Home‎ > ‎Caminho Jacobeu do Ebro‎ > ‎

5ª etapa – FABARA à CASPE – 24 quilômetros


5ª etapa – FABARA à CASPE – 24 quilômetros



Que minha coragem seja maior que meu medo e que minha força seja tão grande quanto minha fé.”


Estudando o guia que portava, verifiquei que a etapa não apresentava grandes dificuldades de altimetria ou extensão, a não ser uma pequena serra que teria de escalar logo no início da jornada.

Porém, estávamos num domingo e eu queria chegar cedo para poder visitar a cidade, um dos mitos desse Caminho, por sua importância histórica.

Ademais, tentara ligar em 3 hostais, porém, não havia obtido sucesso, de forma que estava preocupado quanto ao local de pernoite, pois ainda não fizera reserva.

Tudo isso me fez levantar, como de praxe, às 4 h 30 min, para ter tempo de realizar minhas abluções matinais e navegar na internet, sem pressa.


A primeira indicação jacobeia do dia.

Bem alimentado, deixei o local de pernoite às 6 h, descendendo pela avenida principal da cidade que coincide com a rodovia A-2411.

Mais abaixo, por uma moderna pontem eu cruzei o rio Matarraña e, assim que a iluminação urbana se findou, fiz uso de minha lanterna.

Pelos apontamentos que detinha, eu deveria adentrar numa estrada rural, à esquerda, porém não encontrei sinalização e tive alguma dificuldade para localizá-la, visto que a escuridão ainda reinava no entorno.

Porém, quando a acessei, minhas preocupações se findaram, pois as flechas amarelas reapareceram em profusão.

Segui ascendendo por uma larga estrada de terra batida e, mais acima, ultrapassei a movimentada rodovia A-1411.


Dia nublado. Aclive em direção à Serra de Caspe.

Um pouco à frente, passei sob um conjunto torres que agregam fios de alta-tensão, depois segui ainda em leve ascenso.


O caminho sobe em meio a arvores raquíticas.

Então, depois de 4 quilômetros caminhados, teve início o aclive da Sierra de Caspe, temida por muitos, mas escalar uma montanha às 12 horas, com sol forte, é um desafio a parte.

Outro, porém, é enfrentar o problema com o frescor da manhã, extremamente hidratado e bem-disposto, como no meu caso.

Assim, segui em forte ascenso, porém, repentinamente começou a garoar e isso me deixou preocupado.

Ocorre que a previsão meteorológica para essa data não predizia tormentas, de forma que, como de costume, deixara a capa de chuva no fundo da mochila.


Tempo nublado.. Promessa de chuvas no horizonte.

E se necessitasse fazer uso da mesma, teria de retirar todos os meus pertences antes de alcançá-la.

Por sorte, logo o chuvisco abrandou, depois cessou, e pude seguir tranquilo.

A serra é pobre de vegetação, por conta de seu piso arenoso e as pouquíssimas árvores que ali subsistem, são mirradíssimas.


O ascenso persiste.

Segui avançando sem pausas e logo cheguei ao topo do morro, que tem a forma de uma meseta.


Visão desde o topo da serra. Tempo escuro e muita nebulosidade no ar.

Dali, apesar do dia nublado, tinha uma vista maravilhosa do entorno, podendo avistar no horizonte a cidade de Maella, com seu castelo fortificado.


Caminho plano e arejado, já no topo da serra.

Depois, prossegui ascendendo levemente, mas logo o caminho se estabilizou e caminhei um bom tempo por terreno plano e arejado.


O sol tardou a sair, pois estava escondido por um bloco de nuvens.

Em determinado ponto, ultrapassei um local onde ocorria o cruzamento de 5 caminhos diferentes e, já alertado para o fato, observei cuidadosamente à sinalização, e prossegui pelo que estava mais a minha esquerda.


Início de perene descenso.

O tempo permanecia fechado, com grandes nuvens escuras, o que me fazia refletir: haveria mais chuva naquele dia?


A descida prossegue...

Então, teve início um agradável descenso, que se prolongou indefinidamente, com plantações variadas à minha esquerda e um grande morro pela direita.


Clima fresco e trajeto agradável.

Até aquele local não encontrara vivalma, apenas ouvia o cantar dos pássaros e o leve sibilar de uma fresca brisa que me atingia frontalmente.


Uma plantação de oliveiras do lado esquerdo. Pedras, do lado direito.

Vivia momentos de intensa introspecção e prazer, pois o domingo se apresentava estupendo para caminhar.


Finalmente, o sol clareou o ambiente.

Finalmente o dia raiou e o sol iluminou a paisagem a minha frente.

Em determinado ponto, passei por um curioso local, pois ali existe uma casa que foi construída dentro de uma grande gruta e sob a proteção da montanha.


Casa construída debaixo da rocha, mas hoje desabitada.

Mas, pelo seu estado de abandono, foi fácil imaginar que ali não reside mais ninguém.

Prosseguindo, o caminho se aplainou e passei a caminhar dentro de imenso vale, onde as culturas foram se alterando.


Caminho plano e colorido.

Primeiramente, vi trigais, depois plantações de pêssegos e oliveiras.


Enorme trigal do lado esquerdo.

Lentamente o caminho foi se aproximando da rodovia, depois seguiu paralelo a ela, a uma distância de uns 300 metros, se tanto.


Eternizando mais um momento mágico...

Sozinho no trecho, encontrei um mourão de concreto para apoiar minha máquina fotográfica, acionei o temporizador e pude documentar mais um momento mágico na trilha.

Mais abaixo, precisei sobrepujar um forte mas curto ascenso e o problema maior foi descender pelo lado oposto.

O local estava extremamente liso e o declive era infernal.


Trilha estreita e lisa, em leve ascendência.

Superado o problema, por uma ponte, eu cruzei o rio Guadalope, depois segui em ascenso por uma rodovia vicinal asfaltada.

Então, mais acima, atravessei para o lado esquerdo da rodovia principal, depois prossegui, ainda em ascenso, por caminhos rurais bem delineados.


Prosseguindo, por caminhos rurais bem delineados.

Lentamente fui me aproximando da zona urbana, mas ainda transitei ao lado de inúmeros barracões de criação de porcos, onde o odor exalado era simplesmente terrificante.


Cruzeiro antiquíssimo, localizado na zona urbana de Caspe.

Prossegui baixando, depois ultrapassei novamente a rodovia e, já do outro lado, passei diante de um cruzeiro jacobeu antiquíssimo.


Monumento aos peregrinos, na entrada da cidade.

Segui em ascenso, transitei ao lado do cemitério municipal, depois prossegui dentro de um polígono industrial e, então, principiei a descender.


A cidade de Caspe, vista do cimo do morro.

E logo avistei Caspe, abaixo, e muito próxima do rio Ebro, do qual em face do traçado do Caminho, eu me apartara há dois dias.

Necessário enfatizar que encontrei uma excelente sinalização nessa etapa, mormente na parte central da cidade.



A famosa Torre de Salamanca.

Antes de adentrar a zona urbana, ainda passei diante da Torre de Salamanca, uma imponente construção do século XIX, situada na parte mais alta da localidade.

Em face de sua posição privilegiada, no topo do morro, dali se avistam territórios das Províncias de Zaragoza, Huesca, Teruel e Tarragona.

Eu segui as flechas amarelas e, já na parte baixa da graciosa urbe, cheguei ao centro histórico e parei para fotografar a Colegiata de Santa Maria La Maior Del Pilar, localizada na Praza del Compromisso.


Igreja matriz de Caspe, século II.

Em seguida, me hospedei na Pensão Don Quijote, onde paguei 20 Euros, por um excelente apartamento.

Ainda não era meio dia, de forma que tive tempo de sobra para lavar roupas, arrumar meus pertences, estudar a complicada etapa sequente, antes de sair almoçar.

Estranhamente, não consegui localizar no centro da cidade restaurantes que ofertassem o clássico “menu del dia” em seu cardápio.


Homenagem a Nossa Senhora do Carmo.

Encontrei apenas bares ou estabelecimentos semelhantes, que somente ofereciam porções ou comida exótica.

Visto que a cidade abriga inúmeros imigrantes, em maior número, aqueles procedentes do Egito e Paquistão.

Dessa forma, eu optei por fazer compras num supermercado e me alimentei com um saboroso “bocadillo”, regado a uma garrafa de vinho tinto.

Em seguida, deitei descansar.


Colegiata de Santa Maria.

Na tradição popular, o nome Caspe provem de antigos povoadores da cidade, originários do mar Cáspio, embora essa etimologia careça de rigor filológico, apesar de sua ampla difusão.

O topônimo Casp aparece documentado em fontes andaluzes como Qsp, Qap ou Qasb, e já foi relacionado com uma palavra árabe Casba.


Uma rua de Caspe, localizada em seu "casco viejo".

A cidade é um dos ícones do Caminho e tem um dos seus atrativos históricos jacobeus mas importante dessa rota.

Posto que a tradição diz que ela é a terra natal de Santo Indalécio, um dos sete varões apostólicos, a quem a Virgem Maria apareceu em carne e osso no ano 40 d.C, em Zaragoza, para entregar ao apóstolo Santiago, o Pilar sobre o qual se levantaria a igreja na Espanha.

Ainda que em mal estado, está sinalizada a casa em que nasceu o santo nessa povoação.


Ainda a Colegiata de Santa Maria, vista de outro ângulo.

Em 1169, Alfonso II “El Casto” (não confundir com o rei asturiano de igual nome e apelido) aportou em Caspe, num castelo, a Coroa Aragonesa, sendo que, posteriormente, esse prédio pertenceu a Ordem Hospitalaria, que o manteve em seu poder até a “Desamortización de Mendizábal”, em 1835.

Na cidade tiveram lugar as intermináveis jornadas, de onde surgiu o conhecido “Compromisso de Caspe”, onde os aragoneses, catalães e valencianos elegeam, em 1412, a Fernando de Antequera, como rei de Aragón, depois de haver falecido sem descendência o rei Martín I.

Mas, a obra mais importante da cidade é a Colegiata de Santa Maria la Mayor del Pila (séc XII-XVI), de estilo gótico, uma edificação que se sobressai na povoação, e que foi fundada pela Ordem Militar do Hospital de Jerusalém.


O complexo que abriga a Colegiata.

Igualmente, nessa cidade se conserva um cálice gótico, de grande valor histórico, conhecido como “del Compromisso”, em alusão a sua utilização durante as celebrações religiosas que tiveram lugar durante o Compromisso de Caspe.

Ela é banhada pelos rios Guadalope e Ebro, estão represados próximo da vila, formando o chamado Mar de Aragón, cujas águas permitem a disseminação de extensos canais de irrigação, utilizados fundamentalmente no cultivo massivo de pêssegos.


Plaza del Compromisso, centro cultural e geográfico da cidade.

Já na parte seca, abundam as plantações de oliveiras e amêndoas.

Sua população atual beira os 10 mil habitantes.

Mais tarde, dei um passeio pela cidade e pude novamente fotografar e conhecer o interior da Colegiata de Santa Maria.


Igreja de São Roque.

Também pude fotografar a igreja de São Roque, situada próximo dali, junto a um grande muro de arrimo.

Depois dei um longo giro pelo centro histórico e, defronte à Praça da Espanha, na sede da Guarda Civil, pude carimbar minha Credencial Peregrina e dialogar cordialmente com o educado policial de plantão.


A sede da Guarda Civil, onde carimbei minha credencial.

Em seguida, segui por um bom tempo os sinais jacobeus, como forma de facilitar meu trânsito por essa famosa urbe na manhã seguinte.

Na sequência, me recolhi pois, como no dia anterior, fazia bastante frio e ventava forte.


Relembrando momento único e solitário na trilha.

Nesse dia, 17 de abril, tive sono atribulado, pois no Brasil estava sendo votado na Câmara dos Deputados, o futuro da Presidenta Dilma, mas como eu estava 5 horas à frente, ainda não sabia do resultado final.

Paciência, tomaria conhecimento do desfecho na madrugada seguinte.

VOLTAR    -     06ª etapa – CASPE à ESCATRÓN – 31 quilômetros