, pois ela serve como calha de escoamento quando ocorrem chuvas e, por conta disso, já se encontrava bastante desgastada pela erosão.

Logo à frente, eu passei defronte à pousada Céu Aberto, situada num local privilegiado, porém tudo ali era silêncio e abandono.

Posteriormente tomei conhecimento que já há algum tempo ela se encontra desativada.


São Bento aparece ao longe, no horizonte.

Pelo grau de inclinação e dificuldade que encontrei na sequência, tive dúvidas se uma simples motocicleta venceria aquela lamacenta e agressiva trilha.

Em minha opinião, talvez apenas cavalos e bicicletas, mas, estas, empurradas, pois o alto grau de aclividade certamente impediria seu avanço, se o ciclista permanecesse montado.

Em determinado ponto, devido à umidade, a senda se transformou numa escadaria lisa e sobre a qual eu não consegui avançar, pois a cada tentativa de mudar o passo eu deslizava para baixo, ainda que estivesse usando desesperadamente meu cajado como apoio.


Trilha úmida e lisa.

Foram momentos dramáticos e de pânico, pois principiou a chover forte.

Assim, apesar de todos os esforços envidados, eu não conseguia sair do lugar, ao contrário, estava deslizando cada vez mais para trás.

Além da lama, a chuva forte criava uma correnteza de água ladeira abaixo, e a terra ali existente havia se transformado num barro escorregadio, exigindo muito cuidado para não cair.

Eu me sentia exausto e se não fosse por meu providencial cajado, já teria “beijado” o chão por inúmeras vezes.


Pausa rápida para descanso.

O desespero me atingiu por um instante.

Nesse momento, orei com fervor a Nossa Senhora Aparecida, pedindo forças

Então me ocorreu uma ideia, pois havia visto um pequeno tronco caído na vereda, a uns 50 metros atrás.

Lentamente retornei, apanhei-o e utilizei como base para avançar.

Aquele providencial cepo me auxiliou firmar a pisada e, com grande superação e força sobre-humana, eu consegui vencer esse obstáculo que me pareceu, com toda a sinceridade, intransponível.

Esse foi, com certeza, o momento mais delicado e tenso dessa etapa, posto que a chuva não dava tréguas, ao contrário, aumentara de intensidade.

Depois de enérgico e desesperado esforço físico, finalmente, alcancei o topo da elevação, onde fiz uma pausa para respirar, além de me hidratar e ingerir uma fruta.


Final da subida. Momento de ultrapassar a porteira.

Lembrando que eu partira de 886 metros de altura, na cidade de São Bento, e nesse local eu atingi o patamar de maior altimetria dessa jornada, pois estava a 1.630 metros acima do nível do mar.

Na sequência, atravessei uma porteira e principiei a caminhar dentro de um grande bosque, por um caminho matoso que, mais à frente foi se estreitando e transformou-se numa trilha bastante suja e com grande erosão em seu leito.

Nesse trecho não vi flechas azuis, porém o roteiro praticamente não permite erro, já que não havia bifurcações no percurso.


Trilha úmida, erma e silenciosa.

Assim, fui avançando com extremo cuidado, pois o piso continha muita água e estava por demais liso.

Foram 2 quilômetros totalmente solitários, até que, sob as bênçãos divinas, deixei a floresta e saí num descampado, onde avistei um grande açude pelo meu lado direito.

Em seguida, eu atravessei uma porteira e próximo ao “ladrão” do lago eu estaquei indeciso, pois ali se abriam três possibilidades de seguir adiante, contudo não localizei nenhuma flecha sinalizadora indicando o local por onde eu deveria prosseguir.

A estradinha nesse trecho era puro barro, excremento de cavalos e água de chuva.

Lembrei, então, de um mapa que o Sr. Zingra havia me dado e que carregava no bolso, mas ao pegá-lo, vi que tinha cometido um grave descuido pois não o protegera da umidade, e ele se encontrava integralmente encharcado, sem possibilidade de me servir para o objetivo a que se propunha.


Caminhando em direção ao lago.

Sem outra opção, lentamente, retornei alguns metros e sob os eflúvios celestes, num barranco em frente, encontrei a indicação que eu precisava, assim, contornei o entancado, depois prossegui à esquerda.

Desse modo, logo adentrei numa larga estrada de terra, em grande declividade.

Depois de tanto esforço eu me encontrava sedento, porém estava com dificuldade para apanhar a garrafa de água, guardada dentro da mochila, pois para tal mister, precisava retirar a capa protetora e, por certo, iria me molhar por completo, porquanto a chuva persistia sob a forma de intempérie.

Por sorte, mais à frente, debaixo de copada árvore, pude saciar minha sede.


Caminho plano, mas ainda com chuva.

Aproveitando a segurança do ermo local, fiz um rápido balanço de minha vestimenta: eu estava todo sujo de barro, boné úmido, cabelos desgrenhados, além de botas e pés, integralmente molhados.

Ademais, estava faminto e ainda me restava metade da jornada a ser cumprida, isto sob as piores condições possíveis, o que me fez repensar minha aventura.

Nesse sentido, muitas vezes, já havia me perguntado sobre o que move o ser humano a deixar o conforto da sociedade em que vive, do seu lar, de seus familiares e amigos.

O que leva – ou eleva – o homem a abandonar a comodidade e o aconchego das cidades e das curtas distâncias, os desejos facilmente realizáveis, o consumo rápido e prazeroso, a segurança da lógica das relações previstas e dos cenários projetados?

Enfim, o que conduz o peregrino a caminhos tão árduos, lugares tão inóspitos, ao tempo em que abandona o seu seio, seu entorno e buscar as grandes distâncias geográficas, as regiões desabitadas, lugares em que a vida é árdua e difícil?

Respondendo por mim, entendo que todos buscam um sentido incomum, inexplicável para a maioria, e talvez, para si próprios, algo que se projeta além da própria aventura, como comumente são nominadas, à falta de uma logicidade mais profunda a essas experiências


Um grutinha, com a imagem de Nossa Senhora.

Bem, deixei essas indagações para serem digeridas no futuro, e prossegui adiante, agora por uma estrada larga e plana, onde já era possível o tráfego de veículos.

Após transpor outra porteira, passei a caminhar entre belas fazendas de criação de gado, embora nesse trecho estranhamente não tenha avistado nenhuma pessoa, apenas animais como cavalos, bois e galináceos.

Mais à frente o caminho voltou a se elevar até uma grande bifurcação, quando ascendi a 1.590 metros de altitude.

Nesse local, eu obedeci às flechas, prossegui à esquerda por uma estrada plana e, depois de 200 metros, principiei a descer, ainda que de forma imperceptível.

Logo adiante, defronte a um belo sítio, todo cercado por pés de hortênsias, encontrei um pequeno oratório dedicado a São José, com pintura recente e inserido dentro de um cercado de madeira, possivelmente para dificultar a ação de vândalos.

Então, definitivamente, passei a caminhar em descenso.


Caminho bonito, mas com muita umidade.

Primeiramente, de maneira leve, depois já em grande declividade, o que me forçava a tomar extremos cuidados para não levar um tombo, pois o piso se encontrava terrivelmente úmido e escorregadio.

Os locais por onde atravessei eram de exuberante beleza, contudo, infelizmente a chuva e a cerração reinante no entorno tornavam a paisagem fosca e obstruíam minha tentativa de observar o horizonte.

Para complicar, depois de mais 30 minutos de caminhada, a intempérie que naquele momento se resumia a uma leve garoa, voltou com intensidade, e eu utilizei a copada de uma árvore para checar os pertences, pois estava com medo de molhar meus documentos e o conteúdo da mochila. 


Em descenso, mas ainda sob chuva.

Mais abaixo eu acabei desaguando numa estrada de terra larga e plana, onde transitam veículos, exatamente aquela que faz a ligação entre São Bento e Luminosa.

A partir desse marco, principiaram a aparecer imensas plantações de banana alocadas nos morros que se situavam à minha direita, porém, todas envoltas por nuvens neblinosas, quando situadas no topo.

Num local onde havia algumas casas simples e barulho de crianças brincando, encontrei um bar, mas, fechado.

No entanto, utilizei sua cobertura frontal para fazer uma pausa para hidratação e ingerir uma barra de cereal, pois meu estômago já estava reclamando.

Depois, bem mais animado, prossegui adiante.

Na sequência, encontrei um senhor que retornava da roça, pois estava com trajes de trabalhador braçal, acompanhado de seis cães, todos autênticos vira-latas.

Paramos e em breve conversa ele me contou que eu estava a cinco quilômetros de meu destino para aquele dia.


A chuva não dá trégua.

Nesse trecho derradeiro, a chuva prosseguiu incessante, tormentosa, a cair de um céu ardósia com uma violência de dilúvio.

Mesmo assim, meu poncho “neblina” impermeável, fabricado pela empresa “Trilhas e Rumos”, deu conta do recado e não me molhei.

Finalmente, depois de vencer um trecho extremamente alagado, por sorte, o derradeiro, eu adentrei em Luminosa quando meu relógio marcava 11 h 15 min, cansado e com os pés ensopados.


Momento da chegada. Molhado, mas feliz.

Como já ocorrera em outubro, quando percorrera o Caminho da Fé, fiquei hospedado na pousada Nossa Senhora das Candeias, onde a Dona Ditinha faz a diferença, por sua simpatia, lhaneza e preocupação com os peregrinos.

Depois de um reconfortante banho quente e uma dose de conhaque para combater a friagem e espantar a gripe, desci ao segundo andar para ingerir um merecido e gratificante almoço.

Na sequência, pude descansar sem pressa, pois a chuva não dava trégua, ao revés, aumentara de intensidade, alagando as ruas do pequeno distrito.

Quando me levantei às 16 h, surpreendentemente São Pedro dera um “descanso” em suas atividades, de maneira que saí para dar um volta pelos arredores.


Luminosa, um local mágico!

Ao me dirigir à simpática igrejinha dedicada a Nossa Senhora das Candeias, onde pude externar minhas preces, tive uma desagradável surpresa, ao constatar que as frondosas árvores existentes ao redor da praça fronteiriça ao templo, haviam sido podadas recentemente, e de forma radical.


Luminosa, de outro ângulo.

Efetivamente, um crime ambiental de largo espectro, pois quando ali estivera há 50 dias, pude observar inúmeros pássaros que habitavam diariamente seus galhos, bem como usufruir da sombra gostosa que sua copada proporcionava.

Ao questionar a um morador a razão de tamanha devastação, ele me explicou que tal ordem havia partido da prefeitura de Brazópolis, onde se situa a sede daquele distrito, visando à colocação de câmeras de vigilância no povoado, pois havia reclamação dos moradores quando à baderna diária provocada por alguns jovens, após às 22 h.


Placa mostrando o entrelaçamento de dois caminhos nesse trecho.

Difícil acreditar que num local onde habitam 600 almas e a maioria das portas das residências dorme sem chave, possa haver violência a ponto de justificar o sacrifício de tão inocentes testemunhas da natureza, que davam uma coloração especial àquela simpática vila.

À noite, atendendo a um especial pedido que fiz, Dona Ditinha preparou uma saborosa canjiquinha mineira, da qual matei a saudade e me fartei.

E logo fui dormir, pois a noite apresentava-se fria, enquanto a chuva retornava com vigor, sem dar mostras de que ia cessar tão cedo.

 

Luminosa! Quanta saudade!

IMPRESSÃO PESSOAL Uma jornada de razoável dificuldade, mormente pela parte final da escalada da serra, que se encontrava bastante lisa e erodida. Depois, o trânsito pelo bosque existente no alto da montanha que requereu uma atenção especial, pois o encontrei matoso, úmido e não observei qualquer sinalização, embora o rumo a ser seguido possa ser intuído. Após a passagem pelo lago localizado no topo do morro, o trajeto se tornou fácil e prosseguiu, quase sempre, em forte declividade. A elogiar o verde existente nessa etapa, com mata preservada e imensas glebas dedicadas à agropecuária e à bananicultura ao longo de todo o trajeto.


 02 - LUMINOSA a PIRANGUÇU