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EPÍLOGO


EPÍLOGO


"A viagem não termina nunca. Garanto-vos que esta é uma grande verdade." (Pietro Mennea)


Gratidão, Nossa Senhora Aparecida, por todas as graças alcançadas!

AI, QUE PREGUIÇA

Autor: Drauzio Varella (drauziovarella.com.br)


O corpo humano é uma máquina desenhada para o movimento.


É dotado de dobradiças, músculos que formam alavancas capazes de deslocar o esqueleto em qualquer direção, ossos resistentes, ligamentos elásticos que amortecem choques, e sistemas de alta complexidade para mobilizar energia, consumir oxigênio e manter a temperatura interna constante.

Em seis milhões de anos, a seleção natural se encarregou de eliminar os portadores de características genéticas que dificultavam a movimentação necessária para ir atrás de alimentos, construir abrigos e fugir de predadores.

Se o corpo humano fosse projetado para os usos de hoje, para que pernas tão compridas e braços tão longos? Se é só para ir de um assento a outro, elas poderiam ter metade do comprimento. Se os braços servem apenas para alcançar o teclado do computador, para que antebraços? Seríamos anões de membros atrofiados, mas com um traseiro enorme, acolchoado, para nos dar conforto nas cadeiras.

A possibilidade de ganharmos a vida sem andar é aquisição dos últimos cinquenta anos. A disponibilidade de alimentos de qualidade acessíveis a grandes massas populacionais, mais recente ainda. A mesa farta e as comodidades em que viviam os nobres da antiguidade estão ao alcance da classe média, em condições de higiene bem superiores.

Para quem já morou em cavernas, a adaptação a um meio com vacinas, saneamento básico, antibióticos, alimentação rica em nutrientes e tecnologia para fazer chegar a nossas mãos tudo o que necessitamos, foi imediata. Em boa parte dos países a expectativa de vida atingiu 70 anos, privilégio de poucos no tempo de nossos avós.

Os efeitos adversos desse estilo de vida, no entanto, não demoraram para surgir: sedentarismo, obesidade, e seu cortejo nefasto: complicações cardiovasculares, diabetes, câncer, degenerações neurológicas, doenças reumáticas e muitas outras.

Se todos reconhecem que a atividade física faz bem para o organismo, por que ninguém se exercita com regularidade?

Por uma razão simples: descontadas as brincadeiras da infância, fase de aprendizado, nenhum animal desperdiça energia. Só o fazem atrás de alimento, sexo ou para escapar de predadores. Satisfeitas as três necessidades, permanecem em repouso até que uma delas volte a ser premente.

Vá ao zoológico. Você verá uma onça dando um pique para manter a forma? Um chimpanzé – com quem compartilhamos 99% de nossos genes – correndo para perder a barriga?

É tão difícil abandonar a vida sedentária, porque malbaratar energia vai contra a natureza humana. Os planos para andar, correr ou ir à academia naufragam no dia seguinte sob o peso dos seis milhões de anos de evolução, que desaba sobre nossos ombros.

Quando você ouvir alguém dizendo que pula da cama louco de disposição para o exercício, pode ter certeza: é mentira. Essa vontade pode nos visitar num sítio ou na praia com os amigos, na rotina diária jamais.

Digo por experiência própria. Há 20 anos corro maratonas, provas de 42 quilômetros que me obrigam a levantar às cinco e meia para treinar. Tenho tanta confiança na integridade de meu caráter, que fiz um trato comigo mesmo: ao acordar, só posso desistir de correr depois de vestir calção, camiseta e calçar o tênis.

Se me permitir tomar essa decisão deitado na cama, cada manhã terei uma desculpa. Não há limite para as justificativas que a preguiça é capaz inventar nessa hora.

Ao contrário do que os treinadores preconizam, não faço alongamento antes, já saio correndo, única maneira de resistir ao ímpeto de voltar para a cama. O primeiro quilômetro é dominado por um pensamento recorrente: “não há o que justifique um homem passar pelo que estou passando”.

Vencido esse martírio inicial, a corrida se torna suportável. Boa mesmo, só fica quando acaba. Nessa hora, a circulação inundada de endorfinas traz uma sensação de paz celestial, um barato igual ao de drogas que nunca experimentei.

Por isso, caro leitor, se você está à espera da chegada da disposição física para sair da vagabundagem em 2014, tire o cavalo da chuva: ela não virá. Praticar exercícios com regularidade exige disciplina militar, a mesma que você tem na hora de ir para o trabalho.

Ai, que preguiça.

(Publicado em 13/01/2014. Revisado em 10/06/2016)


FINALIZANDO

O melhor da vida é viver..... De mim podem tirar tudo.... mas o que vi e vivi ninguém roubará.


O povo do interior de São Paulo, pessoas que moram nos locais por onde discorre a Rota da Luz, além de extremamente hospitaleiro, encara o caminhante como um ser especial, alguém que está espiando pecados, cumprindo alguma promessa, ou tentando alcançar uma graça. Como fazem os romeiros.

Assim, alguns deles indagaram, com extrema curiosidade, o motivo de minha peregrinação.


Mãe Aparecida, a vossa benção e proteção, sempre!

Foi difícil explicar-lhes que, embora sonhasse chegar à Aparecida com saúde e sob a proteção da Virgem Maria, eu era, acima de tudo, peregrino, ou seja, simplesmente alguém que se movimenta em direção a algum local sagrado, sem pressa ou preocupação.

E que minha motivação principal consistia, primeiramente, num rejuvenescimento espiritual, na tentativa de encontrar respostas para algumas incertezas que habitam meu ser.

Depois, pelo prazer da caminhada em si, que além do benefício físico, favorece a expansão de conhecimentos, através do contato diário com a natureza, os animais, e os habitantes ao longo da Rota.

Todavia, sem penitências, sofrimentos ou privações. 


Meu primeiro Diploma da Rota da Luz.

Dentro de um período de tempo programado, utilizando materiais e equipamentos adequados, remetendo minha mochila por táxi, com escalas adredemente projetadas, em locais de relativo conforto, sem a urgência da chegada.

Muito embora o aporte final seja o coroamento de uma meta, nem sempre é o objetivo mais importante da viagem.

Porque o que atrai, marca, mimetiza, sublima e transcende, na verdade, são as experiências vivenciadas diariamente ao longo do caminho.

E nesse mister, fui privilegiado com amizades e ocorrências enaltecedoras, que me marcaram profundamente.

Finalizando, diria que a Rota da Luz, como todo novel caminho, precisa estar melhor preparada, mormente em termos de hospedagens, como preços mais acessíveis, para albergar com dignidade e respeito os peregrinos e romeiros que, certamente, utilizarão esse via regularmente, para seguir até o Santuário de Aparecida.

Afora esse pormenor, sem dúvida, trilhar a Rota da Luz evidenciou-se, para mim, como uma sinergia de acontecimentos dignificantes e subliminares.


Adeus Aparecida! E, se Deus e Nossa Senhora permitirem, um até breve!

Bom Caminho a todos!

Julho/2017

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