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09º dia – SIMANCAS a MEDINA DE RIOSECO - 44 quilômetros


09º dia – SIMANCAS a MEDINA DE RIOSECO - 43 quilômetros

O Caminho de Santiago é um roteiro para o interior de si mesmo, qual seja, uma marcha solitária.



Em princípio, nesse dia, a minha jornada se findaria em Castromonte, 29 quilômetros à frente, contudo, deixei para avaliar uma possível sequência, quando ali aportasse.

Porém, já prevendo essa prorrogação da etapa e como o clima prometesse chuvas à tarde, deixei o local de pernoite às 5 h 30 min, quando ainda tudo estava muito escuro, temperatura reinante ao redor de 9 °C.

O trajeto até Ciguñuela foi extremamente tranquilo, o dia ainda não havia raiado, assim, me guiei pela lanterna e o traçado do caminho, que estava inserto em meu aparelho celular, via programa Wikiloc.

Foram 7 quilômetros ritmados e planos, porém, precisei superar uma pequena elevação na parte final desse tramo.

E pelo que pude deduzir, transitei, novamente, entre bosques de pinheiros e trigais, a perder de vista.

O trajeto sequente, integralmente plano e retilíneo, me levou a passar pelo pequeno povoado de Wamba, nome derivado de um rei visigodo que a conquistou, cuja atração principal é sua igreja mozárabe, do século X, onde há um ossário, o maior que se conserva na Espanha.

Porém, quando ali passei, tudo ainda estava fechado e silencioso, assim, sem maiores problemas, prossegui adiante.

Já a chegada a Peñaflor de Hornija exigiu que eu vencesse uma empinada mas curta ladeira, antes de adentrar a essa outra vila, onde fiz uma pausa para hidratação e ingestão de uma banana.

O clima prosseguia fresco, não havia sol, eu me sentia muito bem fisicamente.

Animado, segui adiante, e então passei a caminhar por enormes retões, onde a tônica foi sempre campos de cereais, como trigo e cevada.

E pela segunda vez nesse dia, passei ao lado de uma grande aglomeração de torres utilizadas para a captação de energia eólica.

Superados 29 quilômetros, cheguei, finalmente, em Castromonte, minha meta para esse dia, onde existe um bem cuidado Albergue, localizado na entrada da povoação.

Diante do edifício, telefonei para o hospitaleiro, mas ele se desculpou, pois não sabia que havia peregrinos chegando ali naquele dia.

Na realidade, ele estava em outra localidade, resolvendo problemas particulares e prometeu voltar em 2 horas para me alojar.

Desse modo, eu segui até a praça central da cidade e quando ali cheguei, fiz uma pausa para repensar o que faria, porque no dia anterior eu havia perdido a obturação de um dente e, pelas informações que obtive com um residente, naquela localidade não existia nenhum profissional apto a me atender.

Depois de rever os mapas que portava, resolvi seguir adiante.

Então, dei ciência de minha decisão ao responsável pelo Albergue, via telefone.

Em seguida, num bar próximo, tomei café com croissant, comprei água, depois segui adiante, pois o dia prosseguia com sol ameno e temperatura baixa.

Voltar aos campos foi um prazer enorme, pois reencontrei caminhos planos e intermináveis trigais, por onde segui solitário, ouvindo música espanhola, que levantaram o meu astral.

Depois de descender bruscamente, mais 9 quilômetros percorridos, transitei por Valverde de Campos, minúscula vila onde avistei apenas uma pessoa em sua praça central.

O trajeto final foi percorrido numa senda matosa, localizada ao lado de uma rodovial vicinal.

E exausto, mas feliz, cheguei a Medina do Rioseco, belíssima cidade onde, além de descansar, graças ao bom Deus, pude usufruir dos serviços de um dentista, que deixou minha boca “nova em folha”.

Algumas fotos da jornada desse dia:


Temperatura amena; o dia ainda não raiou.


Caminhando em direção a um parque eólico.


O sol, finalmente aparece...


As marcas quilométricas prosseguem caindo...


Local mágico, onde segui "escoltado"...


Na província de Valladolid a marcação é dessa forma.


Do lado esquerdo, em primeiro plano, o Albergue de Peregrinos de Castromonte.


Praça central e igreja matriz de Castromonte.


De volta aos campos agrícolas..


Solidão total: eu e Deus...


Descenso em direção a Valverde de Campos.


Trecho final, por uma trilha sem sombras...


Quase chegando... Medina já aparece do lado direito, ao longe..

Os vestígios mais antigos de Medina de Rioseco retroagem à “Idade do Ferro” e época celtibérica.

No entanto, sua fundação oficial data do ano de 1.258, quando Alfonso X, “El Sábio”, fixou seus limites definitivos.


Igreja matriz de Medina do Rioseco.

Em seu território, em 1.808, ocorreu a grande batalha de Rioseco, vencida pelos franceses capitaneados, à época, por Napoleão Bonaparte.

Em 1.849, uma extensão do “Canal de Castilla” chegou até a cidade e, em consequência, nela se instalaram grande quantidade de fábricas de farinha, moinho de papel e fundições siderúrgicas.


O interior da igreja matriz.

Porém, mais tarde, a implantação das vias férreas nessa cidade, acabaria por substituir o uso desse canal para fins comerciais.

Sua igreja matriz, cuja padroeira é Santa Maria de Mediavilla, é uma construção do século XV, que substituiu um edifício anterior, cujos restos se conservam na Capela dos Palácios.

População atual: 5 mil habitantes


Numa rua de Medina do Rioseco, festejando mais uma vitória.

Em Medina do Rioseco eu pernoitei no Hostal Castilla, cêntrico e de boa qualidade, mas onde me decepcionei, pois foi o único estabelecimento do gênero, onde não havia rede wifi disponível aos clientes.

Para almoçar, eu utilizei os serviços do Restaurante do próprio hostal, onde despendi 9 Euros por um apetitoso “menú del dia”.

IMPRESSÃO PESSOAL – Hoje eu adentrei na “Tierra de Campos”, cujas austeras paisagens me acompanhariam até Sahagún. Porém, como nas etapas anteriores, transitei por outra infindável planície e, praticamente, sem nenhum entrave em termos altimétricos. E, embora, eu tenha caminhado por quase 11 horas, ininterruptamente, ganhar um dia no Caminho, foi fundamental, porque pude desfrutá-lo em Santiago de Compostela, ao lado de minha família.

Em termos globais, uma jornada extensa, contudo, permeada de locais ermos, silenciosos e desabitados, além do que, quase sempre, caminhei sobre piso de terra socada e sem pedras. Foi, sem dúvida, uma etapa de superação, mas que venci sem dores ou bolhas. Mais uma benção Santiaguina!