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10º dia: COCAIS a SANTA BÁRBARA: 32 quilômetros


COCAIS a SANTA BÁRBARA: 32 quilômetros

 
      


Conforme ficara combinado na noite anterior, o Everton deixou farto café da manhã preparado no refeitório, local para onde me dirigi após os aprestos matinais.






A previsão indicava sol forte o dia todo, assim, às 5 h 30 min, deixei a pousada, em meio a forte cerração, subindo por ruas desertas e empedradas, a colina em direção à igreja matriz do distrito. 


Logo acima, localizei o primeiro marco da Estrada Real e segui pela “Estrada das Cachoeiras”, uma larga via de terra, em ótimo estado de conservação. 


Contudo, chovera muito na noite anterior, de forma que o piso se encontrava ainda úmido e escorregadio.







Dois quilômetros percorridos em contínua ascensão, passei defronte a entrada para a Pedra da Cambota, considerada na região como um ponto chave para estudos geológicos.

No local existem torres de TV e da Telemar, e dali pode se ter uma belíssima vista panorâmica, onde várias cidades são avistadas em seu raio de visão.

À minha esquerda, o nascente principiou a ficar dourado e as estrelas, tão brilhantes há pouco, despareceram. 

Ao mesmo tempo, a paisagem foi se revelando cada vez mais nítida, como se eu estivesse a observar tudo através das lentes de um binóculo, que fosse, lentamente, pondo em foco, pois, conforme notei, nessas paragens o dia nasce e morre com rapidez.




 
 

Mais um quilômetro em penosa subida e passei junto a entrada para o Sítio Arqueológico da Pedra Pintada, onde existem pinturas rupestres, datadas de seis mil anos a.C.







Essas enigmáticas inscrições possuem desenhos semelhantes aos encontrados nas grutas de Altamira (norte da Espanha) e Lascaux (sul da França).




 

O trajeto, em contínua aclividade, levou-me a trilhar em meio a mata fechada e sob densa vegetação. 


Em alguns locais, segui dentro de um espesso túnel de verdura, por onde cortava a estreita vereda.


Nesse trecho encoberto de espessa floresta, a trilha pareceu-me, literalmente, uma linha vermelha costurando a mata. 

        
         Sobe, desce suavemente, inclina, se contorce entre os troncos majestosos do impressionante arvoredo, num lugar absolutamente ermo.




 


Porém, a partir do sexto quilômetro, acessei vasto eucaliptal e durante dois quilômetros persisti subindo e transpirando, pois, apesar da pouca distância percorrida, fiz uma ascensão global de 400 metros nesse trajeto, pois, passei de 750 metros iniciais para 1.150 metros de altitude naquele ponto.





         
Então, iniciou-se penosa e difícil declividade, numa estrada elameada. 






Depois, a calçada centenária tinha pedras pontiagudas e irregulares, um tormento para meus sofridos pés. 

Finalmente, no quilômetro onze, atravessei um viaduto embaixo da linha ferroviária e, imediatamente, avistei, se estendendo por um grande vale, a cidade de Barão de Cocais.






Logo atingi o perímetro urbano e, primeiramente, andei em asfalto, depois, em um piso de paralelepípedos, seguindo pela rua Oliveiras e Avenida Tancredo Neves até o centro da urbe, onde cheguei às 8 h 15 min.
 

A cidade, segundo a história, foi fundada em 1.713, por bandeirantes portugueses e brasileiros, que se deslocaram do povoado de "Socorro", desceram o rio, percorrendo aproximadamente dez quilômetros, e acamparam no lugar que deram o nome de Macacos.

Construíram suas cabanas e uma capela muito simples, sob a invocação de São João Batista. 


No entanto, como foram bem sucedidos na exploração de minério, para lá se dirigiram novos forasteiros, dando início a construção de uma vila. 


Em 1764, foi iniciada a edificação da igreja Matriz, localizada na Praça principal do então Distrito. 

Em 1.925, seguia a marcha progressiva dos pequenos povoados quando, a Cia Brasileira de Usinas Metalúrgicas criou no local uma filial de ferro-gusa, alcançando a partir daí grande desenvolvimento.






O topônimo foi escolhido numa justa homenagem ao filho da terra, o Barão de Cocais, que proporcionava meios de sobrevivência a centenas de trabalhadores da localidade.


Atualmente, com 28 mil habitantes, uma das maiores da região, tornou-se barulhenta, o trânsito é complicado e há movimentação intensa de pessoas, o que deixa o caminhante acostumado ao silêncio e beatitude dos campos, tenso e desesperado para fugir desse cotidiano.







Numa praça me informei com um taxista e logo marchei apressado em direção ao acesso da rodovia MG 436, na saída da cidade. 

Em asfalto, num acostamento ínfimo e perigoso, caminhei alguns quilômetros até encontrar, à direita, numa estrada de terra, o primeiro marco da Estrada Real.






Feliz e desoprimido, porém, já sob sol ardente, passei na frente de uma grande área, onde atualmente está sendo edificado um grande núcleo residencial, constituído de casas populares. 






Ali, pude avistar inúmeros trabalhadores da construção civil, em açodada atividade.





 
Mais adiante, passei ao lado da entrada para o aterro sanitário do município e, a partir daquele ponto, caminhei em uma estrada extremamente arborizada e silenciosa. 




           A mata exuberante e preservada me ladeava e, em alguns locais, formava verdadeiros túneis verdes. 





Até micos silvestres avistei nesse percurso. 
 
Durante mais de hora trilhei solitário, pois, não encontrei pessoas ou animais, nem veículos me ultrapassaram. 

A solidão e o silêncio nesse trecho foram tão opressivos, que chegaram a me incomodar.




 

Seis quilômetros depois, ao sair em campo aberto, avistei, à esquerda, a imensa represa do Peti.

Mais à frente alguns trabalhadores faziam a conservação da estrada municipal, podando árvores, roçando as laterais e aplainando seu leito. 


Quando passei, eles se aglomeravam debaixo de frondosa árvore, num merecido descanso, para beber café e comer o lanche.


Após cumprimentá-los, parei para conversar com o líder do grupo e, depois de obter algumas informações sobre aquele percurso, falamos a respeito do tempo, política e o labor campestre. 


Curioso, o Sr. Aparecido indagou-me o motivo de minha caminhada. Estaria eu, por acaso, pagando alguma promessa, perguntou?





 
 
A conversa fluiu sincera e, quando me dei conta lhe falava minha procedência, profissão, experiências, bem como relatei sobre minhas outras peregrinações pretéritas. 

          Alguns homens que se encontravam mais distantes, foram se achegando e, curiosos, crivaram-me de perguntas, algumas até ingênuas.
    

Depois de uns dez minutos em agradável peroração, infelizmente, eu precisava partir e, eles, naturalmente, retornar à dura liça.


Na hora das despedidas, mãos calosas se estendiam num gesto acanhado. 


Eram mãos grandes, duras, ásperas como cascas de árvores, que apertavam a minha em oscilações verticais infindáveis, como a marcar compasso, ao que murmuravam comovidos:


- Que Deus lhe acompanhe..


- O Bom Jesus lhe guie e dê felicidades..

 

- Boa viagem e que Nossa Senhora lhe abençoe..


E naqueles rostos tisnados pelas soalheiras, cobertos de barbas amanhecidas, olhos de esclerótica avermelhadas e pestanas ralas, pude ler a comoção e a sinceridade daqueles homens rudes e despojados...
 
Por alguns segundos emudeci diante de tanta afetividade, depois, olhos marejados, parti cabisbaixo, sem conseguir ocultar a emoção crescente que tomava conta de meu ser.

Afinal, como não ficar emotivo, com tanta demonstração de ternura. 


E como não me abalar com aqueles gestos simples e espontâneos, com os quais me brindavam aquelas almas primitivas, cheias de bondade.







A partir do quilômetro catorze, voltei a trilhar em mata fechada, uma constante nessa região, onde predominam os campos de altitude, uma transição entre a Mata Atlântica e o Cerrado, tendo o caudaloso ribeirão Santa Bárbara a me acompanhar pelo lado esquerdo.


Mais à frente, transpus o curso d’água sobre grande ponte e, dali, já pude avistar Santa Bárbara, minha meta para aquele dia. 

Mais algumas centenas de metros percorridos em terra e logo adentrei em área urbana.






A cidade foi fundada em 1704, pelo paulista Antônio Bueno que percorria a região atrás de ouro e o encontrou em abundância ás margens do Ribeirão de Santa Bárbara. 

Uma das mais antigas cidades mineiras, teve seu apogeu durante o ciclo do ouro. 

Após o declínio das minas, o município passou a ser importante entreposto de abastecimento, de onde partiam cerca de 600 tropas de mulas por dia.






Em 1858, a Vila recebeu o “status” de  Cidade, consolidando sua importância como município da Província de Minas Gerais em fins do século XIX.


Tranqüila, agradável, situada na belíssima região da Serra do Caraça, Santa Bárbara conta, atualmente, com 28.000 habitantes. 


Também, foi berço de pessoas ilustres como: 


- Dom José Feliciano Pinto Coelho da Cunha (1792-1869), o Barão de Cocais, militar, político e empresário, no Século XIX, personalidade de maior riqueza em toda aquela região; 







- O Presidente da República, Affonso Augusto Moreira Pena (1847-1909), que governou o Brasil de 1906 a 1909 e foi o único personagem político do Segundo Império (Comendador, quatro vezes Deputado e Ministro da Guerra, da Agricultura e da Justiça) que continuou sendo autoridade na República (Deputado Constituinte, Presidente da Província de Minas Gerais, Vice-presidente e Presidente do Brasil);

- O eminente Cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta (1890-1982), construtor da Catedral da Sé, quando bispo de São Paulo e primeiro arcebispo de Aparecida do Norte (SP), também, idealizador da Catedral e Basílica da Padroeira do Brasil; 
 
- O violonista e compositor Mozart Bicalho (1911-1986), recordista em vendagem de discos e na criação de obras clássicas e populares para violão, na "Era do Rádio".

Nessa magnífica cidade, fiquei hospedado no Hotel, Restaurante e Padaria Florenza, que recomendo, com entusiasmo, pela qualidade das instalações e  excelência nos serviços prestados. 







Para minhas refeições, utilizei o próprio restaurante do estabelecimento, onde é servida comida caseira, de excelente preparo, a preço módico.


A povoação tem características de minha terra natal, Itu, no estado de São Paulo. 


Praças bem cuidadas, construções antigas e prédios modernos. 


Em tudo irradia uma beleza bucólica de cidade interiorana, apesar de estar experimentando grande progresso, o que se nota pelo seu movimentado e concorrido comércio local.


Mais à tarde, fui verificar o local por onde deixaria a cidade no dia seguinte. 

No percurso, aproveitei para conhecer a bela e restaurada igreja de Nossa Senhora do Rosário, construção de 1.756.






Também, fotografei a Igreja Matriz do município, cujo padroeiro é Santo Antonio, uma edificação em estilo barroco, datada do princípio do século XVIII.







No trajeto, pude visitar, ainda, a casa onde nasceu Afonso Pena e, à noite, optei por singelo lanche e, logo depois, fui dormir.
 
 

 


 Decoração interior do Hotel, Restaurante e Padaria Florenza - Santa Bárbara/MG, local onde pernoitei.


Decoração interior do Hotel, Restaurante e Padaria Florenza - Santa Bárbara/MG, local onde pernoitei.



IMPRESSÃO PESSOAL – Uma jornada fácil e de rara beleza, trilhada em meio a muito verde, por matas preservadas, e, quase toda, em planalto. A lamentar, apenas, a longa passagem pela cidade de Barão de Cocais, bem como pelo trecho na MG-436, quando o peregrino é obrigado a caminhar mais onze quilômetros, sendo metade em zona urbana, e o restante, em rodovia asfaltada.