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2º dia: SÃO GONÇALO RIO DAS PEDRAS à SERRO – 30 quilômetros


SÃO GONÇALO RIO DAS PEDRAS à SERRO – 30 quilômetros
 
   

Era um domingo e pelas planilhas que portava, sabia que teria uma jornada difícil pela frente.




Assim, levantei-me às 4 h 30 min e às 5 h, já tomava o café coado pela atenciosa proprietária da Pousada.




Enquanto degustava o saboroso líquido, pude observar e fotografar os objetos acondicionados com capricho e esmero no ambiente daquela ancestral habitação, a começar pelo fogão à lenha, localizado num canto da cozinha.



 
  
Exatamente, às 5 h 30 min, ainda no escuro, deixei o local de meu agradável pernoite e caminhei por ruas empedradas e silenciosas, guiando-me pela iluminação urbana, até o centro do povoado. 

Ali, defronte a igreja Nossa Senhora do Rosário, localizei o primeiro marco daquela etapa.




Então, utilizando minha lanterna, face à escuridão reinante, segui por larga estrada de terra muito bem sinalizada e, logo no início, precisei superar duas íngremes ladeiras.

A claridade veio rápida e nem percebi como. As árvores e morros, cujas silhuetas mal distinguia no lusco-fusco, tornaram-se nítidas, reais e próximas. 




Em sequência, alcancei o topo da última elevação, onde pude contemplar a bela cidadezinha de Milho Verde no horizonte.
 


 
Dali, também, fui premiado com uma vista panorâmica de toda região. 

Na verdade, me encontrava em um local ermo, sem nenhuma alma à vista, e isto me levou à reflexão das sensações vivenciadas pelas primeiras expedições que por ali transitaram.



    
Uma hora depois, 6 quilômetros percorridos, adentrava ao singelo arraial, que surgiu no século XVIII. 

Atualmente, uma pequeníssima vila, constituída, praticamente, por apenas uma fileira de casas à beira da estrada de terra, com pouquíssimas ruas secundárias.

Situado nas vertentes da Serra do Espinhaço e não muito distante das cabeceiras do Rio Jequitinhonha, esse distrito localiza-se a 25 quilômetros de sua Sede, o município de Serro.

O lugar possui um aspecto rústico e encantador, em absoluta harmonia com a natureza. 

Segundo os guias locais, seu patrimônio histórico, as belas cachoeiras, a singela hospitalidade de seus habitantes e a deliciosa culinária típica, fazem desse vilarejo um destino muito especial.

Sua fundação, marcada pelo controle da passagem de pessoas e mercadorias, à época dos diamantes, está evidente na presença de um registro, espécie de alfândega, um dos atrativos do lugar.  


   

Duas importantes igrejas setecentistas – Matriz de Nossa Senhora dos Prazeres e Capela Nossa Senhora do Rosário, ladeadas por modesto casario colonial, conferem uma atmosfera de paz e contemplação a este pitoresco lugar.
 
Quanto ao seu curioso nome, existem duas versões: uma, faz referência a um português de nome Rodrigo Milho Verde, que durante muitos anos teria morado no local. 

Duas, a respeito dos primeiros bandeirantes que, ao alcançarem a região, encontraram uma comunidade indígena, cujos membros lhes teriam oferecido uma grande quantidade de milho verde.

Ao deixar o simpático vilarejo enfrentei um descenso abrupto, numa estrada com muitos buracos, na verdade, uma ladeira extremamente inclinada, com chão cascalhado, terra vermelha e muita poeira. 

Em questão de minutos, mudei de uma altitude de 1.200 para 800 metros, tomando muito cuidado para não escorregar e cair, em razão do estado precário do piso por onde caminhava. 

Após atravessar uma pequena ponte sobre um rumorejante córrego, pude verificar logo à minha frente a entrada para a Cachoeira do Moinho. 

Mais 500 metros percorridos, encontrei, à esquerda, a entrada para a Cachoeira do Carijó.


 

Logo acima, numa bifurcação, prossegui à direita, pois, à esquerda segue-se para o distrito de Capivari, onde há um acesso ao Parque Estadual do Itambé.

Depois de passar em frente a uma estranha casinha branca abandonada, enfrentei outra duríssima ladeira, que, em seu topo, me colocou, novamente, a 1.200 m de altitude.

A partir dali, segui em contínuo descenso, por uma estrada larga, ladeada por imensas fazendas de criação de gado. 




Numa curva, 5 muares pastavam tranquilamente na beira da estrada, e observaram minha passagem.


 

No final de forte declive, adentrei ao distrito de 3 Barras, onde está localizada a nascente do rio Jequitinhonha, lá pude admirar sua principal atração, a modesta Capela de São Geraldo. 

Nesse lugar o rio é considerado um divisor de vegetações, pois, ao norte, ela tem características de Cerrado, com grandes formações de quartzo, também típicas da região de Diamantina. 

Entretanto, depois do curso d’água, em direção ao sul, a vegetação se assemelha àquela encontrada na Mata Atlântica.



 
    
Meu relógio marcava 8 h 30 min, era um domingo, o tempo estava nublado, a temperatura amena e até esse simpático vilarejo, já havia caminhado 15 quilômetros. 

No entanto, algo pressionava minha curiosidade, pois, fazia algum tempo que ouvia o ribombar sonoro de rojões, lançados ao ar, ininterruptamente. 

Então, me perguntava? 

Seria alguma festa, comemoração esportiva ou aniversário?




Um solícito morador a quem indaguei sobre minhas incertezas, apontou-me um imponente morro que se desenhava no horizonte, bem atrás do minúsculo lugarejo, de nome “Três Cruzes”. 

Contou-me que lá no cimo havia 3 cruzeiros fincados e que os jovens ali residentes costumam, amiúde, escalar o ingente pico. 

Assim, quando alcançam seus objetivos, soltam fogos para comemorar o feito e avisar o povoado sobre a vitória alcançada.

Infelizmente, face às nuvens que encobriam o cume, não pude identificar as cruzes por ele referidas, contudo, segundo afirmou, em dias de sol, predominam perfeitamente visíveis daquele local onde me encontrava.



 
Após efusivas despedidas, prossegui por uma estrada larga, plana, cuja manutenção havia sido feita recentemente. 




O tempo, no entanto, mudara repentinamente e uma fina garoa principiou a cair, deixando o clima frio e o piso escorregadio.


 
   
Depois de uns três quilômetros percorridos, passei a caminhar dentro de espessa e agradável floresta, sendo que, de ambos os lados, árvores centenárias compunham um cenário espetacular.

Às 10 h, depois de eu já ter percorrido 22 quilômetros, o mototaxista que trazia minha mochila, alcançou-me e me ofereceu carona. 




Ante minha obstinada recusa, prosseguiu em frente, com o compromisso de deixá-la no estabelecimento onde eu fizera reserva.

 
 

Sede de uma das quatro primeiras comarcas da Capitania das Minas, a antiga Vila do Príncipe do Serro Frio, hoje, cidade do Serro, ainda guarda as características das vilas setecentistas mineiras, que lhe valeu o título de primeiro município brasileiro a ter seu conjunto arquitetônico e urbanístico tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em abril de 1938.

Conta a história que em 1.702, uma bandeira chefiada por Antônio Soares Ferreira descobriu as minas de ouro de Ivituruí, que em língua indígena significa Serro Frio, um “nevoeiro denso que invade a parte alta da serra, acarretando grande baixa de temperatura e sendo acompanhado de vento mais ou menos forte e constante”. 


 
 
Assim, em pouco tempo, um grande número de aventureiros chegou ao local atraído pelo ouro que brotava fácil nas cabeceiras do Jequitinhonha e seus afluentes. 

Em 1711, o sargento-mor, Lourenço Carlos Mascarenhas, foi nomeado superintendente das minas de ouro da região para manter a ordem e a justiça. 

A prosperidade do arraial motivou, então, sua elevação à vila no ano de 1714, quando, ganhou o nome de Vila do Príncipe. 

Com a criação da Comarca do Serro Frio, a vila passou a ser sede da comarca. 




Curiosamente, vê-se que já houve várias denominações para a cidade. 

Pois, já se chamou “Yviturú”, nome de origem indígena e “Vila do Príncipe do Serro Frio”, na época da extração do ouro, há 300 anos. 

Em 6 de março de 1838, a vila foi elevada à cidade com a denominação de Serro.


 
Em 1817, o naturalista Saint-Hilaire descreveu a cidade: “Esta vila está edificada sobre a encosta de um morro alongado; e suas casas dispostas em anfiteatro, os jardins que entre elas se vêem, suas igrejas disseminadas formam um conjunto de aspecto muito agradável, visto das elevações próximas. (...)
    Das janelas que se abrem para o campo goza-se de agradável panorama: avistam-se as casas próximas entremeadas de massas espessas de verdura formada pelo arvoredo dos jardins; mais além descortina-se o vale estreito que se estende ao pé da cidade e em cujo fundo corre o Quatro Vinténs, do outro lado do vale o olhar repousa em alturas quase que completamente cobertas da mais linda relva; finalmente, nos planos mais distantes, algumas moitas de arvoredo se avistam entre os morros."


Sobre o córrego “Quatro Vinténs” supra citado, é importante destacar que nele foram encontrados os primeiros quatro vinténs de ouro, no Serro, pela negra forra e africana Jacinta de Siqueira, por volta dos anos de 1700 a 1702. 




O pequeno córrego tem nascente na própria cidade, desaguando poucos metros abaixo, no Córrego do Lucas. 

E, ambos, pertencem à bacia hidrográfica do Rio Doce, embora o município tenha também áreas pertencentes às bacias dos rios Jequitinhonha e São Francisco.

Primeira cidade a ser tomanda pelo IPHAN, o Serro guarda casarios belíssimos e igrejas de refinada simplicidade e ainda mantém o charme do passado com seus lampiões que deixavam as ruas à meia luz. 

Nos arredores, uma dinâmica rural com grande significância: saberes e ofícios do período colonial. 

Porquanto, o queijo produzido na região foi considerado, recentemente, patrimônio imaterial.



    
Depois de refrescante banho, fui rapidamente conhecer o centro histórico dessa belíssima urbe e pude fotografar seus principais monumentos.

Na sequência, anuindo à sugestão da proprietária da pousada, Dona Arlete, degustei saborosa refeição no Restaurante Rancho Serrano.




Depois de breve descanso, retornei ao centro histórico do Serro e pude visitar com calma a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, do ano de 1.713 e a imperdível capelinha de Santa Rita, uma construção de 1.745, localizada no morro mais alto do povoado, cujo acesso é feito através de uma grande escadaria, que contém, exatos, 60 degraus de pedra rústica.

 
 

Pude observar, ainda, a casa do Barão de Diamantina e a Chácara do Barão do Serro que está localizada na rua da Fundição do Ouro, e atualmente abriga a Secretaria de Turismo e Cultura da cidade.

O Edifício da Prefeitura Municipal do Serro, é também conhecido como Casa dos Carneiro. 




Trata-se de uma edificação histórica, atração turística e, é, possivelmente, o exemplar mais importante da arquitetura serrana. 

Além de ser uma das maiores construções do estilo colonial mineiro. 

Pois, este sobrado de 40 cômodos, possui, na parte externa, 68 janelas, dez sacadas, 14 portas e dois portões. 

Foi destinado, segundo a tradição, a abrigar o Imperador D. Pedro I, durante sua provável visita à essa Vila, em 1831, que, infelizmente, não chegou a se concretizar.

À tarde, fui verificar cuidadosamente a saída da Estrada Real, pois a etapa do dia seguinte seria bastante complicada.



Mais à noite, após lanchar, ainda um tanto indeciso, resolvi conversar com o Wellington, atendente da pousada onde estava hospedado, sobre a jornada para Itapanhoacanga, que empreenderia na etapa imediata.


Com o Wellington, o simpático atendente do Hotel onde pernoitei. 
 
Segundo ele, após extensa ponderação, eu não deveria passar pelo município de Alvorada de Minas. 

Em sua opinião, a melhor alternativa seria seguir diretamente em direção à cidade de Conceição do Mato Dentro e, no minúsculo distrito de Mato Grosso acessar uma estradinha vicinal, à direita, que me conduziria até o objetivo final. 

Argumentou, ainda, que esse trecho também está demarcado por tótens da Estrada Real e os caminhantes que ali haviam se hospedado anteriormente, optaram por tal percurso. 

No entanto, não sabia mensurar com exatidão, a distância exata do trajeto, de forma que ficamos a discutir sua proposta. 

Um hóspede que lia jornal num sofá, inadvertidamente, entrou na pendenga, deu palpites, fez recomendações e, em consonância com meu interlocutor, também indicou o mesmo percurso. 

Porém, tal qual o outro, não detinha dados precisos sobre a quilometragem a ser percorrida.

Diante disto, ainda confuso, resolvi seguir o roteiro original, o mesmo que estava detalhado na planilha em mãos. 

E, em seguida, após as despedidas, me recolhi. 




IMPRESSÃO PESSOAL: Uma etapa bastante difícil, mormente pela necessidade de se transpor dois grandes morros, além dos riscos inerentes aos grandes declives localizados, pós Milho Verde e antes do distrito de Três Barras. No entanto, uma jornada de excelsas belezas, principalmente entre os quilômetros 19 e 24 do percurso, quando se caminha por uma estrada integralmente arborizada, sempre em perene descenso.