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6ª etapa – CASPE à ESCATRÓN – 31 quilômetros


6ª etapa – CASPE à ESCATRÓN – 31 quilômetros



Pare de esperar as coisas acontecerem. Vá lá e faça com que aconteçam.”


Conforme dissera, eu estava deveras interessado no resultado da votação do “impeachment”, que ocorrera no dia anterior no Brasil.

Assim, ao me levantar às 4 h 30 min, imediatamente busquei notícias pela internet e pude saciar minha latente curiosidade.

Posteriormente, feliz pelo resultado do sufrágio, dei sequência aos preparativos, tendo em vista longa jornada do dia.

Deixei o local de pernoite às 6 h 15 min, seguindo por ruas bem iluminadas e integralmente desertas naquele horário, onde raros veículos circulavam pela cidade.

A temperatura reinante beirava os 8 graus, agradável para caminhar.

Seguindo as instruções que dispunha, segui pela Avenida Chiprana, depois acessei a rodovia que segue na direção da cidade de Alcañiz, porém o guia que portava era uma edição do ano de 2006 e novas obras haviam sido implementadas na saída da cidade, dificultando meu acesso ao roteiro oficial.


A primeira flecha do dia, e que muito animou esse peregrino.

Contudo, trabalhando com meu GPS, logo encontrei o início do Caminho.

Assim, pude relaxar e seguir tranquilo, pois a sinalização nessa etapa também se mostrou estupenda.


O dia começa a nascer à minha retaguarda, vendo-se ainda as luzes acesas da cidade de Caspe.

Mais acima, eu ultrapassei sob a rodovia nacional por um túnel, depois prossegui um bom tempo junto a um canal de irrigação.

Então, a paisagem mudou radicalmente e o caminho se tornou estéril e arenoso, com pouquíssima vegetação no entorno.

Na verdade, subsistem ali inúmeras plantações de oliveiras, árvore que se amolda perfeitamente a esse tipo de solo.


Caminho árido e pleno de sinuosidades.

O caminho torcia e se retorcia, fazendo contornos incríveis, bifurcando-se em alguns locais, mas, por sorte, estava muito bem sinalizado.

A todo momento eu agradecia a mão generosa que pintou as setas nesse roteiro, vez que, sem elas, eu me perderia facilmente.

E, integralmente solitário, eu me concentrava nos sinais pois, a menor vacilação, faria com que eu tomasse rumo diferente do roteiro oficial.

Para clarificar, em determinado local, após atravessar sob a ferrovia, por um túnel, o caminho girou, surpreendentemente, noventa graus à direita, e passei um bom tempo transitando ao lado de barracões industriais e galpões, onde a criação de suínos era a tônica.


Trilha matosa e perigosa.

Depois de 5 quilômetros caminhados, adentrei numa senda matosa, em descenso e em péssimo estado de conservação.


Caminho arejado, situado entre trigais.

Porém, 200 metros adiante, desaguei numa estrada larga, onde segui à direita, no momento em que o sol começava a brilhar, num céu azul e sem nuvens.


Do lado esquerdo, oliveiras. Do lado direito, pés de figo.

Passei algum tempo entre trigais, depois as flechas me obrigaram a atravessar a rodovia e, já do outro lado, o tipo de cultura agrícola mudou radicalmente e passei um bom tempo caminhando com centenas de oliveiras do meu lado esquerdo e pés de figo do lado direito.


Trajeto bucólico e sombreado.

Foi um trajeto sombreado e extremamente agradável, contudo, vencidos 9 quilômetros, voltei ao acostamento da rodovia e, cem metros adiante, cheguei a rotatória que dá acesso a Chiprana.

Uma pequena e simpática cidade, também conhecida como a “Noiva do Rio”, segundo reza um cartaz colocado em seu casco antigo, cuja população atual é de 487 pessoas.


Ao fundo, a cidade de Chiprana.

Sua origem remonta as rotas romanas que discorriam pelo Ebro, como demonstra o próprio nome da localidade, que deriva de Ciprianus.

O caminho deixa a vila ao fundo de uma elevação e não é necessário entrar na povoação, que se dedica fortemente a agricultura, com extensos alagados, onde o principal produto cultivado também é o pêssego.

Em seu entorno se encontram, além do rio Ebro, as lagunas represadas de “Las Saladas”.

Junto áa igreja da Consolação, se pode ver extensos arcos pertencentes a um mausoléu romano. 


O rio Ebro e a cidade de Chiprana, no topo do morro.

Sua igreja matriz tem São João Batista como padroeiro.

Bem, seguindo as flechas amarelas, eu girei à esquerda na rotatória, caminhei uns 200 metros pela rodovia, depois adentrei à direita e prossegui por um caminho acidentado e pedregoso, junto ao rio Ebro.

Esse trecho está muito mal sinalizado, porém, se dúvida houvesse, eu poderia retornar à “carretera”, hipótese que não se concretizou.


Atravessando o açude "Las Saladas", pela rodovia.

Dois quilômetros acidentados depois, por uma ponte, eu atravessei um dos braços do açude “Las Saladas” e, na sequência, prossegui em ascenso, por um quilômetro.


Trecho plano e solitário.

Então, as flechas me encaminharam para a esquerda, onde acessei um largo e pedregoso caminho de terra, localizado entre imensas plantações de trigo.


As torres de alta tensão foram uma constante nesse dia.

Como de praxe nessa etapa, minhas companheiras, também nesse trecho, seriam as enormes torres que abrigavam fios de alta-tensão de eletricidade.

O caminho, plano e retilíneo, poderia se mostrar monótono para algumas pessoas.

Para mim, no entanto, amparado pela farta sinalização, era hora de relaxar e curtir o momento único que eu vivia.


Caminho pedregoso e sem sombras.

O trecho, sem nenhuma dificuldade altimétrica, me proporcionava momentos de intensa introspecção, onde eu exercitava o verbo “encaramujar”, em toda a sua extensão.

Isto posto, deixava minha mente vagar pelo espaço, relembrava fatos pretéritos, agradecia a Deus pelo dom da vida, orava em silêncio.


Leve ascenso e ainda com pedras no piso.

Enquanto isso, minhas pernas trabalhavam num ritmo constante de 5 quilômetros por hora, enquanto eu respirava o ar puro, observava o entorno, fotografava aquilo que entendia interessante.

Momentos deliciosos, difíceis de descrever, pois a distância que me separava da realidade, a rodovia, era de uns 2 quilômetros e nenhum ruído se podia ouvir, a não ser o pipilar distante das aves que cruzavam o céu.


Nesse trecho o Caminho do Ebro coincide com a GR-99.

Na verdade, vi pouquíssimos pássaros nesse tramo, porque não havia árvores no entorno e, muito menos alimento.

Porém, próximo dali, existe um Parque Natural junto a uma lagoa, e aqueles que eu via batendo asa pelo firmamento, seguiam naquela direção.

Embora não houvesse sombras no entorno, o sol não agredia, vez que a temperatura ambiente estava em torno dos 15 graus.

Eu progredia em ritmo constante, feliz e animado.


Solidão e silêncio. Tudo o que eu gosto..

Afinal, estávamos numa segunda-feira, quando todas as pessoas retornavam ao labor.

Ao revés, eu cumpria minha rotina diária de cumplicidade com o meio ambiente, longe do trânsito e do estresse que as grandes metrópoles proporcionam.

Difícil descrever a sensação de liberdade que sentia, mas meu coração pulsava feliz e eu mantinha um perene sorriso no rosto.


Nesse tramo o piso melhorou e meus pés agradeceram.

Depois de um bom tempo, o piso mudou de pedras, para terra socada, e meus pés agradeceram.


Trecho deserto e silencioso.

Nesse trecho, literalmente, em face da ermosidade em que vivia, caminhavam somente Deus e eu, como dizem os mineiros.

Porquanto, não avistei ninguém, nem cruzei ou fui ultrapassado por qualquer tipo de veículo.


Um caminho sem sombras...

A rodovia prosseguia a minha direita, porém, a longa distância, sabia pelos mapas que portava.


Giro em direção à rodovia..

E nem ouvia o som do tráfego que discorria intenso e constante em seu leito.


O caminho, com piso empedrado, prossegue retilíneo e infinito.

No entanto, infelizmente, tudo tem um final e, nem sempre agradável, de forma que, lentamente, fui me acercando dela novamente.


Caminhando ao lado da rodovia.

Quando ali cheguei, depois de caminhar aproximadamente 25 quilômetros desde Caspe, acessei um caminho retilíneo de terra, localizado do lado esquerdo da “carretera”, por onde segui infinitamente.

Só não me agradaram as grandes pedras que encontrei em seu leito, que magoavam sensivelmente o solado de meus pés.


Outro trecho bastante pedregoso, que magoaram a sola dos meus pés.

Assim, para fugir da monotonia, eu passei a observar atentamente o lugar onde pisaria.

Como numa espécie de jogo, eu variava minha caminhada da direita para a esquerda, depois volvia, numa rotina infinita, tudo isso para fugir de seixos pontiagudos.


Pedras no caminho ou caminho das pedras..?

E essa espécie de brincadeira acabou por me distrair, e serviu de combustível para alimentar meu ânimo até quase o final da jornada.

Porquanto, praticamente não vi as horas passarem e nem notei que havia caminhado 4 quilômetros dessa forma.

A cidade de Escatrón já aparece no horizonte.

Quase chegando ao meu destino, eu cruzei a rodovia novamente, passei diante do cemitério municipal e, por uma ponte, ultrapassei o rio Martín, que banha a cidade.


Atrações naturais de Escatrón.

Então, ainda em leve ascenso, atingi a zona urbana e logo cheguei a Pensão Maior, localizada no centro da povoação, onde havia feito reserva.

Ali, por 22 Euros, desfrutei de um apartamento excepcionalmente bem equipado.


Praça principal da cidade, vendo-se ao fundo as escadarias que dão acesso à igreja de Santa Águeda.

Findas as providências costumeiras, fui almoçar no restaurante El Embarcador, onde ingeri um espetacular “menu del dia”, por 9 Euros.

Depois, descansei, pois merecia.


Igreja matriz da cidade.

Escatrón foi conquistada pelos muçulmanos em 1133 e, em 1182, o rei, doou a vila a Ordem de Císter, que havia construído o Monastério de Rueda e que esteve vinculado a ele até o século XIX.

A povoação foi um porto fluvial de importância até o século XIX, e seu nome provém de Scatro, datado da época romana.

Situada junto à desembocadura do rio Martín, existem vestígios em seu município, fruto de escavações arqueológicas, que provaram existir um assentamento nesse local no século III a.C. 


Rua localizada no "casco viejo" da cidade,

Suas lagoas já eram aproveitadas pelos árabes, que construíram açudes e máquinas hidráulicas para regar suas hortas.

Um dos pontos relevantes da povoação é o convento de São Xavier, do qual só restam ruínas. 


A igreja matriz fotografada de outro ângulo.

Em que pese a origem romana, seu desenvolvimento mais importante aconteceu à época do domínio muçulmano, como se comprova pela sinuosidade do traçado de suas ruas estreitas e alguns restos da arte mudéjar.

Em sua parte alta se destaca o Mirador del Tozal, de onde se descortina amplas vistas das terras do vale do Ebro. 


Vista do rio Ebro, desde o Mirante.

Sua igreja matriz, dedicada à Nossa Senhora da Assunção, é um edifício de complexa história construtiva, em estilo barroco, de planta jesuítica, e que conserva em seu anterior 3 capelas renascentistas de um templo anterior, cuja estrutura global é desconhecida.

Sua população atual é de 1160 habitantes, e continua diminuindo.


Vista da cidade, desde o átrio da igreja de Santa Águeda.

À tarde, após o merecido descanso, fui fotografar a igreja matriz da cidade, dedicada a Nossa Senhora de Assunção que, como de costume nesse roteiro, também se encontrava fechada. 


Igreja de Santa Águeda.

Depois, subi escadarias para fotografar a igreja de Santa Águeda, bem como contemplar a cidade de um plano superior. 


Uma das atrações da cidade.

Posteriormente, caminhei até o “Mirador del Tozal”, localizado na parte mais alta do lugarejo, que me permitiu visualizar o rio Ebro em sua passagem pelo município. 


Vista do rio Ebro, desde o Mirador del Tozal. Ao fundo, o Monastério de Rueda.

Dali também podia observar, ao longe, o Monastério de Rueda, uma das joias culturais do Caminho Jacobeu do Ebro.

Fundado no início do século XIII, por monges cistercienses, foi um dos monastérios mais importantes do Reino de Aragón. 


Vista do Monastério de Rueda, desde o Mirador del Tozal.

Na metade do século XIX, com a “desamortización”, caiu em decadência e destruição, que quase não deixou nada em pé.

Ao final do século passado, o governo de Aragón pôs em marcha um investimento milionário e um ambicioso plano de restauração, em boa parte já executado. 


A ponte sobre o rio Ebro, por onde eu seguiria na manhã seguinte.

De seu conjunto monumental, a parte mais interessante é, por sua originalidade, a réplica do sistema hidráulico construído junto ao Ebro, no século XIII, que proporciona abundante água corrente ao monastério, através de uma grande roda, de 16 metros de diâmetro, e um aqueduto gótico.

Trata-se de uma obra de engenharia admirável, de grande beleza plástica, que dá nome ao conjunto monástico. 


O Monastério de Rueda e sua história.

À noite a temperatura caiu bastante e, como de praxe, optei por ingerir frugal lanche no quarto.

E logo fui dormir, pois a jornada sequente seria bastante longa.

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