Home‎ > ‎Cam. Português Interior‎ > ‎

A HISTÓRIA DO CPI


A HISTÓRIA DO CAMINHO PORTUGUÊS INTERIOR

As religiões são caminhos diferentes convergindo para o mesmo ponto. Que importância faz se seguimos por caminhos diferentes, desde que alcancemos o mesmo objetivo”? (Mahatma Gandhi)



Tradicionalmente, aponta-se como Caminho Português Interior de Santiago (ainda que existam outras denominações) o que liga Viseu a Chaves, considerando a importância que Viseu e Lamego detinham na região entre o Douro e o Mondego.

Segundo Francisco Rodriguez Iglesias, existem algumas notícias de antigas peregrinações nesta região; de facto, “No século X o muçulmano Al-Istrajri viajou entre Santarém e o Porto, com trânsito por Lamego.

No século XII, um outro viajante árabe, de seu nome Edrisi, partiu de Coimbra e dirigiu-se a Braga, passando por Avô e São Miguel de Outeiro, seguindo dali para Vila Boa (Marco de Canaveses), já do outro lado do rio Douro. Em qualquer dos casos os dois viajantes passaram por Coimbra e foram até Viseu.

Que caminho seguiram? Possivelmente um que passava em Lorvão ou nas imediações e ia a Penacova, Santa Comba Dão, Tondela, São Miguel de Outeiro – onde se sabe que Edrisi esteve, Vil de Moinhos e Viseu, de onde partiam caminhos para norte e para outros destinos.

Com efeito, a Viseu chegavam importantes vias, como a antiga via romana que ligava Coimbra (Aeminium) a Viseu e onde passava a estrutural via entre Mérida (Emerita Augusta) e Braga (Bracara Augusta).

Parte da via Emerita Augusta-Bracara Augusta ainda hoje se conserva, denominando-se de estrada romana de Pousa Maria (topônimo), pertencente ao traçado do Caminho Português Interior de Santiago. Partindo de Viseu, “(…) floreció el Camino Portugués Oriental o de Tras-os-Montes, una de las más importantes vías portuguesas de peregrinación a Compostela que, después de pasar por Lamego, Peso da Regua, Vila Real, Vila Pouca de Aguiar, Pedras Salgadas, Vidago y Chaves, entra en Galicia por Verín, para seguir hacia Orense y Santiago.

A pesar de la excepcional dureza de este Camino (…) fue utilizado con gran intensidad en la Edad Media, por lo cual no sorprende la acrisolada devoción que se tiene al Apóstol en la zona; así lo testimonian iglesias, imágenes, tradiciones y la propia toponímia.

Chegando à cidade de Chaves, importante cidade romana e cidade fronteiriça, o Caminho segue para Verín, unindo-se à Via da Prata (que tem como ponto de partida a cidade de Sevilha) para seguir até Santiago de Compostela.



Descrição do Percurso

Tomando como ponto de partida Viseu, descobre-se uma cidade cheia de História, Patrimônio e Cultura, “(…) é uma das povoações portuguesas com antiguidade romana mais que garantida. (…) Aos Romanos sucederam os Suevos e os Visigodos, que se instalaram naquela colina.

Era povoação com força suficiente para ser Diocese, o que veio a acontecer ainda no século VI, pois em 669, um Bispo seu, de nome Remissol, participou no Concílio de Lugo. Uma lenda antiga diz que a capela de São Miguel de Fetal serviu de refúgio e depois de túmulo ao Rei Rodrigo, o último dos Visigodos a governar a Península Ibérica antes das invasões muçulmanas. Foi com dom Fernando Magno, em 1058, que Viseu voltou ao domínio cristão, após a razia que Almansor fez no território português que reconquistou.

A Rainha Dona Teresa concedeu-lhe o seu primeiro foral em 1123 e há quem defenda que foi nesta cidade que nasceu seu filho, o Rei dom Afonso Henriques. Enquanto centro episcopal, Viseu foi vincando a sua importância no panorama nacional, desenvolvendo-se em torno da Catedral, sendo conhecido igualmente pelo gênio de Vasco Fernandes, pintor renascentista, que deu nome ao Museu de Grão Vasco, onde se encontram as suas principais obras (merecendo destaque os catorze painéis do retábulo da Catedral, as pinturas de S. Pedro, do Calvário, do Pentecostes e do Batismo de Cristo) e da escola por ele dirigida (que inclui artistas como Gaspar Vaz, entre outros). Destacam-se ainda os monumentos mais emblemáticos de Viseu que se situam no período renascentista (Claustro da Catedral), manuelino (abóbadas no interior da Catedral), barroco e rococó (igreja dos Terceiros, igreja do Carmo, igreja da Misericórdia), entre outros.

De seguida, segue-se por Santiago, uma povoação localizada nos arredores da cidade, onde se encontra uma capela dedicada ao Apóstolo, seguindo o troço por Abraveses, Baltar (Moure de Madalena), Campo de Madalena até chegar a Pousa Maria, onde se localiza um dos melhores troços de estrada romana (pertencente à via que ligava Viseu a Braga e a Astorga), onde os “Romeiros antigos de Santiago pisaram pedras deste caminho e o bordão de peregrino bateu compassado estes caminhos de paz onde às vezes saltava um bandido atraído por bolsa fácil. Aqui e além levantaram-se cruzeiros assinalando ou precavendo perigos nas encruzilhadas

Desce-se até a localidade do Almargem, atravessando o rio Vouga, e depois o caminho faz-se, através de pinhais, até chegar a Cabrum, aldeia atualmente desabitada, onde se encontra erigida a capela de São José, datada de 1735, construída pelos habitantes da aldeia, justificando-se este ato pela grande distância que os separava da igreja matriz (sita em Moledo) e pelo próprio isolamento em que a aldeia vivia.

Subindo a serra, chega-se a Vila Meã, onde a capela chegou a ser dedicada ao Apóstolo São Tiago, apesar de atualmente apresentar uma invocação mariana, concretamente Nossa Senhora da Saúde. Seguindo até Moledo, localidade que chegou a pertencer ao senhorio de D. Egas Moniz, aio do Rei D. Afonso Henriques, a paisagem é marcada pela igreja de Santa Maria, datada do século XVIII, de estilo rococó, ainda que a sua construção remonte à época medieval, sem que existam atualmente vestígios da mesma. Mões é a localidade que se segue, tendo sido sede de concelho, entre o século XVI (através de foral manuelino) e o século XIX (em 1855, é extinto o concelho e incorporado no concelho de Castro Daire), perpetuando essa memória através do seu pelourinho patente no centro da vila; além disso, destaca-se a igreja de São Pedro, construção do século XVIII, ainda que tenha sido restaurada, entre 1887 e 1924, fruto de um incêndio que deflagrou em 1856, tendo destruído a maior parte da igreja; bem como importantes casas senhoriais, datadas do século XVII e XVIII.



Depois da extinta sede de concelho, o caminho segue para Vila Boa, onde se encontram vestígios de sepulturas e lagaretas escavadas na rocha, remetendo-nos para a época medieval, além da notícia de uma inscrição romana dedicada aos deuses Manes. A sua capela, dedicada a S. Pelágio, foi alvo de obras de beneficiação em 1748, mandadas executar por Manuel José Xavier. Seguindo até Vila Franca, atravessa-se os rios Paiva e Paivó, chegando a Fareja e a Fareijinhas para subir até Baltar. Esta pequena localidade de Baltar destaca-se pela singular capela de São Tiago, situada no cimo de um arruamento íngreme.

Subindo às Portas do Montemuro, o caminho segue para Moura Morta (topônimo associado às lendas dos mouros; neste caso, talvez à existência de uma “(…) sepultura, a que o povo chama “Cama da Moira”, observável no sítio do Outeiro do Chamissal.” Nesta localidade, existe uma capela de São Tiago, ainda que se encontre abandonada e esteja atualmente despida no seu interior e com acesso interdito; além da igreja paroquial, dedicada a Nossa Senhora da Apresentação, datada do século XVIII. Chegando ao Mezio, destaca-se a igreja paroquial, construída no século XVIII, e cujo interior se pode observar os magníficos caixotões do teto com as representações de inúmeros santos, entre eles, São Tiago, São Roque e São Gonçalo, estes dois últimos associados à peregrinação jacobeia e com particular devoção no norte do país. Seguindo para Bigorne, passa-se a Ponte de Reconcos, e segue-se em direção a Magueija, paróquia de São Tiago, uma das localidades mais antigas desta zona geográfica, remontando ao tempo dos romanos, suevos e visigodos. Na época da reconquista cristã, foi construída uma ermida dedicada a São Tiago, tendo sido posteriormente remodelada e ampliada, em 1768, a pedido dos fiéis que suportaram os gastos, sendo atualmente a igreja paroquial.

O caminho prossegue por Magueijinha, Matança e Matancinha, onde a arquitetura singular da igreja de Santa Cruz, cuja primeira pedra foi lançada a 14 de Setembro de 1917, se destaca na paisagem rural. Depois, segue-se por Bairral, Purgaçal e Penude, até entrar na mata do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, em Lamego. Lamego é uma das povoações mais antigas no território nacional, tendo sido uma das primeiras a ser elevada a sede episcopal, documentada pela presença de um Bispo, no Concílio de Braga, em 572.

Resgatada aos mouros, em 1057, por Fernando Magno, é criada a diocese de Lamego em 1071.

A cidade de Lamego é um bom exemplo dos estilos artísticos, podendo encontrar-se exemplares bastante bem conservados: do românico, o Castelo (torre de menagem) e a igreja de Santa Maria de Almacave (sendo apontada como o local onde se terão reunido as primeiras cortes de Portugal, em 1143); do gótico, a Catedral (ainda que a sua origem seja românica, merecem destaque a sua fachada e o seu interior, este último com pinturas da autoria de Nicolau Nasoni); e do barroco (interior da Catedral; Museu de Lamego; Santuário de Nossa dos Remédios, ainda que pertença ao estilo rocaille); entre outros. Toma-se a via para Souto Covo, descendo até Sande, paróquia dedicada a São Tiago, donde se começa a avistar o rio Douro.

É inevitável pensar no rio como parte integrante deste itinerário. “A descida para o Douro fazia-se por trajeto sinuoso e atingido o rio, que corria em torrente caudalosa ao longo de todo o Inverno ou com rápidos, galgando penhascos numa fúria indomável durante o resto do ano, a travessia fazia-se de barca, que as havia em sítios certos, onde o pego era mais remansoso. (…) A barca de passagem da Régua funcionou até a construção da ponte em 1872.” A localidade de Peso da Régua, banhada pelo rio Douro, não tinha qualquer importância no panorama nacional até ao século XVIII, altura em que os ingleses “descobriram” o Vinho do Porto e em que foi criada a Real Companhia das Vinhas do Alto Douro, durante o reinado de D. José I: “A instalação da Companhia e a criação, neste local, de um entreposto dos vinhos da Região Demarcada, a primeira a sê-lo em todo o mundo, vinhos estes que eram depois conduzidos em barcos rabelos, rio abaixo, até as caves de Vila Nova de Gaia, frente à cidade do Porto, despertaram uma intensa atividade comercial, originando uma vila nova que desceu até ao Douro, onde estavam os cais e os armazéns.” Já na saída de Peso da Régua, encontra-se a localidade de Fontaínhas, onde se inicia a via romana para Vila Real, podendo observar-se a capela de Nossa Senhora do Desterro. Subindo até S. Gonçalo de Lobrigos, encontra-se a pequena capela de S. Gonçalo de Lobrigos, e segue-se até S. João de Lobrigos, onde se encontra um bom exemplo da arquitetura barroca na sua igreja matriz, obra do século XVIII, com extraordinário patrimônio artístico no interior.

O caminho segue por S. Miguel de Lobrigos, Santa Comba, Banduge, Pousada, subindo até Covelo, Santa Bárbara e Cumieira, onde merece destaque a sua igreja matriz, construída em 1729, cujo interior é preenchido por talha dourada do período joanino, além de ter tido pinturas no teto, obra de Nicolau Nasoni, mas, que, infelizmente foram substituídas por madeira, retirando-lhe assim valor artístico. De Silhão, segue-se para Relvas, atravessando o rio Sordo por uma ponte medieval, chegando a Parada de Cunhos, onde merece visita a igreja matriz, bem como o altar de S. Gonçalo, um santo peregrino. Em 1289, D. Dinis atribuiu foral a Vila Real, um dos pontos “obrigatórios” de passagem para quem empreendia a peregrinação a Compostela, não admirando que esta região “(…) esteja carregada de lugares de culto de Santiago, e particularmente de S. Gonçalo de Amarante, a dizer quanto a passagem de peregrinos jacobeus foi intensa por toda a região.” Em Vila Real, existem referências a esta via de peregrinação, nomeadamente no antigo Campo do Tavolado, onde existiu uma capela dedicada a São Tiago, além de imagens do Apóstolo, bem como de santos relacionados com a peregrinação como São Gonçalo de Amarante, São Roque e São Sebastião, que se podem encontrar em igrejas e capelas de Vila Real.



A cidade foi-se desenvolvendo, sendo uma referência no século XV, enquanto local de habitação de famílias nobres. Um dos monumentos mais emblemáticos de Vila Real é a Casa de Mateus, um belo palácio barroco, construído na primeira metade do século XVIII; além disso, merecem destaque alguns monumentos religiosos como a capela de São Brás, a Catedral, a igreja da Misericórdia, a igreja de São Pedro e a igreja dos Clérigos (obra de Nicolau Nasoni), entre outros.

Toma-se a direção de Calçada, Vila Seca, Gravelos e Escariz, onde se destaca a igreja matriz que alberga uma imagem de S. Gonçalo. Atravessando-se uma ponte antiga, chega-se a Benagouro e a Vilarinho da Samardã, que merece a nossa atenção, uma vez ter sido morada do escritor Camilo Castelo Branco (1825-1890), encontrando-se bem presente nesta aldeia a sua memória, bem como a memória da Confraria de S. Gonçalo, outrora existente na aldeia, perpetuando essa memória através da imagem de S. Gonçalo, patente na igreja paroquial.

Seguindo para Tourencinho e Gralheira, encontram-se nesta última localidade vestígios de uma albergaria novecentista, seguindo o caminho por Zimão, onde se encontra mais uma capela dedicada a S. Gonçalo, ainda que pertença à freguesia de Telões, cujo orago é São Tiago. Atravessando Parada do Corgo (que, pelo seu topônimo, nos indica a paragem de peregrinos e viajantes naquela localidade) e Montenegrelo, e pouco antes de chegar a Vila Pouca de Aguiar, encontra-se “(…) o derruído castelo da Terra de Aguiar, erguido no cimo de um penhasco, autêntica sentinela no alto Corgo. Com uma ampla história militar, com papel preponderante no apoio à causa de dom Afonso Henriques, o castelo deixou de ter préstimo depois das campanhas da Guerra da Independência, no final do século XIV. Como tantos outros, foi soçobrando lentamente, chegando à atualidade uns escassos panos da sua muralha.

Atualmente, em Vila Pouca de Aguiar, ainda é possível encontrar vestígios de ocupação castreja e romana, além do interessante edifício dos Paços do Concelho, datado do século XVIII, contendo no seu interior, painéis de azulejos do artista Jorge Colaço, de 1912. Segue-se para Vila Meã, onde existe uma pequena capela dedicada a São Tiago; tomando o caminho para Pedras Salgadas (conhecida estância termal), seguindo para Águas Romanas, atravessando, por uma ponte romana, o ribeiro de Avelames, até chegar a Sabrosa de Aguiar.

Sucede-se a pequena e interessante aldeia de Oura, que tem como padroeiro São Tiago, seguindo o caminho em direção a Salus, Vidago (importante estância termal), Valverde, Pereira de Selão e Redial, onde se encontra uma capela dedicada a São Tiago, seguindo por Vila Nova da Veiga, Outeiro Jusão, chegando a Chaves.

A cidade de Chaves, antiga cidade romana de “Aquae Flaviae”, continua a ser uma referência no cruzamento de caminhos. Ainda que detenha vestígios de ocupações castrejas, a extrema romanização que sofreu encontra-se bem patente na cidade (tendo como expoente máximo a ponte sobre o rio Tâmega), além de inúmeros monumentos que nos remetem para outras épocas históricas e artísticas, merecendo destaque a igreja matriz (que agrega diferentes estilos artísticos, desde o românico ao renascentista), o Forte de S. Francisco e a igreja da Misericórdia (exemplar barroco).

Paralelamente à sua importância histórica, Chaves é igualmente importante na história da peregrinação jacobeia, uma vez que terão existido duas albergarias e um hospital que acolhiam e tratavam dos peregrinos a caminho de Santiago de Compostela. Tendo como ponto de partida a cidade de Chaves, o caminho apresenta-se com três itinerários possíveis: Vilarelho da Raia, Seara Velha e Ervededo.

Para a primeira opção, toma-se o caminho por Outeiro Seco, passando próximo à igreja da Senhora da Azinheira, datada dos finais do século XIII, seguindo pela Senhora da Portela e chegando a Vilarelho da Raia, paróquia dedicada a São Tiago, entrando em Espanha pela localidade de Verín.

Na segunda opção, segue-se para Vale da Anta, Soutelo, até chegar a Seara Velha, onde a paróquia e a igreja são dedicadas a São Tiago, merecendo igual destaque o cruzeiro que se situa junto à igreja.

De seguida, toma-se o caminho para os santuários da Senhora da Aparecida e da Senhora das Necessidades, seguindo por Castelões (só para dizer que é o lugar de nascimento da Rita), Meixide, até Soutelinho da Raia, onde se encontra uma imagem de São Roque, santo peregrino.

Chegando a Vilar de Perdizes, temos a referência de uma albergaria para peregrinos de Santiago, uma vez ser esta uma das vias de peregrinação escolhidas, atravessando a fronteira em Xironda.

Finalmente, a terceira opção dirige-se para Seara, passando por Couto de Erveredo, onde a tradição da peregrinação jacobeia ainda hoje é lembrada na aldeia, até pela anterior existência de uma escultura em pedra do Apóstolo que terá sido entregue ao Santuário de São Caetano (localidade próxima), aquando da construção da capela de Couto. 

Seguindo por Agrela, chega-se a Cambedo, onde se encontra uma capela dedicada a São Gonçalo, prosseguindo para território espanhol, em Casas dos Montes.

O restante desse trabalho pode ser visto no link: http://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/15849/1/Iconografia%20de%20S%C3%A3o%20Tiago%20no%20Caminho.vol.I.Sandra%20Alves.pdf

Autora: Sandra Maria Pereira Paiva Alves