12ª Etapa – ALBERGARIA-A-VELHA à SÃO JOÃO DA MADEIRA – 30 QUILÔMETROS

12ª Etapa – ALBERGARIA-A-VELHA à SÃO JOÃO DA MADEIRA – 30 QUILÔMETROS – “A CIDADE DOS CHAPÉUS 

“Pouco a pouco o Caminho Português vai progredindo até o norte da Província de Beira Litoral, em busca do vale do rio Douro e da grande cidade de O Porto. Pouco a pouco, também, a concentração urbana que antecede toda grande cidade, vai substituindo árvores por casas e terra por asfalto. A etapa segue ainda por outros grandes núcleos urbanos e industriais, como Oliveira de Azeméis e São João da Madeira, a cidade dos chapéus, que fornecem bons serviços, porém interferem ainda mais, no cenário natural do roteiro. A exceção é o trajeto entre as Albergarias, a Velha e a Nova, no princípio do dia. Uma hora e meia de agradável passeio por bosques de pinheiros e eucaliptos, que não encontraremos no final da jornada. A vantagem é que conforme avançamos em direção ao norte, o ambiente Jacobeo começa a estar mais presente, com paróquias e quartéis de bombeiros mais acostumados com a passagem e acolhida de peregrinos.” (Traduzido/transcrito do Guia El País Aguilar, edição do ano de 2007, que utilizei na viagem)

 

Seria uma jornada dura e tensa, assim, levantei às 5 h, me concentrei nos preparativos do dia, e deixei o local de pernoite às 6 h, seguindo por ruas ventosas e escuras, em direção à rodovia 1C2/N1.

Quando cheguei próximo da pista de rodagem, com muito cuidado fiz a transposição para o lado oposto, através de uma passarela metálica, depois prossegui pela rua fronteiriça.

Passei junto à Quinta dos Lagos, e segui até o Santuário de Nossa Senhora do Socorro, sempre por asfalto.

Ainda estava bastante escuro e o dia ainda não raiara, porém o clima se apresentava frio e úmido, ideal para caminhar.

Além do que, eu portava minha potente lanterna “led”.

A sinalização nesse trecho era excelente, de forma que pude seguir tranquilo, sem medo de me perder.

Logo a seguir, eu tomei um atalho em terra, tendo um muro à minha esquerda e um agradável bosque de eucaliptos a minha direita.



Mais um quilômetro vencido, e eu saí num cruzamento asfáltico, bastante amplo, onde existe uma imagem da Virgem Maria e uma calçada empedrada que dá acesso ao Santuário.

Como estava tudo fechado àquela hora, eu prossegui adiante e, mais um quilômetro vencido, adentrei à esquerda, em outra senda em terra, que me fez transitar por mais três quilômetros, dentro de outro espesso bosque de eucaliptos.

Esse foi, sem dúvida, o melhor momento do dia, pois tudo estava silencioso, deserto e fresco, e eu pude aspirar o ar puro emanado pela natureza, bem como externar minha fé, através das orações diárias que fazia, enquanto o chão corria sob meus pés.

Porém, as 7 h 15 min, seis quilômetros caminhados em total solidão, eu acabei por sair na movimentada rodovia N-1, seguindo pelo acostamento por quinhentos metros, até adentrar em Albergaria-A-Nova.



O povoado, como o próprio nome já indica, não revela nenhum interesse arquitetônico, assim, prossegui à direita, por uma rua paralela à “carretera”, mas, depois de um quilômetro, eu transpus novamente a N-1.

Na sequência, acessei novamente a Estrada Real, um caminho asfaltado que prossegue paralelo à linha férrea, até Branca, um distrito de Albergaria, onde pude fotografar sua interessante igreja matriz, que só tem uma nave, cuja consagração ocorreu em 1694.

Historicamente, este local é muito lembrado, pois foi em seus arredores que ocorreu uma batalha decisiva pela independência dos portugueses, contra as tropas napoleônicas, que invadiram o país em 1807.

Quatro quilômetros depois, eu retornei à margem da N-1, porém, não a atravessei, ao revés, eu tomei uma trilha à esquerda, e segui por um bom tempo à beira das linhas férreas.



Às 8 h 30 min, 12 quilômetros vencidos, eu passei pelo povoado de Pinheiro de Bemposta e, num cruzamento, dobrei à direita, atravessei a N-1 por uma passarela de pedestres, e prossegui por ruas intensamente urbanizadas, mas com excelente sinalização.

Na verdade, eu já estava transitando pela cidade de Bemposta, onde um cartaz em destaque convida aos turistas e peregrinos a conhecer seu Centro Histórico, que dizem ser muito bonito e plenamente conservado.

Ocorre que o roteiro do Caminho não discorre por essa zona, e o tráfico matutino estava intenso naquela direção, de maneira que preferi deixar para outra oportunidade.



Assim, mais adiante, eu voltei a atravessar a N-1, num local bastante perigoso, voltando a transitar pelo lado esquerdo desta via, agora já no povoado de Travanca, onde passei por um grande polígono industrial, bastante movimentado.

Ventava muito naquele horário, o que era inusitado, e o pior, em sentido contrário ao que eu seguia, o que tornava o ato de caminhar extremamente sacrificado, a exigir esforço redobrado.



O roteiro seguiu por uma zona integralmente urbanizada, pleno de desvios por ruas e caminhos, afortunadamente, bem sinalizadas por flechas amarelas.

No final de uma íngreme elevação, eu passei sob a Autovia Nacional, através de um túnel, acessei uma senda à beira da linha férrea, e logo adentrei em um caminho vicinal em terra.



O trecho era pequeno porém totalmente solitário e silencioso, bem diferente do burburinho da civilização que eu vinha vivenciando, de modo que, em boa hora, fiz uma longa pausa para descanso, hidratação, alongamento e ingestão de frutas.

Seguindo em frente, ainda que por poucos metros, me vi novamente entre imensos vinhedos, transitando por um caminho rural que, logo adiante, me levou a atravessar uma interessante “puente medieval” sobre o rio Ul.




No meio da travessia existe uma graciosa igrejinha de muitos anos, onde há um altar homenageando o Senhor da Ponte.

No interior da capela desponta a imagem de Jesus pregado na cruz.

Já subindo, ainda por uma estrada vicinal, acabei desembocando numa pracinha, onde sobressaia um velho cruzeiro.



Obedecendo a sinalização, eu torci à esquerda, e logo passei a transitar pelo centro de Oliveira de Azemeis, uma cidade plana, bonita e muito bem conservada.

A cidade é uma vila agrícola, com uma importante indústria de vidro, situada no alto, a dominar os vales dos rios Anuã e Ui.

Nesse município, recentemente foram descobertos restos de edificações romanas.

Também lá, foi localizado um miliário no distrito de UI, confirmando que a calçada romana XVI, passava nas imediações dessa simpática e progressista urbe.

Historicamente, ela sempre foi uma parada intermediaria na principal rota norte-sul portuguesa, e ainda podem ser vistas algumas mansões que pertenceram a fidalgos, cujas edificações estão localizadas no Largo da Matriz e na Rua Bento Carqueja, por onde eu transitei.

Sua igreja matriz, dedicada a São Miguel, está localizada acima de umas escadarias, onde uma estátua de São Miguel guerreiro.

A fachada está orlada com raros conjuntos de azulejos que mostram cenas da vida de Jesus.



Mais adiante, numa rotatória, eu girei à esquerda e transitei um bom tempo por ruas e desvios secundários bastante complexos que, mais abaixo, me levaram a atravessar pela pequena aldeia de Santiago de Riba-Ui, cuja igreja está dedicada ao Apóstolo, mas, estranhamente no Caminho não há placas mencionando o local, embora o trajeto siga por trás da construção.

Na sequência, passei por Vila de Cucujães, e ali, precisei vencer uma rampa extremamente íngreme, porém de curta extensão, mas que me fez transpirar com intensidade, porque o sol já estava forte.

Dali, eu já avistava a cidade de São João da Madeira, mas ainda me faltava percorrer uns 5 quilômetros para a chegada, de maneira que fiz uma parada providencial, para hidratação e reposição de protetor solar.

Em marcha, novamente, eu adentrei em longo descenso, depois em outro rude ascenso, acabando por encontrar uma grande rotatória, de onde as flechas me levaram a transitar por larga e movimentada avenida, que corta o polígono industrial ali existente.



Mais adiante, eu passei defronte a um imenso e belo Centro Comercial 8ª Avenida, depois tomei informações com um pedestre e, bastante exaurido, logo chegava à Praça Luís Ribeiro, onde existe um grande monumento, que representa uma chaminé, forrada em mármores.



Essa localidade aparece com o nome de Madeira já no século XI.

Trata-se de um centro urbano grande e moderno, e a principal indústria é a de fabricação de sapatos e chapéus, que nos mercados portugueses do século XVIII, já eram muito conhecidos como “chapéus de lã” de Madeira.

Em 1802, se estabeleceu a primeira fábrica e, ainda hoje, ela produz uma boa parte dos chapéus de papel, lá ou palha fabricados em Portugal.



A cidade sofreu muito durante as invasões napoleônicas, incluindo uma matança acontecida num domingo, 17 de abril de 1809.

Quando, em represália a um ataque da guerrilha portuguesa, os franceses arrancaram à força da missa, cerca de 67 homens e os fuzilaram num campo próximo.

Na cidade, fiquei hospedado no Residencial Soler, de excelente qualidade, está localizado no centro e ao lado do Caminho.

Mais tarde, após um bom almoço no Restaurante Churrascão, e um necessário descanso, fui conhecer melhor a belíssima urbe, enquanto seguia as flechas amarelas, para saber aonde eu iria trafegar na manhã seguinte.



Na verdade, o dia fora duríssimo, minhas pernas e pés exigiam repouso, o que não me impediu de adentrar ao Museu da Indústria de Chapelaria, um local bastante interessante e com muita história, posto que coincidentemente ele se situa na Avenida por onde discorre o Caminho Português de Santiago.

Depois, visitei a igreja matriz, cujo padroeiro é São João Batista, uma edificação antiga, mas que foi integralmente reconstruída em 1884.



Em seguida, me dirigi à Capela de Nossa Senhora dos Milagres, um templo em estilo neorromântico, erigido em 1838, com donativo dos cristãos.

Como de praxe, à noite fiz um singelo lanche no quarto do hotel, já me preparando para outra dura jornada quando, finalmente, iria conhecer a famosa cidade de O Porto.


 

IMPRESSÃO PESSOAL – Uma etapa bastante intensa, e de razoável dificuldade, a começar por sua extensão. Acresça-se que, após o pequeno trecho em terra trilhado de manhã, o restante é integralmente em solo empedrado ou asfalto. A jornada se tornou cansativa em seu final, porque atravessei por zonas intensamente urbanizadas e povoadas, antes de se atingir a zona central de São João, meu local de pernoite.

13ª Etapa – SÃO JOÃO DA MADEIRA à O PORTO – 37 QUILÔMETROS