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7º dia – CASA GRANDE à LAGOA DOURADA – 29 quilômetros


7º dia – CASA GRANDE à LAGOA DOURADA – 29 quilômetros

A noite fora um tanto tumultuosa, posto que 4 quartos da pensão estavam ocupados, e, apenas um banheiro servia a todos os hóspedes. Assim, como minha porta ficava defronte o sanitário, fui acordado várias vezes com o disparo da descarga.

De forma que levantei mais tarde do que de costume, em torno de 5 h. 

O café estava pronto sobre um grande fogão à lenha, então ingeri o saboroso líquido acompanhado de um bom pedaço de queijo mineiro que, por sinal, estava delicioso.

Às 5 h 30 min, deixava a residência de Dona Irene, seguindo, à direita, por ruas geladas, desertas e silenciosas. 

Apenas, alguns galos já disparavam sua saudação matutina, ante o iminente amanhecer.

No final do asfalto, encontrei o primeiro marco da ER e após transpor um mata-burro, acessei uma larga estrada de terra batida e por ela segui sempre em franca ascensão.

Para minha surpresa, diferentemente dos dias anteriores, não havia cerração intensa no ambiente. 

Uma novidade para mim, pois eu sabia que a neblina é formada pela suspensão de minúsculas gotículas de água numa camada de ar próxima ao chão. 

Ou seja, a grosso modo, ela nada mais é do que uma nuvem em contato com o solo.

Esse fenômeno, também conhecido como nevoeiro, é mais comum em lugares frios, úmidos e elevados e ocorre devido à queda da temperatura e à consequente condensação do vapor d’água junto ao solo. 

A condensação, também chamada de liquefação, é a transformação da água em estado gasoso (vapor) para o líquido, quando submetida a um resfriamento. Por isso, é bastante comum aparecer nevoeiro noturno em regiões onde há rios. 

Durante à noite, a umidade resultante da evaporação do rio se resfria e surge a névoa.

E, em minha opinião, todos os fatores necessários para a consecução de tal manifestação climática se encontravam presentes, contudo, inexplicavelmente, ela não ocorria, permitindo-me devassar o ambiente, que me circundava, com razoável amplitude, posto que a lua cheia brilhava no céu, com muita intensidade.

E interessante notar que o luar intenso alonga nossas silhuetas, formando desenhos bizarros ao sabor dos acidentes do terreno.

Depois de percorrer 3 quilômetros nessa toada, me defrontei com uma bifurcação: se seguisse à direita retornaria à cidade de Entre Rios de Minas. 

Assim, prossegui à esquerda, em direção à Lagoa Dourada, minha meta para aquele dia. Era 6 h e 15 min e a incipiente claridade já me permitia distinguir as matas circunjacentes.



Mais abaixo, a estrada abria-se novamente em dois rumos e uma placa indicava à esquerda, as localidades de Cachoeira e Córrego Fundo. 

Então, obedecendo a sinalização, prossegui à direita.


Amanhecia, lentamente, e prenunciava um daqueles dias incertos de meio para final de outono, o céu amarelo acinzentado ao raiar do dia, a temperatura na casa dos 15ºC.



No final de uma grande descida me deparei com um rebanho de vacas mugindo, algumas deitadas no leito da estrada, outras se movimentando agitadamente, enquanto aguardavam a chegada do funcionário que viria ordenhá-las. 

No curral próximo, os bezerros berravam de fome, e essa sinfonia matinal me acompanhou por boa parte do caminho, já que o silêncio reinava naquele trecho.



A estrada larga e muito bem cuidada serpenteava entre grandes fazendas, onde o forte era a criação de gado leiteiro. 

Porém, em muitas, observei grandes plantações de milho e cana-de-açúcar.

Depois do sétimo quilômetro, no topo de um morro, caminhei um bom tempo cercado por extenso bosque de eucaliptos, contudo, com caules ainda em formação. 



Após uns 20 min, se tanto, principiei a descer e já no plano, no quilômetro 10, passei defronte a Fazenda do Vau, um famoso criatório de jumentos Pêga, raça brasileira de origem nobre, é o aperfeiçoamento do cruzamento do jumento brasileiro com a jumenta egípcia.



Essa estirpe se originou na fazenda de um padre mineiro, no início do século XlX, sendo depois aprimorada, em seguidos cruzamentos, pelo coronel Eduardo José de Rezende, redundando em excelentes animais para montaria, pois são dóceis, cômodos, macios e dotados de grande resistência.

Desse modo, são usados no trabalho rural e no lazer, porquanto possuem características singulares, que facilitam a lida diária com gado, transporte de carga e tração, como carroça, arado e capinadeira, além de se aprestarem para cavalgadas de longa distância e provas de marcha.



Tem esse nome (Pêga), porque os animais são assinalados com uma marca de fogo, cujo desenho lembra as algemas de ferro colocadas nos tornozelos de escravos fugitivos.

Defronte à porteira da propriedade, fleti à direita, atravessei caudaloso ribeirão e acessei penosa ladeira, porém de curta distância. 

No topo do morro, seguindo as marcações, abandonei a via principal e dobrei à direita, num ângulo de 90°. 



Depois de transitar entre a igreja e o Centro Comunitário, cheguei à Catauá, distrito que pertence à Lagoa Dourada, quando meu relógio marcava, exatamente, 7 h 45 min.

Segundo a história, nesse pequeno povoado ainda vivem remanescentes dos temíveis índios Cataguases, que habitavam essa região por volta do ano de 1.769. E, em seus arredores, ainda subsistem trilhas que serviam de roteiro para os silvícolas, nos tempos remotos, onde podem ser observados vestígios de tocas e tabas pertencentes a um grande aldeamento.

A vila se mostrava agitada, pois nesse dia, um sábado, haveria naquela localidade a famosa “Festa do Peão”. 

Assim, algumas pessoas desfilavam garbosamente montadas a cavalo, pela única rua da simpática vila, enquanto outras trabalhavam na montagem de uma improvisada “arena”.

Em um caminhão estacionado na praça principal, a música sertaneja “rolava” em alto volume, apesar do horário.

Ali, tudo praticamente se encontrava fechado, inclusive a igreja dedicada à Santo Antônio. 

Apenas um bar mantinha as portas abertas. Porém, como eu portava água e mantimentos em quantidade suficiente, optei por seguir adiante. 

E depois de vencer 1.000 m, em laboriosa ascensão, retornei à estrada principal por onde eu viera desde Casa Grande, fletindo à direita, num cruzamento.



A partir dali, a paisagem tornou-se mais aberta e pude observar o horizonte, com muito mais amplitude. 

Linda manhã outonal se delineava, porém já sentia nas narinas, aquele começo de secura que prenunciava os dias quentes. 

Eu me sentia bem naquela região seca e plana, tão fascinante quanto as montanhas ou o mar. 

Havia nesse intermeio uma espécie de beleza austera, que me fez parar diversas vezes para fotografar.

Nesse trecho, foi possível observar uma grande diversificação ecológica, com uma biodiversidade representativa de alguns ecossistemas importantes do bioma Mata Atlântica e Cerrado. 

Porém, com pouca mata nativa, áreas de preservação permanente sem vegetação, grandes plantações de eucalipto e agricultura extensiva. 

Depois de mais 3 quilômetros percorridos, adentrei em frondoso bosque de eucaliptos que me proporcionou oxigênio e refrigério, apesar do clima se manter relativamente fresco, vez que o céu persistia nublado.



Quase no final de uma grande reta, encontrei uma cobra morta à beira da estrada. 

Um senhor que passava a cavalo, identificou-a como urutu-cruzeiro e, segundo ele, muito comum por aquelas bandas.

Mais adiante, passei próximo da secular Fazenda do Engenho, famosa por seu interessante acervo de objetos dos séculos XVIII, além de ser o berço do jumento da raça Pêga, reconhecida oficialmente e difundida em todo o território nacional.

Como mencionei antes, após vários anos de persistência e estudos, essa raça foi desenvolvida pelo Coronel Eduardo José de Rezende, então, proprietário da fazenda. 

Foi nela, também, que o Imperador D. Pedro II se hospedou por várias vezes, inclusive, em sua derradeira visita à região.

Em sua parte frontal, há um muro pesado, de pedras negras, que se transforma, em seu final, na fachada da linda e centenária herdade. Em frente sua sede, observei um grande rancho, todo feito de pedras, com telhado rústico. 

Ali, antigamente, era uma senzala e hoje faz parte da história do Brasil, apesar disso sensações nada agradáveis me veio à mente.

Mais à frente, passei a caminhar entre grandes fazendas de criação de gado leiteiro, até o 16º quilômetro. 



Depois, principiou-se grande baixada que culminou com uma grande ponte sobre um riacho, num lugar bastante arborizado.

Mais acima, um fato curioso: um coqueiro adulto nasceu e sobreviveu solitário, bem no meio da estrada. 

E, como pude conferir atentamente, não existem marcas de ferimentos em seu caule, sinal de que os moradores da região respeitam a natureza, pois transitam com veículos nesse local, sem agredi-lo.



Logo adiante, passei por uma grande fazenda de gado, cuja sede, mangueiros, instalações de ordenha e pastos, estão distribuídos pelos dois lados da estrada. 

Ali pude observar um grande número de vacas leiteiras, bem como cavalos, muares, touros, etc.. 

Nesse local, uma placa afixada num mourão, junto à uma porteira, avisava que Lagoa Dourada estava a 10 quilômetros.

A partir desse marco, desapareceram as árvores e, como por coincidência, o sol passou a brilhar com intensidade. 

Esse derradeiro trecho é marcado por longos estirões ascendentes, que serpenteiam entre extensas fazendas dedicadas à pecuária e produção de leite, onde impera uma vegetação de cerrado, com a presença de campos limpos nas partes mais altas.



Ao longe, nuvens esgarçadas pelo vento passavam rapidamente contra o azul profundo do céu. 

Num pasto, do lado direito, avistei vários gaviões carcarás junto de alguns bois, que ficava atrás da cerca. 

Certamente, tentando abiscoitar o alimento do dia.

Ouvi, também, próximo dali, barulho de carros, buzina de caminhões a soar.

No final de extensa ladeira, passei defronte de um imenso criatório avícola, localizado ao lado de uma fábrica de rações, ambos do mesmo proprietário. 

E logo desemboquei na rodovia BR – 383 que liga, nesse trecho, Entre Rios de Minas a Lagoa Dourada.

Um amigo caminhante que me antecipara em alguns dias, me alertou a respeito daquele local, vez que seguindo as instruções estampadas na planilha da ER, prosseguira à direita, pelo asfalto, e logo adentrara à esquerda, por uma trilha agreste e bastante arborizada. 

Contudo, após caminhar 1.500 m, tivera seus passos obstados, porquanto a senda se encontrava fechada por mato alto e árvores caídas, impedindo sua passagem. 

Sem outra opção, precisara retornar até aquele ponto onde eu me encontrava, depois de ter caminhado 3 quilômetros, “de graça”. 

Um absurdo, conforme desabafara!



Para não incorrer no mesmo erro e, como já conhecia o imbróglio, prossegui à esquerda, pelo asfalto, e segui pelo acostamento no sentido contrário ao tráfego de veículos que, por ser um sábado, era intenso. 

E depois de 40 minutos de caminhada áspera e tensa, adentrei em zona urbana e logo cheguei ao centro da urbe.



Na cidade fiquei hospedado na Pousada das Vertentes, um enorme casarão com mais de 200 anos, localizado na praça principal, integralmente reformado, que oferece ao viajante amplas e confortáveis instalações.

O local foi um antigo colégio de freiras e é considerado um marco importante no contexto histórico da cidade. 

Seus atuais proprietários, Sr. Pedro e Dona Aidê, são extremamente agradáveis e solícitos. 

Enfim, um local simples mas hospitaleiro, de forma que me senti, literalmente, em casa.

Lagoa Dourada foi fundada por volta de 1.625, quando a Bandeira comandada por Oliveira Leitão descobriu ouro nas águas de uma pequena lagoa. 

Ao encontrarem ouro de aluvião na lagoa, os primeiros mineradores a chamaram de "ALAGOA DOURADA".

Então, nasceu o povoado e as casas foram subindo a colina. Em 1832, o nome original foi alterado para Lagoa Dourada, uma referência à lagoa ali existente, muito rica em ouro.



De seu passado colonial, a cidade preserva, na sede, alguns casarões e igrejas com expressivos fragmentos da arte colonial mineira. O acervo de imaginária é notável. 

A Igreja Matriz de Santo Antônio e a Igreja do Senhor Bom Jesus compõem o tradicional cenário urbano das românticas cidades do interior de Minas.

A Estrada Real corta o município em seu perímetro urbano. 

Mas, é na zona rural que o município conserva preciosos marcos de seu passado. Com tantas fazendas históricas, sobressai seu grande potencial no segmento do Turismo Rural.

A Fazenda do Engenho Grande dos Cataguases, por exemplo, é famosa pelo seu interessante acervo de objetos do século XVIII e XIX e utensílios indígenas. 

Também, por ser o berço do jumento da raça Pêga, reconhecida oficialmente e difundida em todo território nacional por gerar animais resistentes e dóceis. 



O município, atualmente com 12.000 habitantes, possui a maior pecuária leiteira da região do Campo das Vertentes e é forte produtor de hortigranjeiros.

Para almoçar, utilizei os serviços do Restaurante Engrenagem.

E, à tarde, após revigorante descanso, fui conhecer a igreja matriz de Santo Antônio, que foi construída no fim do século XIX para substituir um antigo templo. 

Fazia calor, mas o sol já descambava agradável para um fim de tarde.        



Quase ao anoitecer, fiz uma visita à Padaria do Jaci para comprovar a fama dos rocamboles feitos na cidade, pois segundo os moradores locais, é o melhor no gênero do Brasil. 

E a comunidade é habilidosa na produção de licores, vinhos e doces caseiros, que recheiam esses afamados acepipes.

De fato, os deliciosos pães-de-ló recheados de sabores variados fazem jus à fama, pois essa receita, passada de geração a geração, tem algum segredo guardado a sete chaves, o que lhe garante um irresistível paladar.

Para encerrar bem o dia, ao chegar no local de pernoite, pude observar o céu coalhado de estrelas.

Assim, sem dúvida, vou dormir bem hoje, vaticinei.

E, efetivamente, meu sono foi tranquilo e reparador.


Com o Sr. Jaci, em sua padaria.

IMPRESSÃO PESSOAL – Um trajeto bastante interessante, muito bem sinalizado, sempre em terra batida, por estradas largas e bem definidas, com alguns trechos arborizados e composto por subidas e descidas leves. A dificuldade ficou por conta da razoável distância a ser vencida, bem como pelos derradeiros 10 quilômetros, onde não existem sombras. É de se atentar, para a trilha final, após a fábrica de ração, que se encontrava obstruída quando de minha passagem nesse roteiro. Assim, na dúvida, o melhor é seguir pelo asfalto, nesse derradeiro trecho.